DA IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA MENTE ABERTA

Sir Fred Hoyle foi um brilhante matemático e astrônomo inglês. Durante a primeira metade do século XX ele empreendeu uma verdadeira batalha com os defensores de uma teoria contrária a sua, que afirmava que o universo poderia ter um início. Hoyle, diferente desses, acreditava que a ideia de um universo tendo um começo era absurda e, por isso, postulou uma teoria onde explicava o universo como sendo eterno, sem um começo e sem um fim, onde a matéria era constantemente formada. Essa teoria foi chamada de Teoria do Universo Estacionário.

Fred Hoyle

Fred Hoyle

Na época em que essas teorias eram debatidas não havia meios para se comprovar uma ou outra. Apesar de brilhantes, sem meios para prova-las, ambas eram apenas elaborados exercícios mentais com base em cálculos e conceitos físicos. Brilhantes é verdade, mas ainda assim exercícios mentais. E Hoyle, talentoso propagandista, sabia usar os meios que tinha a mão para tornar sua teoria popular. Ironicamente foi durante uma transmissão de rádio em que rebatia a teoria contrária, que Hoyle (usando um termo depreciativo), acabou por cunhar o nome pelo qual essa teoria viria a ser conhecida: a Teoria do Big Bang.

Os esforços do astrônomo acabaram se revelando em vão quando em 1969 se descobriu a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Em termos simples essa radiação é uma espécie de fóssil de quando o Universo era muito novo, quente e denso. Exatamente como previa a Teoria do Big Bang. O Universo Estacionário de Hoyle acabara de sofrer um golpe fatal!

Os descobridores da radiação cósmica de fundo em micro-ondas: Arno Penzias e Robert Wilson

Os descobridores da radiação cósmica de fundo em micro-ondas: Arno Penzias e Robert Wilson

Mas vocês pensam que Hoyle se convenceu? Além de brilhante, ele também era muito teimoso e jamais aceitou plenamente um universo tendo um começo. Em 1993, aos 78 anos, publicou juntamente com outros dois estudiosos a Teoria do Universo Quase Estacionário, como sendo uma nova visão de sua antiga teoria, tratando de questões adicionais que não tinham sido consideradas antes. Embora seja considerada seriamente por alguns estudiosos, falhas e discrepâncias nessa teoria ainda a tornam bastante impopular.

Alguns podem dizer que Hoyle era um homem obstinado, alguém que se apegava no que acreditava e insistia nisso a despeito dos fatos. É um ponto de vista. Respeito. Mas, sinceramente, não concordo com ele. A meu ver, Hoyle era um homem teimoso, que não conseguiu aceitar a ideia de que uma teoria sua pudesse estar errada. Mesmo com todas as evidências comprovando isso.

Hoje em dia vemos inúmeras pessoas que, assim como o astrônomo inglês, simplesmente não aceitam bem a ideia de estarem erradas. Suas opiniões, conceitos e pontos de vistas são encarados como verdades absolutas, fatos mais que consolidados e comprovados. E ai de quem ousar discordar, mesmo que o faça educada e respeitosamente. Por não concordar é taxado de ingênuo, ignorante, desinformado, alienado (palavrinha essa, inclusive muito usada) dentre outros termos mais fortes, por assim dizer.

A situação piora quando a pessoa é daquelas que se julgam pós-doutoras – ou qualquer outro título equivalente – em algum assunto só por terem assistido um documentário no History Channel ou ainda por terem lido algum livro do Erich Von Daniken. Já tentei dialogar com gente assim. Não dá! Simplesmente não dá! Você utiliza argumentos, lógica, conceitos provados e comprovados e ele acha que um simples “Eu vi num documentário/ Eu li num livro” é suficiente para comprovar que estão certos. Desculpa, mas não é!

É preciso mais do que:

É preciso mais do que:
“Eu li num livro”

Todo mundo tem direito a ter uma opinião sobre qualquer assunto e de expressa-la livremente. É inclusive um direito constitucional. Entretanto, o fato de que podemos ter uma opinião e a liberdade para expressa-la não necessariamente significa que estejamos corretos. Também não nos dá a liberdade de impor nossa opinião aos outros. Lógico que podemos expressa-la, mas nunca menosprezando a opinião alheia. Ao invés disso, por que não respeitar a opinião do outro, procurando manter a mente aberta para novas informações, ideias e perspectivas? Já parou pra pensar por um momento que o outro pode estar certo? Que a sua opinião pode estar errada?

Infelizmente as pessoas parecem estar perdendo a capacidade de se fazer esses questionamentos. Julgam-se as donas da verdade absoluta e que suas opiniões jamais podem estar erradas. E aí discriminam, menosprezam, ofendem, ridicularizam os que pensam diferente, mas quase nunca apresentam argumentos válidos e coerentes que apoiem sua forma de pensar. Não raro partem para a agressão gratuita, quando não conseguem nos impor seu ponto de vista. Situação mais do que comum em muitos blogs abertos aos comentários.

Um tipo bem comum na internet
Imagem gentilmente cedida pela Fernanda Nia Ferreira do blog de tirinhas http://www.comoeurealmente.com/

Essa atitude tão comum hoje em dia, não só na internet, como também no mundo real é extremamente danosa, pois quando julgamos que estamos certos (sem dar uma chance para pensamentos diferentes), acabamos por desperdiçar ótimas chances de aprender e de enriquecer nosso conhecimento com novas informações. Perdemos a chance de evoluir!

Descobrir que nossa opinião, que aquilo no que acreditamos tão fervorosamente, está errado, não transforma ninguém em uma pessoa menor, em alguém menos inteligente. Pelo contrário! Já persistir numa ideia comprovada como errada é no mínimo uma tolice. Se todos agíssemos assim, ainda acreditaríamos num mundo plano sustentado por elefantes ou que é impossível uma máquina mais pesada que o ar voar, além do que boa parte das magníficas descobertas científicas não teriam sequer existido para facilitar nossas vidas.

Antes de encerrar gostaria de deixar claro que não quis com esse texto atacar o cientista Fred Hoyle. Considero-o um grande astrônomo que contribuiu enormemente pra o avanço da ciência. Embora infeliz em sua Teoria do Universo Estacionário, outros estudos desse brilhante astrônomo britânico ajudaram a entender como se dá a formação de elementos pesados, que levaria à famosa constatação de que somos todos nós poeira das estrelas! Sua teoria da Panspermia, que considera a origem da vida como sendo extraterrena, tendo chegado até a Terra através de cometas, embora não comprovada, possui uma considerável aceitação no meio acadêmico.

Hoyle foi um cientista brilhante que assim como muitos outros teve muitos acertos e alguns erros. Igual a qualquer outro ser humano. Como disse o físico estadunidense Robert Alpher, ele “era um homem que tinha muitas ideias, mas nem sempre conseguia distinguir as boas das ruins”. Talvez um pouco mais de bom senso o ajudasse a manter a sua mente aberta para novas perspectivas ajudando a um melhor discernimento sobre suas ideias.

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9 comentários sobre “DA IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA MENTE ABERTA

  1. Acabei de ler um “graphic novel” chamado “logicomix”. Uma espécie de HQ de 300 páginas e sem super heróis. Ainda por cima, o tema é a lógica matemática. A história é sobre a vida do matemático e filósofo Bertrand Russel passando pela primeira e segunda guerras mundiais. Um dos pontos principais é a idéia quando a lógica é baseada numa fundação fraca (como uma casa construída sobre a areia) pode ser muito perigoso. Acho que muitas dessas pessoas constróem suas casas sobre a areia.

    • Ainda não tinha ouvido falar dessa “Graphic Novel”, mas fiquei muito curioso. Adoro quadrinhos e também qualquer assunto que tenha ligação com as Guerras Mundiais. Vou procurar para ler! Valeu pela dica!
      E concordo com a argumentação de que “lógica baseada numa fundação fraca pode ser muito perigosa”. A própria Segunda Guerra Mundial e seus regimes fascistas são um excelente exemplo disso!
      Obrigado pelo comentário!

  2. Pingback: Links de sexta | Meteorópole

  3. Chamo isso de “orgulho”. Às vezes a pessoa tem um ego maior, uma sensação de superioridade (intelectual ou não) que, ao mesmo tempo, deixa de ver o valor real dos outros, de suas opiniões e conhecimentos. Vê-se demais e esquece de admirar o que os outros têm a oferecer.

    • Concordo com você, Tássio! Pessoas assim parece que se deixam cegar por sua inteligência, inflando seu ego a um ponto que passa a cega-la para outros opiniões, outras possibilidades. Como no caso do Fred Hoyle, embora não diminua sua inteligência, acaba por impedi-lo de evoluir em sua forma de pensar, despercebendo aspectos importantes que talvez ele ainda não tivesse percebido ou considerado.
      Obrigado pelo comentário e seja sempre bem vindo!
      Abraço!

  4. Muito bom o post. Parabéns! Eu mesma já sofri porque foi cruelmente julgada por uma pessoa que, embora inteligente, achava que por ler um livro ou outro de péssima qualidade, diga-se de passagem, sabia mais do que aqueles que tinham especialização em certos assuntos. Eu me considero superflexível com relação à opinião das pessoas. Mas tem gente que acha que é porta-voz da verdade no mundo e não arreda o pé. É bizarro.

    Vim pelo Face do Como eu realmente.

    Beijos.

    • Seja bem vinda, Aline! Fico muito feliz de saber que veio do Como eu realmente, uma página que adoro!
      Eu comecei o texto com o exemplo do Fred Hoyle justamente devido a sua inteligência e a teimosia. Igual a ele tem muita gente assim, que, devido a sua inteligência ou por ter um certo conhecimento se acha o dono da verdade e simplesmente não consegue aceitar que outra pessoa possa estar certo e ele não. Vejo muito isso, principalmente no meio virtual. Uma pena.
      Muito obrigado pelo seu comentário e seja sempre bem vinda por aqui!
      Grande abraço!

    • Esse é o ponto, Vero, respeito! Muitos ainda não entendem que para se respeitar não é preciso concordar. São palavrinhas diferentes com conceitos diferentes! Quanto a utopia, acredito que só o esforço em alcança-la já vale muito a pena!
      Seja sempre bem vinda, minha querida!
      Abraços!

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