O QUE NÃO VOU SER QUANDO EU CRESCER

01-Dúvida

Sabe aquela indecisão que praticamente todo adolescente enfrenta na hora de decidir para qual curso prestar vestibular? Sabe? Pois então, eu não sei. Nunca enfrentei essa dificuldade, pois desde muito pequeno eu já sabia o que queria ser quando fosse grande. E eu queria ser jornalista!

Quer dizer, no início eu não queria ser jornalista. O que eu queria mesmo era ser jornaleiro! Sim, jornaleiro! Dono de uma dessas bancas que vendem jornais, revistas, quadrinhos. Esse sim era meu sonho!

Acho que toda criança já passou 02-Bancapor uma fase assim, de querer ser motorista de caminhão do lixo ou do caminhão gás, ser caixa de mercadinho ou cabelereira. Minha amiga-irmã Dani me contou que sonhava em ser frentista de posto de gasolina, pois adorava o cheiro da gasolina. A querida Samantha do Meteorópole revelou que queria ser patinadora numa rede de supermercados e outra querida a Izabela queria ser secretária! Eu queria ser jornaleiro porque queria ler todas as revistas de graça. É uma fase onde o status da profissão não nos interessa e que parece preceder aquela em que optamos pelas carreiras mais glamorosas, por assim dizer. Quando entramos nessa outra fase, onde o status predomina acima do prazer, o desejo já é de ser médico, engenheiro, dentista, advogado…

Não podemos esquecer é claro da fase heroica. Uma fase maravilhosa quando o sonho é virar astronauta, bombeiro, policial ou o Batman! Acredito que em nossa mente inocente de criança, trabalhar é o mesmo que se divertir ou brincar. Assim como as crianças estão sempre brincando, as pessoas grandes precisam trabalhar todos os dias.

Adoro a Mafalda, mas acho que isso não funcionaria com minha mãe

Adoro a Mafalda, mas acho que isso não funcionaria com minha mãe

Infelizmente (pra mim), minha mãe não entendeu isso e achou que eu tinha me confundido: “Não, não! Na verdade você quis dizer jornalista, né filho?” ela me disse. “Não, mãe! Jornalista não! Jornaleiro!” e abri a boca num sorriso tímido.

“Mas, filho, jornaleiros ganham tão pouco. Bom é ser jornalista que ganha bem! E aparece na televisão.” Ela rebateu meu querer com sua lógica infalível de mãe.

Decidi que não era uma boa insistir. Não sei como é hoje em dia, mas na minha época era muito difícil discutir com mães. A lógica delas era sempre perfeita. E, se não fosse, um “Quieto, que eu sei o que é melhor pra você! Sou sua mãe!” resolvia tudo. Simples assim.

Já que vencer a lógica materna era impossível decidi dar uma chance pra esse tal “jornalista”. Quem sabe eu não gostava? Afinal, “jornalista” até que lembra “jornaleiro”, não é? Ao menos o nome é parecido.

Igual a qualquer outra criança eu não gostava de telejornais. Preferia os desenhos e era completamente viciado nos seriados japoneses que faziam a alegria da criançada quando eu era moleque. Ah, ler também! Eu era viciado em leitura. E lia tudo o que aparecia na minha frente, em especial revistas em quadrinhos. Daí minha vontade de ser jornaleiro inicialmente. Por isso que foi bem natural começar minha investigação lendo os jornais que meu pai costumava trazer do trabalho.

Para quem esperava uma chatice sem fim de notícias que em nada me interessavam tive uma surpresa e tanto. Logo percebi que aquelas notícias eram formas diferentes das histórias que eu adorava ler nos livros e nos quadrinhos ou assistir nos filmes e séries da TV. Em especial os textos dos correspondentes de guerra me chamaram a atenção. Estávamos na época no auge da primeira Guerra do Golfo (aquela comandada por Bush pai em 1990) e as televisões de maneira geral se limitavam a mostrar apenas o que tinha ocorrido naquele dia. Para mim aquela guerra não fazia o menor sentido e os telejornais não me ajudavam a entender o porquê dos EUA se meterem num conflito pra lá de Bagdá (literalmente).

A resposta estava lá no jornal com fotos em preto e branco, num texto superbacana que explicava toda a origem do conflito, os interesses dos estadunidenses – na época norte-americanos mesmos – na região, as ambições de Saddam Hussein e até mesmo a antiga aliança dos, então inimigos, contra o Irã na década anterior. Tanta informação e conhecimento me encantaram. E de repente veio o estalo: “Caramba! É ISSO o que eu quero fazer! É isso o que EU quero ser quando crescer!”

arianeferreira

Foi um texto jornalístico como esse que me ajudou a definir o que eu queria ser

E, de imediato, sempre que alguém fazia a famosa pergunta:

– Você já sabe o que vai ser quando crescer?

Minha vontade era declarada em alto e bom som:

– Sei sim! Quero ser JORNALISTA!

E abria a boca num sorriso tímido ante a surpresa do adulto que perguntara.

Mas era só passar a admiração e já viam com o comentário que atormentou minha adolescência:

– Isso é ótimo! Vai aparecer na televisão!

E rapidinho meu sorriso sumia!

Nunca entendi essa fascinação das pessoas por aparecer na televisão. Eu mesmo, nunca tive tal fascínio. Assistia muita coisa na tv, mas não queria estar lá. Tímido ao extremo, só a ideia de estar num aparelho sendo observado por centenas, milhares de pessoas me fazia suar frio. Não, definitivamente eu não queria estar na telinha! E fazia questão de deixar isso bem claro:

– Não quero televisão! Quero escrever! Escrever para um jornal, uma revista, o que seja, desde que possa escrever! Quero ser um jornalista escritor!

Minha paixão pelo jornalismo não nasceu de um sentimento ególatra de me mostrar na tv, mas de um desejo pelo entendimento e da difusão desse entendimento, fosse esse entendimento os perrengues de uma guerra nas Arábias, fosse as causas e consequências da falta de água na vizinhança. Não apenas mostrar. Mas fazer pensar sobre o que era mostrado.

Escrever para um jornal. Por que ninguém entendia que era isso o que eu queria?

À medida que crescia meu desejo de ser jornalista só aumentava. Lógico que, como qualquer outra criança ou adolescente passei pelas outras fases em que queria ser um monte de outra coisa. Mas esse monte de outras coisas nunca tinha o poder de sobrepujar meu sonho primeiro! Eu sempre queria ser a outra coisa e jornalista, claro! Se houve época em que queria ser escritor, era ser escritor-jornalista, se era policial, seria policial-jornalista, se queria ser professor, era professor de jornalismo e assim por diante. Curiosamente na fase heroica das escolhas profissionais jamais quis ser o Superman…

No fim das contas acabei não me formando em jornalismo. Até prestei um vestibular para o curso, mas infelizmente os anos de escola pública cobraram um preço alto na prova de língua estrangeira. Embora tivesse me saído bem nas demais disciplinas, zerei uma das provas de língua estrangeira, o que era suficiente para me eliminar do processo. Não passei e fiquei meio desanimado com a possibilidade de não conseguir realizar o sonho de criança. Quando, um ano depois, estava para me inscrever em novo concurso vestibular, estava para marcar a opção “Jornalismo”, quando decidi chutar o balde e marquei “Geografia Licenciatura”. Foi uma das melhores coisas que fiz na minha vida! Por uma dessas curiosas ironias tudo aquilo que eu esperava encontrar no jornalismo, acabei encontrando com sobras na Geografia. Mas isso já é assunto para um outro post.

O mais legal dessa história toda é que foi minha mãe, aquela mesma que me “ajudou” a decidir pelo jornalismo, a primeira pessoa a me apoiar ao saber de minha decisão por não seguir – ao menos temporariamente – o sonho de criança. E esse apoio se estendeu por todo o longo período de minha graduação até o dia em que, orgulhosa, me acompanhou para recebermos, juntos, meu diploma.

Começo a achar que eu deveria ter insistido mais no meu querer contra a lógica materna.

Minha mãe feliz com o filho Geógrafo

Minha mãe feliz com o filho Geógrafo (Acervo pessoal do autor)

E vocês? Também queriam ser jornaleiros, patinadoras, secretárias ou frentistas de posto de gasolina? O que vocês queriam ser? Deixem seus comentários!

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13 comentários sobre “O QUE NÃO VOU SER QUANDO EU CRESCER

  1. Além do clássico astronauta kkkk, queria ser arqueólogo, astrônomo, meteorologista (fiquei fascinado depois de ler numa enciclopédia sobre a profissão), adorava ver aqueles cientistas trabalhando na Antártida, lugares extremos e tal. Também admirava e admiro a profissão de repórter investigativo.

  2. Pingback: 29 DE MAIO, DIA DO GEÓGRAFO | habeas mentem

  3. Pingback: RÉQUIEM PARA MARIA HELENA | habeas mentem

  4. Pingback: Guestpost: Por que Geografia?, de Humberto Júnior (Beto) | Meteorópole

  5. belíssimo, puro e forte…como tudo que você escreve meu querido…..acho que meu sonho hoje é ser escritora e viver disso…mas ainda estou longe deste então fico onde me sinto bem em sala de aula ensinando a outros o prazer das letras….
    ABraço!

    • Desse jeito vou ficar acanhado! Obrigado pelos elogios, Vero!!! Ensinar e escrever são duas paixões para mim. De uma estou afastado (espero que temporariamente) e da outra estou reencontrando o caminho.
      Abraços, minha querida!

  6. Pingback: Links de Quinta | Meteorópole

  7. Adorei seu texto! Lembrei tb de uma amiga que sonhava em ser caixa de supermercado quando ela tinha uns 8 anos.
    Com o passar dos anos e conforme fui apreciando escrever, também desenvolvi uma vontade de fazer jornalismo. Esse sonho ainda não morreu. Quem sabe daqui uns anos :)

    • Obrigado, Samantha!!!
      Esse foi um texto divertido de se escrever porque acabei descobrindo coisas bem legais sobre o que muitos amigos sonhavam em ser quando criança. E quem sabe no futuro não podemos ser colegas de uma turma de jornalismo? :D

    • Até cheguei a solicitar reingresso como portador de diploma em Jornalismo, mas fiquei de fora por cinco décimos :D Então decidi tocar a vida. Ainda penso no jornalismo com carinho, mas não para agora. Quem sabe no futuro?! ;)

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