LUPITA NYONGO’O E OS PADRÕES DE BELEZA

23lupitapeople998ev1A revista People recentemente elegeu a atriz Lupita Nyong’o como a mulher mais bonita do mundo em 2014. Não tenho nenhuma simpatia pela assim chamada indústria da moda e beleza e nem tenho o costume de acompanhar as novidades ligadas a ela. Por isso mesmo esta seria uma notícia que me passaria totalmente despercebida se não fossem dois detalhes que me chamaram (e muito) a atenção: 1º Lupita Nyongo’o é negra e 2º Os comentários veladamente racistas que se seguiram postados nos sites e portais que noticiaram a escolha.

Quero deixar claro uma coisa: não dou a mínima para essas eleições, escolhas e afins de mulheres mais lindas, mais sensuais, mais isso ou mais aquilo. Acho ridículas tais eleições que só servem para transformar o corpo da mulher numa mercadoria consumível e reforçar a imposição de um conceito ou padrão de beleza irreal
para a maioria das mulheres. Explicado isso, voltemos à Lupita.7d9290cfb8be1534_Lupita.xxxlarge_2x

Para quem não a conhece, Lupita Nyongo’o é uma atriz de 30 anos, mexicana de nascimento, mas criada no Quênia. Ela estreou no cinema com o filme “12 Anos de Escravidão” (“12 Years a Slave” no original, baseadono livro de Solomon Northup, o personagem central da trama), filme pelo qual foi premiada com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante na cerimônia desse ano. É essa moça bonita aí na foto ao lado.

Achei muito interessante a revista People ter escolhido Lupita como a mais bonita do mundo em 2014, não apenas pelo fato de ser negra, mas principalmente por fugir de outros padrões impostos pela ditadura da beleza. Quando paramos para analisar vemos que essa indústria/ditadura impõe um tipo bem específico de beleza a qual considera como sendo a ideal. E esse tipo é o de uma mulher branca, de cabelos lisos (preferencialmente em tons claros), olhos azuis ou verdes, altura entre 1,60m e 1,75m, nariz fino, boca carnuda, jovem e magra. Especialmente jovem e magra, aliás.

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Jeri Ryan, talentosa atriz da série de tv Jornada nas Estrelas Voyager e exemplo de mulher ideal pelos padrões da ditadura da beleza

Se você duvida do que eu digo, faça o seguinte teste: abra a página do Google em imagens e digite os termos “beleza” ou “beleza feminina”. Agora, que tal contar quantas imagens de mulheres apareceram e que preenchem praticamente todos os requisitos acima listados? Quantas mulheres negras, ou gordas, ou que já não tem mais vinte e poucos aninhos você encontrou lá?

“E daí?”, você pergunta. Daí que a mulher que não se enquadra nessa listinha de padrões acaba não sendo considerada bonita. No máximo, são enquadradas como “bonita-mas” ou uma “bonita-pena-que”. Com certeza você já ouviu expressões do tipo “Ela é bonita, mas o nariz é de panela.”; “Moça linda, mas devia alisar esse pixaim.”; “Pra uma negra, até que ela é bonita”; “Fulana é bonita, pena que é gordinha!” e tantas outras versões repetidas a exaustão. Nos diversos sites que noticiaram a escolha da People, era muito comum esse tipo de argumento: “Olha, não sou racista coisa e tal, ela é uma mulher bonita, mas nunca seria a mais bonita do mundo, não com esse cabelo/nariz/boca…” Num primeiro momento até parece que se está apenas contestando o fato da Lupita ser a mais bonita do mundo, mas olhando direitinho dá pra perceber que a contestação é de fato ela não se enquadrar totalmente na lista da mulher bonita. Seu nariz, sua boca, seu cabelo, sua cor não se enquadram. A mulher precisa estar inteiramente naquele padrão para ser considerada de fato bonita.

Obviamente que ninguém apontou explicitamente a sua cor negra como um fator para ela não merecer o posto, mas nem precisava. Ao começarem a argumentar fazendo questão de deixar bem claro que não são racistas, já implicitamente se falou de sua cor. O fato de Lupita ser negra incomodou, mas se falarem isso serão considerados racistas e ninguém quer que se pense isso, muito embora, em especial no Brasil, muitos sejam extremamente racistas, apesar de seu discurso oficial. De fato, já é quase um cliché iniciar um insulto a uma pessoa negra, seja homem ou mulher, esclarecendo que não é uma pessoa racista, para logo depois ensaiar um arremedo de elogio. “Olha, não pensem que sou racista, mas ela até que é uma neguinha simpática.” Esse é um exemplo clássico.

Além de pessoal beleza é algo construído cultural e historicamente. Não pode e nem deve ser algo imposto.

Além de pessoal, beleza é algo construído cultural e historicamente. Não pode e nem deve ser algo imposto.
(Da esquerda para direita: foto do acervo pessoal de Inês Almeida; a atriz Danai Gurira; Mulher Indígena em  foto de Rayssa Coe; acervo pessoal de Dani Oliveira)

A indústria da beleza não apenas vende: ela impõe esse padrão. E não é difícil perceber que, principalmente num país como o Brasil, onde a miscigenação se deu principalmente entre grupos étnicos (as ditas “raças”) com tons de peles escuros – índios e africanos – tal padrão é extremamente inviável de se alcançar, além de ser muito cruel. Vamos pensar um pouco: a menina nasce negra, com cabelos crespos e naturalmente a ser mais gordinha que suas coleguinhas de escola. Sua pele negra lhe garante um fator de proteção para a saúde da pele, visto que a melanina ajuda a combater os efeitos nocivos da radiação solar (embora, obviamente, isso não a torne imune a doença e muito menos ao racismo), seu cabelo crespo é bem cuidado e não a incomoda em nada e os exames médicos constatam que o fato de ser mais cheinha não prejudica em nada sua saúde que está em ótimo estado. Mesmo assim as propagandas nas revistas e na televisão, as pessoas nas ruas, seus coleguinhas e alguns professores, passam o dia, dizendo que ela é uma morena (?!) lindinha, mas que precisa amarrar o cabelo (prender a juba) e fazer dieta pra emagrecer. E o que acontece com a menina? Passa parte de sua infância se achando feia porque todos os que ama e respeita dizem que ela não está nos padrParisian Style 2ões.

Beleza é algo muito pessoal. Ela está mais nos olhos de quem vê do que num determinado padrão seguido por A ou B. É também algo cultural e histórico. Diferentes culturas, em diferentes momentos da história, costumam encarar a beleza de maneiras diferentes. Significa dizer que uma cultura está certa e outra errada ou que o belo hoje é melhor que o belo de ontem? Não! Significa apenas que são culturas diferentes em momentos históricos diferentes. Uma não tem quer ser necessariamente melhor ou pior que a outra. Da mesma maneira cada um de nós temos nossos gostos pessoais no que se refere a beleza. Temos nossos próprios padrões do que achamos ser belo (padrões esses muitas vezes impostos por uma cultura racista, machista e homofóbica).

O problema começa quando esquecemos que tais padrões são pessoais e não universais. É nosso gosto particular. E o problema só aumenta quando queremos impor nosso padrão de beleza aos outros. E vira um monstro quando ele é imposto por um conjunto de mídias, indústrias e pessoas que querem lucrar impondo o padrão acima listado. E isso é perverso porque diz que, se você não é branca, de longas madeixas loiras, olhos claros, magra e jovem você é não é adequada para viver neste mundo. E, sendo assim, deve se sacrificar para ser branca, de longas madeixas loiras, olhos claros, magra e jovem, pois isso sim é bonito. Basta ver quantas negras são esbranquiçadas nas capas de revistas.

Obviamente não quero aqui dizer que tal padrão imposto esteja errado. Apenas procuro refletir sobre o porquê desse padrão tipicamente caucasiano ser o padrão dourado da beleza. Acredito que a beleza feminina tem várias faces, várias cores, formas etc. Podem ser loiras ou negras ou índias, gordas, magras, altas e baixas. Acredito na vibrante diversidade dessa beleza e não na tediosa e monocromática imposição do branca-loira-alta-magra.

Exemplo de uma campanha que não quis seguir os padrões. Pena que seja uma exceção.

Exemplo de uma campanha que não quis seguir os padrões. Pena que seja uma exceção.

Abaixo coloquei alguns links de textos bacanas sobre o tema. São ótimas fontes de informação para a reflexão que, espero, sejam de ajuda para que não se esgote o debate. E valem o clique.

“Mulheres” São Brancas, “Mulheres Negras” São Negras do Blogueiras Feministas;

Stuart Hall, a Mulher Mais Bonita do Mundo e Um Olhar Sobre o Racismo e

O Significado Político de Uma Boneca Negra do Blogueiras Negras;

The Golden Globes’ Race Problem: Why Awards Shows Matter do Salon (pra quem tá com o inglês em dia);

O Tinder Sueco e o Racismo Brasileiro do A Maior Digressão do Mundo da querida Gizelli Souza;

Esteticamente Incorreta da genial Aline Valek

Gostaria de agradecer a minha querida amiga-irmã Dani Oliveira pelos debates maravilhosos que tivemos sobre esse tema e que ajudaram a dar forma e vida ao texto (muitas frases e sentenças saíram desses debates diretamente pra cá). Agradeço também a simpática Inês Almeida que gentilmente permitiu o uso de sua foto. E, finalmente, agradeço a já mais que querida Lady Sybylla pelas dicas, sugestões e correções. Um grande abraço nas três!

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2 comentários sobre “LUPITA NYONGO’O E OS PADRÕES DE BELEZA

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