BLOGAGEM COLETIVA: LIVROS QUE INSPIRARAM SUA INFÂNCIA

Depois de ter sido convidado pela Samantha para escrever uma guestpost sobre por que escolhi a Geografia, dessa vez fui convidado pela minha querida amiga Lady Sybylla a participar dessa Blogagem Coletiva falando sobre os livros que inspiraram minha infância.

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Para mim é relativamente fácil apontar tais livros. Afinal, muito do meu gosto pela literatura se deu através da leitura dos livros da coleção do Sítio do Pica-Pau Amarelo, do Monteiro Lobato. Ainda antes de ter aprendido a ler, as coloridas capas da coleção que minha mãe tinha já chamavam minha atenção do alto da estante de nossa sala. Essa era uma coleção de luxo contendo todos os 23 livros do Sítio divididos em oito volumes, todos de capa dura e ricamente ilustrados. As vezes minha mãe me deixava ver os livros e então era hora de me encantar com as lindas gravuras de Manoel Victor Filho. Quando finalmente aprendi a ler, lá pelos meus sete anos, era a hora de descobrir aquele fantástico mundo encantado do Sítio.

A Linda Coleção de 8 Volumes do Sítio que minha mãe tinha lá em casa. Essa imagem foi tirada da internet, mas é incrível que os estado seja similar ao que deixei os livros depois de uma infância de leitura.

A Linda Coleção de 8 Volumes do Sítio que minha mãe tinha lá em casa

Igual a inúmeros outras crianças brasileiras, passei boa parte de minha infância na companhia de Pedrinho, Narizinho, Emília, Dona Benta, Tia Nastácia. Momentos onde a leitura se mesclava ao gosto pelo conhecimento à medida que ia aprendendo sobre astronomia, mitologia, história, geografia e demais ciências. Os livros do Sítio do Picapau Amarelo não foram somente minhas primeiras leituras, mas também as primeiras a me inspirarem.

Pedrinho e o Saci

Pedrinho e o Saci num acalorado debate sobre a civilidade dos seres humanos. Ilustração de Manoel Victor Filho.

Ainda hoje tenho um carinho enorme por essa coleção e volta e meia estou relendo algum trecho, quando não todo o livro.  Todos os livros são excelentes fontes de informação e entretenimento mais que recomendadas para as crianças, porém alguns foram especialmente marcantes para mim.

“O Saci” é de todos o livro que mais me encanta. Primeiro porque o li todo em apenas uma tarde, algo que me deixou extasiado. Segundo porque era o tipo de aventura que eu mesmo adoraria ter vivido: capturar um saci e com ele viver uma noite de aventuras e experiências fascinantes na mata fechada, descobrindo e aprendendo todo um mundo novo e fascinante. Terceiro porque foi nesse livro que tive minhas primeiras aulas de filosofia e sociologia, através de um saci que ousava pôr em dúvida a inteira sociedade humana cheia de egoísmo e pensamentos belicosos. Foi com esse livro que, muito mais que o gosto pela leitura, aprendi o gosto pelo pensar no porquê das coisas!

“Viagem ao Céu” é outra aventura deliciosa. O pessoal do Sítio depois de algumas aulas de astronomia resolvem visitar e ver pessoalmente tudo quanto tinham aprendido. Uma verdadeira visita técnica pelo Sistema Solar. O livro inteiro é uma deliciosa aventura envolvendo ciência pura (ciência dos anos 30, quando o livro foi escrito e publicado) com pitadas generosas e imaginação e fantasia. Encontramos na Lua São Jorge (que depois de séculos de luta com o Dragão acaba por desenvolver uma relação de camaradagem com o bicho), muitos perigos ao encontrar uma civilização marciana invisível, passeios de deslizar pelos anéis de Saturno e até mesmo o encontro com um Saturnino simpático que resolvera dar as boas-vindas aos visitantes inesperados. Houve tempo até para encontra um anjinho de asa quebrada na Via Láctea! Em resumo: um show de imaginação que me encantava, mas que também instruía. Foi nesse livro que aprendi o nome dos (então) nove planetas do Sistema Solar e de vários de seus satélites naturais, bem como a história de ilustres astrônomos como Giordano Bruno e Galileu Galilei.

Um fato curioso dessa obra é que em plena década de 30 Monteiro Lobato meio que adivinhou que existia um pouco de água na Lua no fundo de crateras, quando num diálogo São Jorge faz a revelação à turminha do Sítio. Pois os cientistas descobriram gelo no fundo de algumas crateras mais de 70 anos depois disso ter sido escrito!

“A Chave do Tamanho” divide com “O Saci” o posto de meu livro preferido de toda coleção. A história se passa no auge da Segunda Guerra Mundial, quando Emília decide que tem que dar um jeito de acabar com aquela guerra sem sentido. Assim ela viaja usando o pó de pirlimpimpim até a distante e misteriosa Casa das Chaves, um lugar onde supostamente existiam as chaves que regulavam tudo no mundo. Um tipo de central de controle como aquelas de energia. Pela lógica emiliana, deveria existir uma chave que regulava a guerra e que essa tinha sido ligada por alguém. Cabia então a própria Emília desliga-la. Mas como as chaves não possuíam identificação de nenhum tipo, a chave desligada foi a do Tamanho o que leva a uma instantânea miniaturização de toda a humanidade. A partir daí o livro narra as aventuras de Emília retornando ao Sítio e verificando que a miniaturização trouxe profundas modificações no modo de viver da humanidade. Se por um lado a guerra acabara pela impossibilidade das tropas inimigas poderem manejar suas modernas máquinas de matar, por outro milhares de pessoas morreram frente a novos e letais inimigos: ratos, aranhas, baratas, passarinhos que vinham na humanidade “apequenenada” uma nova e suculenta fonte de alimentação.

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O Pôr-do-Sol de Trombeta. Ilustração de Manoel Victor Filho.

Esse livro de Lobato sempre me encantou pelos profundos questionamentos que ele lança sobre a suposta superioridade intelectual do ser humano enquanto espécie dominante do planeta. Assim como no O Saci, aqui a humanidade é retratada como uma espécie capaz de prodígios incríveis como a invenção do avião, ao mesmo tempo em que pega esses incríveis prodígios para usá-los para matar pessoas. É também um modo sútil do autor pôr nas crianças suas esperanças na humanidade. Lobato deixa claro que a humanidade grande (os adultos) são capazes de monstruosidades como a guerra, enquanto a humanidade pequena (as crianças) tem outras preocupações menos mortíferas.

“A Chave do Tamanho” é um livro riquíssimo cheio de questionamentos e reflexões sobre guerra, morte, sociedade humana e muito mais. Tudo isso sem ser chato ou enfadonho. Muito pelo contrário, é um livro de leitura fácil, agradável e prazerosa. Apesar de maior que “O Saci”, eu sempre o lia em poucas horas. É o livro de Lobato que mais fortemente indico a qualquer um. Como curiosidade, é desse livro uma das ideias mais lindas de Lobato: a ideia do Pôr-do-Sol de Trombeta que você pode conferir aqui.

Monteiro Lobato tinha um jeito especial de escrever para as crianças. Ao encarar as crianças como seres inteligentes, Lobato conseguia algo raro mesmo hoje. Ele era capaz de dialogar com a criança, interagir com ela. Não os tratava como seres inferiores, mas como pessoas que ainda não tinham adquirido a carga de conhecimento e experiência dos adultos.

O QUE PERCEBI COM A BLOGAGEM COLETIVA:

Quando aprendi a ler criei um verdadeiro vício pela leitura. Eu lia de tudo. Mas nessa fase foram realmente os livros do Sítio que mais me marcaram. Foi com eles que aprendi a ter gosto pelo aprendizado em si, pela sede de saber as coisas, assim como pela leitura obviamente. Muitos outros livros viriam a me marcar depois, mas foram esses os quais guardo com carinho dessa época. E, embora já gostasse de quadrinhos, tenho comigo a vívida impressão que os belos desenhos que ilustravam a obra ajudou e muito a aumentar o meu gosto pela assim chamada nona arte.

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9 comentários sobre “BLOGAGEM COLETIVA: LIVROS QUE INSPIRARAM SUA INFÂNCIA

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  3. Pingback: Livros que marcaram a infância | Marta Preuss

  4. Monteiro Lobato era jornalista, editor e livreiro. Devia ler muito e ser bastante curioso, além de ser nacionalista e ferrenho defensor do Brasil e seus costumes. Escrever para crianças foi a forma que ele encontrou para “politizá-las” – Fazê-las pensar sobre a pobreza, as dificuldades no campo e lutar contra o inconformismo que sentia por conta do desenraizamento cultural e invasão da cultura americana. Seu personagem Mr. Slang foi inspirado em Henry Ford… :D Depois que escreveu sobre o “Escândalo do Petróleo”, movimentos sociais e partidos de esquerda lançaram a campanha “O Petróleo é nosso” inspirados nele, o que permitiu criar o “Monopólio Petrobrás”.
    Não sei se existe uma biografia do Monteiro Lobato, pois ela seria muito digna, afinal, pelo Brasil ele até foi preso.
    A sua crônica foi tão empolgante que também me empolguei! :D E eu me pergunto, qual a criança que não leu Monteiro Lobato e porque isso aconteceu? Talvez a resposta esteja intimamente ligada à situação educacional do pais ontem e sempre!

    • Considero Monteiro Lobato meu primeiro Mestre. Com seus livros aprendi a gostar de História, Mitologia, Astronomia, tive noções de Física, Química e Geologia. Na Aritmética da Emília aprendi a fazer contas de divisão com dois ou mais números no divisor, isso quando professor nenhum conseguira fazer o mesmo. Ele não apenas criou em mim o gosto pela leitura, mas o gosto por inúmeras ciências, o gosto pelo aprender. Como eu disse no texto seus livros me ensinaram o gosto pelo aprender.
      De fato a biografia de Lobato é repleta de situações incríveis. Obviamente é fato (como foi bem lembrado pela Sybylla) que nem tudo em seu discurso é correto. Para mim ele foi em muitos aspectos como Sir Fred Hoyle, um homem muito inteligente, cheio de muitas ideias, mas que nem sempre sabia discernir as certas das erradas.
      Muito obrigado pelo comentário e pela visita, Luma Rosa. Seja sempre bem vinda! Abraços!

    • Realmente essa capacidade é algo fascinante! ;) Um dos livros mais fascinantes de Lobato nesse sentido é o Poço do Visconde, onde o pessoal do Sítio após ter umas aulas de Geologia com o Visconde de Sabugosa, decidem que já é hora do Brasil descobrir petróleo e tratam de cavar um poço no Sítio. Em dada parte do livro, após o petróleo ter sido descoberto, Lobato se põe a narrar os locais no Brasil que seguiram o exemplo da turminha e também encontraram petróleo. É impressionante a leitura pois de fato parece que tais fatos já tinham ocorrido (fatos que só ocorreriam muitos anos depois da escrita e publicação do livro). Nesse caso em específico uma mostra dos conhecimentos científicos em particular de Geologia.
      Valeu pela visita, Ben! Que a Força esteja com você!

  5. Interessante como Monteiro Lobato, que mesmo com os defeitos do discurso dele, incentivou toda uma geração a ler e viver aventuras. Acho que ele e Coleção Vaga-Lume foram verdadeiros impulsionadores da leitura na garotada.

    Você falou do Saci e eu não pude deixar de lembrar que alguns dos quadrinhos do Chico Bento que eu mais gostava contava as aventuras dele no bosque onde ele volta e meia se deparava com os sacis e de como quase se lascou várias vezes pelas traquinagens deles. Lembro bem de como eles tentavam pegar um saci: uma peneira e uma garrafa… rs :D

    Muito feliz de ver um pouquinho da sua infância e de compartilhar com a gente, Beto!

    BEJAS! <3

    • Hoje se fala muito dos aspectos racistas de Monteiro Lobato e se esquece da contribuição dada por ele na literatura, política e mesmo o mercado editorial brasileiro. Obviamente não podemos e nem devemos tentar justificar tais aspectos pelo que ele fez de positivo pois tal coisa seria tolice. Mas chegar a proibir os livros do Sítio por tais aspectos seria uma tolice ainda maior. Mais do que julgar, por que não procurar se debater tal discurso? Tentar pensar sobre, ajudando a mostrar para nossas crianças que tal pensamento não se cabia e não se cabe. Por outro lado, a obra do Sítio possui algumas passagens extremamente elogiosas aos negros, em particular uma obra sua chamada Geografia de Dona Benta, onde se expõe de maneira muito clara o crime cometido pelas ditas culturas civilizadas europeias contra o Continente Africano, destacando essa atrocidade como a principal causa da suposta maldição desse continente.
      Eu falei no texto apenas dos livros de Lobato porque na fase que considero infância, foram esses os que mais me marcaram, mas na pré-adolescência e adolescência, os livros da Série Vaga-Lume me marcaram profundamente também! Isso sem falar dos Quadrinhos, que amo desde antes de aprender a ler de fato. Mas se fosse falar sobre eles também o texto ficaria enorme. De qualquer maneira já estava em meus planos uma blogagem sobre a Série Vaga-lume e outra sobre os Quadrinhos.
      Minha querida Sybylla, sou eu quem agradeço pelo convite de compartilhar um pouco dessa experiência maravilhosa que é revisitar parte de minha infância através de minhas leituras. Beijão!!!!

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