CAPITÃES DA FROTA ESTELAR: JAMES T. KIRK

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Embora os criadores e redatores tenham imaginado todos os capitães das séries Jornada nas Estrelas como heróis intergalácticos impressionantes, maiores que a vida, é interessante notar como seus momentos mais marcantes e lembrados não são aqueles em que salvam a galáxia, o universo (ou universos) depois de batalhas intensas com muitos torpedos fotônicos e tiros de phasers. Bem ao contrário: os melhores momentos de todos os capitães da franquia são exatamente aqueles em que eles são desprovidos de sua aura quase divina de superioridade são jogados nas condições mais humanas e comuns possíveis, para assim crescerem enquanto personagens e ícones.

É curioso que os comandantes de suas naves e estações espaciais, encarnações máximas do herói sempre tenham seu momento de maior enlevação quando são rebaixados a impotência comum de qualquer ser humano. Mais curioso ainda é notar que seus primeiros oficiais invariavelmente tem seu momento de glória em batalhas e/ou quando são obrigados a substituir seus superiores imediatos tendo que lidar com a responsabilidade de manterem a aura mítica destes, forçando a si mesmos a serem maiores que a vida. Ou pelo menos tentando aparentar.

Obviamente tivemos grandes momentos de cada capitão em batalhas encarniçadas seja pela capacidade de resistir, seja pela maneira brilhante – quando não genial – com que se livram das encrencas semanais. Blefes, manobras inesperadas, táticas ousadas, soluções difíceis de serem tomadas, porém necessárias. Vimos tudo isso e muito mais.

James Tiberius Kirk

James Tiberius Kirk

O mais lendário dos capitães, um certo James Tiberius Kirk, comandante da U.S.S. Enterprise, fez sua fama derrotando o igualmente lendário Khan Noonien Singh por duas vezes, lutando corpo a corpo com um Gorn (e vencendo), lutando com klingons e romulanos, salvando a Galáxia e por tabela a Terra um caminhão de vezes. No entanto os grandes momentos, aqueles lembrados com um carinho todo especial por todo e qualquer fã de Jornada, foram bem diferentes de tudo isso.

Em “Cidade à Beira da Eternidade”, clássico maior não apenas da Série Clássica, como de toda a franquia, temos um episódio que fala à alma. Preso num dilema de difícil solução, Kirk é despido de todo seu poderio ao ser obrigado a ver a mulher que ama morrer para que todo o futuro e bilhões de vidas sejam salvas da inexistência.

Lindo cartaz retrô do episódio

Lindo cartaz retrô do episódio “Cidade a Beira da Eternidade” de Juan Ortiz

Edith Keeler, uma mulher sobre inúmeros aspectos muito a frente de seu tempo, deve morrer. Por ironia do destino sua morte é o ponto focal na linha do tempo permitindo o futuro que, muito mais do que apenas sonha, trabalha para se concretizar, possa vir a existência porém pelo preço de sua vida. Kirk sabe disso e reluta em aceitar. Apesar de saber que seu próprio futuro – o futuro quase idílico que a humanidade alcança em seu tempo – jamais exista se permitir que Keeler viva, nosso capitão hesita e considera seriamente mantê-la viva, apesar do preço. Kirk não pensa mais na humanidade e no seu dever como Capitão da Frota Estelar. Pensa apenas na mulher que ama, e a despeito de tudo só pensa em salva-la. É um pensamento egoísta sim, mas inerentemente humano. Kirk não é mais um semideus, a todos comandando da cadeira na ponte de comando da Enterprise. É agora um ser humano comum egoisticamente pensando nele mesmo.

Finalmente Edith Keeler cumpre seu destino e morre atropelada por um automóvel ante um Kirk que não ousa olhar, mais que isso, não quer olhar para trás. Perceba que Kirk ao deparar-se com o inevitável, impede McCoy de salva-la, abraçando o amigo ao mesmo tempo em que esse o questiona: “Você sabe o que você acabou de fazer?” É Spock, o grande amigo e a outra vértice do Grande Trio, quem responde: “Ele sabe, doutor. Ele, sabe.” Temos Kirk como nunca o vimos ou veríamos novamente na série clássica: frágil, impotente, tragicamente humano.

Captain-Kirk-james-t-kirk-8476028-1200-1750Essa humanização de Kirk só voltaria a ocorrer nos cinemas, mais especificamente em “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan”. Nesse memorável filme, encontramos Kirk abalado com a proximidade de seu 50º aniversário. Ele se sente velho, acabado. O fato de um homem a quem ele não vê há 15 anos estar lá fora querendo o matar e encontrar seu filho, que provavelmente ficaria muito feliz em ajuda-lo, não torna a situação melhor. E para piorar tudo, Kirk é obrigado novamente a assistir impotente a morte de alguém a quem ama. Seu amigo Spock se sacrifica para salvar a Enterprise. Kirk, apesar de toda sua lendária capacidade para o comando, não é capaz de salvar sua nave sem sacrificar a vida de seu melhor amigo.

É famoso no cânone de Jornada o fato de Kirk ter sido o único cadete a vencer o desafio de não vencer, o Kobayashi Maru. Nesse mesmo filme nos é informado que, para vencer o desafio, o intrépido capitão trapaceou reprogramando o computador para que o desafio – antes invencível – pudesse agora ser facilmente vencido. E, orgulhoso do seu feito Kirk deu “uns tapinhas nas costas pela engenhosidade”. Mas agora ele se sente uma fraude por nunca ter de fato encarado a morte, uma relíquia, apenas uma sombra de quem foi. Fragilizado, vemos novamente Kirk relegado a sua condição humana, com seus temores, anseios e falhas. Assim como em “Cidade”, o personagem que inicia a Jornada não é mais o mesmo que a termina. Kirk finalmente encara o Kobayashi Maru, mas dessa vez sem truques. E assim, o desafio se mostra implacável.

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3 comentários sobre “CAPITÃES DA FROTA ESTELAR: JAMES T. KIRK

  1. Pingback: CAPITÃES DA FROTA ESTELAR: JEAN-LUC PICARD | habeas mentem

  2. Esses momentos mais dramáticos, que exploram escolhas ou dramas pessoais dos capitães são muito bons. Esse contraponto entre “o herói perfeito” e o “ser humano imperfeito” dá o que pensar…
    Em TNG (e vc TEM QUE escrever um post sobre Picard rs), há um episódio em que Picard vai trocar seu coração artificial. Até aquele momento, ninguém sabia dessa fragilidade. Wesley é a única pessoa presente com ele, por uma força do destino. E ele desabafa com o garoto. Como quando a gente tá no metrô/ônibus/fila de banco e uma pessoa de mais idade desabafa sobre as agruras de sua vida.
    O momento da morte do filho de Kirk mostra que ele age como qualquer pai agiria: busca por vingança. Talvez o termo vingança possa ser substituído por justiça, no caso.

    Ótimo post, como sempre :)

    • O que sempre me cativou em Jornada sempre foram esse momentos dramáticos.
      E muito bem lembrado da morte do filho de Kirk. Por puro lapso mental esqueci de mencionar a morte do filho de Kirk. Quanto a Picard, escreverei com certeza um post falando sobre ele e seus momentos dramáticos. E você já me fez o favor de lembrar um episódio bem interessante, o qual não dá pra deixar de fora.
      Pretendo fazer uma minissérie aqui no HM sobre esses momentos dramáticos dos capitães da Frota e depois outra sobre os imediatos, fazendo meio que um contraponto sobre como os primeiros precisam perder a aura de “humano perfeito” ao passo que os segundos precisam assumi-la em suas trajetórias.
      Abraços e obrigado pelo carinho!

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