O SONHO DA SULTANA

Universo Desconstruído é um projeto desenvolvido por Aline Valek e Lady Sybylla. Tem como principal proposta trazer questionamentos às desigualdades de gênero através de uma Ficção Científica com mais diversidade, que não seja machista, racista e homofóbica. Seu primeiro trabalho foi uma coletânea de contos de variadas autoras e autores que, fugindo do lugar comum dos estereótipos negativos sobre a imagem feminina, procuraram apresentar histórias onde as mulheres eram as personagens principais, discutindo e questionando as relações de gênero. Agora elas lançam um dos primeiros contos feministas de Ficção Científica escrito em 1905 por Roquia Sakhawat Hussain, escritora nascida em 09 de dezembro de 1880 no atual Bangladesh.

Seguindo a linha da resenha que fiz do livro Guerra Justa”, me propus a escrever uma resenha do conto de Roquia, O Sonho da Sultana”, também em forma de carta.

A belíssima capa de Aline Valek para “O Sonho da Sultana”

A belíssima capa de Aline Valek para “O Sonho da Sultana”

Prezada Roquia Sakhawat Hussain,

Escrevo essa breve carta já ciente da impossibilidade de recebê-la. Tempo e espaço infelizmente nos separam em várias décadas e muitos quilômetros, nos tornando personagens de realidades distantes. É bem verdade que, apesar da distância, nossas realidades, de fato, não são tão distantes assim. Ou ao menos, não tão diferentes.

Perdoe-me se pareço indelicado ao não me apresentar. Apenas julgo não serem necessárias tais convenções usuais diante do insólito de nossa comunicação. Afinal, ouso escrever-te distante 100 anos de seu presente, como se o tempo pudesse ser vencido tão facilmente quanto os inúmeros quilômetros que separam meu país do seu.

Sim prezada, Roquia, do século 21 te escrevo. E, justamente por ser do século 21 é que te escrevo. Esse é um século fantástico cheio de novidades, criações e invenções maravilhosas. Se a oportunidade tivesse de visitar-nos, creio que ficaria encantada com o mundo ao nosso redor. Apenas para que tenha uma ideia, muitos em meu tempo já utilizam a energia solar no dia a dia e sei de pelo menos uma localidade onde se “colhe” água de nevoeiros! Isso não te lembra de “O Sonho da Sultana”?

Oh, sim eu li teu conto! Apesar dos anos que nos separam (e de não falar inglês, devo confessar) o pude ler. E, se por acaso estiver curiosa para saber como o pude ler, saiba que nisso devemos ser gratos a duas mulheres incríveis que se dispuseram a traduzi-lo para o português, língua falada no Brasil onde vivo. Acredito que você adoraria conhecer Aline Valek e Lady Sybylla. Foram elas as minhas guias pelo mundo sonhado pela sultana, assim como esta foi guiada pela Irmã Sara em sua onírica jornada pela Terra D’Elas.

Roquia em desenho de Aline Valek

Roquia em desenho de Aline Valek

Sim, prezada Roquia, duas mulheres estiveram à frente do trabalho de tradução, revisão e lançamento de tua instigante utopia. Aline Valek é uma genial e talentosa escritora, formada em publicidade. Lady Sybylla, por sua vez, é geógrafa, tendo lecionado a disciplina e conquistado recentemente o mestrado na área, além de ser uma excelente escritora também. Ambas, além de já terem escritos livros maravilhosos, escrevem regularmente em blogs, uma ferramenta maravilhosa desse nosso século 21 que permite o acesso rápido de qualquer parte do planeta a textos escritos por quem quer que seja.

Como provavelmente já deve ter percebido vivemos num século cheio de maravilhas e de mulheres atuantes. Um século onde as mulheres conquistaram inúmeros direitos como o do acesso à educação. Século onde mulheres votam e são votadas. Onde mulheres não são apenas mães e donas de casa, mas que são presidentes de corporações, atletas vencedoras, atrizes famosas, cientistas, policiais, soldados, até mesmo astronautas veja você! Enfim, mulheres empoderadas assim como aquelas do Sonho da Sultana!

De fato, um século maravilhoso. Mas antes que o julgue apressadamente como uma realização da Terra D’Elas, me vejo obrigado a informa-la de que não é bem assim, infelizmente.

Muitos direitos foram conquistados sim, mas em muitos lugares elas ainda não podem votar ou ser votadas, por exemplo. Especialmente em países árabes, as mulheres ainda são obrigadas a se esconder, sendo feitas escravas em seus próprios lares por aqueles que deveriam ser seus companheiros e não senhores. Caladas e servis não tem acesso à educação, opinião ou qualquer outro privilégio supostamente exclusivo aos homens.

Essa realidade triste ainda faz parte da vida de muitas mulheres pelo mundo afora. A despeito de tantas conquistas, a despeito de tanto conhecimento em nosso século, muitos homens ainda acreditam que mulheres são seres inferiores, incapazes, afeitas apenas a frivolidades. E se por acaso julgar que tais homens sejam exclusividade dos países islâmicos (com suas purdas, zenanas etc.), é minha triste obrigação informar que não é bem assim. Em muitos lugares, independente da religião seguida ou do sistema legal vigente, muitos homens ainda se julgam mais que as mulheres. E, assim, notícias de violência e até assassinatos de mulheres, só pelo fato de serem mulheres, em muitos casos ainda são muito comuns.

Mas não pense que as mulheres estão a sofrer quietas e caladas essas agressões. Aqui e ali surgem vozes corajosas, dispostas a desafiar até mesmo a morte em muitos casos. Vozes poderosas que denunciam e que chamam a atenção para toda essa violência, mas que também ensinam e acalentam as violentadas.

Malala Yousafzai

Malala Yousafzai

Poderia citar inúmeras dessas vozes, mas não quero estender-me nessa carta que já se encontra por demais extensa, contrariando minha afirmação de brevidade. Uma vez que já citei minhas queridas e admiradas Aline Valek e Lady Sybylla, permita-me a gentileza de citar apenas mais um nome. O nome de uma jovem nascida num local e realidade não muito distante da sua (apesar desse nosso um século de distância), dona de uma coragem sem igual que desafiou toda uma lógica de dominação e ignorância pelo direito à educação, ao conhecimento. Malala Yousafzai é o nome dessa jovem voz, resistente como a rocha, capaz de sofrer ataques terríveis como o que quase tirou sua vida, mas que não se abala e continua lutando pelo que acredita. Imagino que se a visse discursando na Organização das Nações Unidas, choraria de emoção e orgulho por tamanha sensatez e coragem.

Enfim minha prezada, Roquia. Ousadamente do século 21 eu te escrevo para contar de nosso tempo. Se acaso possa receber esse meu pequeno atrevimento de desafiar a lógica do tempo, saiba que vivemos numa época de muitas maravilhas e inovações, mas que teimosamente ainda persiste em velhas crenças tolas. Se possível fosse nos visitar, temo que seu encanto só não fosse maior que a sua tristeza de ainda ver que tão pouco mudou na realidade de tantas mulheres, o que me envergonha tremendamente.

Felizmente nossas Sultanas e nossas Irmãs Saras não são poucas.

* * *

Abaixo você pode conferir outras resenhas do conto e como adquiri-lo:

Momentum Saga

Aline Valek

Meteorópole

Goticity

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3 comentários sobre “O SONHO DA SULTANA

  1. Pingback: O PARTO E A ESCRITA | habeas mentem

  2. Adorei a resenha em formato de carta para Roquia, muito interessante. E o final da carta, em que você relaciona com a história da Malala, não poderia ser mais brilhante.
    È triste saber que ainda há países onde as mulheres não tem voz nenhuma. Aqui no Brasil temos problemas, mas pelo menos a maioria de nós pode estudar e se expressar.
    Um grande abraço!!!

    • Procurei com essa carta para Roquia, fazer um paralelo, mostrando que, apesar de tão distantes, nossas realidades não são tão diferentes assim. Encaixar Malala no contexto foi natural, quando me dei conta: ói ela lá sentadinha com o dedinho levantado dizendo “Eu vou nesse texto viu!” :)Concordo com vc quando diz que é triste saber da situação das mulheres em muitos países. Mas há sempre aquele fio de esperança das grandes mulheres que não se calam e partem pro combate. Roquias, Sultanas, Irmãs Saras…
      Obrigado pelo carinho de sempre, Sam! Abração!

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