TOKUSATSUS: A COLORIDA INVASÃO DOS SERIADOS JAPONESES

Esquadrão Relâmpago: Changeman

Durante a parte final da década de 80 a extinta TV Manchete começou a exibir em sua programação os seriados japoneses “O Fantástico Jaspion” e “Esquadrão Relâmpago Changeman”. O primeiro contava a história do jovem Jaspion que, ainda bebê, sobrevive à queda da nave onde viajava com seus pais, sendo salvo pelo Profeta Edin, que acredita ser esse o herói destinado a salvar a Galáxia do controle do terrível Satan Goss, conforme uma profecia da Bíblia Galáctica. Já o segundo mostrava a luta de cinco jovens integrantes do Exército Defensores da Terra, que, ao serem banhados pela Força Terrestre, recebem cada um o poder de um animal lendário para poderem lutar e impedir que o Império Galáctico Gôzma, governado pelo maléfico Senhor Bazoo, domine a Terra.

Kiraya O Incrível Ninja

Jiraya O Incrível Ninja

O sucesso dessas duas séries foi enorme e, apesar de inesperado, a Manchete não perdeu tempo. Logo uma verdadeira invasão de heróis japoneses coloridos acontecia no canal para a alegria da criançada. Em 1989 – apenas um ano depois de seus predecessores – estreava o “Comando Estelar Flashman”, contando as aventuras de “cinco crianças raptadas da Terra e levadas aos confins do universo”, que após vinte anos retornam a Terra na esperança de encontrar seus pais e passam a combater o Cruzador Imperial Mess, que tenta conquistar nosso planeta. No mesmo ano também estreava “Jiraya, O Incrível Ninja” contando as aventuras de Touha Yamachi, um herói treinado nas artes tradicionais japonesas do Ninjutsu (a arte ninja) e envolvido numa espécie de Olímpiadas entre ninjas do mundo todo, a procura de um misterioso artefato místico extraterrestre.

Além desses estrearam também “O Policial de Aço Jiban” e “Cybercops, Os Policiais do Futuro” – ambos em 1990 –, “Defensores da Luz Maskman” e “Black Kamen Rider” de 1991 e que, apesar da boa audiência, fizeram menos sucesso que os anteriores. Já “Guerreiro Dimensional Spielvan” não teve muito sucesso devido a jogada de marketing desastrosa que visava pegar carona no sucesso de Jaspion anunciando-o como “Jaspion 2” (embora um não tivesse nada a ver com o outro). Essa estratégia só serviu pra afundar a série. Já “Poderoso Lion Man” foi exibido no mesmo período de Jiraya e acabou ofuscado pela produção mais moderna e com uma história mais atual (pra época, obviamente) do herói ninja, já que a série do samurai que se transformava num guerreiro de aparência leonina fora produzida em 1973.

A transformação do Jaspion o mais famoso dos Metal Heroes (pelo menos aqui no Brasil)

Todos esses seriados – chamados “Tokusatsus” – são divididos em dois grandes grupos básicos: os Metal Heroes, heróis que utilizavam armaduras metalizadas como Jaspion, Spielvan e Jiban e os Super Sentai, grupos de cinco jovens que usam roupas especiais (em geral nas cores vermelha, azul, verde, rosa e amarelo), como Changeman, Flashman e Maskman. As exceções são Lion Man e Black Kamen Rider, sendo que esse último depois do imenso sucesso no Japão de sua primeira série deixou de ser considerado um Metal Hero e gerou seu próprio novo grupo, o dos Kamen Rider.

Por essa não tão pequena introdução percebemos que o que não faltou no final da década de 80 e início da de 90 foram seriados japoneses. Ainda assim só citei aqueles que fizeram mais sucesso, todos transmitidos pela TV Manchete. Inúmeros outros como Sharivan, Gavan, Goggle V, Dynaman e até mesmo os Power Rangers (que não é bem, bem um tokusatsu, mas isso é assunto pra outra hora), fizeram parte da programação de outras emissoras.

Goggle Five

Goggle Five (qualquer semelhança com um certo site de buscas é mera coincidência)

Igual à maioria das crianças na época, eu era extremamente viciado nessas séries. Não se passava um único dia sem assistir ao menos um episódio de alguma delas, sendo os “Flashman” a minha preferida.

Vários foram os motivos que fizeram a garotada ficar tão ligada naquele bando de heróis coloridos e metalizados que defendiam o Japão da invasão de monstros gigantes dia sim e no outro também. Particularmente eu já estava cansado dos desenhos americanos. Seja porque eles nunca apresentavam um inicio ou fim para suas tramas (apesar de ter gente por aí jurando que existe um episódio final de “Caverna do Dragão”), seja por terem se tornado repetitivos em suas eternas reprises na Globo e SBT. Ver heróis em carne, osso e robôs gigantes na telinha em tramas com começo, meio e fim bem definidos (os quais podíamos inclusive assistir com alguma sorte), se tornou muito mais agradável e interessante. Lembro de, na hora do recreio entre uma brincadeira e outra me gabar de já ter assistido os finais de Changeman, Jaspion e Flashman. Por outro lado acho que nunca ninguém assistiu algum primeiro episódio contando como Adam descobriu a Espada do Poder e se transformou em He-Man pela primeira vez.

Mai e Sayaka do Esquadrão Relâmpago Changeman - exemplo de guerreiras destemidas

Mai e Sayaka do Esquadrão Relâmpago Changeman – exemplo de guerreiras destemidas

A imersão na cultura japonesa também era (e ainda é) um dos pontos fortes dessas séries. Em especial em se tratando das artes marciais, outro chamariz bastante atrativo. Na época funcionaram para alavancar o gosto da molecada pelas artes marciais orientais. Vários amigos e conhecidos meus, que hoje tiram várias horas de seu tempo na prática do MMA, começaram lá no finalzinho da década de 80 em aulas de Karatê e Judô sonhando em lutar igual ao Jiraya ou aos Changemans.

E como se não bastasse tudo isso, eram programas onde as meninas também podiam ver personagens femininas fortes que não só ajudavam a combater os inimigos, como eram personagens importantes em muitas das tramas, servindo de exemplo e modelo. As séries eram ricas em personagens femininas tanto do lado do bem quanto dos vilões. Mas isso é assunto que abordarei melhor em outro texto dedicado somente a ele.

Como podemos ver o impacto dessa invasão japonesa enorme. Não sei em outras partes do Brasil, mas, ao menos em Sergipe, Alagoas e boa parte da Bahia, vários termos e nomes que víamos nos tokusatsus acabaram entrando para o vocabulário comum, se tornando conhecidas e de uso corrente até por aqueles que não tiveram a oportunidade de assisti-los. Não é incomum em histórias de roubos e assaltos ouvir o assaltante ser chamado de Jiraya, numa alusão aos feitos do incrível ninja. Muito comum também é chamarmos de Jaspion algum colega ou amigo com traços nipônicos (eu conheço dois Jaspions, aliás). Tem até um cantor baiano cujo nome artístico ele já confirmou ser em homenagem ao arqui-inimigo do herói, o Magaren.

Imagino que esse impacto seja igualmente forte nas outras regiões do país, pois não raro encontro vídeos na internet com encontro de fãs de tokus, além de uma quase centena de sites e blogs sobre o tema. Não é para menos. Com suas roupas coloridas, espadas brilhantes, golpes cheios de estilo e robôs gigantes os tokusatsus são uma representação bacana, cheia de ação e fantasia (ainda que travestida de ficção científica) da infância de toda uma geração.

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Um comentário sobre “TOKUSATSUS: A COLORIDA INVASÃO DOS SERIADOS JAPONESES

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