98 – JAGGED LITTLE PILL

Jagged Little Pill – Alanis Morissette

Cantora: Alanis Morissette

Gravação: Westlake Studios e Signet Sound, Hollywood

Lançamento: 13 de Junho de 1995

Duração: 57m23s

Produção: Glen Ballard

Sobre o disco:

Hoje em dia é modinha falar mal de Alanis Morissette. E se levarmos em conta a qualidade duvidosa de seus últimos trabalhos pode-se até entender o motivo. Mas na parte final dos anos 90 a situação era outra e isso graças ao imenso sucesso (merecido, diga-se de passagem) de Jagged Little Pill, seu terceiro trabalho, o primeiro com lançamento internacional.

Conheci o trabalho de Alanis em 1998 quando de sua vinda ao Brasil para o lançamento de seu quarto disco, Supposed Former Infatuation Junkie. Por essa época a cantora já tinha status de grande rock star. Tanto que sua vinda ao Brasil foi extremamente alardeada pelo Programa Livre, pois esse seria o único programa da TV brasileira a recebê-la. Na época, esse era um dos poucos programas de televisão que eu tinha paciência de assistir, justamente por sua capacidade de dialogar comigo (então um adolescente curioso, tímido, tentando se encontrar). Muito disso era devido a inteligente sacada do Serginho Groisman de dar voz aos adolescentes que compunham sua plateia. Várias das perguntas que aqueles garotos e garotas faziam aos entrevistados – músicos, escritores, atores – eram as mesmas que eu gostaria de fazer. Guardo com carinho a lembrança de bons programas com as participações de Shakira, Legião Urbana, Roxette, Alexia dentre outros.

O que contou com a Alanis foi um desses. Mesmo sem fazer a mínima ideia de quem fosse, aguardei com ansiedade devido à intensa e contínua propaganda feita sobre sua presença. Por umas duas semanas Serginho Groisman não falou de outra coisa, sempre destacando que o Programa Livre seria o único no Brasil a ter a participação da estrela canadense ao mesmo tempo em que exibia a exaustão trechos do recém-lançado clip “Thank U”. Tanta propaganda me deixou extremamente curioso sobre aquela cantora peladona e, principalmente se ela era tudo isso o que o apresentador afirmava.

E foi muito mais do que eu esperava. Assisti encantado as performances de “You Learn”, “Ironic”, além de várias canções do novo disco. O que ouvi me agradou tanto que gravei uma cópia em fita de Jagged Little Pill, de um CD locado no mesmo dia em uma locadora que ficava perto de casa. E se eu achara a apresentação de Alanis o máximo, escutar o disco completo foi uma experiência única.

Intenso e raivoso, o disco autobiográfico nasceu a partir dos encontros que a cantora teve com Glen Ballard, futuro produtor e coautor de várias canções da obra. Inicialmente rejeitada por várias gravadoras, o disco acabaria sendo lançado pela Maverick Records depois que Guy Oseary escutou uma fita demo com músicas da dupla. Até então eu não tinha escutado nada igual. Mesmo sem entender um “yes” que fosse em inglês, dava para sentir muita frustração, angústia e dor extravasados em cada verso furiosamente cantado.

Com 15 anos eu já conhecia e escutava algumas boas bandas de rock. Mas até então nenhum disco me surpreendera tanto quanto esse. Solidão, raiva, introspecção, conflitos, tudo isso era facilmente sentido e até certo ponto palpável nos hits fáceis do disco, a exemplo de “You Oughta Know”, “You Learn”, “Head Over Feet” e “Ironic”, ou mesmo nas demais faixas que não viraram singles, mas figuram como prediletas de muitos fãs.

Toda essa profusão de sentimentos impressa em cada verso pela interpretação deliciosamente inspirada de Alanis me deixou completamente viciado no álbum, escutando-o sem parar num velho walkman. Curioso, reloquei o CD e copiei cada letra do encarte para, com auxílio de um dicionário inglês-português escolar (e da paciência de meu professor de inglês da escola), me impor o desafio de traduzi-las. Eram tempos difíceis aqueles em que a internet ainda engatinhava.

Tempos difíceis (mais muito prazerosos)

Tempos difíceis (mais muito prazerosos)

Estava tudo lá. Sentimentos escancarados em letras duras, às vezes de difícil interpretação, expondo cada adjetivo já citado nesse texto de modo bem pessoal. Confessional até. À medida que ia traduzindo, se descortinava uma eu-lírica angustiada (“Perfect”), decepcionada (“You Oughta Know”), amargurada (“Not The Doctor”), cheia de dúvidas (“Forgiven”), mas também positiva e esperançosa, consciente de seus defeitos e mais ainda de suas virtudes (“Hand in My Pocket”).

Uma pequena digressão aqui. Reparem que usei o termo “eu-lírica” no feminino ao invés do usual “eu-lírico” no masculino.07balanismorissette Foi proposital. O “eu-lírico” é um conceito da literatura e se refere àquele que fala no poema e/ou canção que manifesta os sentimentos sendo diferente do autor. Optei por usar esse pequeno neologismo, pois sempre encarei que o eu-lírico das músicas desse álbum como uma persona feminina relatando os anseios, preocupações, desejos femininos, num claro e bem vindo contraponto aos temas masculinos (e não raro machistas) de seus colegas roqueiros. Num universo dominado homens, com músicas (“Under My Thumb” dos Rolling Stones) e atitudes machistas (qualquer banda em relação as suas groupies nos idos dos anos 60 e 70), Alanis vem e rompe com essa lógica expressando angústias, sentimentos, sexualidade tudo isso sob uma ótica feminina. Em Jagged Little Pill não temos mais um garoto cuspindo misoginia disfarçada de insegurança como em muitos discos por aí. Temos uma garota expressando justamente as angústias e temores frente a essa mal disfarçada misoginia. Ainda que esse talvez não tenha sido o intuito original ao se escrever as letras, é impossível não percebê-lo a cada faixa.

Jagged Little Pill é um disco bastante uniforme, sem altos e baixos, sendo todas as músicas virtualmente possíveis de virar singles (muito embora “Mary Jane” seja considerada por vários como o ponto baixo, algo que não concordo sendo, aliás, essa é uma das minhas canções preferidas do álbum). Não a toa o álbum foi um dos mais vendidos da década de 90 e, segundo algumas classificações, um dos doze mais vendidos do mundo com mais de 33 milhões de cópias no mundo todo, ficando 12 semanas em primeiro lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos. Se levarmos em conta que nessa mesma década de 90 contamos com os lançamentos de clássicos como Back in Black do AC/DC e Nevermind do Nirvana, temos aqui um feito e tanto para um álbum cuja própria gravadora não esperava que vendesse nem 250 mil cópias. Com esse histórico de vendas e pela qualidade inerente do disco, na minha opinião, merecia estar umas 10 posições à frente.

Para finalizar duas pequenas curiosidades: Jagged Little Pill possui uma faixa escondida. Trata-se de uma versão com uma guitarra-base mais pesada de “You Oughta Know”, seguida depois de alguns segundos de silêncio da canção à capela “Your House”. E em 2005 o disco foi relançado em versão acústica para comemorar os dez anos de seu lançamento. Infelizmente essa é uma das versões de um disco de sucesso mais preguiçosamente produzida da história. Praticamente nenhuma das treze faixas recebeu qualquer arranjo diferenciado, sendo, portanto, uma mera cópia acústica do álbum original. Apenas “Your House” teve um tratamento diferenciado ao receber um arranjo musical, bem pobrinho, aliás. Um disco esquecível sobre qualquer aspecto servindo apenas como uma mera curiosidade, uma sombra nada lisonjeira frente a qualidade da obra original.

A seguir o clip de uma das minhas músicas preferidas do álbum:

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

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3 comentários sobre “98 – JAGGED LITTLE PILL

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