O 8 DE JULHO E OITO MOTIVOS PARA OS SERGIPANOS SE ORGULHAREM DE SUA SERGIPANIDADE

Deixe Sergipe Surpreender Você

No dia 8 de julho de 1820 o então Monarca do Reino Unido de Portugal, do Brasil e Algarves, Dom João VI decretou através de Carta Régia a emancipação de Sergipe Del Rey da então Capitania da Bahia. A emancipação foi a maneira encontrada pelo monarca para agradecer a elite sergipana pelo apoio durante a Revolução Pernambucana em 1817.

O governo da Bahia, entretanto, não aceitou o decreto e mandou prender o governante designado, mantendo Sergipe sob seu controle. Foi somente em 5 de dezembro de 1822 com a Carta Imperial de Dom Pedro I que a emancipação foi confirmada. Sergipe tinha finalmente sua autonomia concedida e reconhecida.

557988089006-1431778479Devido ao conturbado processo de emancipação não houve um reconhecimento imediato do 8 de Julho. Isso levou a uma confusão de datas, já que o primeiro registro encontrado de comemorações da emancipação é do dia 24 de outubro de 1836, sendo oficializado como a data oficial três anos depois. As duas datas permaneceram como feriado até 1990 quando se determinou apenas o 8 de Julho como feriado. Uma vez que a festa popular que costumeiramente ocorria no dia 24 de outubro deixou de se realizar com o passar dos anos, a Assembleia Legislativa de Sergipe cancelou o feriado nessa data, deixando-a apenas como o Dia da Sergipanidade, ou seja, um dia para se comemorar o sentimento de orgulho e pertencimento pela cultura, história, artes, tradições, enfim, por tudo que se relaciona com Sergipe, tudo aquilo que define o ser sergipano.

Infelizmente com o passar do tempo o caráter comemorativo de ambas as datas foi se perdendo. Vários foram os fatores, embora há de se destacar a falta de interesse e de esforços das instituições governamentais em se valorizar os fatos e conhecimentos históricos e culturais de nosso estado, de nossa Sergipanidade, especialmente através das instituições de ensino. Mas, verdade seja dita, há também um forte desapego do sergipano em geral por esse conhecimento, embora se pese o fato desse ser um reflexo do anterior.

Ao contrário do que ocorre na vizinha Bahia, estado do qual fomos emancipados,  a data da Independência Baiana, comemorada em  2 de Julho, é conhecida da maioria dos baianos, sendo comemorada com grandes eventos e manifestações culturais nos mais variados círculos de sua sociedade, em Sergipe o que vemos é um total e completo desconhecimento do significado do 8 de julho. Esse desconhecimento é apenas um dos sintomas de um mal maior: de maneira geral o sergipano desconhece a sua própria história. E como sentir orgulho de algo que se desconhece?

Quando estive em sala de aula atuando como Professor de Geografia, tive um contato mais direto com essa nossa triste realidade. Os alunos, em sua maioria esmagadora desconheciam tudo o que tivesse a ver com a história, geografia e aspectos culturais do estado! Num esforço para mudar essa situação, juntei-me as minhas colegas e amigas Professoras de História Débora Santana e Rosana Guedes e elaboramos muitas atividades que abordassem esses aspectos. Apesar de ter sido um trabalho árduo (ou devido a ele) pudemos depois de um tempo dizer com orgulho que aqueles nossos alunos hoje possuem um mínimo desse conhecimento, podendo assim exercitar sua sergipanidade através de um pensamento crítico, capazes de se orgulhar sem perder de vista os problemas que possuímos, assim como qualquer outro estado brasileiro.

Para comemorar os 195 anos da Emancipação Política, e no contínuo esforço de divulgar, reconhecer e valorizar os elementos que constroem a Sergipanidade listei a seguir oito motivos pelos quais os sergipanos devem sentir orgulho de terem nascido nesse pequeno, mas encantador Estado:

1 – Livro: Os Corumbas

Amando Fontes e a capa do livro Os Corumbas

Amando Fontes e a capa do livro Os Corumbas

Escrito por Amando Fontes e lançado em 1933, tive contato com esse livro aos 17 anos, quando o li por obrigação, já que ele era um dos livros de leitura obrigatória para o vestibular da Universidade Federal de Sergipe. A obra trata da vinda da família Corumba do interior para a capital do estado, Aracaju, onde se passa toda a história e possui uma forte e contundente denúncia social. Através da conturbada e difícil vida da família que dá nome ao livro, Amando Fontes nos mostra as dificuldades das classes operárias lutando para sobreviver enquanto trabalhavam nas fábricas existentes na cidade, além do trabalho infantil, prostituição e outros na Aracaju do início do século XX com todas as peculiaridades dessa cidade.

Esse livro me marcou profundamente não só pela crítica social, mas principalmente por se passar inteiramente em um ambiente que conheço muito bem, que é o da cidade onde nasci e me criei. Com gosto via nomes tão familiares como Bairro Industrial, Companhia Sergipana de Fiação (a popular Sergipana) dentre outros deslizando pela leitura fazendo, mais do que qualquer outro livro, me sentir de fato dentro da narrativa quase que como se pudesse ver as personagens passando pelas ruas da cidade.

Se tiver interesse em conhecer mais sobre “Os Corumbas” é só clicar nos links:

Sergipe em Pauta II

Literatura Sergipana

2 – Escritor: José Maviael Monteiro

Única informação que consegui na contracapa de um de seus livros

Única informação que consegui na contracapa de um de seus livros

José Maviael Monteiro é um escritor sergipano com formação em História Nacional. É um dos autores mais queridos da Série Vaga-Lume em especial por ter escrito “Os Barcos de Papel”, tido por muitos, como dos mais belos livros da série e considerado pela Biblioteca Internacional para a Juventude com sede em Munique como sendo altamente recomendável para a infância e juventude. Além desse Maviael também escreveu para a mesma série os livros “O Outro Lado da Ilha” e “O Ninho dos Gaviões” além da série de livros infantis “Barba Suja” onde conta divertidas histórias de piratas.

Particularmente considero esse talentoso escritor um exemplo perfeito do descaso do estado de Sergipe para com sua cultura. Apesar de ser um autor premiado, com obras de sucesso, é extremamente difícil encontrar informações pertinentes sobre José Maviael Monteiro as quais se resumem ao seu local de nascimento e formação apenas. Isso quando não temos informações erradas como a encontrada na Wikipédia onde diz que ele teria nascido na Bahia e se graduado em História Natural em Sergipe, quando, na realidade, o contrário é a informação correta. Simplesmente lamentável esse descaso para com um dos escritores mais bacanas de nosso estado.

3 – Cantora: Patricia Polayne

A primeira vez que tomei conhecimento de Patricia Polayne foi durante a exibição do antigo Festival Canta Nordeste de 1996, quando a cantora sergipana ganhou os prêmios de Melhor Intérprete e Melhor Canção com a música “Camará”. Dona de uma voz suave, mas firme e vibrante, Patricia é uma cantora de estilo performático, além de ser atriz, produtora e artista circense. Produziu trilhas sonoras para várias peças de teatro e curtas. Em 2005 venceu o prêmio Banese de Música com a canção “O Circo Singular”

Patricia Polayne em fotografia de Vinicius Fontes

Patricia Polayne em fotografia de Vinicius Fontes

Adoro Patricia Polayne por ser uma artista sempre aberta a renovação e ligada a cultura local, os quais ela sempre insere em suas canções, sejam os mais tradicionais como o samba de coco, sejam os mais modernosos, como o ritmo do assim chamado arrocha.

Abaixo você pode conferir essa linda cantora interpretando “O Circo Singular”:

E para saber um pouquinho mais sobre ela é só clicar no link:

Patrícia Polayne

4 – Teatro: Grupo Imbuaça

grupo imbuaça

Fundado em 1977 por Lindolfo Amaral, o Grupo Imbuaça de Teatro é o mais antigo e importante grupo de teatro do estado. Homenageando o embolador Mané Embuaça, assassinado em fevereiro de 1978, o grupo apresenta uma proposta simples, mas sincera, ao pautar suas peças no trabalho dos variados aspectos culturais do estado e do Nordeste como um todo utilizando a literatura de cordel como dramaturgia, além de fornecer oficinas de teatro continuamente.

O Imbuaça é uma referência no estado. Sendo um grupo de teatro de rua, é difícil achar um sergipano que não tenha visto pelo menos um de seus 26 trabalhos. No meu caso o primeiro contato foi quando a escola onde estudava recebeu uma de suas apresentações. Infelizmente o grupo passa por dificuldades financeiras sendo mantido graças aos esforços de seus integrantes, em mais uma triste constatação do descaso do poder público para com a cultura sergipana.

Para aprender mais sobre o Imbuaça seguem dois links. O primeiro traz mais detalhes sobre sua trajetória e o segundo é um artigo publicado pelo próprio Lindolfo Amaral na edição n. 3 de março de 2012 da revista de Artes do Espetáculo Rebento:

Breve histórico do grupo de teatro sergipano imbuaça

Grupo Imbuaça de Teatro: a partir da página 88

5 – Música: “Cheiro da Terra” Grupo Cataluzes

Capa do LP Viagem Cigana

Capa do LP Viagem Cigana

“Cheiro da Terra” é uma canção do Grupo Cataluzes. Faz parte do disco Viagem Cigana, lançado em 1983 e, na minha opinião, é uma das músicas mais lindas do repertório musical do Estado de Sergipe. É também a representação de um sentimento ufanista, em especial na música, que começa a crescer em Sergipe dos anos 70. Influenciado pelos festivais de música extremamente populares na época, criou-se no estado o Festival de Música Popular Sergipana, sendo o primeiro vencedor justamente o Grupo Cataluzes.

Com letras fazendo referências aos aspectos de nossa cultura, contando ainda com belos arranjos e interpretações, as músicas do grupo logo caíram no gosto popular. “Cheiro da Terra” logo tornou-se a mais famosa, sendo, ainda hoje, muito conhecida pelos sergipanos, especialmente devido aos versos: “Eu quero mesmo é ficar bem juntinho dela/ Na praia de Atalaia/ Mirando as ondas do mar”. Essa canção me traz lembranças maravilhosas de minha infância, quando minha mãe a cantava com sua voz afinada nos dias de domingo enquanto fazia a faxina da casa. Foi meu primeiro contato com o sentimento de sergipanidade, motivo pelo qual sou tão apegado a ela e agradecido à minha saudosa mãe por desde cedo ter me imbuído desse sentimento.

Abaixo você confere um clipe caseiro (mas com som excelente) da versão mais atual de “Cheiro da Terra” nas vozes de Antônio Rogério e Chiko Queiroga.

E mais informações sobre o Cataluzes no link seguinte:

Grupo Cataluzes

6 – Grupo Folclórico: Bacamarteiros de Aguada, Carmópolis-Se

Bacamarteiros são grupos de pessoas, em geral homens, que participam de folguedos e festas populares, quando usam seus bacamartes (armas antigas de pólvora socada) dando estrondosos e potentes tiros, num espetáculo de muito barulho, fumaça e estilosos meneios de corpo que também servem para absorver o “coice”. Quando executados por bacamarteiros experientes, esses meneios tornam-se passos de dança ou gingados cheios de humor. Esses grupos são extremamente populares em muitas cidades do Nordeste, principalmente em Pernambuco e Sergipe.

Em Sergipe o mais antigo Grupo de Bacamarteiros é o do Povoado Aguada do município de Carmopólis criado por volta de 1780 por trabalhadores dos engenhos de cana do Vale do Contiguiba. Atualmente o grupo é composto por moradores do povoado. Todos tem alguma função no grupo do qual participam homens, mulheres, crianças e idosos. O repertório é composto por canções do folclore, com destaque para o “Meu Papagaio”, música icônica sobre a qual falarei um pouco mais adiante.

A seguir uma apresentação do grupo:

E no link mais informações sobre o grupo de Bacamarteiros do Povoado Aguada:

Os Bacamarteiros de Aguada – Etnografia e Histórico

7 – Personalidade: Zé Peixe

O mítico Zé Peixe (Montagem feita a partir de imagens do site Visite Aracaju)

O mítico Zé Peixe (Montagem feita a partir de imagens do site Visite Aracaju)

José Martins Ribeiro Nunes. Ou simplesmente Zé Peixe. Figura quase lendária de nosso estado, esse franzino senhor de 1 metro e 60 de altura e pesando 53 quilos é considerado por muitos como um verdadeiro herói estadual. Ganhou seu apelido ainda criança por ser extremamente hábil na natação, nadando todos os dias no Rio Sergipe bem em frente da sua casa no centro histórico de Aracaju. Muito jovem passou a atuar como prático prestando serviços a Capitania de Portos da Cidade. Praticagem é o serviço de auxílio aos navios, em geral de grande porte, ao entrarem ou saírem de portos que apresentam algum tipo de dificuldade. Zé peixe se destacava dos demais colegas de praticagem por seu peculiar modo de operação: ao invés de se dirigir aos navios com lanchas, nadava até eles guiando-as através da Boca da Barra (local onde o rio Sergipe deságua no Oceano Atlântico), desviando dos perigosos bancos de areia; quando estes retornavam para alto mar, saltava de alturas e voltava a nado para terra firme.

Exemplo de vida saudável, Zé Peixe mantinha uma dieta rigorosa rica em frutas e nadava todos os dias no seu amado rio Sergipe, mesmo depois de findas suas atividades como prático. Era também conhecido pela coragem e altruísmo. Com base no livro que conta a história do mítico prático, a sergipana estudante de historia Suyan Dionizio Alves Teles Santos narra um episódio ocorrido em 1952, quando a lancha Atalaia naufragou, estando a bordo Zé Peixe e sua irmã Rita, que também carregava a alcunha “Peixe” por ser, assim como o irmão, excelente nadadora. Rita alcançou logo a margem, mas para espanto de todos Zé não apareceu. Somente seis horas depois ele  aparecia, depois de, por quatro horas tentar em vão salvar a lancha.

Foi condecorado várias vezes por seu trabalho, sendo eleito o Cidadão Sergipano do Século XX e dá seu nome ao Complexo Aquático de Sergipe, bem como ao recém inaugurado Espaço Cultural e Turístico às margens do rio Sergipe.

Memorial de Sergipe

8 – Nosso jeitinho todo particular de falar

Os sergipanos tem um modo todo seu de falar, seja pelo sotaque próprio (que em nada tem a ver com aquele mostrado nas novelas da Globo ambientadas no Nordeste brasileiro), seja pelo uso de palavras e expressões usadas quase que exclusivamente por nós.

O nosso modo de falar é algo do qual os sergipanos deveriam ter muito orgulho, pois é um aspecto que nos confere identidade. Algo que nos caracteriza e nos define. Infelizmente, nós sergipanos, não só não valorizamos o nosso jeito de falar, como também, muitas vezes, sentimos vergonha dele. Quem assistiu “Lisbela e o Prisioneiro”, deve se lembrar do personagem Douglas, rapaz nascido em Cabrobró, mas que passou uns dois meses no Rio de Janeiro e voltou de lá falando um “carioquês”, conforme é relatado pelo personagem Cabo Citonho. Esse Douglas é uma crítica humorada, feita pelos roteiristas do filme, daquele nordestino que não valoriza suas raízes, representadas por seu sotaque e modo de falar. E é também um perfeito retrato de muitos sergipanos, que, depois de passar, tipo um mês no Rio, volta de lá cantando, entende?

Obviamente aqui não estou desmerecendo nenhum sotaque ou regionalismo na forma de se expressar. Apenas destaco a importância e o respeito que devemos ter por nosso próprio jeitinho de falar, sejamos sergipanos, baianos, cariocas ou acreanos.

Para aprender um pouco mais sobre nosso esse nosso peculiar jeitinho sergipano de se expressar, vale a pena assistir essa reportagem sobre o sergipanês:

Conheça o vocabulário do ‘Sergipanês’

Menção Honrosa: “Meu Papagaio (Minha Terra É Sergipe)”

Canção tradicional do folclore sergipano e conhecida por, virtualmente, todos os sergipanos, muito disso em virtude do seu uso como encerramento diário das transmissões da TV Atalaia, atualmente afiliada da TV Record no estado. Verdade seja dita, foi graças a ininterrupta transmissão desse vídeo que a canção deve boa parte de sua popularidade atual. Verdadeiro hino popular e não oficial do estado, é um perfeito símbolo da Sergipanidade. Não só por representar esse sentimento de pertencimento (através dos versos “Minha terra é Sergipe/Em outra terra eu não fico), mas também por personificar o momento atual de quase completo abandono do orgulho de sergipano através do desconhecimento de nossa história, costume e valores. Explico: apesar de seus versos bem conhecidos, o acesso a informações a respeito de sua autoria é praticamente nenhum. Nenhuma autoria, nenhum histórico, nenhum dado relevante.

Mesmo depois de uma busca exaustiva na internet, consegui parcas informações, algumas delas claramente equivocadas, como a que estabelece sua autoria à dupla Antonio Rogério e Chiko Queiroga, quando na realidade ela é uma canção do folclore sergipano, parte integrante do repertório do Grupo de Bacarmateiros do Povoado Aguada, como vimos acima. Infelizmente não tive tempo de expandir minha busca em outras fontes além da internet, como em bibliotecas por exemplo. Mas acredito que a situação seja bem similar.

Mesmo tão icônica, “Meu Papagaio” é um exemplo real da Sergipanidade e do esquecimento desse sentimento por parte dos sergipanos. E, com esse post, faço minha tentativa de mudar esse quadro, para que uma história e cultura tão interessante e rica não se perca assim tão facilmente.

A seguir, vídeo com o encerramento da TV Atalaia na versão que ajudou a popularizar a canção:

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2 comentários sobre “O 8 DE JULHO E OITO MOTIVOS PARA OS SERGIPANOS SE ORGULHAREM DE SUA SERGIPANIDADE

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