DE SHARBAT GULA A AYLAN KURDIN

national_geographic2Foi em uma edição qualquer da Revista Veja que me deparei pela primeira vez com a fotografia ao lado e que jamais iria sair de minha lembrança. Foi numa propaganda de assinaturas de revistas e dentre as muitas miniaturas de capas de revistas masculinas e de saúde, destacava-se uma da National Geographic, revista que, até então eu nunca ouvira falar. Na miniatura, essa jovem de grandes e assustados olhos verdes me encarava! Havia algo naquele olhar que me fascinou, mas na época eu não sabia o que era.

Por anos aquele olhar me perseguiu sem que eu nunca soubesse quem era sua dona. Eram tempos sem internet e procurar informações sobre uma moça sem nome, numa revista que quase não chegava por aqui em Aracaju era uma tarefa, no mínimo, extremamente difícil, ainda mais para um garoto sem recursos financeiros.

Foi somente em 2007, quando já cursava Geografia na Universidade Federal de Sergipe – motivado pela descoberta de inúmeras edições antigas da National Geographic num arquivo esquecido do Diretório Acadêmico do curso – que iniciei pra valer minha busca pela moça dos olhos verdes. Como a edição procurada não estava entre aquelas, iniciei minha busca usando uma ferramenta mais adequada. E, como diz um amigo, se você não encontrar na internet é porque simplesmente não existe.

Eu não tinha nenhuma informação sobre a garota, a não ser o fato de que fora capa de uma edição da National Geographic, iniciei minha busca pelo site oficial da revista. E lá estava ela, com aqueles olhos verdes me encarando da mesma maneira que anos antes: numa miniatura de propaganda de assinatura da revista. Avidamente cliquei no link e…

E nada! Apenas espaços para preenchimento de dados e nenhuma informação sobre a garota! Voltei para a página inicial e tratei de fazer uma busca mais cuidadosa e atenta. Embora a edição em questão fosse quase onipresente, não encontrei nenhuma informação que me fornecesse uma pista sobre a história da garota. Já estava ficando desesperado.

Foi quando a moça que tomava conta do Laboratório de Informática do curso, curiosa me perguntou o que eu tanto procurava naquele site. Em breves palavras expliquei minha busca e meu fracasso, sem muitas esperanças de que ela pudesse me fornecer alguma luz. E, pela primeira, ouvi a frase que seria recorrente não só em minha vida, mas na de muita gente por aí:

– Põe no Google!

– Mas por o quê? – questionei não muito convencido.

– Põe “garota da National Geographic” e vê o que aparece…

E, finalmente, eu encontrava a Garota da National Geographic. Enfim eu descobria o que tanto me chamou a atenção naquela foto: a promessa de uma das histórias mais surpreendentes de quantas já tinha lido ou mesmo ouvido falar.

A foto em questão foi registrada em 1984 num campo para refugiados que fugiam da invasão soviética ao Afeganistão. O fotógrafo Steve McCurry aproveitou o momento em que a jovem estava sem a burca para clica-la. Assustada, a menina fugiu sem que McCurry pudesse perguntar seu nome o que não impediu a revista de publicar a foto na capa da edição de junho de 1985, chamando-a simplesmente de Afghan Girl, a Garota Afegã.

Aquela foto viria a ser tornar um símbolo das dificuldades enfrentadas, principalmente, pelas refugiadas afegãs durante a invasão soviética. Sem saber, a Garota Afegã se tornou um dos rostos mais conhecidos do mundo. E por anos todo o mundo sabia simplesmente nada sobre ela, apesar das constantes tentativas de McCurry de encontra-la.

Somente com a queda do regime talibã em 2001 essa situação mudaria. Em janeiro de 2002, acompanhando uma expedição da National Geographic, McCurry fez nova tentativa. No campo de refugiados onde encontrara a garota, McCurry encontrou um rapaz que afirmava conhecer o irmão da garota. E, num remoto vilarejo no interior do Afeganistão, depois de 17 a Garota Afegã foi encontrada e o mundo conhecia finalmente seu nome: Sharbat Gula.

Através de testes biométricos confirmou-se que aquela jovem senhora precocemente envelhecida em seus prováveis 30 anos e olhar apagado era a mesma garota da foto de McCurry. Quando perguntaram, Sharbat Gula disse lembrar-se do dia em que foi clicada pelo fotógrafo ocidental. Aquela fora a primeira e, até então única, vez a fotografaram.

Aos poucos mais do que seu nome foi revelado. Sharbat contava com algo em torno dos seis anos quando seus pais morreram durante um bombardeio soviético. Obrigada a fugir se juntou a outros refugiados no campo onde McCurry a encontrara. Sem saber do impacto que sua fotografia causara no mundo ocidental, Sharbat tocou a vida. Casou-se aos 16 e durante meados dos anos 90 conseguira retornar para seu vilarejo de origem. Teve quatro filhos, mas um morreu ainda bebê.

Um (dura) vida revelada

Um (dura) vida revelada

É triste constatar que, passados 30 anos, histórias como a de Sharbat Gula continuem a ocorrer em nosso mundo. Lembrar da Garota Afegã deve servir como um convite a reflexão sobre a atual crise dos refugiados da Guerra Civil na Síria, dos fugitivos do Estado Islâmico e de vários países da África que abandonam seus lares a procura, nem digo de uma melhor condição de vida, mas sim de uma vida propriamente dita.

Não é por acaso que me lembrei de contar essa história esse dias. No começo do mês outra história, ou melhor, outra foto de refugiado me chamou a atenção. Fugindo de um arremedo de vida no meio de um conflito do qual não fazia parte, o pequeno Aylan Kurdi encontrou um destino trágico nas areias de uma praia turca. Com o coração dilacerado vi aquele garotinho, camiseta vermelha, bermudinha azul, sapatinhos escuros. Confesso que não vi o pequeno Aylan Kurdi estendido nas areias de uma praia no outro lado do mundo. Vi o meu próprio filho ali estendido. Vi no desespero do pai, meu desespero.

Enquanto o mundo se admirava com seus olhos fotógrafos num campo de refugiados, Sharbat teve sua vida aviltada não apenas por uma guerra. A Garota Afegã viveu alheia a tudo isso e o mundo seguiu alheio à sua história. Três décadas o pequeno Aylan Kurdi perdeu a sua vida pelos mesmos motivos. O Menino Sírio sequer teve a oportunidade de seguir alheio à coisa alguma. E minhas esperanças de que o mundo tenha aprendido diminuíram mais um pouco.

Desculpem-me se não posto aqui a imagem do pequeno Aylan que o tornou famoso. É a imagem mais doída de quantas já vi. Prefiro encerrar esse post com a imagem da criança feliz brincando com sua bola e com esse link com desenhos que homenageiam Aylan Kurdi.

Aylan Kurdi (mas podia ser seu filho ou o meu)

Aylan Kurdi (mas podia ser seu filho ou o meu)

E se o texto parecer molhado para você, não se assuste. Muito provavelmente são minhas lágrimas que teimaram em cair sobre ele.

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