O QUE ESPERAR DA NOVA SÉRIE DE JORNADA NAS ESTRELAS?

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Após anos de muitos rumores e especulações a CBS anunciou há pouco mais de duas semanas que está produzindo uma nova série de Jornada nas Estrelas (Star Trek no original em inglês), com estreia planejada para 2017. A notícia logo viralizou pelas redes sociais deixando os fãs em verdadeiro frenesi. E não é para menos. Lá se vão dez anos desde que a última série da franquia, Enterprise, foi cancelada deixando um gostinho amargo com suas muitas escolhas equivocadas. E apesar do sucesso de crítica e bilheteria da reimaginação de J. J. Abrams, os novos filmes não foram uma unanimidade para o fandom.

Por isso a notícia da produção dessa nova série foi recebida com um misto de alegria e desconfiança. Alegria, obviamente, pela possibilidade de se assistir novas histórias e conhecer novos personagens. Desconfiança porque, falando francamente, a Paramount sempre demonstrou uma total inabilidade – junto a pouca boa vontade – em entender e agradar os fãs da franquia.

E a presença de Alex Kurtzman como produtor, tendo sido ele um dos responsáveis pelo reboot para os cinemas como roteirista, ao lado de Bob Orci, não foi exatamente motivo para alegria. Mas se sua presença preocupa, ao menos a promessa em abordar temas atuais e relevantes ajuda a afastar a desconfiança. Muitos alimentam a esperança da série retornar o caminho do debate sobre o que ocorre no mundo através de uma excelente embalagem tecnológica. Caminho esse que foi se diluindo um pouco a cada nova série.

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Desde antes de sua estreia em 1966, que o criador do programa, Gene Roddenberry, se propunha a levar o público episódios que divertiam ao mesmo tempo que levantavam profundos questionamentos. O primeiro piloto da série “The Cage”, foi acusado de ser cerebral demais pelos executivos da NBC por, dentre outras coisas, tratar dos perigos de uma iminente guerra nuclear e, principalmente, por colocar uma mulher como a segunda oficial mais importante da nave. Apesar desse piloto não ter sido aprovado, outro foi encomendando e, a despeito do que pensavam os executivos, a série jamais deixou de abordar os assuntos mais espinhosos e cerebrais da época. Temas como eugenia (A Semente do Espaço), política internacional (A Caminho de Babel) e mesmo a Guerra do Vietnã (Uma Guerra Particular) eram debatidos toda semana na Série Clássica. Tradição que se manteria nas séries posteriores.

A Nova Geração, apesar do começo irregular das duas primeiras temporadas, encontrou seu ritmo a partir da terceira, quando nos brindou com excelentes reflexões sobre os problemas do nosso cotidiano no futuro. Deep Space Nine deu prosseguimento mostrando os diversos tons de cinza de uma Federação em guerra com um inimigo particularmente ardiloso, sendo, inegavelmente, a série mais sombria (mas também um das mais queridas) da franquia.

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Já em Voyager, apesar de ser a série com a premissa mais interessante e de contar com a tripulação mais inclusiva de todas as Jornadas (uma capitã, um descendente de índios, um vulcano negro, uma meio humana meio klingon), sofreu com muitas ideias pra lá de equivocadas dos produtores. Mal esse que seria herdado por sua sucessora, Enterprise, que contava com o elenco mais talentoso até então reunido. Sexualização das personagens femininas (Sete de Nove em Voyager e T’Pol em Enterprise), episódios lamentáveis de tão ruins (“Limiar” da segunda temporada de Voyager e “A Night in Sickbay” também da segunda temporada de Enterprise, só para citar um exemplo de cada) e o total descaso pela continuidade da primeira e as tentativas canhestras de imprimir uma continuidade na segunda, foram alguns dos vários motivos que levaram a uma falta de interesse pelo público pelas séries. Como consequência: baixos índices de audiência e uma ausência da TV, onde reinou por 28 anos ininterruptos.

É claro que episódios ruins e a sexualização das personagens não foi um problema exclusivo dessas séries. Tanto A Nova Geração como Deep Space Nine e mesmo a Série Clássica sofreram desses males. E sim, tivemos episódios vencedores em Voyager e Enterprise. Infelizmente todo o potencial que ambas possuíam não foi plenamente aproveitado por seus produtores.

O que nos traz de volta para a nova série prometida pela CBS. Apesar da desconfiança de parte do fandom, o que não falta são motivos para termos esperanças. Embora o gênero Sci-Fi esteja meio em baixa ultimamente, estamos vivendo um período particularmente excepcional no que se refere às séries americanas, sejam elas transmitidas pela TV, sejam pelo sistema de streaming. Com qualidade de roteiros e produção antes só vistas nas telas dos cinemas, as séries esbanjam criatividade, inteligência e sensibilidade em histórias que vão de intrigas políticas (House of Cards), uso de drogas e narcotráfico (Breaking Bad e Narcos), terrorismo e política internacional (Homeland), até os dramas pessoais de adolescentes (Glee) e as dificuldades de se viver num mundo apocalíptico (The Walking Dead), caminhando pelos mais diferentes gêneros: fantasia (Game of Thrones), terror (American Horror History), humor (Fargo), super heróis (Gotham, Daredevil, Flash) e, até mesmo Sci-Fi (Sense8, The 100, além da veterana Dr. Who e do retorno de Arquivo X). Exemplos de qualidade e inteligência em boas séries não faltam.

Séries

E é bom mesmo que se olhem para essas novas séries, pois elas representam aquilo que o público mais quer ver na atualidade. E podemos resumir isso em 3 aspectos intimamente ligados entre si: subtramas instigantes, foco nos personagens e continuidade. Todas as séries de Jornada sempre se focaram demais na tripulação principal dando pouco espaço para o surgimento subtramas ligadas a personagens recorrentes. Somente Deep Space Nine e Enterprise obtiveram algum êxito nesse aspecto nos brindando com personagens maravilhosos, tais como Gul Dukat e Shran.

O segundo aspecto sempre foi bem trabalhado em Jornada, porém, novamente em Voayger tivemos uma quantidade enorme de episódios baseados somente na tecnobaboseira (aquele papo mole pseudocientífico que só serve pra encher linguiça, sobre o qual você pode aprender mais nesse podcast). Isso levou a um desenvolvimento próximo a zero de vários personagens, sendo Kes e Harry Kim os que mais sofreram com isso.

E, finalmente o terceiro aspecto, a meu ver, é o requisito básico a ser considerado por qualquer série que queira ter sucesso atualmente. Se olharmos os exemplos das séries citadas mais acima, percebemos que todas elas prezam pela continuidade.

No que se refere a Jornada esse é um ponto importante. Durante os anos 60, período em que a Série Clássica foi exibida, as séries tinham caráter episódico. Continuidade era algo raro e a série refletia isso com histórias fechadas em si mesmo. A Nova Geração manteve esse padrão durante os anos 80, mas já flertava com a continuidade. Foi em Deep Space Nine que a continuidade passou a ter importância em especial a partir da terceira temporada quando da introdução da Guerra contra o Dominium, gerando bons resultados. Por essa época (início dos anos 90) as séries ainda mantinham o caráter episódico, porém a continuidade já começava a despontar. Infelizmente esse caráter se perdeu quase por completo em Voyager e foi mostrada de forma totalmente ineficiente em Enterprise nas duas primeiras temporadas e equivocada na terceira.

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É importante ressaltar que, mesmo observando todos esses aspectos, os produtores não podem esquecer que estão desenvolvendo uma série de Jornada nas Estrelas. Existe uma história de quase 50 anos além de um verdadeiro cânone que merece e, acima disso, deve ser respeitado. Mesmo olhando para os exemplos de fora, deve-se, antes de mais nada, olhar para os exemplos de dentro da própria franquia. São, como já dito, quase 50 anos, mais de 700 episódios divididos em cinco séries, além de 10 filmes para cinema (descontando as duas releituras de Abrams). É um rico acervo de muitos acertos e de alguns erros também.

Existem outros fatores importantes que podem garantir um retorno de sucesso para a série a exemplo do interesse do público pela franquia reavivado com os filmes de J. J. Abrams e a fidelidade dos fãs etc. Mas esse debate fica para outra hora, em virtude do tamanho dessa postagem e mesmo porque não foi minha intenção esgotar o assunto. Apenas procurei levantar algumas considerações que considero válidas. Por hora podemos concluir que, felizmente, Jornada tem muito mais pontos a favor do que contra para voltar a fazer sucesso.

Fiquem a vontade para comentar, concordando ou não, mas sempre com respeito e educação. E se você curte o Habeas Mentem não deixe de curtir também nossa fanpage.

Vida Longa e Próspera a todos.

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2 comentários sobre “O QUE ESPERAR DA NOVA SÉRIE DE JORNADA NAS ESTRELAS?

    • Ainda não tinha tido oportunidade ouvir os podcasts da Seção 31. Ontem finalmente ouvi o podcast. E o que tenho percebido é que, de maneira geral, os fãs estão todos esperançosos e temerosos das mesmas coisas. Que os envolvidos possam usar de todo o background e know-how da franquia, para nos entregar um produto tão bom quanto os que vemos atualmente, seja na TV seja pelo streaming.
      Obrigado pelas palavras e fique a vontade para comentar sempre.
      Vida Longa e Próspera!

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