161 ANOS DE ARACAJU: UM BREVE RELATO DE SUA HISTÓRIA

Hoje, 17 de março é o dia em que se comemora o aniversário de Aracaju, capital do estado de Sergipe, onde tenho o orgulho de ter nascido e onde vivo até hoje. Para comemorar a data, me propus a escrever um breve relato de seu nascimento e evolução histórica.

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Bandeira de Aracaju-Wikimedia

Fundada por Cristóvão de Barros em 1º de janeiro de 1590 (sendo, portanto, a quarta cidade mais antiga do Brasil), a cidade de São Cristóvão serviu de Capital da então província de Sergipe, desde sua emancipação política da Bahia, em 8 de julho de 1820. E assim permaneceu até 17 de março de 1855, quando o Presidente da Província, Inácio Joaquim Barbosa, assinou a resolução que elevava o pequeno povoado de Santo Antônio do Aracaju, na região do Cotinguiba, com o intuito de transformá-la na nova capital da Província.

Uma fusão de fatores econômicos e políticos motivaram a mudança. Desses o principal era a necessidade do escoamento do açúcar, principal produto de exportação, o qual ocorria em sua maior parte, justamente às margens do pequeno povoado, através da Barra do Cotinguiba, como era então conhecido o rio Sergipe naquela região. Percebendo a importância que o produto tinha na economia local, bem como pretendendo corrigir os problemas gerados pela concorrência do café no sul e a extinção do tráfico negreiro, Inácio Barbosa procurava criar na região um porto que pudesse facilitar o escoamento do açúcar – consequentemente aumentando a produção e barateando os custos, além de diminuir a quantidades significativas que eram escoadas pelo porto da Bahia. Para tanto, ainda em 1854, mudou para a praia do pequena povoado a Alfândega, abriu uma subdelegacia, uma agência dos correios e a mesa de rendas provinciais. Preparava o terreno para a mudança.

Do ponto de vista político, existia na elite sergipana o desejo de romper com o passado colonial, visto como antiquado e cuja representação era encontrada na velha São Cristóvão, com suas ruas estreitas e tortas, cheias de ladeiras. A nova capital representaria a modernidade almejada pelos poderosos de então, junto ao enfraquecimento da elite dos senhores de engenho do Vale do Vaza-Barris.

A 2 de março de 1855, após reunião preliminar no engenho Unha de Gato de propriedade do Barão de Maruim, foi convocada uma Assembleia Provincial numa das poucas residências de Aracaju. João Gomes de Melo, o Barão de Maruim, possuía especial interesse na transferência da sede do governo, pois aumentaria assim a influência política e o poder comercial dos senhores de engenho do vale do Cotinguiba na província (liderados pelo Barão).

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Dois momentos distintos da Colina do Santo Antônio (início do século XX e atualmente), onde Aracaju nasce

Apesar de alguns protestos de pouco efeito durante os debates na Assembleia – que se estendera até o dia 16 ­–, onde se enfatizou a insalubridade e áreas inóspitas da vila com seus areais e brejos, a transferência foi aprovada com 16 votos a favor e apenas 2 contrários, esses de  Martinho Garcez e do Vigário Barroso. E, através da resolução n. 413 de 17 de março de 1855, o Presidente Inácio Barbosa eleva a categoria de cidade o pequeno povoado de pescadores transformando-a na nova capital de Sergipe.

Mas engana-se quem pensa que a mudança foi ponto pacífico para a sociedade sergipana, em especial a são cristovense. Entrou para o imaginário popular a revolta do Sr. João Nepomuceno Borges, o João Bebe-Água, nem tanto por ter arregimentando 400 homens em protesto, e muito mais pela sua hoje folclórica profecia do retorno da capital à sua São Cristóvão. Tanta era sua certeza do cumprimento de sua profecia, que João Bebe-Água teria guardado uma caixa de fogos atrás da porta de sua casa para comemorar o feito. Morreu pobre, sozinho, desacreditado e sem ter visto o cumprimento de seu sonho. Por outro lado, jamais se dispôs a por os pés na nova capital.

Uma vez feita a mudança, o desafio era dar ao vilarejo de pouco mais de cem pessoas, na maioria simples pescadores, os ares de modernidade almejados por seus idealizadores. Entra em cena o capitão de Engenharia Sebastião José Basílio Pirro, ao elaborar a primeira planta da nova cidade num traçado em xadrez “dentro de um quadrado de 540 braças de fado estavam traçados quarteirões iguais, de forma quadrada com 55 braças de lado, separados por ruas de 60 palmos de largura. Como se vê, o supra-sumo da simplicidade e do rigor geométrico”. Era o Quadrado de Pirro, termo cunhado pelo engenheiro sergipano Renato Conde Garcia, em seu livro de mesmo nome.

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Palácio do Governo do Estado, hoje transformado no Palácio Museu Olímpio Campos

Drenados os pântanos e feitos os devidos aterramentos iniciou-se a construção dos primeiros edifícios públicos da nova capital: “o palacete provisório para sediar a presidência, o quartel para a Polícia, e, com contribuições particulares, inclusive dele, a Casa da Oração, de pequeno tamanho, para as práticas religiosas enquanto a Matriz N. S. da Conceição não estivesse concluída, tendo sido lançados os alicerces,” conforme nos conta a Geógrafa e Historiadora Maria Thétis Nunes em artigo publicado no site Infonet. Junto a essas somava-se a construção de residências em números sempre crescentes.

Mas eis que, a 6 de outubro daquele mesmo ano de 1855, a província era sacudida com a morte de Inácio Barbosa, vítima de malária. Terminadas as obrigações fúnebres, instalou-se a dúvida sobre o destino da nova capital, visto não ter sido seu fundador a única vítima das “febres intermitentes”. Estariam as pragas rogadas por João Bebe-Água fazendo cumprir sua profecia?

Não seria dessa vez que João poderia comemorar com seus fogos. Os presidentes seguintes mantiveram as construções já iniciadas e deram início a outras, tão necessárias para se minimizar os evidentes problemas sanitários. Em 1860, a cidade recebe a visita ilustre do Imperador Dom Pedro II, tendo registrado em seu diário o funcionamento normal da cidade. Mas os problemas de insalubridade ainda persistiam nos arredores da cidade, onde viriam se constituir os primeiros núcleos socialmente periféricos ao norte e oeste da capital. A porção sul, passa a ser ocupada pela parcela da população mais abastada.

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Atracadouro onde desembarcou o Imperador Dom Pedro II e sua comitiva. Hoje é conhecida como Ponte do Imperador

Da fixação de escravos libertos e migrantes vindos do interior fugindo da seca e do cangaço surge os antigos Bairro do Aribé (hoje Siqueira Campos) e Maçaranduba (hoje Bairro Industrial), que, como entrega a sua atual denominação, abrigou o núcleo industrial da capital, com destaque para o setor têxtil.

Aracaju vê o nascer do novo século ainda com o jeito de cidade interiorana, o que levou o jurista Gumercindo de Araújo Bessa a chama-la de a tabaroa vestida de chita e calçada de tamancos. Somente nos primeiros anos do século XX a capital teria, finalmente, implantados os sistemas de abastecimento de água encanada e esgotamento sanitário, instalação de energia elétrica e de um sistema de bondes à tração animal. Com a chegada de arquitetos e escultores italianos para a reforma do Palácio do Governo, há toda uma renovação arquitetônica, com os novos palacetes procurando seguir a tendência lançada na sede do governo.

Novos bairros surgem a partir da década de 50 procurando minimizar o processo de favelização recorrente além de atender a demanda de reformas urbanas visando a modernização da cidade. É construído o conjunto habitacional Agamenon Magalhães atendendo a primeira demanda. Para a segunda, um conjunto de medidas são tomadas, sendo as mais notórias a derrubada do Morro do Bomfim no Centro da Cidade para construção do Terminal Rodoviário Governo Luis Garcia, atualmente conhecido como Rodoviária Velha e a construção do Aeroporto Santa Maria.

Foi  a descoberta e exploração de petróleo no município de Carmópolis (distante cerca de 31 km da capital) em 1963, que iria impulsionar o desenvolvimento e crescimento de Aracaju. Houve um intenso surto de grande impacto urbano causado pela chegada da Petrobrás no Estado, centralizado na capital. Assistiu-se uma elaborada integração rodoviária, favorecida por sua posição estratégica, praticamente equidistante entre o litoral norte e sul, bem como da reduzida dimensão territorial do estado.

Procurando atender a demanda populacional por moradia gerada por esse impacto urbano, é firmada parceria com a COHAB o que levou a construção de inúmeros Bairros e conjuntos habitacionais no período entre 1977 e 1989, principalmente em direção ao sul da cidade. Essas eram relativamente distantes das consideradas áreas nobres mais próximas ao centro da cidade e da região que, no início do século XXI daria origem ao Bairro Jardins, atualmente uma das áreas mais valorizadas da cidade junto ao Bairro 13 de Julho, bem próximo. São dessa época também os conjuntos Augusto Franco, Orlando Dantas, Parque dos Coqueiros, inseridos respectivamente nos Bairros Farolândia, São Conrado e Inácio Barbosa, antigas áreas de mangues, parcialmente drenados e aterrados.

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Antigo farol de Aracaju no atual Bairro Farolândia ao qual nomeia, no inicio do século XX (antes da existência do Bairro) e atualmente após reforma

É a partir da década de 70 que a cidade de Aracaju vê seu mais intenso e continuado processo de crescimento e modernização. Um processo que aos poucos foi tirando sua característica marca de capital com jeito de cidade interiorana. Junto com a modernização, o inevitável pacote negativo que acompanha o processo trouxe-nos problemas socioambientais, de segurança pública, mobilidade urbana dentre outros, praticamente inexistentes antes da chegada do século XXI. Embora ainda vestida de chita e calçada em seus tamancos, Aracaju finalmente deixa sua tabaroice.

Hoje comemoramos mais um aniversário da cidade que, nas palavras do historiador Fernando Porto, foi “uma das mais felizes vitórias da Geografia”. Passados 161 anos de sua elevação a categoria de cidade, Aracaju, que foi projetada – mas não planejada –, para se tornar capital, enfrenta desafios e dificuldades, não muito diferentes daqueles enfrentados em seus primeiros anos de existência como a cidade mais importante do estado. A esses se juntam os novos desafios impostos pela modernização, conforme citado acima, sobre os quais se faz urgente a necessidade de se pensar gestão, políticas e reformas urbanas visando sua resolução, o que, infelizmente, tem passado longe da pauta da atual gestão municipal.

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Vista noturna do Bairro 13 de Julho

Fontes usadas nesse texto (e para se aprender um pouco mais):

Brasiliana Fotográfica

História e-história

Palácio Olímpio Campos site oficial

Blog Sem. Roberto

Blog Grazielle Hora

Sergipe em Fotos

Fontes da História de Sergipe

Livro: O Meio Ambiente Urbano: Visões Geográficas de Aracaju

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2 comentários sobre “161 ANOS DE ARACAJU: UM BREVE RELATO DE SUA HISTÓRIA

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