95-SECOS & MOLHADOS

SECOSMOLHADOS

Secos & Molhados

Banda: Secos & Molhados

Integrantes: João Ricardo (vocais, violão e harmônica), Ney Matogrosso (vocais) e Gérson Conrad (vocais e violão)

Gravação: 23 de maio a 7 de junho de 1973 no Estúdio Prova, em São Paulo

Lançamento: Agosto de 1973

Duração: 30min 54s

Produção: Moracy do Val

Sobre o disco:

Início da década de 70. Em plena Ditadura Militar, com a censura e repressão correndo solta, surge um grupo abusando da maquiagem, figurinos exóticos, letras marcantes (algumas provocativas e sugestivas) e um rebolativo cantor de voz afinadíssima. Esses são os Secos & Molhados, único representante brasileiro a constar nessa lista.

Mesclando canções do folclore português com tradições brasileiras e poemas de Vinicius de Morais e Manuel Bandeira, o disco é constante do início ao fim, não apresentando queda de qualidade em nenhuma faixa. Mesmo as mais complexas ou de difícil entendimento conseguem encantar graças a bem dosada harmonia entre letra e música.

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O disco foi um sucesso imediato de vendas, que surpreendeu a todos. A gravadora Continental tinha produzido apenas 1.500 cópias, mas graças a uma aparição do grupo na estreia do Fantástico, gerou uma expectativa no público. Resultado: as 1.500 cópias rapidamente se esgotaram levando a gravadora, segundo conta Ney Matogrosso, a derreter os discos que não vendiam para produzir mais cópias de Secos & Molhados.

Tendo como influências os Beatles e o florescente tropicalismo, de onde o grupo tirou muito de suas, para a época, ousadas performances ao vivo, o disco está recheados de hits, que ainda hoje fazem sucesso, sendo “Rosa de Hiroshima” e “O Vira” os maiores sucessos. A maior virtude do ábum, no entanto, é sua capacidade de agradar um grande espectro de públicos, segundo Antonio Carlos Morari, no livro Secos & Molhados da editora Nórdica: “Primavera nos Dentes” e “Mulher Barriguda” para os engajados, “Rosa de Hiroshima” tornou-se hino dos pacifistas, “Prece Cósmica” para hippies e místicos, “Rondó do Capitão” embalava o público infantil, “O Vira” fazia a alegria do público massivo das rádios e, por fim, os poemas musicados davam o tom erudito (sem parecer pomposo) para ouvintes mais letrados.

Existe certa controvérsia se esse disco é ou não um disco de rock. Os próprios integrantes da banda já afirmaram terem se surpreendido com críticas que classificavam o trabalho como rock. Ao tomar conhecimento da lista estranhei é bem verdade que estranhei sua presença. O disco em si possui elementos que fazem parte da origem do próprio rock, a exemplo do folk, além da psicodelia e do glam rock que fizeram muito sucesso nos anos 1960 e 70. Também são vários os críticos que consideram esse primeiro trabalho dos Secos & Molhados um disco de glam rock, com todas as características que fizeram esse sub-gênero tão marcante tanto na caracterização como na sonoridade. Assim, considero esse debate se o disco é rock não meio desnecessário, uma vez que são vários os elementos que confirmam a veia roqueira desse disco.

Na realidade, vejo nesse suposto debate uma forma de preconceito velado em relação a banda, por parte de uma parcela de ditos roqueiros. Pesquisando sobre o álbum para esse texto, encontrei muitas críticas a sua presença nessa lista. Críticas vazias onde se nota um intenso machismo para com o disco. Para alguns dos autores dessas críticas, o rock parece se resumir aos subgêneros mais pesados, tais como o punk e o heavy metal, não permitindo ou aceitando versões – que em suas mentes preconceituosas – são menos másculas.

Num desses sites, aliás, o autor se propôs a comentar todos os discos, cinco por post (ideia interessante), onde destilou muito ódio a roqueiras mulheres (chamando inclusive The Go-Go’s de periguetes, muito provavelmente porque elas ousavam fazer tudo aquilo que roqueiros homens faziam desde sempre, ou seja, sexo casual e uso de drogas) e bandas mais populares a exemplo do U2. O autor ainda menosprezou as bandas que procuravam inovar saindo do lugar comum do gênero, desqualificando os excelentes trabalhos do New Order, Foo Fighters e Supertramp (banda a qual ele sequer comentou de fato), questionando se tais trabalhos eram mesmo rock, apenas porque não se enquadram aos seus padrões, os quais ele jamais explica quais são, diga-se de passagem. Nos posts seguintes (ele parou na 79ª posição da lista), ele se divide em elogiar o que gosta – David Bowie, Kiss, AC/DC etc. – e continuara a malhar o que não gosta. Chega ao cúmulo de dizer que prefere ver Scheila Carvalho rebolando no É o Tchan a escutar Garbage. Por aí já se tira o nível do rapaz.

E, ao tratar dos Secos & Molhados, ele simplesmente vocifera: “Preciso comentar algo?! EU PRECISO REALMENTE COMENTAR ALGO SOBRE ISSO?!” Precisa sim, amigão, precisa e muito.

Não gostar de determinado ritmo, gênero, subgênero ou tendência é algo normal. Anormal é tentar usar nosso gosto pessoal pra tentar desmerecer ou não determinada banda, disco, música, qualquer coisa, aliás. Quando me propus a falar um pouco sobre cada um dos cem discos da lista da Playboy, não foi porque a considero A LISTA. Na realidade eu poderia ter usado qualquer uma das zilhões de listas existentes mundo a fora, algumas (opinião minha) melhores outras piores. Por que essa então? Por ter sido com ela a primeira vez que eu tomava conhecimento pra valer de nomes que admiro e escuto bastante. David Bowie, The Who, Iggy Pop e sim, The Go-Go’s e Alanis (que podem não ter feito nada de bom depois, mas Beauty and Beat e Jagged Little Pill são sim excelentes trabalhos). Como eu disse no primeiro post, não considero nenhuma lista como sendo perfeita, mas são boas oportunidades para se aprender mais. E, ao escrever sobre cada um dos discos dessa lista, tenho tentado a muito custo deixar de lado minha opinião, e analisar cada um deles com o máximo de isenção possível.

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Secos & Molhados é rock sim, mas também é MPB, poesia, crítica social, engajamento político e muito mais. Tenho um carinho especial por esse disco, pois em minha casa existia uma cópia em vinil do ano de seu lançamento. Cresci ouvindo os sucessos do grupo e considero esse um dos mais belos discos já gravados em nosso país.

Para finalizar, duas curiosidades: o grupo ficou tão famoso no Brasil na época do lançamento desse disco que acabou dando origem ao mito de que os integrantes do Kiss teriam se inspirado nos brasileiros para compor suas maquiagens. E a curiosa capa do disco é considerada uma das mais icônicas da história da música brasileira e tem uma história bem bacana que vale a pena conferir aqui nesse link.

Abaixo vocês conferem a belíssima interpretação de Ney Matogrosso para Rosa de Hiroshima ao vivo no Maracanazinho

Para conferir os outros textos é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock

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Um comentário sobre “95-SECOS & MOLHADOS

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