CAPITÃES DA FROTA ESTELAR: JEAN-LUC PICARD

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Criados para serem o exemplo supremo da moral, seriedade e comprometimento, os Capitães da Frota Estelar em Jornada nas Estrelas demonstraram todas essas qualidades de inúmeras maneiras nas cinco séries exibidas na TV. Seja nos momentos épicos, salvando a Galáxia ou naqueles mais íntimos quando, não raro, se descobrem tão somente humanos.

E é justamente quando todo o poder e autoridade são tirados de suas mãos, que eles são capazes de demonstrar a verdadeira força que possuem. Força que passa longe de ter a seu comando homens e mulheres dispostos a segui-los ou armas poderosas como phasers e torpedos fotônicos. Uma força que vem de um caráter forjado, não nas terríveis batalhas espaciais, mas sim no íntimo das pequenas derrotas nas tramas da vida que ensinam o poder de sua luz interior. E, no processo, o humano toma o lugar do herói imbatível.

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Jean-Luc Picard

Primeiro e único cadete a vencer a Maratona da Academia da Frota Estelar. Criador de uma manobra ousada, em face de da morte certa quando no comando em batalha da condenada U.S.S. Stargazer. Comandante das U.S.S. Enterprise D e E em inúmeras crises e missões. Glórias que tornaram famoso o Capitão Jean-Luc Picard, alçando-o a condição de lenda, de alguém maior que a própria vida. No entanto, assim como seu colega, James T. Kirk, foram momentos bem diferentes os gravados nas mentes e corações dos fãs.

Naquele que é considerado o mais belo e tocante episódio da Nova Geração, “Luz Interior”, temos um desses momentos que nos falam ao coração. Obrigado a encarar uma face íntima sua nunca antes revelada (talvez nem pra si mesmo), Picard é levado a viver toda uma vida comum num pequeno vilarejo de um planeta esquecido, ao lado de esposa e filhos. Longe dos perigos e das glórias das aventuras estelares, Picard descobre a vida que optou por não ter para se dedicar exclusivamente ao seu maior sonho: servir na Frota Estelar. Mas aqui o capitão não mais existe. Nada de grandes combates, manobras mirabolantes ou inimigos hostis. Há apenas um chefe de família comum. Com preocupações comuns. Apenas o pai e marido lidando e sofrendo com as dificuldades diárias de se ter e gerir uma família.

Mas, por fim, aquela vida acaba e Picard volta à ponte da Enterprise. Mas ele já não é mais o mesmo homem. O lendário Capitão sentiu o agridoce gostinho da vida comum. Uma vida que, mesmo não tendo sido de fato sua, percebe-se, sentirá falta.

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Belo Cartaz da artista Rose Sullivan para o episódio “Luz Interior”

É no filme “Generations”, onde se percebe a falta que essa outra vida faz a Picard. Melhor: onde se entende a falta dessa vida não vivida de fato, mas desfrutada intensamente em sonho. Ao saber da morte de seu irmão Robert e de seu jovem sobrinho René num trágico incêndio, seu único resquício de família é perdido irremediavelmente. Embora nunca o tivesse revelado para ninguém, Picard revela a Conselheira Troi que manteve por anos certa medida de paz com a importância que ele sentia para com a responsabilidade por ele sentida, de manter e dar continuidade a rica e orgulhosa linhagem de sua tradicional família. Ele sabia que essa responsabilidade estava bem cuidada nas mãos de seu obstinado irmão e do jovem filho dele. Sem essa culpa a persegui-lo, pode correr atrás de seu sonho infantil. Pode cavalgar pelas estrelas despreocupado. A família continuaria.

Mas agora não há mais Robert e também não há mais René. A família não continuará. Ao dar-se conta que há mais dias que se foram dos que os ainda por vir, Picard se vê como o último de sua linhagem. Na morte da única família que realmente teve, nesse caso, a do irmão, confronta-se com sua própria mortalidade e, com ela, sua humanidade. E apesar de amar o que conquistou, volta a sentir o desejo pela vida que não teve.

jean-luc-picard-2Arrepender-se de decisões tomadas no passado. Decisões que acreditamos terem feito toda a diferença em nossa vida. Picard sempre se arrependeu de sua juventude indisciplinada e arrogante, que fatalmente o levou a uma briga onde perderia seu coração natural, sendo obrigado a usar um órgão artificial. Quando precisa substituí-lo, Picard é forçado a encarar novamente essa pequena ponta solta de sua vida. Uma ponta que há muito o incomoda mas sobre a qual jamais falou. Jamais encarou. Mas agora, que é obrigado a realizar o procedimento de substituição da peça, Picard sente a necessidade de expor esse arrependimento. Sem opção, tendo apenas como companhia o jovem Wesley Crusher, desabafa sobre o arrependimento de ter sido tão indisciplinado e arrogante. E quis o destino que seu interlocutor fosse o jovem Crusher. O filho da amiga que amou (e talvez ainda ame). O filho do amigo a quem enviou numa missão fatal. O filho que não teve. Mais uma vida não vivida.

Levado a reviver os momentos que antecederam essa briga no excelente episódio “Trama”, Picard aproveita a chance para poder consertar aquela pequena ponta solta na tapeçaria de sua vida. Mas ao fazê-lo toda a trama de sua vida se desfaz. Some o intrépido e audacioso Capitão, cedendo lugar a um apagado tenente júnior da astrofísica da nave. Alguém menos arrogante e indisciplinado. Alguém que não lutou com três nausicanos e por consequência não perdeu seu coração natural. Alguém que não enfrentou a morte, jamais entendeu o quão precioso é cada momento, como é importante cada decisão, certa ou errada e o que se aprende com elas.

E, ao menos aqui, Picard entende bem a importância de cada ato praticado e cada decisão tomada na formação da pessoa que somos. Percebe que, nem sempre, a vida que não vivemos seria melhor ou mais perfeita que aquela de fato vivida.

Finalmente, é curioso notar que, enquanto a humanidade de Kirk se manifesta nas perdas que foi levado a suportar, Picard tem a sua revelada em tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, sequer pode desfrutar. Ou, de fato, optando por isso. E o bom capitão parece estar bem ciente disso.

Devo um agradecimento especial à Samantha do Meteorópole por me lembrar do episódio “Samaritan Snare”, o que ajudou muito na elaboração do texto.

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