O PRÍNCIPIO DA SMURFETTE NOS SERIADOS JAPONESES

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Já faz um tempão, a amiga Lady Sybylla compartilhou em sua página do Facebook um post do Blog A Maior Digressão do Mundo… falando sobre a Representação feminina: O princípio da Smurfette. No texto a autora do blog explica a diferença numérica entre personagens femininas e masculinas em desenhos e os clichês usados para representa-las. Na hora em que comecei a ler o texto não teve como não lembrar os seriados japoneses que eu tanto gostava de assistir quando criança. Flashman, Changeman, Jaspion, Jiraya e outros fizeram parte da infância de muita gente no final da década de 80, início da de 90. E eu era viciado!

Pra quem não lembra (!) ou pra quem simplesmente não viveu essa época, você pode encontrar aqui uma breve visão desses seriados.

No excelente texto da Gizelli, vemos que nos desenhos que assistíamos na infância, as mulheres eram sempre uma minoria e quase nunca assumiam um papel que não fosse a de coadjuvantes e/ou de namoradas dos personagens principais, sempre homens. Essa lógica funcionava nos seriados japoneses também.

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Kyomi Tsukada, a intérprete da androide Anri

Os Metal Heroes eram sempre homens, a maioria deles tendo uma assistente ou companheira feminina que os acompanhavam em suas aventuras. Na maior parte das vezes usada apenas como alívio cômico. Esse foi o caso da Anri em “O Fantástico Jaspion”, uma androide super avançada construída pelo mentor do herói, Edin, cujo propósito era acompanha-lo auxiliando-o na luta contra Satan Goss. No entanto, ela era usada mais costumeiramente utilizada nessas cenas de alívio cômico junto com o bicho-mascote-alienígena-colega Myia. Poucos foram os episódios centrados na Anri, nenhum deles muito relevante, com exceção talvez de dois deles (o 30 e 31) onde a sua participação foi decisiva pra salvar o herói em perigo.

Já o caso de outro Metal Hero, “Guerreiro Dimensional Spielvan” é interessante. Apesar da Manchete ter chamado a série de “Jaspion 2”, ela não tinha quase nada parecido com seu colega de armadura metalizada. Pra início de conversa o herói tem ao seu lado a Lady Diana, não como mera assistente mas sim como sua companheira de combates, uma guerreira igual a ele, algo muito interessante. Além disso, temos a irmã de Spielvan que, subjugada pelo Império Water, lutava contra os heróis até ser liberta e passar a ajuda-los utilizando o codinome Lady Hellen. Ambas protagonizaram vários episódios (9 ao todo) além de terem um papel destacado em vários outros. Um detalhe interessante de se notar, no entanto, é que nenhuma delas possuía um golpe final, usado para destruir os monstros mais poderosos. Essa atribuição do golpe final, aliás, se analisada atentamente é sempre uma atribuição masculina em qualquer seriado tokusatsu.

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Lady Diana, Spielvan e Lady Helen

Outro destaque de “Spielvan” é o número de vilãs femininas, embora essas sejam menos perigosas e relevantes que as vilãs de “Jaspion”, com exceção talvez da Rainha Pandora a verdadeira líder do Império Water. Em Jaspion esse papel de liderança era ocupado por Satan Goss e seu filho MacGaren. Já as vilãs femininas desse último além de mais perigosas e melhor trabalhadas, acabaram se tornando clássicas entre os fãs. Originalmente a série tinha como vilões recorrentes os asseclas de MacGaren, um grupo de mercenários intergalácticos chamado de Quadridemos, formados por Purima, Gyoru, Iki e Zampa, sendo que desde o início as integrantes femininas (Purima e Gyoru) se destacaram em relação a seus companheiros masculinos. Tanto que, logo cedo na série, esses encontraram seu fim na ponta da “Spadium Laser” o golpe final de Jaspion, enquanto Purima e Gyoru permaneceram até quase os episódios finais.

Ainda em Jaspion temos as irmãs e bruxas galácticas Kilza e Kilmaza, personagens maldosas e sem escrúpulos, que criaram os melhores momentos de toda série tornando-se um sucesso absoluto entre os fãs. O bordão mágico usado por Kilza, “Berebekan-Katabamda Kikerá!” é lembrado até hoje! Já as vilãs de “Spielvan” não tinham nada de especial, sendo muito caricatas e pouco convincentes como elementos perigosos, apesar de Lay, Shadow e Gash, ocuparem postos similares ao de Purima e Gyoru. Nesse quesito a grande vilã da série era realmente Herbaira, a versão maligna de Lady Hellen, ainda sobre o controle do Império Water.

Deixando os Metal Heroes de lado por um instante, vamos dar uma olhadinha em nossos representantes dos Super Sentais ou Super Esquadrões. Numa olhada geral todos os Sentais são formados por cinco jovens, sendo três homens e duas mulheres. Existem algumas variações entre um e outro seriado, mas no caso dos “Changeman” e “Flashman” aqui analisados essa foi a regra. Embora minoria, as moças aqui são tratadas como guerreiras de igual valor e tão competentes e fortes quanto seus companheiros, tendo inclusive a oportunidade de mostrar certa superioridade em episódios quase totalmente focados nelas. Foi assim com Mai e Sayaka em “Changeman” e com Lu e Sara nos “Flashman”, onde as garotas foram o destaque e peças fundamentais sem as quais os monstros não teriam sido derrotados em alguns episódios.

Vemos aqui que as mulheres nos Sentais parecem ter sido melhor representadas do que nos Metal Heroes? Não tão rápido! Notem que eu disse: “certa superioridade” e “quase totalmente focados”.

Apesar de bem representadas nas séries, as moças tiveram pouquíssimos episódios centrados nelas. Em Changeman, que contou um total de 55 episódios, 7 desses tiveram Mai como protagonista e apenas 5 com Sayaka, sendo que pelo menos 2 desses foram protagonizados pelas duas ao mesmo tempo e um Sayaka dividiu com Tsurugi, o líder do grupo. Ou seja, bem menos da metade dos episódios teve uma das moças a frente da história. Nos “Flashman” a situação não é muito diferente, pois numa série de 50 episódios temos 5 com a Sara de protagonista, 2 para a Lu e mais dois com ambas dividindo o protagonismo. Nesse caso específico temos dois pontos a se destacar: primeiro, que muitos foram os episódios centrados no grupo como um todo, sem destacar ninguém individualmente; segundo, Sara teve um episódio a menos que os colegas homens Dan e Go (que protagonizaram 6 cada um), embora se contarmos os dois episódios divididos com a colega Lu, na prática ela protagonizou 7 episódios, ou seja, um episódio a mais que seus dois colegas.

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As representantes femininas dos Flashman e Changeman: Pink Flash e Yellow Flash e Change Mermaid e Change Phoenix

O que podemos perceber nessa salada de números? Apesar de terem algum destaque, as personagens femininas dos super sentai também eram facilmente esquecidas pelos roteiristas quanto ao protagonismo e destaque. Nas duas séries em questão os homens sempre tinham maior destaque, em especial o líder vermelho, que, não raro acabava tendo destaque mesmo nas histórias das heroínas. Um exemplo bem interessante é o episódio 19 de Changeman “A Fúria de Sayaka”, que, apesar do nome, tem no Change Dragon Tsurugi o verdadeiro protagonista da história, apenas por que os roteiristas quiseram assim.

Já no quesito vilãs, ambos eram um pouquinho menos desiguais: os Changeman apresentaram a Princesa Shima e mais para frente a perigosa Rainha Ahames, minoria num grupo que contava com três vilões masculinos, enquanto nos Flashman as vilãs são representadas por Néfer, Urk e Kirt, num grupo de 4 vilões masculinos. Apesar de carismática, Shima foi pouco explorada na série, enquanto Ahames teve um arco relativamente longo e interessante, além de ser utilizada com regularidade ao fim desse. Já nos Flashman, Néfer era a grande vilã tendo participado de inúmeros episódios de destaque, enquanto Urk e Kirt eram mais vilãs periféricas, de pouco destaque, embora aparecessem durante quase toda a série.

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As perigosas e carismáticas vilãs: Rainha Ahames e Princesa Shima nos Changemans e a mestre os disfarces Néfer em Flashman

Assim como os Metal Heroes, nos Super Sentais a participação feminina era mais marcante e, em determinados casos, melhor que a masculina somente no âmbito das vilãs. Apesar de serem guerreiras poderosas e competentes as heroínas foram em geral ignoradas e, algumas vezes, mal utilizadas ou utilizadas como alívio cômico ou ainda sendo mostradas como mais sensíveis e propensas a cederem às emoções do que seus colegas homens.

É claro não podemos esquecer que, apesar desses problemas, os tokusatsus foram, de certa maneira, bem mais representativos em termos de gênero do que outras produções equivalentes, em especial se comparados às produções norte-americanas. Para uma sociedade onde a representação feminina possui uma série de preconceitos machistas isso não pode passar despercebido. E, apesar dos aspectos negativos, a existência de tantas personagens femininas fortes, destemidas e independentes sempre foi uma bem vinda fonte de modelos e exemplos para as meninas, em geral acostumadas a verem as mocinhas serem salvas ao invés de se salvarem ou mesmo salvarem outros.

Com esse texto procurei fazer um recorte do que foi mostrado da representação feminina em quatro das séries que eu mais assisti, numa tentativa de análise de como se deu essa representação tanto do lado das heroínas como das vilãs. Obviamente num universo tão vasto quanto os dos tokusatsus é muito complicado se analisar tudo o que foi mostrado sobre o tema. Uma matéria que aborda um pouco mais extensivamente a participação feminina nos tokusatsus é essa do blog TokuFriends.

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