MARIA BEATRIZ NASCIMENTO

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Mais um oito de março passou e, novamente, tanto a mídia como as redes sociais foram tomadas pelas tradicionais congratulações vazias sobre a beleza feminina, sua importância na sociedade e similares. Verdade que esse ano surgiram boas manifestações evocando a discussão de temas verdadeiramente importantes relacionadas à data, a exemplo da desvalorização e da violência enfrentadas pelas mulheres, diária e historicamente, trazendo discussões, debates e reflexões pertinentes sobre esses e outros temas relacionados.

Nesse sentido pensei em dar continuidade ao texto publicado ano passado “Oito Mulheres Para se Conhecer Nesse Oito de Março”, cujo objetivo – entregue já no título – é o de relembrar e também dar a conhecer a história e os feitos de mulheres em diferentes áreas. Dessa vez imaginei uma lista apresentando oito mulheres sergipanas, que, além do conhecido esquecimento legado aos feitos de mulheres em geral, também padecem do, já citado aqui, descaso e esquecimento com a própria história sergipana. Descaso e esquecimento esses que dificultaram imensamente a pesquisa.

Não que eu não tenha encontrado nada de interessante para mostrar. Muito pelo contrário, encontrei um rico acervo de mulheres incríveis capazes de feitos importantes para a história e sociedade sergipana. Infelizmente não tão incrível foi constatar a persistente dificuldade em se dar a conhecer suas histórias. Por esse e outros motivos tive alguma dificuldade em conseguir copilar as informações e dados sobre minhas conterrâneas, me obrigando a abandonar (temporariamente) a ideia. Mas não completamente, pois uma dessas histórias me chamou atenção em especial por sua particular invisibilidade e relativo esquecimento. É a história de Maria Beatriz Nascimento.

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Nascida em Aracaju em 12 de julho de 1942, filha da dona de casa Rubina Pereira do Nascimento e do pedreiro Francisco Xavier do Nascimento, Maria Beatriz Nascimento se viu obrigada a migrar junto com a família, que contava ainda com outros dez irmãos, para o Rio de Janeiro na década de 1950. Aos 28 anos entrou para Universidade Federal do Rio de Janeiro onde se formou em 1971 em História. Ainda durante a graduação revela-se uma tenaz pesquisadora da história e cultura negras com artigos publicados em periódicos como Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de inúmeros artigos e entrevistas a jornais e revistas de grande circulação nacional, a exemplo do suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo, IstoÉ, jornal Maioria Falante, Última Hora e revista Manchete. Foi uma das responsáveis por dar visibilidade social na universidade à temática étnico-racial ao participar de grupos de ativistas negras(os). Constituído por um grupo de estudantes negras(os) de vários cursos, esses grupos tinham, dentre seus objetivos, o propósito de introduzir e ampliar, principalmente na universidade, conteúdos acerca das relações raciais no Brasil, almejando o envolvimento do corpo docente.

A militância intelectual ativa de Beatriz Nascimento ajudou a fortalecer o discurso político do movimento negro nas universidades. Ela ainda escreveu e narrou o filme Ori de Raquel Gerber, onde apresenta sua trajetória pessoal como forma de abordar a comunidade negra em sua relação com o tempo, o espaço e a ancestralidade, emblematicamente representados na ideia de quilombo.

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Em texto no site Alma Preta, Roberta Lima escreve que ser negra no mundo academicista é ser invisível duas vezes. A essa dupla invisibilidade acrescentemos ainda o fato de ser nordestina, ainda que radicada no Rio de Janeiro. Mesmo dona de uma carreira acadêmica digna de nota com uma instigante produção acerca da condição racial e de gênero, com estudos sobre a ressignificação do território/favela como espaço de continuidade de uma experiência histórica que sobrepõe a escravidão à marginalização social, segregação e resistência dos negros no Brasil, Beatriz segue invisível. A mulher que, ao analisar o histórico de invisibilidade racial histórica das comunidades, especialmente quanto ao gênero, amarga hoje do mesmo mal que a que se propôs analisar: uma lamentável invisibilidade de toda sua trajetória e produção.

Ao iniciar a pesquisa para esse texto, ainda com a ideia original em mente sobre as sergipanas de feitos notáveis, não foi nenhuma surpresa a falta de informações sobre as pesquisadas. Surpresa mesmo foi topar, quase por acaso, com o nome Maria Beatriz Nascimento num página escolar e descobrir que, de todas, ela é a que mais padece dessa falta de informação. Chocou-me profundamente o quanto se desconhece e pouco se divulga sua vida e obra não apenas no âmbito local sergipano, mas também nacional. Sequer um artigo sobre ela existe na Wikipédia (mesmo que pequeno e com erros, como no caso das demais pesquisadas).

Mas, se por um lado existe essa invisibilidade, por outro o esquecimento é combatido na rede através de postagem e textos relembrando sua história e vida. Particularmente nos sites e blogs a seguir de onde tirei grande parte das informações que compõem esse post: além do já citado site Alma Preta, encontrei textos no site do Projeto A Cor da Cultura, no site do Instituto da Mulher Negra Geledés, no blog Coletivo Di Jejê (na realidade tradução do texto originalmente publicado no Black Women of Brazil) e em alguns textos do blog MamaTerra.

Não por acaso os textos apresentados acima foram publicados em páginas de ativismo no movimento negro. E, quando lidos, percebe-se que, de uma maneira ou de outra, todos tem como base o livro Eu Sou Atlântica-Sobre a Trajetória de Vida de Beatriz Nascimento, do professor, geógrafo e antropólogo cearense Alex Ratts, que se propôs a, não apenas contar a vida de Beatriz, mas também refletir as discussões sobre racismo, sexismo, quilombos, dominação e identidade, temas indissociáveis à ativista e pesquisadora.

Eu Sou Atlântica

Finalmente à trajetória de Beatriz Nascimento foi adicionada mais um triste nível de invisibilidade: em 28 de janeiro de 1995 Beatriz foi brutalmente assassinada com cinco tiros, ao tentar defender uma amiga da violência do seu companheiro, presidiário com licença para passear e membro de um esquadrão da morte.

A mulher, negra, nordestina que ousou num país racista tornar-se historiadora, pesquisadora, ativista da paridade entre os sexos, tornou-se ela própria vítima da violência, esquecimento e invisibilidade estudados e questionados.

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Até mais!

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