DE MAURÍCIO A MOORE (E TAMBÉM A MORRISSON, MÖEBIUS, GAIMAN…) – UMA HISTÓRIA DE AMOR PELOS QUADRINHOS

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O início de uma paixão que começou numa página similar a essa

É bem comum encontrar pessoas no Brasil que aprenderam a ler com as Revistinhas da Turma da Mônica. Comigo não foi diferente. Eu tinha sete anos quando li algo sem a obrigação dos textos escolares ou o titubeante soletramento de cada letra e sílaba. Era uma revistinha do Cascão. Li o texto do primeiro balão tão naturalmente que demorei um pouco para, surpreso, me dar conta que sabia ler! Depois da alegria de partilhar a novidade com meus pais li toda a revista numa avidez que impressionou até mesmo a mim! Rápido, mas não o suficiente para me satisfazer. Eu queria mais.

Embora esse tenha sido o início do meu amor pela leitura, não foi de modo algum meu primeiro contato com as histórias em quadrinhos. Na realidade uma de minhas primeiras lembranças é de uma reunião de família na casa de meus avós paternos, quando ganhei de uma tia uma revistinha do Chico Bento (olha a turminha aqui de novo). Apesar de na época ter entre três e quatro anos, essa lembrança é muito vívida em minha mente, quase como se tivesse ocorrido ontem. Lembro muito bem de voltar pra casa agarrado no presente e de assim ter ficado por muito tempo.

A cada nova HQ que eu encontrava ia aumentando dentro de mim o encanto pelas histórias que, até então, eu só podia imaginar como seriam, nisso sendo auxiliado pelas gravuras. Dessa época, entre meu primeiro contato com o Chico Bento e a primeira leitura das palavras do Cascão, fui apresentado ao cowboy Tex – numa coleção esquecida na estante de minha avó materna –, e ao herói cimério Conan, numa edição gigante a qual, na época, supus ser uma adaptação do filme com o ator Arnold Schwarzenegger. Lembro-me muito bem de me encantar com uma luxuosa revista contando a história do Conde Drácula na casa de uma amiga de minha irmã. Fiquei encantado com as lindíssimas ilustrações em preto e branco. Eu não sabia disso ainda, mas ali se iniciava o meu encanto pelas fumettis italianas e seus belos jogos de luz e sombra. Tão absorto fiquei na revista que essa amiga se impressionou que eu, tão novo, já soubesse ler! Ah quem me dera se assim fosse.

Wallpaper_Quarteto_Tex

Imagens como essa me encantavam

Quando, por fim, aprendi a ler, devorei todo tipo de quadrinho que encontrei pela frente, a maioria absoluta títulos infantis. Além da Turma da Mônica, li muito Luluzinha, Ursinhos Carinhosos, Trapalhões, Disney (adorava essa última) e demais variantes. E de vez em quando topava com algum título da Marvel ou da DC, em geral, formatinhos do Superman ou Homem-Aranha. Nada que me marcasse. Lógico que tudo isso mudou quando um amigo me presenteou com a edição número 100 da revista Heróis da TV, conforme contei nesse texto. De cara fui apresentado às origens do Doutor Estranho, Homem de Ferro, Vingadores e à equipe que se tronaria a minha preferida dentre todas: os Fabulosos X-Men!

Fiquei encantado com a premissa dos mutantes não serem heróis no sentido tradicional, desses que celebram (e são celebrados por) seus poderes. Ver Ciclope se amaldiçoando por conta de suas rajadas óticas ou a equipe sendo perseguida por grupos de humanos “normais”, os mesmos que foram salvos por eles pouco antes, foi algo marcante nesse início de adolescência. Ter contato com heróis que não eram populares e sim perseguidos e ridicularizados por conta de seus talentos fez com que – pela primeira vez na minha vida – me identificasse com personagens de alguma obra que eu curtia.

Fui atrás de mais material dos Filhos do Átomo. E acabei dando uma sorte tremenda. Outro amigo tinha nada mais nada menos que Superaventuras Marvel n.16, a versão brazuca de Giant Sized X-Men 1, onde era apresentada a origem da nova equipe dos X-Men. Além disso, ele tinha outras revistas, a exemplo daquelas que são consideradas por muitos (eu incluso) como a melhor fase dos X-Men nos Quadrinhos: as revistas da era Chris Claremont. Com a mensagem simples (e mais atual do que nunca) de combate a intolerância e ao preconceito, Claremont conquistou aquele pré-adolescente tímido.

A partir daí os quadrinhos de super-heróis passaram a ter uma nova vida para mim. Percebi que eram muito mais do que aparentavam. Entender que heróis podem ser tão falhos e imperfeitos como qualquer um de nós me levou, não só a mudar minha percepção do que eram os quadrinhos de heróis, como minha própria percepção de mundo. E esse novo olhar me levou a conhecer um mundo inteiro de histórias maravilhosas que ia garimpando aqui e ali.

SAM-16

Ao entrar na sexta série, a escola solicitou como parte do material didático uma gramática de Carlos Emilio Faraco e Francisco Marto de Moura. Como recurso didático essa gramática usava e abusava de imagens publicitárias, pôsteres de filmes, capas e ilustrações internas de livros e muitos, mas muitos quadrinhos! Foi nessa gramática que tive conhecimento de verdadeiros tesouros: A Piada Mortal, 300 de Esparta, Batman – O Cavaleiro das Trevas, Corto Maltese, Tin Tin e outros. Óbvio que fui a loucura querendo ler todas aquelas histórias. Só anos mais tarde conseguiria, já que na Aracaju dos anos 90 esse material dificilmente chegava. Claro que eu não esperei sentado essa época chegar. Corri para as bibliotecas onde, embora nem sempre, eu conseguia garimpar muita coisa interessante. E nas casas de amigos e conhecidos que também curtiam HQs.

E assim, aos poucos, fui tendo contato com os grandes nomes da 9ª arte, John Romita Sr. e John Romita Jr., Jack Kirby, John Byrne. E também com outros nem tão gênios assim, mas que pensam que são (estou falando de você mesmo Rob Liefeld). Foi também – como não poderia deixar de ser – quando conheci a vertente erótica dos quadrinhos através de nomes como Milo Manara, Guido Crepax, Paolo Eleuterio Serpieri e Carlos Zéfiro e seus “catecismos”. Enquanto a molecada preferia os vídeos pornôs, eu precisava me desdobrar para esconder de meus pais as revistinhas pornôs que a muito custo conseguia obter.

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Exemplo de uma HQ de Manara em parceria com Hugo Pratt onde, ao menos aqui, sexo e mulheres nuas não eram o único foco da história

No fim da adolescência, já trabalhando e conseguindo algum dinheiro meu de fato, pude comprar minhas primeiras HQs. E, feliz coincidência, nessa mesma época a Panini iniciava sua atuação no Brasil. Acompanhei por um bom tempo as revistas X-Men, X-Men Extra e Ultimate Marvel. Foi também por aí que, paixão já consolidada, tive acesso as primeiras obras que tratavam sobre o tema. De maneira geral eram revistas que traziam algum texto ou reportagem sobre o assunto e, muito de vez em quando, algum livro também.

Ao entrar na universidade fui obrigado a dar um tempo na paixão. As leituras ditas sérias deram lugar às leituras ditas menos importantes. Mesmo encontrando ecos de muitas HQs que marcaram minha infância nas aulas de Geografia Política, Introdução à Filosofia, Introdução à Psicologia da Aprendizagem, dentre outras, minhas leituras diminuíram bastante (não só de HQs, mas também de livros que não fossem os acadêmicos), deixando, inclusive, de acompanhar as revistas que já vinha comprando.

Mas finalmente terminei a universidade ao mesmo tempo em que descobria na internet um rico tesouro. Blogs e páginas as mais diversas onde eu podia ler online ou baixar os mais variados títulos. Fossem histórias clássicas, fosse aquele formatinho lido na adolescência o qual eu nem lembrava mais a existência. E, especialmente, sites que, não satisfeitos em digitalizar e disponibilizar para download revistas clássicas do mercado mainstream, dedicam tempo e talento para traduzir revistas que não chegam ao nosso mercado nacional. Além é claro dos blogs que analisam, dissecam, esmiúçam todo esse material em textos extremamente bem escritos. Destaco como exemplo esse post escrito pelo Sidekick dos Quadrinheiros Quadrinhos: o Filho Bastardo das Musas, um dos mais belos que já tive o gosto de ler.

Atualmente minha paixão por quadrinhos não diminuiu em nada se comparado ao tempo em que descobria aqui e ali uma nova história interessante, um novo herói ou grupos de heróis complexos ou ainda algum artista ou roteirista genial. Se na infância Maurício de Sousa foi o responsável por minha iniciação e na adolescência Chris Claremont, Will Eisner e Jack Kirby ajudaram a sedimentar o amor, depois de tornar-me adulto descobri em Alan Moore, Grant MorrissonMoebius, Neil Gaiman, Alejandro Jodorowsky mestres em me desvendar inúmeras novas possibilidades para as histórias em quadrinhos, novas maneiras de encarar velhas histórias, personagens e temas, aumentando ainda mais meu amor pela assim chamada 9ª Arte.

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Até mais!

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