O DIA EM QUE A TERRA PAROU

Atentados de 11 de setembro

Os gigantes em chamas em imagem de Gulnara Samoilova da Associated Press

Era assim que as coisas aconteciam,

Era assim que eu via tudo acontecer

Nenhum de Nós

O dia começou como qualquer outro. Nada nele parecia indicar nada de diferente ou especial. Talvez um pouco mais quente que o normal. Mas isso poderia muito bem ser impressão minha. Na verdade, de estranho mesmo, só a hora em que acordei. Não era nem oito horas da manhã e eu já estava de pé. Evento raro em minha adolescência, aquela noite dormi pesadamente, sem a insônia comum de quase todas as noites desde a sexta série.

Terminava o café da manhã, quando uma voz conhecida me chamou do portão. Reconheci imediatamente como sendo de minha amiga de escola, Dani. Estava com outra amiga, Lúcia, me chamando para irmos ao instituto onde ela conseguira se matricular em um curso profissionalizante. Apressava-me para sair com elas para providenciar fotocópias de minha documentação. Apesar de me contar tudo meio atropeladamente, logo entendi que ela conseguira mais duas vagas, uma para Lúcia, a outra para mim.

Sendo alunos de escola pública, tínhamos poucas perspectivas de conseguir trabalho quando terminássemos o ensino médio dali a poucos meses. Essa era, portanto, uma oportunidade realmente excelente de qualificação profissional. Não podíamos perder a oportunidade.

Rapidamente me troquei, catei todos os documentos necessários para a matrícula e corri para uma fotocopiadora ali perto. Enquanto isso Lúcia ia até sua casa com Dani para fazer o mesmo. Na fotocopiadora enquanto aguardava pus a atenção por acaso numa pequena TV no canto da parede. Na imagem chuviscada consegui vislumbrar um edifício enorme com uma grossa coluna de fumaça ganhando o céu. Na hora pensei: que canal de televisão passa um filme de ação a essa hora da manhã?

Em chamas

E assim se iniciou o longo dia de 11 de Setembro de 2001

Voltei para casa onde esperaria Dani e Lúcia. Para minha surpresa, minha mãe tinha parado os afazeres domésticos e estava concentrada vendo a TV. Na hora soube que algo importante acontecera ou estava acontecendo. Pouco afeita à TV, ainda mais pela manhã, minha mãe parava pra dar atenção ao aparelho somente no caso de alguma notícia muito séria. Nem tive tempo de perguntar se era o caso. Olhos na tela, ela me perguntou se eu tinha visto o que acabara de acontecer: um avião, provavelmente um pequeno jato, teria se chocado com uma das torres do World Trade Center em Nova York.

Um avião? Na mesma hora aquilo me pareceu um absurdo. Sendo um garoto aficionado por aviação, eu tinha uma vaga noção de que aviões não podiam voar tão baixo assim naquela área. Mas lá estava o prédio parcialmente em chamas com as noticias confirmando o acontecido. Eu estava com o pensamento nisso quando o impensável aconteceu bem diante dos nossos olhos: um enorme Boeing cruzou a tela rapidamente atingindo uma das torres.

Houve um daqueles instantes de silêncio que parecem congelar o tempo. Os vinte ou trinta segundos logo após o choque pareceu se dilatar em um infinito, como se alguém tivesse pegado aquela fatia de tempo e a esticado indefinidamente. Nem sons, nem imagens, nem ações. Apenas aquela sensação estranha de ter parado no tempo ao mesmo tempo em que ele fluía fora do seu ritmo. Finalmente minha mãe apontou o dedo firmemente para a televisão, os olhos assustados e perguntou: “Você viu isso?!”

Só então tudo voltou ao ritmo normal. A pergunta ficou no ar sem resposta. Meu cérebro estava tentando processar tudo aquilo. Alguém filmara o choque do avião e a televisão estava mostrando o momento? Essa era a única explicação possível. Mas então, por que o avião atingiu uma torre QUANDO JÁ HAVIA MUITA FUMAÇA SAÍNDO DA OUTRA?

Globo-11 de setembro

O exato momento do segundo ataque ao vivo

A confusão não era só minha. O jornalista que noticiava o fato também chegou a alegar que aquela era uma repetição do momento exato do choque. Então a imagem foi exibida novamente. E já não existia mais dúvida: por mais louco que pudesse parecer no momento o fato era que um segundo avião atingira a outra torre do World Trade Center! Perceptivelmente tão surpreso quanto qualquer pessoa no mundo vendo aquela cena, o jornalista entendeu o que se passava ao ser um dos primeiros a falar a palavra que, ainda não sabíamos, seríamos obrigados a nos acostumar: Terrorismo!

O resto da manhã transcorreu como se estivéssemos numa outra realidade. Aquela sensação de alongamento do tempo cedeu espaço a uma febril percepção das coisas. Quando Dani e Lúcia voltaram, a televisão já reprisara o momento do impacto pela enésima vez. Elas já sabiam do acontecido. Dani estava tão assustada quanto eu ou minha mãe, mas Lúcia não parava de dar risadinhas nervosas, mesmo quando a TV mostrava cenas das pessoas se jogando do topo dos prédios em chamas. Somente anos depois fui entender plenamente que, de todos nós, Lúcia era a mais nervosa e assustada. Na realidade ela estava apavorada e aquela era a sua maneira de expressar esse sentimento.

Richard-Drew-Falling-Man-WTC

The Falling Man em imagem de Richard Drew

Saímos rapidamente para resolver as questões referentes ao curso e depois voltamos cada qual para sua casa. Ainda precisávamos nos arrumar para ir a escola. A tensão nas ruas já era perceptível. Todos estavam com ar sobrecarregado, como se uma nuvem tivesse encoberto o semblante de cada um, apesar do dia ensolarado. Onde houvesse uma televisão, que naquela altura dos acontecimentos já transmitia o ataque em todos os canais, duas ou três pessoas estavam reunidas assistindo. Braços cruzados sob o peito, vez ou outra apontando algo na direção da tela. Se apreensão fosse algo tangível, ela com certeza estaria esmagando a todos naquele momento.

Em casa minha mãe tinha novas notícias. Outro avião atingira o Pentágono, destruindo parte do edifício, enquanto outro aparentemente caíra em algum lugar ermo na Pensilvânia e ainda havia a suspeita de que um terceiro estava, naquele momento, se dirigindo para atingir a Casa Branca. Apesar de todo tipo de boato e especulação fatalista ter começado a ser veiculada em todo lugar – de ataques com carros bombas até a possibilidade de um ataque nuclear –, apenas os relatos envolvendo os aviões estavam confirmados. O que começara com a suspeita de um terrível e lamentável acidente, tornara-se um ataque de proporções megalomaníacas à maior potência econômica e militar do planeta. Comecei a pensar nas repercussões daquele ataque e no que ainda estava por vir.

Associated Press photos

Sobreviventes coberto de cinza do desabamento das torres em imagem da Associated Press

A resposta à segunda questão não tardou a vir. Em meio ao pânico generalizado nos EUA instaurado pelos ataques havia espaço para mais: as dez horas gritei para minha mãe: “Caiu! Corre aqui! A torre caiu!” Da cozinha minha mãe veio para sala perguntando o que acontecera. Atropeladamente expliquei que, enquanto mostravam o incêndio do Pentágono, a imagem cortou para as torres com uma imensa nuvem de fumaça lentamente se formando ao mesmo tempo em que a correspondente confirmava o desabamento da segunda torre a ser atingida. Meia hora depois era a vez da primeira torre atingida desabar, a TV mostrou um close do topo coberto por fumaça negra, quando ela começou a desabar diante dos nossos olhos. Em pouco menos de duas horas as mais inacreditáveis cenas jamais imaginadas tornaram-se reais de modo assombroso.

Não se falou em outra coisa durante todo o dia. A caminho do colégio, no ônibus anormalmente vazio, pude presenciar as pessoas se acumulando na frente das TVs que continuavam as intermináveis reprises dos impactos, dos desabamentos e das pessoas cobertas pelo pó cinza e espesso que cobrira a todos. Quem assistia não falava, nem parecia reagir às imagens. À noite minha mãe contaria que, no hipermercado onde ela trabalhava na sessão de confecções, as pessoas também acompanhavam as notícias em frente aos televisores e mesmo dos aparelhos de rádio. Ela concordou comigo que as pessoas pareciam letárgicas.

Vancouver Sun-11 de setembro na tv

O mundo acompanha assustado o ataque em imagem do Vancouver Sun

Não houve aulas nesse dia. A professora Adalgisa de Biologia nos encaminhou para a sala de vídeo onde diretoria e outros professores junto a vários alunos acompanhavam o noticiário ininterrupto. Um casal de amigos, Tiago e Dalva, me chamaram para sentar do lado deles. Passamos a tarde debatendo o acontecido e tentando imaginar o que poderíamos esperar dali por diante. Taciturno, Tiago resumiu seu pensamento em única e tranquila palavra: “Guerra!”

Eu estava no meu terceiro ano de estudo naquela escola e aqueles tinham sido, até então, o mais especiais de minha vida. Um medo terrível de que tudo aquilo acabasse em meio a um conflito cuja extensão e alcance eu desconhecia me atingiu como um soco. Pensei em tudo o que poderia perder. Eu me sentia de repente como um jovem nos meses finais de 1939 temendo ante as notícias daquilo que viria a se tornar a Segunda Guerra Mundial.

Tati, uma amiga de quem eu particularmente gostava muito e era muito próximo, olhou diretamente para mim: “Minha gente que exagero! Vai ficar tudo na mesma!” Ainda hoje não entendo se foi uma tentativa de me confortar, ao perceber meu desconforto, ou se ela estava tentando convencer a si mesmo. Mas conhecendo Tati, o mais provável é que ela não estivesse inteiramente ciente da magnitude da realidade que assistíamos.

MANHATTAN

A estátua da Liberdade parece observar uma Nova York coberta pela poeira da queda das torres gêmeas em imagem de Dan Loh da Associated Press

A noite eu tinha cursinho pré-vestibular. Também ali as aulas ficaram meio em suspenso. Naquele momento, embora ainda cobertos de muitas conjecturas, já tínhamos algumas notícias concretas. Já sabiamos que a Al’Qaeda, sob o comando de Osama Bin Laden, fora a organização terrorista responsável pelo ataque e que eles se escondia no distante Afeganistão onde eram protegidos do Talibã, grupo religioso radical que comandava o país. Na entrada do cursinho conversava com os colegas sobre os acontecidos num misto de comentários carregados de preocupação com piadinhas e brincadeiras. Uma tentativa meio falha de relaxar. Calamos quando o professor de História, chegou trazendo as últimas notícias num tom alarmista: “Está confirmado: Os Estados Unidos atacaram o Afeganistão! E eles já avisaram que vão retaliar!”

Gelamos no ato. Hoje, justamente por conta dos atentados, conhecemos bem a realidade do Afeganistão, mas naquela época não sabíamos de fato nada sobre o Afeganistão, portanto não sabíamos o que esperar daquela ameaça de retaliação. Voltei para casa extremamente abatido.

Felizmente as informações do professor de História eram notícias equivocadas. Mesmo assim não foi o suficiente para tirar aquela sensação ruim. Uma sensação de que aquele dia, o dia em que a Terra parou para ver um gigante se dobrar nos próprios joelhos diante dos duros golpes recebidos, esse dia não terminaria tão cedo.

Alex Fuchs-AFP

Os escombros do que um dia foram as imponentes torres gêmeas do World Trade Center em imagem de Alex Fuchs da Agence France-Presse

*   *   *

Essa é uma postagem especial não apenas pela data de aniversário do Ataque do 11 de Setembro, mas porque é a primeira de uma série sobre minhas lembranças no período do meu ensino médio, em especial em 2001. Com o texto procurei relembrar aquele fatídico dia e minhas impressões e sentimentos, pautando-o principalmente nas minhas lembranças. E não: Dragon Ball Z não foi interrompido pelo Plantão da Globo!

E você? Onde estava naquele 11 de setembro de 16 anos atrás? Comenta aí e também curta e compartilhe. E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

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