A VOLTA PARA CASA: CONSIDERAÇÕES SOBRE STAR TREK E DISCOVERY

startrekdiscoverycap2

Já tem algum tempo estreou a tão aguardada nova série da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek no original em inglês). E a recepção dos fãs foi – para se dizer o mínimo –, polêmica. Na tentativa de entender a divisão causada, com alguns fãs amando e outro odiando, faço aqui uma breve consideração sobre a franquia  e da nova série tendo por base os episódios lançados até o momento. E para quem não assistiu aos episódios já exibidos pode ler tranquilo que esse é um texto livre de spoilers.

Costumo encarar cada nova série ou filme da franquia, como um volta para casa. Um retorno para aquela específica porção do espaço da qual guardamos um sentimento de afeto e carinho especial, em geral por ter sido onde crescemos, onde fomos criados. Em suma, um cantinho cheio de lembranças e significados, de onde guardamos certo carinho e afetividade em virtude de sua relação com nossas vivências. Na Geografia esse é, grosso modo, o conceito de Lugar, uma das categorias de análise básicas usadas por essa ciência em seus estudos.

A cada novo filme ou série da franquia que assisto a sensação é a de voltar a esse hipotético lar após terem se passado vários anos. Quem já passou pela experiência entende a sensação. Apesar do local não ser mais exatamente o mesmo que conhecemos – afinal pode ser que o piso tenha sido trocado, as portas, janelas e algumas paredes tenham sido pintadas (ou mesmo derrubadas e fechadas com novas paredes levantadas ou portas e janelas abertas), – ainda assim reconhecemos ali o lugar onde passamos tantos momentos e lembranças marcantes. Alguns deles muito bons, outros nem tanto.

The Next Generation

A tripulação de A Nova Geração que gerou um intenso debate entre os fãs que afirmavam que a série não era Star Trek de verdade

Foi assim quando assisti pela primeira vez A Nova Geração. Embora diferente em vários aspectos, ainda era Jornada nas Estrelas. Mudanças estéticas e algumas estruturais foram feitas. Não apenas o visual das naves e uniformes está diferente, mas o próprio modo de contar as histórias também precisava ser diferente. Nem tanto na primeira e segunda temporada, ainda emulando a estética narrativa da Série Clássica, mas, a partir da terceira temporada cada vez mais distintas de sua predecessora. Mas, apesar dessas paredes pintadas e de alguns cômodos modificados (e de todo o choro dos fãs mais xiitas). Apesar de diferente, aquele ainda era um universo capaz de evocar todo o excelente material clássico, sem deixar de imprimir sua própria identidade. Esse processo, aliás, foi essencial em ampliar o background da franquia. Algo como se, ao voltarmos para a casa, percebêssemos que a reforma não só mudou alguns cômodos, mas também acrescentou outros tantos, valorizando-a.

E também foi assim a cada novo produto da franquia, filme ou série: a sensação era sempre esse mesmo misto de estranhamento e reencontro. Deep Space Nine, Voyager, Enterprise. Em graus diferentes, numas mais e noutras menos, conseguíamos nos identificar e identificar os elementos que dão alma e personalidade à franquia ainda que novos elementos fossem agregados.

tvs685aa-star-trek-voyager-crew

Voyager e sua tripulação eclética. Nenhuma outra série de Star Trek (até agora) ousou tanto em diversidade.

Tudo isso mudou com a chegada do aclamado reboot feito por J. J. Abrams. Se por um lado a atualização estética das naves, uniformes e demais apetrechos – num esforço consciente de deixá-los mais realistas – foi, de certa maneira, bem-vinda, o mesmo não se pode dizer da decisão de fazer um filme mais voltado para a ação genérica, deixando de lado os questionamentos filosóficos e/ou sociais. Embora a história tenha arranhado alguns desses questionamentos (as mudanças causadas na linha temporal devido a uma viagem no tempo, que, apesar de batida, quando bem executada rende boas histórias) o grande foco no filme foi de fato a ação e a aventura, aspectos esses que sempre estiveram ligados à franquia, é verdade, mas nunca antes como o destaque principal. Isso causou uma grande estranheza em boa parte dos fãs. De repente aquele lugar antes tão nosso, já não era mais assim tão familiar.

Vejam bem, não estou dizendo que o reboot de Abrams tenha sido um filme ruim. Ele funcionou enquanto um típico blockbuster genérico de ação, com muita correria e porrada, cada vez mais comuns por aí. Salvo alguns buracos no enredo, uma ou outra decisão equivocada (lens flare, alguém?) e uma atuação controversa (Simon Pegg estou falando contigo), Star Trek, foi um bom filme, dos melhores do ano de 2009, com uma direção e edição adequadas, além da boa atuação por boa parte do elenco – com destaque inegável para o Dr. McCoy de Karl Urban, uma das poucas unanimidades do filme. Mas, apesar de ser um bom filme, cumprindo com bastante louvor o objetivo de trazer novo folego e, principalmente, novos fãs consumidores para a franquia, não há como negar que, de algum modo, esse não é bem, bem um filme de Jornada nas Estrelas, daí o estranhamento por parte do fandom. Um estranhamento que só fez se aprofundar com o equivocado Star Trek Além da Escuridão de 2013 e o esforçado Star Trek Sem Fronteiras de 2016.

Reboot

Star Trek de 2009: o Reboot que desagradou os fãs, porém serviu de porta de entrada para toda uma nova geração de fãs

O anúncio de que uma nova série estava nos planos da CBS deixou novamente os fãs na expectativa, apesar de um tanto temerosos, conforme relatei nesse texto. E o temor só fez aumentar a cada nova informação. Colocar a trama da nova série se passando cronologicamente após Enterprise, mas antes da Série Clássica e o conceito visual muito mais próximo dos reboots que de qualquer outra série ou filme foram alguns dos principais motivos de polêmica entre os fãs. Mesmo com algumas novidades muito bem-vindas (a exemplo do elenco cheio de medalhões como Michelle Yeoh de O Tigre e o Dragão, Jason Isaacs da série Harry Potter, sem falar da quase novata, mas igualmente talentosa, Sonequa Martin-Green de The Walking Dead), o temor de que a série fosse uma continuação do reboot de Abrams, ou seguisse sua linha mais direcionada para a ação e menos para a reflexão, só fez crescer entre os fãs mais antigos.

A polêmica se acirrou com o lançamento do aguardado trailer da série. Apesar da belíssima produção, o tom altamente bélico apresentado além do já citado conceito visual remetendo muito mais para o Abramsverso, só serviram para reforçar o sentimento de estranheza de muitos fãs. Ainda mais quando se notou nas rápidas cenas uma tecnologia muito mais avançada do que a mostrada, não somente na Série Clássica, como em qualquer outra série ou filme da franquia, com a óbvia exceção do reboot. Mesmo com alguns fãs esperando a estreia para poder emitir uma opinião mais concreta, para uma parcela significativa do fandom, a volta ao lar já não parecia tão excitante assim.

Enterprise

A tripulação de Enterprise, o ponto fora da curva na franquia: muito potencial o qual sequer foi arranhado

Por fim a nova série estreou no dia 24 de setembro com os episódios “The Vulcan Hello” e “Battle At The Binary Stars” através do novo serviço de streaming da CBS, sendo liberada no dia seguinte pela Netflix. A estreia, conforme já mencionado, foi polêmica.

De maneira geral, as opiniões não foram muito diferentes do que já vinha sendo exposto anteriormente. Muitas reclamações a respeito da estética, da tecnologia apresentada ser anacronicamente muito mais avançada do que mostrada em outras séries (não apenas a Clássica) etc. Por outro lado, esses mesmos aspectos foram muito bem aceitos por uma parcela dos fãs menos apegadas aos ditames do chamado cânone, sendo que boa parte deles não é formada pelos fãs mais novos, os que conheceram a franquia através dos filmes do Reboot. Muitos fãs mais antigos, por assim dizer, abraçaram a nova série não apenas por se sentirem órfãos após quase uma década de Jornada fora da TV, mas principalmente por reconhecerem um esforço de toda a equipe de Discovery em entregar um produto de qualidade, nos moldes do que há de melhor sendo feito na TV norte-americana atualmente. O mix direção ágil e moderna aliada aos roteiros inteligentes e dinâmicos estão entre as características mais interessantes da nova série, embora tenhamos outro aspecto importante a se destacar: a dinâmica e tridimensionalidade dos personagens já em seus primeiros momentos (algo que em geral era uma falha nos primeiros episódios das séries anteriores, onde os personagens iam ganhando mais e mais camadas no decorrer dos episódios).

Deep Space Nine

Deep Space Nine: arcos de histórias e tons mais sombrios aspectos elogiados da série e curiosamente não tão admirados em Discovery (até agora)

Particularmente eu destaco como principal ponto positivo de Star Trek Discovery a coragem de quebrar paradigmas estabelecidos anteriormente, em especial na série clássica, inclusive aprofundando o tom mais sombrio explorado com mais força apenas em Deep Space Nine (curiosamente uma das séries mais elogiadas por muitos fãs, justo por flertar com esses tons em seus episódios). Com sua releitura mais moderna, não apenas nos moldes de produção, mas também de exibição, ao abraçar o sistema de streaming, mas sem deixar de lado elementos tão característicos e que fizeram e fazem a cabeça dos fãs de ontem e de hoje, Discovery vem se mostrando uma grata surpresa. Assim como suas antecessoras ela causa um certo estranhamento a primeira vista, mas também um inevitável fascínio. E a medida que os novos episódios vão sendo exibidos, cada vez mais aquela sensação de volta para casa vai se fortalecendo e, aos poucos, criando em nós aqueles sentimento de afeto e carinho especial, através dos novos momentos de encantamento, raiva, beleza, decepção.

*  *  *

Se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s