HIPÁTIA DE ALEXANDRIA

 

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Embora seja certo que – a despeito de todas as barreiras e posições de submissão impostas às mulheres nos tempos antigos –, muitas foram àquelas a se dedicarem aos estudos matemáticos, é somente no século IV de nossa era o primeiro registro de uma mulher matemática. Embora não se saiba a data exata de seu nascimento, acredita-se que Hipátia (ou Hipácia, conforme alguns) nascera em 370 ou 350 Antes da Era Comum na ainda culturalmente relevante cidade de Alexandria no Egito.

Filha de Téon de Alexandria, um proeminente matemático e astrônomo da Academia daquela cidade, Hipátia foi criada desde cedo nesse ambiente estritamente acadêmico. Sob a tutela do pai dedicou-se, não apenas aos estudos matemáticos e astronômicos, mas também à filosofia, religião, poesia, artes, oratória e retórica, além de uma rigorosa disciplina física, seguindo o ideal helênico de uma mente sã num corpo são. Provavelmente ainda adolescente viajou para Atenas onde estudou na renomada Academia Neoplatônica, de onde retornou para assumir a cadeira de Plotino na Academia Alexandrina. Aos trinta anos já era a diretora.

Fugindo completamente do papel atribuído às mulheres na época, Hipátia provavelmente não se casou, permitindo dedicar-se mais plenamente aos estudos, o ensino e direção da Academia. Conta-se que, ao ser indagada do por que nunca ter se casado, ela afirmara já ser casada com a verdade. Entusiasta do processo de demonstração lógica, não foram poucas as provas desse comprometimento com a verdade: no século XV, na biblioteca do Vaticano, descobriu-se uma cópia de seu comentário sobre a obra de Diofanto, sobre o qual escreveu um tratado. E, embora não se tenha registro de nenhum de seus outros escritos terem sobrevivido e chegado até nós, vários historiadores acreditam que o Livro III da versão de Téon para o Almagesto, de Ptolomeu (um tratado que estabeleceu o modelo geocêntrico para o universo que não seria derrubado até o tempo de Copérnico e Galileu) foi na verdade trabalho de sua filha, bem como lhe são atribuídas comentários sobre inúmeros matemáticos clássicos, além de escrever um tratado sobre Euclides em parceria com o pai.

Hipátia de Alexandria - Gravura de Elbert Hubbard, 1908

Hipátia de Alexandria, gravura de Elbert Hubbard, 1908 – Wikimedia

Hipátia era ainda uma professora dedicada e eficiente. Suas palestras públicas pela cidade chamavam a atenção das pessoas que a escutavam versar com propriedade sobre Platão e Aristóteles, sendo extremamente elogiadas. Através da correspondência entre ela e um de seus alunos, o futuro bispo de Ptolemaida e também filósofo Sinésio de Cirene, sabe-se que, entre suas lições, estava como projetar um astrolábio. Era famosa também pela resolução de complexos problemas matemáticos, enviados a ela por matemáticos de todo o mundo antigo conhecido, problemas esses os quais, muito raramente deixava de elucidar.

Vivendo num período conturbado da história de Alexandria, Hipátia se viu no meio de uma controvérsia entre o governador da cidade (e grande admirador e pessoa próxima da estudiosa), Orestes e o Patriarca Cirilo que, ao suceder o falecido tio o Patriarca anterior Teodósio, deu mais fervor as hostilidades contra as religiões não-cristãs. Apesar do verniz religioso a divergência entre os dois era de fato política. Orestes, apesar de cristão, não tinha interesse em ceder o mínimo de espaço de sua influência para o novo líder religioso, cujas pretensões (e por extensão da igreja) era centralizar o controle da cidade em suas mãos.

A ira de Cirilo se voltou contra Hipátia, não apenas por ela ser amiga próxima do governador, mas especialmente por sua destacada defesa do paganismo contra o cristianismo uma vez que era a líder da escola neoplatônica de filosofia. Some-se a isto o fato de que uma mulher palestrando publicamente contra a doutrina religiosa vigente, além de se dedicar aos estudos matemáticos e filosóficos dentre outros, ao invés de cumprir seu papel submisso de mulher devotada aos interesses domésticos e familiares, não devia ser nenhum pouco bem visto pelo Patriarca.

Hipátia antes de ser morta na igreja, por Charles William Mitchell, 1885

Hipátia Antes de Ser Morta na Igreja, de Charles William Mitchell, 1885 – Wikimedia

Esse conjunto de fatores selou o destino de Hipátia. Após uma série de rusgas entre Cirilo e Orestes, que atingiu seu ponto mais crítico após a expulsão de todos os judeus de Alexandria, em virtude do assassinato de um grupo de cristãos por extremistas judeus, um boato se espalhou pela cidade culpando-a pelas divergências entre o governador e o Patriarca.

Insuflados por Cirilo, um grupo de cristãos guiados por um certo Pedro, o Leitor, cercou a carruagem de Hipátia, de onde a arrancaram para espanca-la e tortura-la. A turba enfurecida arrancou-lhe os cabelos, descarnou-a com carapaças de ostras para então lançar ao fogo os restos de seu corpo.

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A Morte da Filósofa, de Louis Figuier, 1866 – Wikimedia

O assassinato de Hipátia é considerado por muitos como um momento crucial, dentre aqueles que marcaram o período entre os séculos IV e V. A morte brutal e sem sentido da brilhante filósofa, matemática, astrônoma, professora, que ousou não se enquadrar no papel submisso e menor designado às mulheres, nas mãos ensandecidas de fanáticos religiosos serve como uma alegoria mais que adequada, ainda que lamentável, do fim da Antiguidade Clássica e o início da Idade Média.

Estrela de primeira grandeza no firmamento científico, mesmo sua morte horrenda não foi capaz de apagar o brilho da excepcionalidade da primeira matemática de que se tem registro. Ainda que, por séculos a fio seu trabalho tenha sido menosprezado e desconsiderado por toda uma lógica francamente misógina, sua importância na história, não só da matemática e das ciências, não foi completamente eliminada. Hipátia de Alexandria não foi somente a primeira matemática, mas a primeira a quebrar a imensa barreira do sexo, abrindo caminho para inúmeras outras trilharem seus passos pioneiros com o mesmo brilhantismo.

Rachel Weiss como hipátia no filme Ágora_Universo racionalista

A atriz Rachel Weiss vive Hipátia no filme Ágora – imagem do site Universo Racionalista

Hipátia de Alexandria é o primeiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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