MARIE-SOPHIE GERMAIN

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Paris vivia dias conturbados e violentos em meados de 1789. Eram os primeiros momentos da intensa agitação política e social, que desencadearia a Revolução Francesa.  Nos dias que antecederam a Queda da Bastilha em julho, uma jovem de 13 anos, reclusa na vasta biblioteca de seu pai, um rico comerciante de seda, lia com profundo interesse a história de vida e morte de Arquimedes durante os dias igualmente violentos após o cerco de Siracusa. Aquela leitura marcaria profundamente a vida de Marie-Sophie Germain.

Nascida em 1º de abril de 1776, o impacto daquela leitura a levou a ler, não somente sobre a vida de Arquimedes, mas toda e qualquer obra que versasse sobre cálculos, teoria básica dos números, além dos tratados de Newton e Euler. Esse fascínio pelos números logo chamaria atenção de seus pais, que consideravam preocupante tanto interesse. Levados pelo pensamento ainda corrente na época de que aquilo não eram assuntos para mulheres, a jovem Germain foi privada por seus pais do fogo, luz e casacos, numa tentativa de fazê-la desistir das tais leituras impróprias. Foi um esforço em vão: determinada, a menina esperava os pais dormirem para, enrolada em cobertores, entregar-se aos livros que tanto amava.

O esforço valeu a pena. Com o tempo seus pais foram percebendo que não adiantava insistir. Vencidos pela tenacidade da filha, não só diminuíram a oposição aos seus estudos, como passaram apoia-la. O pai de Sophie Germain chegou mesmo a sustenta-la em sua vida adulta para que a filha pudesse dedicar-se plenamente aos estudos e pesquisa.

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Essa, porém, não seria a última vez que Sophie Germain enfrentaria oposição em seu interesse pela Matemática devido ao fato de ser mulher. Aos 18 anos demonstrou interesse em matricular-se na recém-inaugurada Escola Politécnica de Paris, mas foi impedida justamente por ser mulher. Mostrando novamente o quanto era determinada, Germain conseguiu acesso aos dados de um certo Monsieur Antoine August Le Blanc, um ex-aluno da Politécnica que havia deixado a cidade recentemente. Utilizando-se desses dados, Germain interceptava as lições enviadas a Le Blanc, devolvendo-as com as devidas respostas a cada semana.

Através desse subterfúgio, ela recebeu inúmeros e rasgados elogios, ao ponto de fazer o supervisor do curso Joseph-Louis Lagrange querer conhecer aquele rapaz que, do dia para a noite, passara de aluno medíocre a alguém capaz de fornecer respostas engenhosas e versáteis para os mais diversos problemas propostos. Apesar do receio, ela se revelou a Lagrange como a verdadeira autora das respostas enviadas. O resultado não poderia ter sido mais positivo, pois, verdadeiramente impressionado pelo talento e aptidão demonstrados pela jovem estudante, Lagrange tornou-se seu mentor e amigo.

Apesar dessa recepção positiva, compreensivelmente, Germain continuou a usar o pseudônimo especialmente para corresponder-se com outros matemáticos e estudiosos. Foi assim que, desejosa de ampliar de seus conhecimentos sobre a teoria dos números, utilizou do mesmo subterfúgio para se corresponder com Carl Friedrich Gauss, um dos maiores matemáticos vivos na época, devidamente apelidado de Príncipe dos Matemáticos. A amizade que surgiria daí levou a sobrevivência de Gauss, quando da invasão da Prússia, onde vivia pelas tropas de Napoleão, graças à intervenção de Sophie Germain. Assim como ocorreu com Lagrange, Gauss ficou impressionado e satisfeito ao descobrir a verdadeira identidade do Monsiuer Le Blanc.

Pesquisas sobre a teoria das superficies elásticas

Capa do seu trabalho Pesquisas Sobre a Teoria das Superfícies Elásticas

Graças à correspondência com o colega prussiano, Sophie Germain pode aprimorar seus conhecimentos e assim contribuir enormemente não apenas na teoria dos números, mas também na física, com ênfase na elasticidade e acústica, e mesmo na engenharia, graças a esses estudos. Em 1808 a Academia Francesa de Ciências propôs um prêmio para quem formulasse uma teoria matemática que explicasse os estranhos experimentos do físico Ernst Chladni. Esses experimentos consistiam em espalhar areia em um prato de vidro e depois passar um arco de violino na borda do prato o que criava desenhos com curiosos formatos. Única concorrente, Germain conquistou o prêmio ao apresentar uma teoria sobre a matemática da elasticidade. Em 1831 ela ainda introduziria em geometria diferencial a útil noção de curvatura média de uma superfície num ponto de superfície. Por tudo isso é frequentemente chamada de Hipátia do século XIX.

Não obstante toda notoriedade alcançada ainda em vida por seus trabalhos, lamentavelmente o título honorário de doutor em matemática lhe tenha sido conferido pela Universidade de Göttingen – em virtude do muito insistir de Gauss – somente após a sua morte em 1831, vítima de um câncer de mama. Ainda mais lamentável foi a notícia oficial de sua morte, designando-a como solteira sem profissão, ao invés de matemática – muito provavelmente a de maior capacidade intelectual já produzida na França. Como se não bastassem essas afrontas, seu atestado de óbito a designava como tão somente como arrendatária, muito provavelmente por nunca ter se casado e ter sido sustentada pelo pai boa parte da vida (mesmo porque, por ser mulher, não lhe era permitido ensinar), bem como seu nome não tenha sido incluído na lista de matemáticos e engenheiros que, com seus trabalhos, possibilitaram a construção da Torre Eiffel, a despeito de seus estudos em elasticidade.

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Marie-Sophie Germain é, ainda hoje, um vívido exemplo das dificuldades enfrentadas pelas mulheres que optam pela carreira acadêmica. Ainda mais: é uma inspiração por toda sua perseverança resoluta em insistir naqueles “assuntos impróprios para mulheres”.  Dos pais que não a queriam interessada em estudos de números ao depreciamento enfrentado na morte, nada foi capaz de parar aquela jovem que, em meio ao terror e violência de uma revolução, pode, numa biblioteca, se encantar com o universo dos números.

Marie-Sophie Germain é o terceiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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