AMALIE EMMY NOETHER

EmmyNoether

Poucos meses após o término da Primeira Guerra Mundial, a conceituada Universidade de Göttingen estava dividida. Contrariando o histórico da instituição no reconhecimento de mulheres matemáticas, uma ala conservadora questionava e se opunha à possibilidade de aulas ministradas por mulheres. “O que nossos militares pensarão”, argumentavam, “quando retornarem à universidade e verificarem que tem de aprender aos pés de uma mulher?” O proeminente Professor da instituição, David Hilbert, extremamente irritado com o questionamento, retrucou: “Não vejo em que o sexo de um candidato possa ser um argumento contra sua admissão como Privatdozent. Afinal, o Conselho não é nenhuma casa de banhos”.

Emmy Noether

Essa não foi a primeira e tampouco seria a última vez que Amalie Emmy Noether precisara enfrentar o preconceito de gênero em sua brilhante carreira acadêmica. Mesmo sendo filha do eminente Algebrista, Max Noether, foi preciso uma autorização especial para que pudesse cursar a Universidade de Erlanger, onde seu pai lecionava. Aí Amalie alcançaria o doutorado em 1907 defendendo a tese Sobre Sistemas Completos de Invariantes para Formas Biquadradas Ternárias. Alcançou enorme prestígio nos círculos matemáticos em virtude de suas significativas contribuições significativas à teoria dos invariantes e dos corpos numéricos e, em especial, por desenvolver o Teorema de Noether, “um dos teoremas matemáticos mais importantes já provados dentre os que guiaram o desenvolvimento da física moderna”. Por tudo isso foi convidada por David Hilbert para universidade de Göttingen, onde pode assumir o cargo após aprovação no exame e superar as objeções. Ainda assim, suas aulas oficialmente eram ministradas por Hilbert, a ela sendo designada apenas a condição de ajudante.

Tantas barreiras não diminuíram seu gosto pela matemática e pela álgebra em particular. Com o tempo seu talento angariou lhe uma fama e reputação difíceis de serem questionados. Mesmo tendo algumas dificuldades do ponto de vista pedagógico, foi capaz de atrair e inspirar um surpreendente número de alunos que seguiriam os passos da mestra no campo da álgebra abstrata. É dessa época o lançamento de um de seus trabalhos mais icônicos, o clássico “Idealtheorie in Ringbereichen” (“Teoria de Ideais nos Domínios dos Anéis”), de 1921, onde transformou a teoria dos ideais em anéis comutativos em uma poderosa ferramenta matemática que serve para diversas aplicações.

Amalie Emmy Noether

Amalie Emmy estava no auge de sua carreira e produção acadêmica quando o regime nazista de Hitler chegou ao poder. Sendo de origem judia, Amalie receberia em abril de 1933 um aviso do governo retirando seu direito de ensinar. Sem se abalar, continuou a lecionar em casa onde reunia grupos de alunos, além de ajudar outros colegas que também foram vitimas do expurgo judeu das universidades alemãs. Essa situação durou até a fatídica Noite dos Cristais, quando Amalie percebeu que era hora de deixar a Alemanha Nazista. Vários foram os cientistas que fizeram o mesmo, levando a uma migração acentuada de eminentes pesquisadores das mais variadas áreas para outras partes do mundo, especialmente os Estados Unidos, resultando num crescimento da produção científica estadunidense na primeira metade do século XX.

Tendo recebido convite de trabalho de duas eminentes instituições, uma na Inglaterra e outra nos Estados Unidos, Amalie acabaria optando justamente por essa última. Passaria os últimos anos de sua vida lecionando em instituições americanas de Princeton e Pensilvânia, produzindo intensamente como já era costumeiro. Infelizmente esse período tranquilo acabaria abruptamente com sua morte em abril de 1935, em decorrência de complicações de uma operação no quadril.

A morte de Amalie Emmy Noether gerou grande comoção entre seus colegas. Nas cerimônias que se seguiram ao seu falecimento, Albert Einstein – que usou seu trabalho sobre teoria dos invariantes na formulação da teoria da relatividade – não a poupou de elogios chamando-a de “o gênio matemático criativo mais significativo já produzido desde que a educação superior para mulheres foi iniciada”. Quando alguém se referiu a ela como sendo a filha de Max Noether, seu notório colega e conterrâneo alemão, Edmund Landau retrucou com veemência: “Max Noether foi o pai de Emmy Noether. Emmy é a origem das coordenadas da família Noether.” Em 1982 celebrou-se no Bryn Mawr College, onde suas cinzas foram enterradas, o centenário de seu nascimento.

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Descrita por todos como uma pessoa extremamente amável e afetuosa, isso não impediu que Amalie lutasse pelos direitos femininos na Academia com intensidade e dedicação indescritíveis. Tendo conquistado o direito ao curso superior, depois a poder ensinar e finalmente encarado o opressivo sistema Nazista, tornou-se, não apenas um exemplo de excepcional algebrista, mas também uma fonte de inspiração para inúmeras gerações de mulheres que, assim como ela, precisam encarar diariamente um sem número de barreiras em virtude de seu gênero.

Amalie Emmy Noether é o sétimo e último texto da série sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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