RESENHA: DEIXE AS ESTRELAS FALAREM

Rosa não vê a hora de voltar para sua nave, o cargueiro independente Amaterasu. Reúne sua tripulação, mas se vê em uma situação desesperadora quando se percebe sem dinheiro, com a nave ancorada em um espaço-porto. Eis que um contrabando misterioso surge e uma oportunidade rara de fazer muito dinheiro em pouco tempo. Mas o trabalho não virá sem consequências para Rosa e sua tripulação.

Dei as Estrelas Falarem Amazon

No geral, todo fã de ficção científica tem em mente uma ideia mais ou menos clara de como são (ou deveriam/deverão ser) as viagens espaciais nas obras que leem ou assistem: um homem intrépido e audaz na cadeira de comando de uma poderosa nave de combate e/ou pesquisa a serviço de uma gigantesca frota ou organização política viajando pelo espaço enfrentando inimigos perigosos. Ou seja, o padrão estabelecido com a Série Clássica de Jornada nas Estrelas lá no final dos anos 60 e seguido não apenas por seus spin-offs, mas também por inúmeras outras.

han-solo-movie

Um dos vários exemplos de intrépido e audaz capitão

Logo no começo de Deixe as Estrelas Falarem – publicado pela Editora Dame Blanche – sua autora, Lady Sybylla do Momentum Saga, mostra algo totalmente diferente desse perfil: no comando do velho cargueiro independente com problemas para conseguir novos serviços, temos uma mulher de 90 anos, mãe e também avó. Através da narrativa em primeira pessoa descobrimos que Rosa Okonedo, apesar de adorar o trabalho, sente um pouco de remorso de ter sido uma mãe ausente, passando mais tempo no espaço do que em casa na Terra.

Esse é um dos pontos fortes da obra. Sybylla não teve receio em fugir dos padrões estabelecidos em outras obras de ficção. Fazendo isso ela cria personagens muito verossímeis, com os quais fica fácil a identificação, começando pela própria capitã – mas não se limitando a ela, como mostra nossa rápida identificação e simpatia com os personagens secundários. Independente, dando duro toda a vida e tendo que lidar não apenas com o trabalho, mas também as dificuldades de se manter uma família, estando as vezes, literalmente, a meia galáxia de distância, Rosa é facilmente reconhecível em qualquer mulher em nossa sociedade, dando duro em jornadas duplas de trabalho. E o detalhe que mais me chamou a atenção: ainda ativa mesmo aos 90 anos.

Especialmente nas várias séries da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek) fica bem claro que a expectativa de vida dos seres humanos deu um salto, com seres humanos vivendo até os 125 anos em média. A explicação para essa incrível longevidade é muito similar à da nossa realidade: em grande parte graças aos avanços médicos que permitiram controlar e até mesmo eliminar doenças até então letais, além das melhorias e disseminação de melhores condições de higiene e saneamento básico. Assim saltamos de uma expectativa de vida entre 30 e 40 anos no início do século XX para os atuais 60 a 70 anos em média (com alguns países mais privilegiados chegando a 80 e 90 anos em média). Esse aumento na expectativa de vida, acompanhada da melhoria na qualidade de vida obviamente, levou a uma redefinição do que é ser idoso. Hoje é comum vermos senhoras e senhores com mais de setenta anos levando uma vida extremamente ativa, trabalhando, praticando esportes etc. Algo bem diferente do conceito de idoso que tínhamos há algum tempo.

Infelizmente a série pouco utilizou esse aspecto nos mais de 700 episódios que compõem a franquia. Raríssimas são as vezes que vemos pessoas com mais de 90 anos aparecerem de maneira ativa em tela. Uma das poucas lembranças que tenho de uma personagem nesse perfil é a Drª Katherine “Kate” Pulaski, a oficiala médica chefe da U.S.S. Enterprise D. Infelizmente a boa doutora durou apenas uma temporada cedendo o lugar para o retorno da Drª Beverly Crusher. Era de se esperar que com uma sociedade com tão alta expectativa de vida, mais e mais indivíduos fossem mais atuantes, trabalhando e exercendo outras atividades mesmo depois dos 90 anos.

Katherine_Pulaski-Memory Alpha

Doutora Katherine “Kate” Pulaski em imagem do Memory Alpha

Outro ponto interessante é o aspecto econômico das viagens espaciais. Sabemos que enviar veículos, mesmo os não tripulados, ao espaço demanda um custo enorme, vide os orçamentos bilionários das diversas agências espaciais existentes (NASA, ESA, JAXA, Roscomos). Obviamente, no futuro altamente tecnológico imaginado, não apenas em Deixe as Estrelas Falarem, mas em praticamente todas as obras da ficção científica, esses gastos foram consideravelmente reduzidos. Tal redução permitiu a construção e manutenção de imensas frotas de naves e estações espaciais. No entanto, reduzir consideravelmente os gastos não significa necessariamente dizer que as atividades espaciais sejam necessariamente baratas. Como toda e qualquer atividade, essa também demanda recursos consideráveis para sua manutenção, bem como daqueles que a mantem em funcionamento.

Sybylla não só detalha essa questão econômica, inclusive com um certo detalhamento, como o utiliza muito bem na trama usando-o como mote para a Capitã Okonedo aceitar o transporte de um misterioso contrabando, algo que vai totalmente contra seus princípios. Mas entre pegar a carga ilegal – recebendo uma quantia substancialmente alta no processo – e arriscar ficar um tempo sem trabalho e, consequentemente, sem dinheiro, a preocupação com seus tripulantes fala mais alto.

No final das contas Deixe as Estrelas Falarem é uma história atraente, com personagens cativantes, uma trama interessante e que não teme abordar temas até bem poucos usados na Ficção Científica de modo geral. E o modo como isso é feito, integrando organicamente à trama é um dos pontos fortes da trama. E, embora eu não costume achar que um livro curto seja necessariamente um ponto negativo, nesse caso acredito que um mais algumas páginas para um melhor desenvolvimento dos personagens secundários não seria de todo mal. E não falo isso porque eles não tenham tido um desenvolvimento adequado. Ao contrário, cada um dos personagens tem seu momento e seu espaço na trama, mas justamente por serem tão interessantes ficamos com vontade de aprender e saber mais sobre eles. Quem sabe numa bem-vinda continuação?

Se você ainda não leu, recomendo fortemente Deixe as Estrelas Falarem. Pode compra-lo através desse link.

♦ ♦ ♦

Gostou do texto? Então sinta-se a vontade para ler os demais textos no blog. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

Anúncios

2 comentários sobre “RESENHA: DEIXE AS ESTRELAS FALAREM

  1. Achei que eu ia morrer antes de ver essa resenha. 😅

    Muito obrigada pelas palavras, pela leitura, pela amizade. ♥️

    É interessante notar que algumas pessoas não conseguiram assimilar a imagem da Rosa com alguém de 90 anos. Mas no livro eu explico que mudanças genéticas esticaram e muito a vida do ser humano. Ninguém mais envelhece como hoje, mas pelo visto uma galera fez leitura dinâmica!

    • Olha deu um empacamento uma hora que vou te contar! Eu sabia o que queria dizer mas não encontrava as palavras, o jeito de escrever. rsrs
      Mas saiu!
      Achei engraçado isso do pessoal não ter assimilado Rosa com 90 anos e toda ativa, especialmente porque você explicou como isso ocorreu no livro! O que mais me espanta é porque vemos isso em nossa realidade. Conheço várias pessoas com mais de 60 (e algumas até mesmo com mais de 90) sendo ativas, cheias de atividades e projetos. Só pode ter sido leitura dinâmica mesmo.
      E eu que agradeço por tudo, minha amiga! ♥️♥️♥️

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s