89-HUNKY DORY

Hunky Dory

Cantor: David Bowie

Gravação: Abril de 1971

Lançamento: 17 de Dezembro de 1971

Duração: 39:04

Produção: Ken Scott (assistido pelo ator)

Sobre o disco:

Em 16 de junho de 1972 chegava as lojas um disco que logo arrebataria legiões de fãs e transformaria seu autor numa verdadeira lenda: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars tornou-se um daqueles discos que mudariam para sempre o cenário musical como um todo e não apenas do rock. Mas essa é uma história para ser contada bem lá na frente (mas põe um bem lá na frente mesmo) dessa lista. Seis meses antes da saga de Ziggy, seu intérprete, um certo David Bowie, já era um nome comentado por conta do lançamento de uma pequena obra prima chamada Hunky Dory.

Vindo de relativos fracassos comerciais com seus três primeiros trabalhos, Bowie procurava por algo que pudesse lhe mostrar um caminho a seguir sem seus próximos discos. Vivendo um momento peculiar de sua carreira, sem contrato com nenhuma gravadora e com a esposa a espera do primeiro filho do casal, Bowie também se via tentando entender o que ocorria no cenário roqueiro de sua época. A década de 1970 começara com a notícia do fim dos Beatles, banda símbolo de uma era, o que deixou uma geração de fãs do rock (e não apenas do quarteto) com um gosto amargo e repletos de incerteza com a década que se iniciava. Bowie identificou-se com essa vontade de se encontrar do público jovem e tornou-a em força motriz para as novas composições procurando estabelecer um diálogo com a vontade de se encontrar daquela geração.

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Bowie durante as gravações em foto da Rolling Stones

Aqui reside, em minha opinião, uma das facetas mais interessantes da grande genialidade de Bowie, quando ele pega suas dúvidas quanto a que caminho seguir e as transforma no próprio caminho a seguir. E percebemos isso já na faixa inicial, mais do que apropriadamente chamada “Changes”, uma belíssima canção que versa sobre a capacidade e importância da constante reinvenção, especialmente a artística. Nada mais que o primeiro indício concreto do que viria a ser a grande marca do artista.

Complementando a instigante letra, “Changes” possuía também um instrumental e arranjos igualmente fantásticos, trazendo o próprio Bowie no Saxofone – no que é inclusive encarado como um dos seus grandes momentos nesse instrumento –, além de Mick Ronson na condução dos arranjos dos instrumentos de cordas e ninguém menos que Rick Wakeman no piano. A união de letras inteligentes e belos arranjos é, aliás, a grande marca de Hunky Dory, mas ela atinge o seu ápice naquela que considero a mais bela canção já gravada pelo artista e uma das mais belas canções de toda a história do rock: “Life on Mars?”

A BBC Radio 2 chamou essa canção de “mistura de um musical da Broadway com uma pintura de Salvador Dalí”. Não sem razão, pois a canção é repleta de frases e imagens surreais, que, segundo o autor trata-se de “Uma sensitiva reação de uma jovem garota diante da mídia” que, complementa, “se encontra decepcionada com a realidade … que, apesar de ela viver no marasmo da realidade, dizem a ela que há uma vida muito melhor em algum lugar, e ela está desapontada com o fato de não ter acesso a esse lugar.” Tudo isso embalado numa das mais belas melodias não apenas desse álbum, mas de toda a riquíssima carreira de Bowie.

O álbum ainda trazia outras composições brilhantes, a exemplo da dobradinha “Oh! You Pretty Things” e “Eight Line Poem” ou ainda da deliciosa “Kooks”, dona de um ritmo tão contagioso, que, quando demos por nós, já estamos cantarolando a canção com um sorrisinho nos lábios. Exemplo perfeito de canção chiclete que não enjoa, ao contrário, quanto mais ouvimos mais queremos ouvir. Do lado mais “hard rock” por assim dizer do disco temos “Quicksand” e “Queen Bitch”.

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Bowie em sua persona Ziggy Stardust com a banda Spiders From Mars

Chamada pela Melody Maker de “o pedaço mais inventivo de composições a ter aparecido num disco num período considerável de tempo”, o disco só pode ser lançado depois que a  RCA Records em Nova Iorque teve acesso a algumas demos já gravadas. Impressionada com a qualidade do material foi proposto um acordo para a produção de três álbuns, sendo Hunky Dory o primeiro deles. Embora tenha recebido críticas favoráveis e contado com uma boa vendagem em seu lançamento, ele não foi um sucesso imediato. Somente após o lançamento do álbum posterior, onde Bowie assumia a persona de Ziggy Stardust na obra-prima The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars que o sucesso comercial desse disco não só promoveu o personagem do alien andrógino, como ajudou a catapultar as vendas de Hunky Dory.

Inegavelmente um dos grandes clássicos de David Bowie, esse é o álbum considerado o mais importante de sua carreira. Não apenas pela qualidade rara, mas também por ser o pontapé inicial na carreira repleta de sucessos e marcada pela constante reinvenção de um dos artistas mais irrequietos. Nas palavras do próprio Bowie em entrevista no ano de 1997: “Hunky Dory me deu um engrandecimento fabuloso. Acho que me proveu, pela primeira vez na vida, um verdadeiro público – quero dizer, pessoas realmente vindo até mim e dizendo, ‘Bom álbum, boas músicas’. Isso não tinha acontecido comigo antes. Era assim, ‘Ah, estou captando, estou entendendo, estou começando a comunicar o que quero fazer. Agora: o que é que quero fazer?’ Havia sempre um azar duplo lá.”

Finalizando, não há como falar de Hunky Dory sem citar sua bela capa. Inspirada em um livro de fotos da estrela Marlene Dietrich, levada pelo artista para a sessão de fotos, e investe pesadamente na androginia que seria uma de suas marcas registradas mais marcantes por bastante tempo.

Com sua riqueza melodiosa de estilos e temas Hunky Dory é uma belíssima e encantadora mostra da capacidade de Bowie se reinventar, num trabalho que, se ainda não é gênio inovador de futuros trabalhos, já demonstra com vigor o que estava por vir nessa sua primeira de muitas aparições nessa lista.

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

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