89 – HUNKY DORY

Hunky Dory

Cantor: David Bowie

Gravação: Abril de 1971

Lançamento: 17 de Dezembro de 1971

Duração: 39:04

Produção: Ken Scott (assistido pelo ator)

Sobre o disco:

Em 16 de junho de 1972 chegava as lojas um disco que logo arrebataria legiões de fãs e transformaria seu autor numa verdadeira lenda: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars tornou-se um daqueles discos que mudariam para sempre o cenário musical como um todo e não apenas do rock. Mas essa é uma história para ser contada bem lá na frente (mas põe um bem lá na frente mesmo) dessa lista. Seis meses antes da saga de Ziggy, seu intérprete, um certo David Bowie, já era um nome comentado por conta do lançamento de uma pequena obra prima chamada Hunky Dory.

Vindo de relativos fracassos comerciais com seus três primeiros trabalhos, Bowie procurava por algo que pudesse lhe mostrar um caminho a seguir sem seus próximos discos. Vivendo um momento peculiar de sua carreira, sem contrato com nenhuma gravadora e com a esposa a espera do primeiro filho do casal, Bowie também se via tentando entender o que ocorria no cenário roqueiro de sua época. A década de 1970 começara com a notícia do fim dos Beatles, banda símbolo de uma era, o que deixou uma geração de fãs do rock (e não apenas do quarteto) com um gosto amargo e repletos de incerteza com a década que se iniciava. Bowie identificou-se com essa vontade de se encontrar do público jovem e tornou-a em força motriz para as novas composições procurando estabelecer um diálogo com a vontade de se encontrar daquela geração.

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Bowie durante as gravações em foto da Rolling Stones

Aqui reside, em minha opinião, uma das facetas mais interessantes da grande genialidade de Bowie, quando ele pega suas dúvidas quanto a que caminho seguir e as transforma no próprio caminho a seguir. E percebemos isso já na faixa inicial, mais do que apropriadamente chamada “Changes”, uma belíssima canção que versa sobre a capacidade e importância da constante reinvenção, especialmente a artística. Nada mais que o primeiro indício concreto do que viria a ser a grande marca do artista.

Complementando a instigante letra, “Changes” possuía também um instrumental e arranjos igualmente fantásticos, trazendo o próprio Bowie no Saxofone – no que é inclusive encarado como um dos seus grandes momentos nesse instrumento –, além de Mick Ronson na condução dos arranjos dos instrumentos de cordas e ninguém menos que Rick Wakeman no piano. A união de letras inteligentes e belos arranjos é, aliás, a grande marca de Hunky Dory, mas ela atinge o seu ápice naquela que considero a mais bela canção já gravada pelo artista e uma das mais belas canções de toda a história do rock: “Life on Mars?”

A BBC Radio 2 chamou essa canção de “mistura de um musical da Broadway com uma pintura de Salvador Dalí”. Não sem razão, pois a canção é repleta de frases e imagens surreais, que, segundo o autor trata-se de “Uma sensitiva reação de uma jovem garota diante da mídia” que, complementa, “se encontra decepcionada com a realidade … que, apesar de ela viver no marasmo da realidade, dizem a ela que há uma vida muito melhor em algum lugar, e ela está desapontada com o fato de não ter acesso a esse lugar.” Tudo isso embalado numa das mais belas melodias não apenas desse álbum, mas de toda a riquíssima carreira de Bowie.

O álbum ainda trazia outras composições brilhantes, a exemplo da dobradinha “Oh! You Pretty Things” e “Eight Line Poem” ou ainda da deliciosa “Kooks”, dona de um ritmo tão contagioso, que, quando demos por nós, já estamos cantarolando a canção com um sorrisinho nos lábios. Exemplo perfeito de canção chiclete que não enjoa, ao contrário, quanto mais ouvimos mais queremos ouvir. Do lado mais “hard rock” por assim dizer do disco temos “Quicksand” e “Queen Bitch”.

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Bowie em sua persona Ziggy Stardust com a banda Spiders From Mars

Chamada pela Melody Maker de “o pedaço mais inventivo de composições a ter aparecido num disco num período considerável de tempo”, o disco só pode ser lançado depois que a  RCA Records em Nova Iorque teve acesso a algumas demos já gravadas. Impressionada com a qualidade do material foi proposto um acordo para a produção de três álbuns, sendo Hunky Dory o primeiro deles. Embora tenha recebido críticas favoráveis e contado com uma boa vendagem em seu lançamento, ele não foi um sucesso imediato. Somente após o lançamento do álbum posterior, onde Bowie assumia a persona de Ziggy Stardust na obra-prima The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars que o sucesso comercial desse disco não só promoveu o personagem do alien andrógino, como ajudou a catapultar as vendas de Hunky Dory.

Inegavelmente um dos grandes clássicos de David Bowie, esse é o álbum considerado o mais importante de sua carreira. Não apenas pela qualidade rara, mas também por ser o pontapé inicial na carreira repleta de sucessos e marcada pela constante reinvenção de um dos artistas mais irrequietos. Nas palavras do próprio Bowie em entrevista no ano de 1997: “Hunky Dory me deu um engrandecimento fabuloso. Acho que me proveu, pela primeira vez na vida, um verdadeiro público – quero dizer, pessoas realmente vindo até mim e dizendo, ‘Bom álbum, boas músicas’. Isso não tinha acontecido comigo antes. Era assim, ‘Ah, estou captando, estou entendendo, estou começando a comunicar o que quero fazer. Agora: o que é que quero fazer?’ Havia sempre um azar duplo lá.”

Finalizando, não há como falar de Hunky Dory sem citar sua bela capa. Inspirada em um livro de fotos da estrela Marlene Dietrich, levada pelo artista para a sessão de fotos, e investe pesadamente na androginia que seria uma de suas marcas registradas mais marcantes por bastante tempo.

Com sua riqueza melodiosa de estilos e temas Hunky Dory é uma belíssima e encantadora mostra da capacidade de Bowie se reinventar, num trabalho que, se ainda não é gênio inovador de futuros trabalhos, já demonstra com vigor o que estava por vir nessa sua primeira de muitas aparições nessa lista.

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90 – AUTOMATIC

Automatic

Banda: The Jesus and Mary Chain

Integrantes: Jim Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias) e William Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias).

Gravação: 1989

Lançamento: 9 de outubro de 1989

Duração: 43m26s

Produção: Alan Moulder

Sobre o disco:

The Jesus and Mary Chain é uma das bandas mais interessantes a surgirem nos anos 80. Misturando as influências que iam de Velvet Underground a Beach Boys, passando por The Stooges e uma inconfundível atitude punk rock, os irmãos William e Jim Reid assombraram o mundo da música a partir de 1984 com o lançamento de inúmeros singles de sucesso como “Upside Down”, culminando com o lançamento do clássico inegável Psychocandy um ano depois.

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Os irmãos Reid

A recepção positiva desse disco por parte do público foi acompanhada pela crítica que logo tratou de marcar que os irmãos Reid tinham “reinventado o punk rock”. O impacto desse primeiro álbum é sentido até hoje com inúmeras bandas repetindo sua fórmula, nem sempre com os mesmos resultados, infelizmente. Com o sucesso banda começou então a excursionar pela Europa e também pelos Estados Unidos. Seus shows ficaram famosos por terem no máximo 35 minutos de duração onde reinava o caos, com os músicos vestidos totalmente de preto tocando de costas para o público na maior parte do tempo. Com os irmãos Reid subindo nos palcos invariavelmente bêbados e drogados era comum os shows terminarem com brigas entre eles. Músicos entravam e saíam constantemente e assim o grupo continuou até 1989 quando lançam seu terceiro trabalho, Automatic.

Apesar de seus últimos álbuns serem considerados por muitos como alguns dos melhores discos de estreia de uma banda de rock, o que pode ser visto nas relativamente boas vendas, Automatic não teve uma recepção positiva nem dos críticos e menos ainda dos público. Com uma sonoridade diferente dos trabalhos anteriores, mais eletrônico (um tanto devido ao uso de baterias eletrônicas e outro muito por conta do novo produtor, Alan Moulder, que reduziu significativamente as distorções características da banda), o disco revelou um The Jesus and Mary Chain bem menos inspirado. Com altos e baixos Automatic, apesar das boas faixas “Head On” e “Blues From a Gun”, era apenas uma sombra do que os Reid eram capazes de fazer.

Sendo assim, é muito natural nos perguntarmos: “Se Automatic não é essa maravilha toda, que diabos então esse disco está fazendo nessa lista?” Bem, a resposta mais sincera de minha parte é um enfático “não faço a menor ideia!”

Quando analisamos a lista completa de discos nessa lista fica fácil perceber os critérios utilizados por seus autores para escolher cada um. São álbuns que, de um modo ou de outro, mudaram a face do rock e, em alguns casos, da música como um todo (a exemplo de Nevermind ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, respectivamente). Trabalhos que, não apenas foram, mas ainda hoje são capazes de influenciar novos trabalhos e novos artistas (qualquer um dos discos de David Bowie). Obras que, ainda que tivessem sido um fracasso total quando lançados, acabaram tempos depois sendo reconhecidos como verdadeiras obras primas (melhor exemplo que vem à mente é Funhouse do The Stooges). E Automatic não é nada disso.

Sendo bem pragmático, mesmo quando analisado sem ter em mente o potencial das mesmas mentes criadoras de Psychocandy – esse sim um clássico incontestável – e Darklands (o segundo e muito bom álbum da dupla), esse é um disco apenas regular. The Jesus and Mary Chain é uma da grandes bandas a surgirem, mas definitivamente considero bastante equivocada a presença de Automatic nessa lista. Nada contra o álbum em si, que é até bem legalzinho, porém um tanto irregular, além de pouco inspirado e com certas incongruências. Primeiro: ele não me parece honrar o som feito pelo Jesus and Mary; segundo: as limitações de se usar uma bateria eletrônica e até mesmo algumas linhas do baixo feitas com o sintetizador; terceiro: tanto a crítica quanto o público não receberam bem esse álbum, sendo ainda hoje considerado um trabalho menor do grupo. Se os autores da lista queriam tanto colocar um outro trabalho dos caras aqui – além de Psychocandy –, que ao menos fosse em 100º, fechando a fila. Ou, melhor ainda, que pusessem em seu lugar Darklands, um álbum, se não emblemático, ao menos com uma melhor recepção tanto de crítica quanto de público.

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91 – DOG MAN STAR

Suede Dog Man Star

Dog Man Star – Suede

Banda: Suede

Integrantes: Brett Anderson (vocais), Bernard Butler (guitarras), Simon Gilbert (bateria) e Mat Osman (contrabaixo).

Gravação: 22 Março a 26 Julho de 1994 no Master Rock Studios em Londres

Lançamento: 10 de Outubro de 1994

Duração: 57m50s

Produção: Ed Buller

Sobre o disco:

Em meados dos anos 90 o que fazia a cabeça da garotada que curtia rock era o movimento grunge. Isso nos EUA, pois do outro lado do Atlântico, nas terras de Sua Majestade, o sucesso atendia pelo nome de Britpop. Pulp, The Verve, Supergrass, Elastica, Sleeper, Blur e Oasis faziam um contraponto, em teoria, mais cabeça ao som que vinha da antiga colônia.

Sob a inspiração de bandas do quilate de The Smiths e, um pouco mais indiretamente, do glam rock de David Bowie, o Suede se destacava das demais graças as letras dúbias (de onde se origina o nome da banda, uma gíria londrina para dúbio) e um tanto ácidas do também vocalista Brett Anderson e da qualidade do guitarrista Bernard Butler, os grandes destaques e fundadores da banda. Depois de vários singles e de uma estreia de sucesso a mídia britânica exaltava o grupo e alçava Brett Anderson ao cargo de “salvador do orgulho britânico” frente à invasão do grunge.

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Todo esse sucesso e aceitação da crítica no entanto não livraram o Suede de enfrentar uma dura crise interna. Apesar de serem os fundadores da banda, Anderson e Butler não se entendiam, brigando e discutindo constantemente. Para completar os excessos com drogas e a polêmica ao redor do clip do single avulso “Stay Together” elevou as tensões ao máximo. Ao mesmo tempo que o britpop estourava revelando Oasis, Blur e outros, o Suede parecia fadado ao fim.

Com tudo isso em mente, Anderson se trancou numa mansão de onde só saiu após o consumo intenso de drogas e ter escrito todas as letras do álbum que viria a se tornar Dog Man Star. Renegando veementemente os títulos de salvador do que quer fosse atribuído pela mídia, o letrista deixou transparecer esse inconformismo nas letras ambientadas justamente no, digamos assim, território “inimigo”: os EUA, mais precisamente a Hollywood entre os anos 40 e 50. Glamour, decadência, cinismo, temas sombrios, tudo encaixado a perfeição nas letras dúbias.

Infelizmente toda qualidade e beleza soturna do material não impediu que as rusgas entre Anderson e Butler continuassem e mesmo se intensificassem quando a banda se reuniu para as gravações. Com pouco mais de um mês de gravações Butler não aguentou e saiu do grupo deixando a canção “The Power” inacabada, levando Anderson a gravar a guitarra nessa canção, embora os créditos de todas as guitarras do disco sejam dados a Butler.

A saída prematura de Butler não impediu um trabalho inspirado, entregando algumas das guitarras mais lindas não só do grupo, como de, provavelmente, todo o britpop, fazendo jus ao título de melhor guitarrista britânico desde Johhny Marr, também dado pela mídia britânica. O casamento entre o instrumental – com Gilbert e Osman fazendo bonito frente aos colegas mais talentosos – e as letras carregadas de androginia, cinismo, sarcasmo e ambiguidade seria ainda abrilhantado pelos lindos e competentes vocais de Anderson fazendo de Dog Man Star se não um dos melhores, muito provavelmente o mais interessante do movimento. Isso mesmo a despeito do desprezo de Anderson para com toda a vibe da mídia com o britpop.

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Assim que foi lançado a mídia especializada como era de se esperar rasgou elogios para o trabalho. Mas verdade seja dita, nada do que foi dito sobre esse disco foi exagerado ou imerecido. Trabalho primoroso cheio de belíssimas canções que entregam a perfeição todo um clima lúgubre, decadente e introspectivo, cheio de melancólicas reflexões a respeito das inquietações de Anderson, alcançando o ápice em “The Asphalt World”, um dos mais lindos e comoventes do disco.

Mas, se a crítica amou, o mesmo não aconteceu com o público que, ainda tendo em mente o álbum de estreia, estranhou a atmosfera sombria do disco dando a ele uma recepção morna, se comparada ao anterior. Mesmo assim teve uma vendagem razoável e hoje é indiscutivelmente considerado uma pequena obra-prima.

Com Dog Man Star, o Suede, esses filhos não tão bastardos de David Bowie e de Morrissey e seu The Smiths, conseguiu a proeza de reverenciar suas influências e ainda assim fazer um som próprio com identidade. São um ótimo contraponto aos irmãos Gallagher do Oasis no que se refere ao cenário do britpop. Um álbum sólido, com qualidade inquestionável e ótima sonoridade, definitivamente o melhor do Suede.

A seguir você pode conferir a minha música preferida do álbum:

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92 – JOURNEY TO THE CENTRE OF THE EARTH

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Journey To The Centre Of The Earth – Rick Wakeman

Artista: Rick Wakeman

Músicos Integrantes: Rick Wakeman (sintetizadores e teclados); Gary Pickford-Hopkins e Ashley Holt (vocais); David Hemmings (narrador); Mike Egan (guitarras); Roger Newell (baixo); Barney James (bateria); The London Symphony Orchestra; The English Chamber Choir; David Measham (maestro e condutor); Wil Malone e Danny Beckerman (arranjos para orquestra e coro)

Gravação: Royal Festival Hall, Londres, Inglaterra, 18 de janeiro de 1974

Lançamento: 18 de maio de 1974

Duração: 40m09s

Arranjos: Danny Beckerman e Wil Malone

Produção: David Hemmings

Sobre o disco:

Noite de 18 de janeiro de 1974. Na plateia do Royal Festival Hall de Londres o público ruidoso observava com certa curiosidade a Orquestra Sinfônica de Londres e o Coral de Câmara Inglês lado a lado com uma moderna banda com guitarras, baixos elétricos e bateria. No centro do palco, ao lado do maestro, um impressionante conjunto de teclados e sintetizadores parecia também aguardar. Havia uma certa expectativa dúbia no ar sobre o que sairia daquela mistura inusitada entre música clássica, rock progressivo e literatura.

De repente o burburinho muda de tom, parece ceder um pouco. É que entrou no palco a nada discreta figura de Rick Wakeman, os seus longos cabelos loiros caídos por cima da capa prateada que chega aos pés. Após agradecer com um breve galanteio os aplausos costumeiros, Wakeman assume seu lugar ao centro dos teclados. Seguindo a programação impressa num bem acabado livro entregue a todos na plateia, são executadas as peças “Sinfonia Nº 1 in D Minor – Opus 13”, de Rachmaninov, seguido pelas peças de autoria do próprio Wakeman (de seu disco solo anterior The Six Wives of Henry VIII) “Catherine Parr”, “Catherine Howard”, “Anne Boleyn” e dois improvisos, tem início a peça principal: The Journey To The Centre Of The Earth!

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Rick Wakeman e seu nada discreto modo de se vestir. Imagem do Daily Mail

Conhecido pela megalomania e por ser um dos egos mais inflados do rock (ou mesmo da música), Wakeman começou a idealizar o que viria a se tornar The Journey, após o Yes, banda na qual entrara em 1971 e ajudara na evolução de sua sonoridade, lançar em 1973 a obra Tales From Topographic Oceans. Praticamente uma obra exclusiva das mentes criativas de Steve Howe e Jon Anderson (respectivamente guitarrista e vocalista do Yes), a crítica se derretia em elogios aos dois, enquanto Wakeman se sentia preterido na banda. Mas, tendo uma boa recepção de seu trabalho solo, lançado também em 1973, The Six Wives of Henry VII, o talentoso tecladista de formação clássica começou a rascunhar um material ambicioso. Seu objetivo: mostrar que os elogios recebidos no trabalho solo não eram a toa e provar todo seu talento, muito maior que todo o Yes. Traduzindo: Wakeman queria uma mega massagem no seu já enorme ego ao mesmo tempo em que dava uma resposta aos seus colegas músicos!

A ideia original apresentada à gravadora era a de um disco duplo com uma única canção contando a história do clássico do autor francês Júlio Verne. A obra contaria com a participação de um coral e orquestra e o disco ainda traria um luxuoso livreto contendo gravuras e a letra da canção. No entanto a ideia foi vetada de cara, pois seu custo seria exorbitante. Depois de algumas idas e vindas, o projeto foi aprovado desde que fosse reduzido a um disco simples e com a gravação ocorrendo ao vivo, com a venda de ingressos para ajudar a pagar os custos, além de diminuir as horas de estúdio.

A apresentação foi um grande sucesso e Wakeman voltou às exigências: agora, além de novamente pedir novamente o livro de ilustrações, ele queria o disco lançado na forma quadrifônica. Como se não fosse o bastante passou a cogitar a hipóteses de excursionar levando todo o complexo conjunto de músicos envolvidos no projeto, algo extremamente caro e, obviamente vetado pela gravadora. Por essa época, Wakeman já tinha ganho um bom dinheiro com a turnê bem sucedida do disco Tales From Topographic Oceans ainda com o Yes. Encerrada a turnê, ele sai da banda e concentra todos os seus esforços no disco. Depois de apelar para o braço norte-americano da gravadora, Journey To The Centre Of The Earth foi lançado em maio de 1974 contendo apenas duas faixas no lado A (“Journey” e “Recolletion”) e duas no lado B (“The Battle” e “The Forrest”). Para alegria de Wakeman o disco acabou saindo em duas versões: uma de gravação normal e a outra na desejada forma quadrifônica, sendo essa última extremamente rara hoje em dia.

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Rick Wakeman em seu ambiente: cercado de teclados e sintetizadores

O sucesso da obra foi imediato alcançado o topo das paradas britânicas e norte-americanas vendendo ao todo até hoje mais de 14 milhões de cópias. Todo esse sucesso só serviu para alimentar a já bem nutrida megalomania de Wakeman, que passou a investir pesado na Journey Tour, iniciando pela América do Norte e passando pela Europa Ásia e Japão. Para se ter uma ideia da grandiosidade dessa turnê, em 1975 Journey foi apresentado em uma série de shows no Brasil, como parte do Projeto Aquarius promovido pelo O Globo. Para esse shows foram trazidos ao país cerca de 18 toneladas de equipamentos para os diversos e, até então, extraordinários efeitos sonoros e visuais, além de contar com uma equipe de 70 pessoas nos bastidores! Só a mesa de som utilizada trabalhava com 285 canais. O Maracanãzinho no Rio de Janeiro, o Ginásio da Portuguesa em São Paulo e o Gigantinho em Porto Alegre receberam cada qual mais de 50 mil expectadores.

Perfeccionista, Wakeman fazia questão de que seu público, independente de língua, pudesse ter uma apreciação plena da execução da obra. Assim sempre era contratado um narrador na língua local para as partes textuais. Orquestras locais também eram contratadas, pois ficaria ainda mais oneroso bancar os gastos de transporte, hospedagem de uma orquestra completa, mais os músicos da banda. No Brasil, os shows de São Paulo e Rio de Janeiro contaram com Orquestra Sinfônica Brasileira, enquanto no Rio Grande do Sul a Sinfônica de Porto Alegre foi a contratada, tendo sempre na regência o consagrado maestro Isaac Karabtchevsky, completados pelo Coral da Universidade Gama Filho.

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Durante o show no Maracanãzinho lotado em 1975. Imagem do O Globo

O Mago dos Teclados, como Wakeman é conhecido, lançou muita coisa boa depois de Journey, intercalando sua carreira em retornos ao Yes (lançando o excelente Going for the One em 1977) e trabalhos solos (com The Myths and Legends of KinG Arthur and the Knights of the Round Table de 1975, nos mesmos estilo de Journey, cuja turnê, ainda mais grandiosa, quase levou a gravadora a falência). Ainda assim, nenhum desses discos alcançou o sucesso alcançado aqui.

Journey To The Centre Of The Earth é dos discos que mais me surpreenderam positivamente nessa lista, sendo também um dos que mais escuto. Particularmente considero sua introdução uma das coisas mais bonitas que já ouvi na música. A ousadia do Mestre dos Teclados foi compensada com a excelência com que a obra é executada pelos competentes músicos, tanto os da The London Symphony Orchestra (como era de se esperar) como os de sua banda a English Rock Ensemble, refletida na excelente gravação ao vivo. O resultado é um dos discos mais interessantes, originais e bonitos da história do Rock, merecendo com honras sua nonagésima segunda posição.

Infelizmente não encontrei nenhum registro da apresentação original ocorrida em janeiro de 1974. Também achei muito difícil achar um bom vídeo mostrando Wakeman, banda, orquestra e narrador para ilustrar como deve ter sido aquela apresentação no Royal Festival Hall. No entanto acabei topando com esse vídeo abaixo de “The Battle”, que, apesar de estar sem data de quando ocorreu, claramente é bem próximo da data da execução original.

E quando já finalmente estava finalizando esse texto para sua publicação, acabei topando com essa gravação da parte inicial “Journey” em apresentação de 30 de março de 2014 no Royal Albert Hall. Embora seja amadora, a qualidade de som e imagem é excelente.

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Até mais!

93 – GET THE KNACK

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Get The Knack – The Knack

Banda: The Knack

Integrantes: Berton Averre (guitarra, vocal), Prescott Niles (Baixo, vocal), Doug Fieger (vocal, guitarra), Bruce Gary (Bateria, percussão)

Gravação: Abril de 1979

Lançamento: 11 de junho de 1979

Duração: 40:58

Produção: Mike Chapman

Sobre o disco:

Em um dia qualquer de 1978, o jovem Doug Fieger entrou numa loja de roupas de Los Angeles onde encontra uma jovem balconista de 17 anos por quem se apaixonou imediatamente. “Foi como ser atingido na cabeça com um taco de beisebol, eu me apaixonei por ela instantaneamente, e quando isso aconteceu, ela provocou alguma coisa dentro de mim e eu comecei a escrever um monte de músicas febrilmente em um curto espaço de tempo”, diria ele tempos depois. Desse começo prosaico acabaria nascendo um dos hits mais grudentos do final dos anos 70, “My Sharona”.

A canção foi o carro chefe do disco lançado no ano seguinte do arrebatador Get The Knack. Apesar de ser um excelente disco com boas canções, o imenso sucesso alcançado se deu em grande parte devido a “My Sharona” que simplesmente não parava de tocar nas rádios e, mesmo competindo com a moda da Disco Music, conseguira conquistar o topo da billboard naquele ano, numa inusitada primeira posição a frente de “Bad Girls” de Donna Summer e “Le Freak” do grupo Chic. O resultado: um dos discos de estreia mais arrebatadores até então.

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A pouco comportada (para o final dos anos 70) capa do single

Apesar dessa nada pequena ajuda, não foi apenas devido ao sucesso da little pretty one “My Sharona” os bons resultados alcançados pelo disco. A inteligente, embora arriscada, estratégia de marketing da gravadora – vendendo a banda como os Beatles dos anos 80 – teve sua parcela de responsabilidade. Do título e capa aludindo ao Meet The Beatles à produção das canções, quase todo o álbum remete ao quarteto inglês. O próprio clip de, novamente, “My Sharona” não nos deixa esquecer isso, tendo uma bateria com o nome da banda gravado numa fonte muita similar a da batera de Ringo e o estilo mais social dos integrantes do grupo, usando terninhos, ainda que bem mais casual e a vontade. Afinal, os Beatles dos anos 80 não podiam desfilar por aí com terninhos bem comportados. Era preciso um pouco mais de rebeldia.

Com canções muito bem pensadas, produzidas e, especialmente, bem tocadas, tem-se no instrumental um dos pontos mais fortes do álbum. Apesar de ter duas canções chicletes (“Oh, Tara”, além da onipresente “My Sharona”), essas nunca soam chatas ou cansativas, o que também ajuda a explicar o sucesso de ambas. O bom equilíbrio entre rock e pop do começo ao fim ajudam na harmonia geral da obra, que é dançante e alegre, mesmo em faixas um pouco mais destoantes, a exemplo de “(She’s So) Selfish”, um dos instrumentais mais interessantes do álbum, ou de “Maybe Tonight” calma e melódica.

Entretanto, se pelo lado instrumental o disco é impecável, é importante frisar o conteúdo francamente misógino de suas letras. Há vários exemplos, por todo o álbum, como “Lucinda”, canção onde a garota título é retratada como uma destruidora de corações, mentirosa e cínica. Há ainda a já citada “(She’s So) Selfish”, cujo título entrega de cara a ideia de mulher expressa na canção (algo como “(Ela é Assim) Egoísta”, numa tradução livre). De maneira geral as letras de Get The Knack falam de homens cujas vidas foram ou são, de certo modo, estragadas por causa de uma mulher. Dissimuladas, cruéis, levianas. Essa era a visão feminina apresentada pela banda. E, diga-se de passagem, nada incomum ou algo novo no rock, um universo dominado por homens, com músicas (“Under My Thumb” dos Rolling Stones) e atitudes machistas (qualquer banda em relação as suas groupies nos idos dos anos 60 e 70), conforme relatei no texto sobre Jagged Little Pill de Alanis Morissette.

Get The Knack é um excelente disco que peca na sua visão preconceituosa das mulheres. Por todo o impacto que causou no fim dos anos 70 e início dos anos 80, influenciando inclusive muito do que viria a ser produzido dali em diante, como o power pop e o new wave, explica-se sua presença nessa lista. Particularmente considero um trabalho muito bem produzido, mas nada de tão memorável, além do estouro de “My Sharona” e os belos arranjos de suas canções. Beatles dos nãos 80? Com certeza não.

Depois do início avassalador, The Knack nunca mais conseguiu repetir ou mesmo chegar perto de tanto sucesso. Era encarada pela mídia como uma banda de atitude artificial e arrogante, principalmente depois que casos como o da revista Scene ter se recusado a publicar um artigo devido as “tentativas de censura” da banda começarem a surgir. Ainda lançariam mais dois álbuns que sequer passaram perto do sucesso do primeiro, culminando com a dissolução do quarteto em 1981.

Apesar de ser um disco bem executado, com belas melodias – ainda que o tom machista das letras seja algo a ser notado –, não tem para onde escapar: “My Sharona” foi, e ainda é, o hit pelo qual se lembra de Get The Knack. Doug Fieger e Sharona Alperin (a jovem balconista que inspirara a canção) namoraram por quatro anos. Posou para a capa do single inclusive. A canção foi composta em cerca de 15 minutos. Um relacionamento meteórico que levou a uma composição meteórica, assim como foi o sucesso do quarteto. De tudo ficaram apenas o álbum, as lembranças e “My Sharona”…

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Doug Fieger e Sharona Alperin

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94 – BREAKFAST IN AMERICA

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Breakfast in America – Supertramp

Banda: Supertramp

Integrantes: Rick Davies (teclado, vocais e harmônica), John Helliwell (saxofone, vocais e instrumentos de sopro), Roger Hodgson (guitarra, teclado e vocais), Bob Siebenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo)

Gravação: 1978 no estúdio B da Village Recorder em Los Angeles

Lançamento: 29 de março de 1979

Duração: 46:06

Produção: Peter Henderson, Supertramp

Sobre o disco:

Em 1979 chegava às lojas o sexto e melhor álbum da banda inglesa, mas radicada nos EUA, Supertramp. Na capa uma simpática garçonete empunhando um copo de suco de laranja substitui a Estátua da Liberdade, tendo ao fundo uma Nova York de caixas de cereais, xícaras, pratos e talheres, evocando o título do álbum: Breakfast in America. Deixando o Rock Progressivo dos primeiros álbuns de lado e abraçando uma sonoridade mais pop, o álbum fez sucesso imediato, alcançando o topo da Billboard e vendendo 9 milhões de cópias apenas nos EUA.

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Kate Murtagh, atriz que encarna a simpática garçonete da capa de Breakfast in America

Formado inicialmente por Rick Davies, em parceria com Roger Hodgson e contando com o apoio (leia-se o dinheiro) de um milionário holandês, o grupo fracassou em seus dois primeiros lançamentos. Com isso o homem do dinheiro pulou fora e a banda se dissolveu, sendo retomado pela dupla Davies/Hdgson em 1973, quando foram integrados John A. Helliwell nos sopros, Dougie Thompson no baixo e Bob Sienbenberg na bateria.

Em 1975 lançam Crime Of The Century conseguindo um relativo sucesso no Reino Unido, especialmente com o single “Dreamer”. Por essa época todo o grupo se muda para os EUA, visando o milionário mercado fonográfico americano. Embora tenham lançado dois álbuns regulares que renderam um certo sucesso, o estouro só ocorreu mesmo com o lançamento de Breakfast in America.

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Dougie Thomson, Bob Sienbenberg, John Helliwell, Roger Hodgson and Rick Davies

Conciliando com qualidade a sofisticação instrumental característica do grupo às melodias contagiantes, o disco foge um pouco do estilo progressivo, tornando-se mais pop, mas sem se render as soluções fáceis. Isso, aliado às letras inteligente e levemente irônicas das canções (que combinam perfeitamente com os vocais mais graves de Davies e os agudos de Hogdson), ajudam a explicar o grande sucesso que o disco atingiu naquele ano de 1979, emplacando logo de cara 4 hits entre os mais tocados nas rádios: “Goodbye Stranger”, “Breakfast in America”, “Take The Long Way Home” e “The Logical Song”.

Apesar de todo o sucesso alcançado, a gravação do álbum não foi livre de problemas. Apesar de serem, por assim dizer, os membros fundadores, vocalistas e responsáveis pelas letras, Rick Davies e Roger Hodgson não eram muito de se entender. Foram várias as discussões entre os dois durante as gravações e pós-produção. Avesso às grandes produções e adepto de um estilo de vida mais simples, Hogdson procurava imprimir essas características nas suas canções, o exato oposto de Davies que preferia arranjos mais trabalhados e complexos. Afirma-se que as canções “Child of Vision” e “Casual Conversations” foram escritas por Hogdson e Davies, respectivamente, onde ambos expõem essas diferenças, o que faz algum sentido quando analisamos a letras de perto.

Depois de entendimentos e novos desentendimentos, Roger Hogdson finalmente deixaria a banda em 1983, após o lançamento de mais um disco e de uma mega turnê internacional. O Supertramp continuou assim mesmo. Lançaram mais cinco álbuns, nenhum alcançando nem sombra do sucesso de Breakfast in America. Nos shows evitavam cantar os sucessos de autoria de Hogdson, numa tentativa de afirmação da identidade da banda a parte do ex-integrante.

Breakfast in America é um excelente disco com uma mistura excelente entre o pop e o progressivo. É um dos discos que mais gosto de ouvir dessa lista, não só pelos melodiosos arranjos, mas principalmente pela sutil ironia em suas letras. Sua posição na lista é mais do que adequada.

Para finalizar uma curiosidade: os integrantes do Supertramp sempre foram, de modo geral, pouco interessados na fama, evitando dar entrevistas ou colocar seus rostos nas capas dos discos. Nos vários shows da banda, era muito comum passearem pelo público sem serem reconhecidos ou notados. Certa vez, enquanto passeavam perto do palco uma hora antes do início do show, um rapaz perguntou se aqueles caras eram tão bons ao vivo como eram no estúdio. Reconhecidamente o mais brincalhão do grupo, John Helliwell respondeu: “Sei lá! Na verdade nem gosto muito deles!”

Abaixo vocês podem conferir um clip aparentemente caseiro de um dos grandes sucessos da banda: “The Logical Song”.

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