O DIA EM QUE A TERRA PAROU

Atentados de 11 de setembro

Os gigantes em chamas em imagem de Gulnara Samoilova da Associated Press

Era assim que as coisas aconteciam,

Era assim que eu via tudo acontecer

Nenhum de Nós

O dia começou como qualquer outro. Nada nele parecia indicar nada de diferente ou especial. Talvez um pouco mais quente que o normal. Mas isso poderia muito bem ser impressão minha. Na verdade, de estranho mesmo, só a hora em que acordei. Não era nem oito horas da manhã e eu já estava de pé. Evento raro em minha adolescência, aquela noite dormi pesadamente, sem a insônia comum de quase todas as noites desde a sexta série.

Terminava o café da manhã, quando uma voz conhecida me chamou do portão. Reconheci imediatamente como sendo de minha amiga de escola, Dani. Estava com outra amiga, Lúcia, me chamando para irmos ao instituto onde ela conseguira se matricular em um curso profissionalizante. Apressava-me para sair com elas para providenciar fotocópias de minha documentação. Apesar de me contar tudo meio atropeladamente, logo entendi que ela conseguira mais duas vagas, uma para Lúcia, a outra para mim.

Sendo alunos de escola pública, tínhamos poucas perspectivas de conseguir trabalho quando terminássemos o ensino médio dali a poucos meses. Essa era, portanto, uma oportunidade realmente excelente de qualificação profissional. Não podíamos perde-la.

Rapidamente me troquei, catei todos os documentos necessários para a matrícula e corri para uma fotocopiadora ali perto. Enquanto isso Lúcia ia até sua casa com Dani para fazer o mesmo. Na fotocopiadora, enquanto aguardava, pus a atenção por acaso numa pequena TV no canto da parede. Na imagem chuviscada consegui vislumbrar um edifício enorme com uma grossa coluna de fumaça ganhando o céu. Na hora pensei: que canal de televisão passa um filme de ação a essa hora da manhã?

Em chamas

E assim se iniciou o longo dia de 11 de Setembro de 2001

Voltei para casa onde esperaria Dani e Lúcia. Para minha surpresa, minha mãe tinha parado os afazeres domésticos e estava concentrada vendo a TV. Na hora soube que algo importante acontecera ou estava acontecendo. Pouco afeita à TV, ainda mais pela manhã, minha mãe parava pra dar atenção ao aparelho somente no caso de alguma notícia muito séria. Nem tive tempo de perguntar se era o caso. Olhos na tela, ela me perguntou se eu tinha visto o que acabara de acontecer: um avião, provavelmente um pequeno jato, teria se chocado com uma das torres do World Trade Center em Nova York.

Um avião? Na mesma hora aquilo me pareceu um absurdo. Sendo um garoto aficionado por aviação, eu tinha uma vaga noção de que aviões não podiam voar tão baixo assim naquela área. Mas lá estava o prédio parcialmente em chamas com as noticias confirmando o acontecido. Eu estava com o pensamento nisso quando o impensável aconteceu bem diante dos nossos olhos: um enorme Boeing cruzou a tela rapidamente atingindo uma das torres.

Houve um daqueles instantes de silêncio que parecem congelar o tempo. Os vinte ou trinta segundos logo após o choque pareceu se dilatar em um infinito, como se alguém tivesse pegado aquela fatia de tempo e a esticado indefinidamente. Nem sons, nem imagens, nem ações. Apenas aquela sensação estranha de ter parado no tempo ao mesmo tempo em que ele fluía fora do seu ritmo. Finalmente minha mãe apontou o dedo firmemente para a televisão, os olhos assustados e perguntou: “Você viu isso?!”

Só então tudo voltou ao ritmo normal. A pergunta ficou no ar sem resposta. Meu cérebro estava tentando processar tudo aquilo. Alguém filmara o choque do avião e a televisão estava mostrando o momento? Essa era a única explicação possível. Mas então, por que o avião atingiu uma torre QUANDO JÁ HAVIA MUITA FUMAÇA SAÍNDO DA OUTRA?

Globo-11 de setembro

O exato momento do segundo ataque ao vivo

A confusão não era só minha. O jornalista que noticiava o fato também chegou a alegar que aquela era uma repetição do momento exato do choque. Então a imagem foi exibida novamente. E já não existia mais dúvida: por mais louco que pudesse parecer no momento, o fato era que um segundo avião atingira a outra torre do World Trade Center! Perceptivelmente tão surpreso quanto qualquer pessoa no mundo vendo aquela cena, o jornalista entendeu o que se passava ao ser um dos primeiros a falar a palavra que – ainda não sabíamos – seríamos obrigados a nos acostumar: Terrorismo!

O resto da manhã transcorreu como se estivéssemos numa outra realidade. Aquela sensação de alongamento do tempo cedeu espaço a uma febril percepção das coisas. Quando Dani e Lúcia voltaram, a televisão já reprisara o momento do impacto pela enésima vez. Elas já sabiam do acontecido. Dani estava tão assustada quanto eu ou minha mãe, mas Lúcia não parava de dar risadinhas nervosas, mesmo quando a TV mostrava cenas das pessoas se jogando do topo dos prédios em chamas. Somente anos depois fui entender plenamente que, de todos nós, Lúcia era a mais nervosa e assustada. Na realidade ela estava apavorada e aquela era a sua maneira de expressar esse sentimento.

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The Falling Man em imagem de Richard Drew

Saímos rapidamente para resolver as questões referentes ao curso e depois voltamos cada qual para sua casa. Ainda precisávamos nos arrumar para ir a escola. A tensão nas ruas já era perceptível. Todos estavam com ar sobrecarregado, como se uma nuvem tivesse encoberto o semblante de cada um, apesar do dia ensolarado. Onde houvesse uma televisão, que, naquela altura dos acontecimentos, já transmitia o ataque em todos os canais, duas ou três pessoas estavam reunidas assistindo. Braços cruzados sob o peito, vez ou outra apontando algo na direção da tela. Se apreensão fosse algo tangível, ela com certeza estaria esmagando a todos naquele momento.

Em casa minha mãe tinha novas notícias. Outro avião atingira o Pentágono, destruindo parte do edifício, enquanto outro aparentemente caíra em algum lugar ermo na Pensilvânia. E ainda havia a suspeita de que um terceiro estava, naquele momento, se dirigindo para atingir a Casa Branca. Apesar de todo tipo de boato e especulação fatalista ter começado a ser veiculada em todo lugar – de ataques com carros bombas até a possibilidade de um ataque nuclear –, apenas os relatos envolvendo os aviões estavam confirmados. O que começara com a suspeita de um terrível e lamentável acidente, tornara-se um ataque de proporções megalomaníacas à maior potência econômica e militar do planeta. Comecei a pensar nas repercussões daquele ataque e no que ainda estava por vir.

Associated Press photos

Sobreviventes coberto de cinza do desabamento das torres em imagem da Associated Press

A resposta à segunda questão não tardou a vir. Em meio ao pânico generalizado nos EUA instaurado pelos ataques havia espaço para mais: as dez horas gritei para minha mãe: “Caiu! Corre aqui! A torre caiu!” Da cozinha minha mãe veio para sala perguntando o que acontecera. Atropeladamente expliquei que, enquanto mostravam o incêndio do Pentágono, a imagem cortou para as torres com uma imensa nuvem de fumaça lentamente se formando ao mesmo tempo em que a correspondente confirmava o desabamento da segunda torre a ser atingida. Meia hora depois era a vez da primeira torre atingida desabar, a TV mostrou um close do topo coberto por fumaça negra, quando ela começou a desabar diante dos nossos olhos. Em pouco menos de duas horas as mais inacreditáveis cenas jamais imaginadas tornaram-se reais de modo assombroso.

Não se falou em outra coisa durante todo o dia. A caminho do colégio, do ônibus anormalmente vazio, pude presenciar as pessoas se acumulando na frente das TVs que continuavam as intermináveis reprises dos impactos, dos desabamentos e das pessoas cobertas pelo pó cinza e espesso que cobrira a todos. Quem assistia não falava, nem parecia reagir às imagens. À noite minha mãe contaria que, no hipermercado onde ela trabalhava na sessão de confecções, as pessoas também acompanhavam as notícias em frente aos televisores e mesmo dos aparelhos de rádio. Ela concordou comigo que as pessoas pareciam letárgicas.

Vancouver Sun-11 de setembro na tv

O mundo acompanha assustado o ataque em imagem do Vancouver Sun

Não houve aulas nesse dia. A professora Adalgisa de Biologia nos encaminhou para a sala de vídeo onde diretoria e outros professores junto a vários alunos acompanhavam o noticiário ininterrupto. Um casal de amigos, Tiago e Dalva, me chamaram para sentar do lado deles. Passamos a tarde debatendo o acontecido e tentando imaginar o que poderíamos esperar dali por diante. Taciturno, Tiago resumiu seu pensamento em única e tranquila palavra: “Guerra!”

Eu estava no meu terceiro ano de estudo naquela escola e aqueles tinham sido, até então, o mais especiais de minha vida. Um medo terrível de que tudo aquilo acabasse em meio a um conflito cuja extensão e alcance eu desconhecia me atingiu como um soco. Pensei em tudo o que poderia perder. Eu me sentia de repente como um jovem nos meses finais de 1939 temendo ante as notícias daquilo que viria a se tornar a Segunda Guerra Mundial.

Tati, uma amiga de quem eu particularmente gostava muito e era muito próximo, olhou diretamente para mim: “Minha gente que exagero! Vai ficar tudo na mesma!” Ainda hoje não entendo se foi uma tentativa de me confortar, ao perceber meu desconforto, ou se ela estava tentando convencer a si mesmo. Mas conhecendo Tati, o mais provável é que ela não estivesse inteiramente ciente da magnitude da realidade que assistíamos.

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A estátua da Liberdade parece observar uma Nova York coberta pela poeira da queda das torres gêmeas em imagem de Dan Loh da Associated Press

A noite eu tinha cursinho pré-vestibular. Também ali as aulas ficaram meio em suspenso. Naquele momento, embora ainda cobertos de muitas conjecturas, já tínhamos algumas notícias concretas. Já sabíamos que a Al’Qaeda, sob o comando de Osama Bin Laden, fora a organização terrorista responsável pelo ataque e que eles se escondia no distante Afeganistão onde eram protegidos do Talibã, grupo religioso radical que comandava o país. Na entrada do cursinho conversava com os colegas sobre os acontecidos num misto de comentários carregados de preocupação com piadinhas e brincadeiras. Uma tentativa meio falha de relaxar. Calamos quando o professor de História, chegou trazendo as últimas notícias num tom alarmista: “Está confirmado: Os Estados Unidos atacaram o Afeganistão! E eles já avisaram que vão retaliar!”

Gelamos no ato. Hoje, justamente por conta dos atentados, conhecemos bem a realidade do Afeganistão. Mas naquela época não fazíamos a menor ideia da realidade daquele distante país, portanto não tínhamos como saber o que esperar da ameaça de retaliação. Voltei para casa extremamente abatido.

Felizmente as informações do professor de História eram notícias equivocadas. Mesmo assim não foi o suficiente para tirar aquela sensação ruim. Uma sensação de que aquele dia, o dia em que a Terra parou para ver um gigante se dobrar nos próprios joelhos diante dos duros golpes recebidos, esse dia não terminaria tão cedo.

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Os escombros do que um dia foram as imponentes torres gêmeas do World Trade Center em imagem de Alex Fuchs da Agence France-Presse

*   *   *

Essa é uma postagem especial não apenas pela data de aniversário do Ataque do 11 de Setembro, mas porque é a primeira de uma série sobre minhas lembranças no período do meu ensino médio, em especial em 2001. Com o texto procurei relembrar aquele fatídico dia e minhas impressões e sentimentos, pautando-o principalmente nas minhas lembranças. E não: Dragon Ball Z não foi interrompido pelo Plantão da Globo!

E você? Onde estava naquele 11 de setembro de 16 anos atrás? Comenta aí e também curta e compartilhe. E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

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CAPITÃES DA FROTA ESTELAR: JEAN-LUC PICARD

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Criados para serem o exemplo supremo da moral, seriedade e comprometimento, os Capitães da Frota Estelar em Jornada nas Estrelas demonstraram todas essas qualidades de inúmeras maneiras nas cinco séries exibidas na TV. Seja nos momentos épicos, salvando a Galáxia ou naqueles mais íntimos quando, não raro, se descobrem tão somente humanos.

E é justamente quando todo o poder e autoridade são tirados de suas mãos, que eles são capazes de demonstrar a verdadeira força que possuem. Força que passa longe de ter a seu comando homens e mulheres dispostos a segui-los ou armas poderosas como phasers e torpedos fotônicos. Uma força que vem de um caráter forjado, não nas terríveis batalhas espaciais, mas sim no íntimo das pequenas derrotas nas tramas da vida que ensinam o poder de sua luz interior. E, no processo, o humano toma o lugar do herói imbatível.

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Jean-Luc Picard

Primeiro e único cadete a vencer a Maratona da Academia da Frota Estelar. Criador de uma manobra ousada, em face de da morte certa quando no comando em batalha da condenada U.S.S. Stargazer. Comandante das U.S.S. Enterprise D e E em inúmeras crises e missões. Glórias que tornaram famoso o Capitão Jean-Luc Picard, alçando-o a condição de lenda, de alguém maior que a própria vida. No entanto, assim como seu colega, James T. Kirk, foram momentos bem diferentes os gravados nas mentes e corações dos fãs.

Naquele que é considerado o mais belo e tocante episódio da Nova Geração, “Luz Interior”, temos um desses momentos que nos falam ao coração. Obrigado a encarar uma face íntima sua nunca antes revelada (talvez nem pra si mesmo), Picard é levado a viver toda uma vida comum num pequeno vilarejo de um planeta esquecido, ao lado de esposa e filhos. Longe dos perigos e das glórias das aventuras estelares, Picard descobre a vida que optou por não ter para se dedicar exclusivamente ao seu maior sonho: servir na Frota Estelar. Mas aqui o capitão não mais existe. Nada de grandes combates, manobras mirabolantes ou inimigos hostis. Há apenas um chefe de família comum. Com preocupações comuns. Apenas o pai e marido lidando e sofrendo com as dificuldades diárias de se ter e gerir uma família.

Mas, por fim, aquela vida acaba e Picard volta à ponte da Enterprise. Mas ele já não é mais o mesmo homem. O lendário Capitão sentiu o agridoce gostinho da vida comum. Uma vida que, mesmo não tendo sido de fato sua, percebe-se, sentirá falta.

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Belo Cartaz da artista Rose Sullivan para o episódio “Luz Interior”

É no filme “Generations”, onde se percebe a falta que essa outra vida faz a Picard. Melhor: onde se entende a falta dessa vida não vivida de fato, mas desfrutada intensamente em sonho. Ao saber da morte de seu irmão Robert e de seu jovem sobrinho René num trágico incêndio, seu único resquício de família é perdido irremediavelmente. Embora nunca o tivesse revelado para ninguém, Picard revela a Conselheira Troi que manteve por anos certa medida de paz com a importância que ele sentia para com a responsabilidade por ele sentida, de manter e dar continuidade a rica e orgulhosa linhagem de sua tradicional família. Ele sabia que essa responsabilidade estava bem cuidada nas mãos de seu obstinado irmão e do jovem filho dele. Sem essa culpa a persegui-lo, pode correr atrás de seu sonho infantil. Pode cavalgar pelas estrelas despreocupado. A família continuaria.

Mas agora não há mais Robert e também não há mais René. A família não continuará. Ao dar-se conta que há mais dias que se foram dos que os ainda por vir, Picard se vê como o último de sua linhagem. Na morte da única família que realmente teve, nesse caso, a do irmão, confronta-se com sua própria mortalidade e, com ela, sua humanidade. E apesar de amar o que conquistou, volta a sentir o desejo pela vida que não teve.

jean-luc-picard-2Arrepender-se de decisões tomadas no passado. Decisões que acreditamos terem feito toda a diferença em nossa vida. Picard sempre se arrependeu de sua juventude indisciplinada e arrogante, que fatalmente o levou a uma briga onde perderia seu coração natural, sendo obrigado a usar um órgão artificial. Quando precisa substituí-lo, Picard é forçado a encarar novamente essa pequena ponta solta de sua vida. Uma ponta que há muito o incomoda mas sobre a qual jamais falou. Jamais encarou. Mas agora, que é obrigado a realizar o procedimento de substituição da peça, Picard sente a necessidade de expor esse arrependimento. Sem opção, tendo apenas como companhia o jovem Wesley Crusher, desabafa sobre o arrependimento de ter sido tão indisciplinado e arrogante. E quis o destino que seu interlocutor fosse o jovem Crusher. O filho da amiga que amou (e talvez ainda ame). O filho do amigo a quem enviou numa missão fatal. O filho que não teve. Mais uma vida não vivida.

Levado a reviver os momentos que antecederam essa briga no excelente episódio “Trama”, Picard aproveita a chance para poder consertar aquela pequena ponta solta na tapeçaria de sua vida. Mas ao fazê-lo toda a trama de sua vida se desfaz. Some o intrépido e audacioso Capitão, cedendo lugar a um apagado tenente júnior da astrofísica da nave. Alguém menos arrogante e indisciplinado. Alguém que não lutou com três nausicanos e por consequência não perdeu seu coração natural. Alguém que não enfrentou a morte, jamais entendeu o quão precioso é cada momento, como é importante cada decisão, certa ou errada e o que se aprende com elas.

E, ao menos aqui, Picard entende bem a importância de cada ato praticado e cada decisão tomada na formação da pessoa que somos. Percebe que, nem sempre, a vida que não vivemos seria melhor ou mais perfeita que aquela de fato vivida.

Finalmente, é curioso notar que, enquanto a humanidade de Kirk se manifesta nas perdas que foi levado a suportar, Picard tem a sua revelada em tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, sequer pode desfrutar. Ou, de fato, optando por isso. E o bom capitão parece estar bem ciente disso.

Devo um agradecimento especial à Samantha do Meteorópole por me lembrar do episódio “Samaritan Snare”, o que ajudou muito na elaboração do texto.

DE SHARBAT GULA A AYLAN KURDIN

national_geographic2Foi em uma edição qualquer da Revista Veja que me deparei pela primeira vez com a fotografia ao lado e que jamais iria sair de minha lembrança. Foi numa propaganda de assinaturas de revistas e dentre as muitas miniaturas de capas de revistas masculinas e de saúde, destacava-se uma da National Geographic, revista que, até então eu nunca ouvira falar. Na miniatura, essa jovem de grandes e assustados olhos verdes me encarava! Havia algo naquele olhar que me fascinou, mas na época eu não sabia o que era.

Por anos aquele olhar me perseguiu sem que eu nunca soubesse quem era sua dona. Eram tempos sem internet e procurar informações sobre uma moça sem nome, numa revista que quase não chegava por aqui em Aracaju era uma tarefa, no mínimo, extremamente difícil, ainda mais para um garoto sem recursos financeiros.

Foi somente em 2007, quando já cursava Geografia na Universidade Federal de Sergipe – motivado pela descoberta de inúmeras edições antigas da National Geographic num arquivo esquecido do Diretório Acadêmico do curso – que iniciei pra valer minha busca pela moça dos olhos verdes. Como a edição procurada não estava entre aquelas, iniciei minha busca usando uma ferramenta mais adequada. E, como diz um amigo, se você não encontrar na internet é porque simplesmente não existe.

Eu não tinha nenhuma informação sobre a garota, a não ser o fato de que fora capa de uma edição da National Geographic, iniciei minha busca pelo site oficial da revista. E lá estava ela, com aqueles olhos verdes me encarando da mesma maneira que anos antes: numa miniatura de propaganda de assinatura da revista. Avidamente cliquei no link e…

E nada! Apenas espaços para preenchimento de dados e nenhuma informação sobre a garota! Voltei para a página inicial e tratei de fazer uma busca mais cuidadosa e atenta. Embora a edição em questão fosse quase onipresente, não encontrei nenhuma informação que me fornecesse uma pista sobre a história da garota. Já estava ficando desesperado.

Foi quando a moça que tomava conta do Laboratório de Informática do curso, curiosa me perguntou o que eu tanto procurava naquele site. Em breves palavras expliquei minha busca e meu fracasso, sem muitas esperanças de que ela pudesse me fornecer alguma luz. E, pela primeira, ouvi a frase que seria recorrente não só em minha vida, mas na de muita gente por aí:

– Põe no Google!

– Mas por o quê? – questionei não muito convencido.

– Põe “garota da National Geographic” e vê o que aparece…

E, finalmente, eu encontrava a Garota da National Geographic. Enfim eu descobria o que tanto me chamou a atenção naquela foto: a promessa de uma das histórias mais surpreendentes de quantas já tinha lido ou mesmo ouvido falar.

A foto em questão foi registrada em 1984 num campo para refugiados que fugiam da invasão soviética ao Afeganistão. O fotógrafo Steve McCurry aproveitou o momento em que a jovem estava sem a burca para clica-la. Assustada, a menina fugiu sem que McCurry pudesse perguntar seu nome o que não impediu a revista de publicar a foto na capa da edição de junho de 1985, chamando-a simplesmente de Afghan Girl, a Garota Afegã.

Aquela foto viria a ser tornar um símbolo das dificuldades enfrentadas, principalmente, pelas refugiadas afegãs durante a invasão soviética. Sem saber, a Garota Afegã se tornou um dos rostos mais conhecidos do mundo. E por anos todo o mundo sabia simplesmente nada sobre ela, apesar das constantes tentativas de McCurry de encontra-la.

Somente com a queda do regime talibã em 2001 essa situação mudaria. Em janeiro de 2002, acompanhando uma expedição da National Geographic, McCurry fez nova tentativa. No campo de refugiados onde encontrara a garota, McCurry encontrou um rapaz que afirmava conhecer o irmão da garota. E, num remoto vilarejo no interior do Afeganistão, depois de 17 a Garota Afegã foi encontrada e o mundo conhecia finalmente seu nome: Sharbat Gula.

Através de testes biométricos confirmou-se que aquela jovem senhora precocemente envelhecida em seus prováveis 30 anos e olhar apagado era a mesma garota da foto de McCurry. Quando perguntaram, Sharbat Gula disse lembrar-se do dia em que foi clicada pelo fotógrafo ocidental. Aquela fora a primeira e, até então única, vez a fotografaram.

Aos poucos mais do que seu nome foi revelado. Sharbat contava com algo em torno dos seis anos quando seus pais morreram durante um bombardeio soviético. Obrigada a fugir se juntou a outros refugiados no campo onde McCurry a encontrara. Sem saber do impacto que sua fotografia causara no mundo ocidental, Sharbat tocou a vida. Casou-se aos 16 e durante meados dos anos 90 conseguira retornar para seu vilarejo de origem. Teve quatro filhos, mas um morreu ainda bebê.

Um (dura) vida revelada

Um (dura) vida revelada

É triste constatar que, passados 30 anos, histórias como a de Sharbat Gula continuem a ocorrer em nosso mundo. Lembrar da Garota Afegã deve servir como um convite a reflexão sobre a atual crise dos refugiados da Guerra Civil na Síria, dos fugitivos do Estado Islâmico e de vários países da África que abandonam seus lares a procura, nem digo de uma melhor condição de vida, mas sim de uma vida propriamente dita.

Não é por acaso que me lembrei de contar essa história esse dias. No começo do mês outra história, ou melhor, outra foto de refugiado me chamou a atenção. Fugindo de um arremedo de vida no meio de um conflito do qual não fazia parte, o pequeno Aylan Kurdi encontrou um destino trágico nas areias de uma praia turca. Com o coração dilacerado vi aquele garotinho, camiseta vermelha, bermudinha azul, sapatinhos escuros. Confesso que não vi o pequeno Aylan Kurdi estendido nas areias de uma praia no outro lado do mundo. Vi o meu próprio filho ali estendido. Vi no desespero do pai, meu desespero.

Enquanto o mundo se admirava com seus olhos fotógrafos num campo de refugiados, Sharbat teve sua vida aviltada não apenas por uma guerra. A Garota Afegã viveu alheia a tudo isso e o mundo seguiu alheio à sua história. Três décadas o pequeno Aylan Kurdi perdeu a sua vida pelos mesmos motivos. O Menino Sírio sequer teve a oportunidade de seguir alheio à coisa alguma. E minhas esperanças de que o mundo tenha aprendido diminuíram mais um pouco.

Desculpem-me se não posto aqui a imagem do pequeno Aylan que o tornou famoso. É a imagem mais doída de quantas já vi. Prefiro encerrar esse post com a imagem da criança feliz brincando com sua bola e com esse link com desenhos que homenageiam Aylan Kurdi.

Aylan Kurdi (mas podia ser seu filho ou o meu)

Aylan Kurdi (mas podia ser seu filho ou o meu)

E se o texto parecer molhado para você, não se assuste. Muito provavelmente são minhas lágrimas que teimaram em cair sobre ele.

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O PARTO E A ESCRITA

Conceptual image of pregnant belly with painted clock

Escrever para mim é como um parto. Às vezes o texto vem fácil, tranquilo e quando percebo o tenho completinho e terminado. É quando o parto foi fácil, natural, sem problemas. Outras vezes o processo é mais complicado, parece que a coisa vai, mas empaca, problemas, dificuldades, até que finalmente o texto vem à luz. Nesses casos o parto foi demorado e trabalhoso, não raro sendo necessária uma cesariana para facilitar o processo. E há ainda àqueles casos em que o texto precisa sair, mas eu não sei como dar continuidade. Nesses casos, meu amigo, minha amiga, não tem jeito: o fórceps entra em ação e trago o texto ao mundo à força!

Vários dos textos que já postei aqui no Habeas Mentem se encaixam em algum dessas características. “Guerra Justa Por Uma Ficção Científica Mais Humana” é um exemplo de texto/parto fácil e simples. Terminei de ler o livro, li a postagem da Sybylla no Momentum Saga, sentei no computador e pronto. Lá estava uma resenha prontinha e perfeitinha que necessitou de um ou dois pequenos ajustes.

Mas não vá pensando que, por minha primeira resenha ter sido essa moleza, que todo texto que escrevo vem assim fácil. Quem dera fosse assim! Na realidade a maioria dos meus textos – e essa é uma realidade de vários, para não dizer todos, escritores – necessitam de muito trabalho, suor e esforço. Boa parte são partos complicados, demorados e que só são finalizados depois de muita luta. “O Sonho da Sultana” é um excelente exemplo. Apesar de ter lido o conto em um dia e de já ter uma ideia interessante de como aborda-lo em minha resenha do conto antes mesmo de terminar a leitura, o processo de escrita foi extremamente truncado e demorado. Precisei reescrever várias partes que não tinham ficado ou muito claras, ou muito corretas ou ainda muito boas. Sem falar nos períodos de travamento onde nada saía. Só depois de muito esforço e de apelar para uma cesárea que pude finalmente declarar o texto como terminado/nascido.

EscreverBem

Quanto aos textos onde o processo está tão feio que é preciso ter o trabalho do fórceps, posso citar vários. Tanto textos já escritos e postado, como aqueles que ainda preciso finalizar e estão na fila aguardando minha atenção. Só para ficar num exemplo (que na realidade são vários) tenho uns sete textos resenhas sobre os 100 Melhores álbuns da História do Rock esperando pela atuação do fórceps para que possam ficar prontos. Não que esses textos sejam demasiados complicados ou que eu não tenha a mínima ideia de como ou o que escrever. Na realidade muitos deles já estão bem delineados na minha mente, porém por uma série de fatores, ainda não tive como me dedicar a eles.

Um desses fatores é o tempo. Ou a falta de, para ser mais preciso.

Eu trabalho no setor administrativo de uma universidade e esse trabalho consome muito do meu tempo. E textos como os do 100 Melhores Álbuns necessitam muita pesquisa e audições dos discos resenhados para sua redação. Além do trabalho de escrita propriamente dito.

Outros textos acabam travando em outros problemas. Estou no momento com um texto sobre a gravidez da Miss Marvel onde eu comecei com uma ideia e lá pela metade do trabalho já pronto, percebi que minha ideia inicial estava totalmente equivocada. Felizmente não precisei reescrever nada, mas fui obrigado a repensar toda a parte final do texto.

Finalmente, nesses últimos meses um fator muito importante tem me ocupado a atenção de tal jeito que precisei diminuir minha produção textual. Logo após o falecimento de minha mãe, eu e minha esposa, Geane, descobrimos que estávamos grávidos. Essa foi uma grata surpresa que nos deixou muito felizes especialmente por ter vindo num momento difícil de luto. Ficamos exultantes, mas também preocupados, pois, por Geane ser diabética, sua gestação deveria ser cercada de alguns cuidados extras na alimentação, nas dosagens de insulinas, exercícios etc.

Por nove meses nossa rotina diária sofreu algumas alterações de modo a não descuidarmos da saúde da mamãe e do bebê. Visitas regulares aos médicos se tornaram a nova rotina, pois além do acompanhamento já habitual de sua nutricionista, passamos naturalmente a ter o acompanhamento do obstetra em seu pré-natal. Nada obsessivo que se explique. Não visitávamos os médicos a cada dois dias, mas mesmo assim as visitas regulares junto à realização de exames e ultrassons, somados a alguns desgastes eventuais com o nosso plano de saúde, tomaram um pouco de nosso tempo e atenção.

Foi quando nos primeiros minutos do último dia treze de julho (e umas duas semanas antes do previsto, mas bem no dia do Rock!), veio ao mundo pesando saudáveis 3kg e 500g o pequeno Heitor, nosso filho. A escolha do nome foi uma forma de homenagear minha mãe, mas também a mãe de Geane, ambas Helena, nome o qual pretendíamos dar ao nosso bebê caso nascesse uma menina, isso bem antes do falecimento de minha mãe, conhecida entre os amigos mais próximos por Helena de Tróia. Mas sendo um menino, mantivemos a menção a Tróia, chamando-o Heitor, o príncipe troiano.

Com seu nascimento a nossa rotina mudou mais uma vez. Entre fraldas, noites insones e hora de mamar, Geane e eu quase não temos tempo pra mais nada. Principalmente tempo para me dedicar aos textos que posto aqui no Habeas Mentem. Mas nem penso em parar de escrever. Tenho encontrado na escrita no blog uma ferramenta maravilhosa de exercício de minha escrita, criatividade, senso crítico e acesso a informação e conhecimento com as pesquisas que realizo para determinados textos. Sem falar que com a enorme felicidade que é ter um filho e que aumenta a cada pequeno sorriso seu terei muitos motivos para escrever.

Um pai e marido feliz ao lado de sua esposa e filho

Um pai e marido feliz ao lado de sua esposa e filho

E algo me diz que nos próximos meses meu processo de escrita será ainda mais e mais parecido com um verdadeiro parto.

RÉQUIEM PARA MARIA HELENA

Maria Helena 16 anos

Minha mãe com 16 anos, naquela que considero sua mais bela fotografia
(Acervo pessoal do autor)

Foi no domingo à tarde. Tinha acabado de conversar com Sybylla sobre o estado de saúde de minha mãe. Estava explicando que ela se recuperava bem da cirurgia para extrair o tumor descoberto recentemente no cérebro, próximo da nuca, quando Geane, minha esposa, pediu para recolher algumas roupas, pois começara a chover.

Da escada ainda pude ouvir o telefone tocando. Geane atendeu e por seu tom de voz percebi que não era ninguém conhecido. Imediatamente senti meu corpo agitado. Venci os dois últimos lances de escada de um salto e entrei em casa perguntando quem era. O susto e a tristeza arregalados em seus olhos falaram por ela. Sua voz embargada apenas confirmou o que eu já temia…

Aos sessenta anos minha mãe, Maria Helena, a pessoa que mais amo no mundo, fragilizada após lutar por sofridos e angustiantes dois meses com o tumor no cérebro e da cirurgia para retirá-lo, não resistiu a um AVC, vindo a falecer na tarde de 2 de novembro de 2014.

Arrasado, desabei no sofá sem conseguir digerir plenamente a notícia. Geane me abraçou num misto de apoio e incredulidade. Senti-me pequeno diante da dor enorme. Choramos juntos por um bom tempo até podermos nos sentir preparados para o que viria em frente.

Minha mãe, minha esposa e eu por ocasião de meu aniversário de 30 anos

Minha mãe, minha esposa e eu por ocasião de meu aniversário de 30 anos
(Acervo pessoal do autor)

De todos os exemplos e modelos de moral e integridade que tive na vida, não sou capaz de dizer nenhum que tenha me influenciado mais que minha mãe. Mulher de conduta exemplar em praticamente todos os aspectos de sua vida, respeitada por amigos, vizinhos e colegas de trabalho, sempre nutri por ela uma admiração maior que o sentimento mãe e filho. Minha mãe, Maria Helena era – e ainda é – minha maior heroína, não apenas devido ao laço sanguíneo, mas por sua inteira história de vida.

Nascida numa família pobre, com vários irmãos e irmãs, mais novos e mais velhos, minha mãe aprendeu a trabalhar duro desde muito cedo, cuidando dos irmãos menores e ajudando nos afazeres da casa. Essa infância dura iria moldar sua personalidade até o fim. Maria Helena cresceu desconhecendo o significado da palavra preguiça. Trabalhadora incansável fosse em casa, fosse nos diversos trabalhos que conseguira na vida. Diante dessa inabalável vontade de trabalhar, dizer que minha mãe ao nascer, ao invés de registro de nascimento, assinara sua carteira de trabalho, era mais que uma brincadeira familiar: era quase um fato.

Minha mãe e eu ainda bebê em seu colo em 1983

Comigo em seu colo em 1983
(Acervo pessoal do autor)

Ainda muito mocinha, ela foi trabalhar na casa de uma família de suíços muito ricos que moravam em São Paulo. Pelo que minha mãe contava, essa família a conheceu aqui em Aracaju quando estavam de férias passeando pelo Nordeste. Ao que parece, a matriarca da família (uma senhora descrita por ela como sendo muito fina, mas também muito dura, com jeitão de nazista fugida da Guerra), teria se encantado com minha mãe, não apenas pelo seu jeito trabalhador e zeloso, mas também por não ser negra, e a levou para trabalhar como empregada e babá na casa da família em São Paulo. Era o inicio dos anos 70 e essa era uma prática relativamente comum no Brasil (na realidade ainda é), de se pegar jovem garotas para trabalhar como quase escravas para famílias mais abonadas financeiramente. O irônico da história fica por conta do fato de que, apesar da pele clara e dos olhos verdes, minha mãe era filha de negros, sendo seus traços mais caucasianos herança de uma avó materna filha de holandeses.

Em São Paulo a vida era dura com muito trabalho, mas minha mãe deu a sorte de trabalhar para uma família culta o que permitiu a ela ter contato com o melhor da literatura e da música, além de poder terminar os estudos do ensino fundamental. Foi através do refinado gosto musical e literário de minha mãe adquirido nessa época que pude crescer numa casa repleta de livros e de muita música boa, não raro cantada por sua bela voz. Sambas, forrós e muita MPB eram seus repertórios preferidos, que, bem cedo na minha vida, me apresentaram nomes como Elis Regina, Chico Buarque, Adoniram Barbosa, Cartola, Luís Gonzaga e outros.

Graças a minha mãe também aprendi a ser um leitor voraz. Lembro com carinho de passar tardes inteiras lendo a coleção do Sítio do Pica-Pau Amarelo ou as inúmeras enciclopédias que ela comprara na época em que morara em São Paulo quando conseguia um dinheirinho extra.

Algo que não lembro, mas que ela sempre fazia questão de contar: muito pequeno ainda, eu adorava ficar horas e horas contando histórias sobre monstros e extraterrestres e aventuras fantásticas, as quais ela escutava com aquela paciência infinita, aparentemente parte do pacote chamado maternidade. Ela dizia que era a semente do jovem escritor contador de histórias que já estava a germinar.

Sempre respeitei muito minha mãe. Apesar de na adolescência, essa fase esquisita de rebeldia sem noção, termos tidos algumas diferenças, jamais levantei a voz para ela ou deixei de acatar alguma determinação sua, por mais que julgasse errada, prepotente, ditatorial ou qualquer outra bobagem que tivesse passado por minha tola cabeça adolescente.

Ela também sempre me foi uma fonte inesgotável de orgulho. Meu primeiro emprego foi numa rede de supermercados tradicional aqui no estado e na qual minha mãe trabalhava já por mais de 15 anos. Embora trabalhássemos em lojas diferentes, vários de meus colegas e superiores tinham sido colegas de minha mãe trabalhando na mesma loja que ela. Com orgulho posso dizer que meu gerente, ao saber que eu era filho de Dona Helena – como ela era carinhosa e respeitosamente conhecida –, fez questão de falar comigo. Queria me elogiar e falar da minha responsabilidade para com a fama de trabalhadora responsável que ela possuía. Queria também dizer o quanto a respeitava por, apesar da dura jornada de trabalho ainda ter encontrado coragem e tempo para estudar e terminar o Ensino Médio.

Orgulhosa em minha formatura (Acervo pessoal do autor)

Orgulhosa em minha formatura
(Acervo pessoal do autor)

Orgulho que sinto também de ter podido dar uma das maiores alegrias que minha mãe pôde ter. A de ver um filho formado numa licenciatura. Ela que admirava o mundo acadêmico e o ofício de ensinar como poucos. São heranças maternas meu carinho e respeito pelos professores. Ver seu filho formado numa licenciatura foi motivo de grande alegria para minha querida mãe, como me foi relatado por várias de suas amigas ao me conhecerem em seu velório.

A noite que passei velando minha mãe foi, obviamente, a mais dolorosa de minha vida. Mas também foi gratificante descobrir o grande número de pessoas que admiravam minha mãe. Pessoas para quem e com quem trabalhara, amigos e amigas com quem ia aos saraus de poesia e de música, conhecidos os mais diversos.

A memória tem o poder de manter vivo àqueles que perdemos. Por isso me pus a contar um pouco sobre o que sei da vida de minha mãe, como uma última forma de homenageá-la. Há muito pretendia fazê-lo e sinto muito só ter podido agora.

Que minha mãe encontre na morte, o descanso e a paz que ela tanto almejou em vida.

CAPITÃES DA FROTA ESTELAR: JAMES T. KIRK

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Embora os criadores e redatores tenham imaginado todos os capitães das séries Jornada nas Estrelas como heróis intergalácticos impressionantes, maiores que a vida, é interessante notar como seus momentos mais marcantes e lembrados não são aqueles em que salvam a galáxia, o universo (ou universos) depois de batalhas intensas com muitos torpedos fotônicos e tiros de phasers. Bem ao contrário: os melhores momentos de todos os capitães da franquia são exatamente aqueles em que eles são desprovidos de sua aura quase divina de superioridade são jogados nas condições mais humanas e comuns possíveis, para assim crescerem enquanto personagens e ícones.

É curioso que os comandantes de suas naves e estações espaciais, encarnações máximas do herói sempre tenham seu momento de maior enlevação quando são rebaixados a impotência comum de qualquer ser humano. Mais curioso ainda é notar que seus primeiros oficiais invariavelmente tem seu momento de glória em batalhas e/ou quando são obrigados a substituir seus superiores imediatos tendo que lidar com a responsabilidade de manterem a aura mítica destes, forçando a si mesmos a serem maiores que a vida. Ou pelo menos tentando aparentar.

Obviamente tivemos grandes momentos de cada capitão em batalhas encarniçadas seja pela capacidade de resistir, seja pela maneira brilhante – quando não genial – com que se livram das encrencas semanais. Blefes, manobras inesperadas, táticas ousadas, soluções difíceis de serem tomadas, porém necessárias. Vimos tudo isso e muito mais.

James Tiberius Kirk

James Tiberius Kirk

O mais lendário dos capitães, um certo James Tiberius Kirk, comandante da U.S.S. Enterprise, fez sua fama derrotando o igualmente lendário Khan Noonien Singh por duas vezes, lutando corpo a corpo com um Gorn (e vencendo), lutando com klingons e romulanos, salvando a Galáxia e por tabela a Terra um caminhão de vezes. No entanto os grandes momentos, aqueles lembrados com um carinho todo especial por todo e qualquer fã de Jornada, foram bem diferentes de tudo isso.

Em “Cidade à Beira da Eternidade”, clássico maior não apenas da Série Clássica, como de toda a franquia, temos um episódio que fala à alma. Preso num dilema de difícil solução, Kirk é despido de todo seu poderio ao ser obrigado a ver a mulher que ama morrer para que todo o futuro e bilhões de vidas sejam salvas da inexistência.

Lindo cartaz retrô do episódio

Lindo cartaz retrô do episódio “Cidade a Beira da Eternidade” de Juan Ortiz

Edith Keeler, uma mulher sobre inúmeros aspectos muito a frente de seu tempo, deve morrer. Por ironia do destino sua morte é o ponto focal na linha do tempo permitindo o futuro que, muito mais do que apenas sonha, trabalha para se concretizar, possa vir a existência porém pelo preço de sua vida. Kirk sabe disso e reluta em aceitar. Apesar de saber que seu próprio futuro – o futuro quase idílico que a humanidade alcança em seu tempo – jamais exista se permitir que Keeler viva, nosso capitão hesita e considera seriamente mantê-la viva, apesar do preço. Kirk não pensa mais na humanidade e no seu dever como Capitão da Frota Estelar. Pensa apenas na mulher que ama, e a despeito de tudo só pensa em salva-la. É um pensamento egoísta sim, mas inerentemente humano. Kirk não é mais um semideus, a todos comandando da cadeira na ponte de comando da Enterprise. É agora um ser humano comum egoisticamente pensando nele mesmo.

Finalmente Edith Keeler cumpre seu destino e morre atropelada por um automóvel ante um Kirk que não ousa olhar, mais que isso, não quer olhar para trás. Perceba que Kirk ao deparar-se com o inevitável, impede McCoy de salva-la, abraçando o amigo ao mesmo tempo em que esse o questiona: “Você sabe o que você acabou de fazer?” É Spock, o grande amigo e a outra vértice do Grande Trio, quem responde: “Ele sabe, doutor. Ele, sabe.” Temos Kirk como nunca o vimos ou veríamos novamente na série clássica: frágil, impotente, tragicamente humano.

Captain-Kirk-james-t-kirk-8476028-1200-1750Essa humanização de Kirk só voltaria a ocorrer nos cinemas, mais especificamente em “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan”. Nesse memorável filme, encontramos Kirk abalado com a proximidade de seu 50º aniversário. Ele se sente velho, acabado. O fato de um homem a quem ele não vê há 15 anos estar lá fora querendo o matar e encontrar seu filho, que provavelmente ficaria muito feliz em ajuda-lo, não torna a situação melhor. E para piorar tudo, Kirk é obrigado novamente a assistir impotente a morte de alguém a quem ama. Seu amigo Spock se sacrifica para salvar a Enterprise. Kirk, apesar de toda sua lendária capacidade para o comando, não é capaz de salvar sua nave sem sacrificar a vida de seu melhor amigo.

É famoso no cânone de Jornada o fato de Kirk ter sido o único cadete a vencer o desafio de não vencer, o Kobayashi Maru. Nesse mesmo filme nos é informado que, para vencer o desafio, o intrépido capitão trapaceou reprogramando o computador para que o desafio – antes invencível – pudesse agora ser facilmente vencido. E, orgulhoso do seu feito Kirk deu “uns tapinhas nas costas pela engenhosidade”. Mas agora ele se sente uma fraude por nunca ter de fato encarado a morte, uma relíquia, apenas uma sombra de quem foi. Fragilizado, vemos novamente Kirk relegado a sua condição humana, com seus temores, anseios e falhas. Assim como em “Cidade”, o personagem que inicia a Jornada não é mais o mesmo que a termina. Kirk finalmente encara o Kobayashi Maru, mas dessa vez sem truques. E assim, o desafio se mostra implacável.