MARIA GAETANA AGNESI

 

Maria Gaetana Agnesi-3

Era provavelmente o ano de 1730. Numa bela e aconchegante sala, a intelectualidade local de Milão impressionava-se assistindo um curioso debate: de um lado doutos professores das mais diversas áreas do conhecimento de toda a Europa; do outro uma jovenzinha, de fato uma adolescente com não mais que 15 anos. Com desenvoltura espantosa para alguém de sua idade, ela dialogava com os renomados mestres sobre os assuntos que preferissem e em suas próprias línguas. Ali próximo um orgulhoso professor de Matemática da Universidade de Bolonha comprazia-se em observar a impressionante versatilidade de sua jovem filha.

A cena descrita acima trata-se de uma versão um pouco romanceada – mas muito distante de ser fictícia –, da contada no livro Introdução à História da Matemática de Howard Eves, e serve para mostrar não apenas a precocidade, mas também a incrível gama de conhecimentos dominados por Maria Gaetana Agnesi. Primeira dos 21 filhos dos três casamentos de seu pai, Agnesi recebeu uma educação profundamente erudita que a faria se notabilizar em diversas e distintas áreas além da Matemática, além de dominar latim, grego, hebreu, francês, alemão e tantas outras línguas.

Sua extremada erudição a levou a publicar, com apenas vinte anos, uma coletânea com 190 ensaios tratando de lógica, mecânica, hidromecânica, elasticidade, gravitação, mecânica celeste, química, botânica, zoologia e mineralogia. E, embora fosse designada membro honorário da universidade de Bolonha, não há registro de que tenha ensinado nessa ou em qualquer outra instituição. Ainda assim, prestou inestimável contribuição ao ensino da Matemática ao publicar em 1748 ao publicar a obra em dois volumes Instituzioni Analitiche ad uso Della Gioventù Italiana. Originalmente escrita com a finalidade de auxiliar os estudos de um de seus inúmeros irmãos, a obra alcançou um sucesso considerável, não só por ter sido escrito em italiano (e não em latim, como era costume na época), atingindo assim um amplo público, mas também por ter sido estruturado especialmente para os jovens. É considerado o primeiro tratado de cálculo direcionado a esse público.

Página de Rosto do Volume 1 de Instituzioni Analitiche

Página de Rosto do Volume 1 do Instituzioni Analitiche

É nesse segundo volume Instituzioni Analitiche onde encontramos uma extensa discussão sobre aquele que considerado um dos trabalhos mais famosos da brilhante matemática: a curva cartesiana y(x² + a²) = a³. Agnesi tomou como base os estudos de Guido Grandi que chamou a equação de versoria, palavra latina para corda de manobrar vela de embarcação a qual lembrava outra palavra semelhante, obsoleta versorio, que, por sua vez, significa “livre para se mover em qualquer direção”. Provavelmente Grandi sugeriu esse nome para a curva como uma espécie de trocadilho. De qualquer modo o termo confundiu Agnesi que acabou utilizando a palavra versiera, ou seja, “avó do diabo” ou “duende fêmea” em latim. Quando a obra foi traduzida para o inglês, o tradutor John Colson verteu versiera como witch. Por esse motivo a curva passou a ser conhecida em inglês “witch of Agnesi” (bruxa ou feiticeira de Agnesi).

Em 2014 o Google homenageou Maria Gaetana Agnesi com esse doodle da “Bruxa” de Agnesi

Obviamente, o fato de uma obra que tenha atingido tamanho sucesso ter sido escrita por uma mulher não passou despercebido da sociedade da época. Ser ainda essa obra tão complexa e completa como era, além de elaborada com tamanha desenvoltura e propriedade, eram motivos adicionais para surpresa e assombro. Para Agnesi, no entanto, toda essa fama e notoriedade não passavam de um grande incômodo. Desde a juventude era seu maior desejo tornar-se freira, tendo várias vezes tentado entregar-se a uma vida de reclusão. Sua vontade, no entanto, só pode ser finalmente realizada em 1752, quando da morte de seu pai, o qual se opunha veementemente que a filha trocasse a eventual carreira bem sucedida como matemática, linguista ou filósofa, para dedicar-se às obras de caridade e ao estudo religioso. De fato esse acabou se tornando realidade em 1771, quando Agnesi foi designada diretora de uma instituição beneficente em Milão, onde permaneceria até sua morte em 1799.

Além das já citadas, inúmeras foram as contribuições de Agnesi para um maior entendimento e divulgação do saber matemático. Das mais importantes, conta a primeira tradução do Philosophiae Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton para o francês, o qual contou com prefácio de Voltaire. Um caso curioso sobre sua vida nos é contado por Howard Eves, sobre sua bem conhecida fama de sonâmbula. Segundo o autor, não foram poucas as vezes em que Agnesis, “em estado de sonambulismo, acendia uma lâmpada, prosseguia com seus estudos e resolvia problemas que deixara incompletos antes de se deitar. Ao se levantar, de manhã, surpreendia-se ao encontrar a solução acabada e completa no papel sobre sua escrivaninha”

Agnasi

A despeito de todo seu imensurável talento e genialidade, bem como da fama e respeito adquiridos ainda em vida, é digno de nota sua submissão aos desígnios de seu pai, reflexos de uma sociedade que ainda via as mulheres como seres incapazes de dirigir sua própria vida. Mas verdade seja dita, se por um lado a autoridade paterna fora responsável por adiar os verdadeiros interesses da filha, é importante destacar o incentivo dado pelo pai de Agnesi a seus estudos, mesmos em áreas do conhecimento (tal como a Matemática) ainda naquela época considerados impróprios para as mulheres. E, muito provavelmente essa tenha sido a lição mais valiosa que Maria Gaetana Agnesi tenha aprendido – como quase tudo na sua vida – ainda muito jovem, conforme se pode entender a partir de um discurso seu publicado em latim quando tinha tão somente 9 anos de idade. O tema: o direito das mulheres receberem educação superior.

Maria Gaetana Agnesi é o segundo texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

HIPÁTIA DE ALEXANDRIA

 

Hypatia_portrait-700x395

Embora seja certo que – a despeito de todas as barreiras e posições de submissão impostas às mulheres nos tempos antigos –, muitas foram àquelas a se dedicarem aos estudos matemáticos, é somente no século IV de nossa era o primeiro registro de uma mulher matemática. Embora não se saiba a data exata de seu nascimento, acredita-se que Hipátia (ou Hipácia, conforme alguns) nascera em 370 ou 350 Antes da Era Comum na ainda culturalmente relevante cidade de Alexandria no Egito.

Filha de Téon de Alexandria, um proeminente matemático e astrônomo da Academia daquela cidade, Hipátia foi criada desde cedo nesse ambiente estritamente acadêmico. Sob a tutela do pai dedicou-se, não apenas aos estudos matemáticos e astronômicos, mas também à filosofia, religião, poesia, artes, oratória e retórica, além de uma rigorosa disciplina física, seguindo o ideal helênico de uma mente sã num corpo são. Provavelmente ainda adolescente viajou para Atenas onde estudou na renomada Academia Neoplatônica, de onde retornou para assumir a cadeira de Plotino na Academia Alexandrina. Aos trinta anos já era a diretora.

Fugindo completamente do papel atribuído às mulheres na época, Hipátia provavelmente não se casou, permitindo dedicar-se mais plenamente aos estudos, o ensino e direção da Academia. Conta-se que, ao ser indagada do por que nunca ter se casado, ela afirmara já ser casada com a verdade. Entusiasta do processo de demonstração lógica, não foram poucas as provas desse comprometimento com a verdade: no século XV, na biblioteca do Vaticano, descobriu-se uma cópia de seu comentário sobre a obra de Diofanto, sobre o qual escreveu um tratado. E, embora não se tenha registro de nenhum de seus outros escritos terem sobrevivido e chegado até nós, vários historiadores acreditam que o Livro III da versão de Téon para o Almagesto, de Ptolomeu (um tratado que estabeleceu o modelo geocêntrico para o universo que não seria derrubado até o tempo de Copérnico e Galileu) foi na verdade trabalho de sua filha, bem como lhe são atribuídas comentários sobre inúmeros matemáticos clássicos, além de escrever um tratado sobre Euclides em parceria com o pai.

Hipátia de Alexandria - Gravura de Elbert Hubbard, 1908

Hipátia de Alexandria, gravura de Elbert Hubbard, 1908 – Wikimedia

Hipátia era ainda uma professora dedicada e eficiente. Suas palestras públicas pela cidade chamavam a atenção das pessoas que a escutavam versar com propriedade sobre Platão e Aristóteles, sendo extremamente elogiadas. Através da correspondência entre ela e um de seus alunos, o futuro bispo de Ptolemaida e também filósofo Sinésio de Cirene, sabe-se que, entre suas lições, estava como projetar um astrolábio. Era famosa também pela resolução de complexos problemas matemáticos, enviados a ela por matemáticos de todo o mundo antigo conhecido, problemas esses os quais, muito raramente deixava de elucidar.

Vivendo num período conturbado da história de Alexandria, Hipátia se viu no meio de uma controvérsia entre o governador da cidade (e grande admirador e pessoa próxima da estudiosa), Orestes e o Patriarca Cirilo que, ao suceder o falecido tio o Patriarca anterior Teodósio, deu mais fervor as hostilidades contra as religiões não-cristãs. Apesar do verniz religioso a divergência entre os dois era de fato política. Orestes, apesar de cristão, não tinha interesse em ceder o mínimo de espaço de sua influência para o novo líder religioso, cujas pretensões (e por extensão da igreja) era centralizar o controle da cidade em suas mãos.

A ira de Cirilo se voltou contra Hipátia, não apenas por ela ser amiga próxima do governador, mas especialmente por sua destacada defesa do paganismo contra o cristianismo uma vez que era a líder da escola neoplatônica de filosofia. Some-se a isto o fato de que uma mulher palestrando publicamente contra a doutrina religiosa vigente, além de se dedicar aos estudos matemáticos e filosóficos dentre outros, ao invés de cumprir seu papel submisso de mulher devotada aos interesses domésticos e familiares, não devia ser nenhum pouco bem visto pelo Patriarca.

Hipátia antes de ser morta na igreja, por Charles William Mitchell, 1885

Hipátia Antes de Ser Morta na Igreja, de Charles William Mitchell, 1885 – Wikimedia

Esse conjunto de fatores selou o destino de Hipátia. Após uma série de rusgas entre Cirilo e Orestes, que atingiu seu ponto mais crítico após a expulsão de todos os judeus de Alexandria, em virtude do assassinato de um grupo de cristãos por extremistas judeus, um boato se espalhou pela cidade culpando-a pelas divergências entre o governador e o Patriarca.

Insuflados por Cirilo, um grupo de cristãos guiados por um certo Pedro, o Leitor, cercou a carruagem de Hipátia, de onde a arrancaram para espanca-la e tortura-la. A turba enfurecida arrancou-lhe os cabelos, descarnou-a com carapaças de ostras para então lançar ao fogo os restos de seu corpo.

Mort_de_la_philosophe_Hypatie

A Morte da Filósofa, de Louis Figuier, 1866 – Wikimedia

O assassinato de Hipátia é considerado por muitos como um momento crucial, dentre aqueles que marcaram o período entre os séculos IV e V. A morte brutal e sem sentido da brilhante filósofa, matemática, astrônoma, professora, que ousou não se enquadrar no papel submisso e menor designado às mulheres, nas mãos ensandecidas de fanáticos religiosos serve como uma alegoria mais que adequada, ainda que lamentável, do fim da Antiguidade Clássica e o início da Idade Média.

Estrela de primeira grandeza no firmamento científico, mesmo sua morte horrenda não foi capaz de apagar o brilho da excepcionalidade da primeira matemática de que se tem registro. Ainda que, por séculos a fio seu trabalho tenha sido menosprezado e desconsiderado por toda uma lógica francamente misógina, sua importância na história, não só da matemática e das ciências, não foi completamente eliminada. Hipátia de Alexandria não foi somente a primeira matemática, mas a primeira a quebrar a imensa barreira do sexo, abrindo caminho para inúmeras outras trilharem seus passos pioneiros com o mesmo brilhantismo.

Rachel Weiss como hipátia no filme Ágora_Universo racionalista

A atriz Rachel Weiss vive Hipátia no filme Ágora – imagem do site Universo Racionalista

Hipátia de Alexandria é o primeiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

AS PLÊIADES MATEMÁTICAS

elihu_vedder_-_the_pleiades_1885.jpg

As Plêiades, obra do artista americano Elihu Vedder de 1885

Na mitologia grega as Plêiades eram as sete filhas da oceânide Pleione com o titã Atlas. Segundo o relato mitológico, Órion, o Caçador encontrou e se enamorou pelas filhas de Pleione, quando elas passeavam pela Beócia na companhia de sua mãe. Obcecado pela beleza das irmãs, Órion iniciou uma perseguição que durou sete anos, levando uma desesperada Pleione a solicitar a intervenção de Zeus. A solução dada pelo Deus Supremo foi transforma-las em pombas e posteriormente em estrelas, as quais foram colocadas num relicário no firmamento, na forma das estrelas principais do aglomerado das Plêiades, sobre a proteção da Constelação do Touro.

Esse curioso e interessante conto foi a maneira encontrada pelos gregos antigos para explicar a origem do brilhante grupo de estrelas localizado na “cauda” da constelação do Touro. Extremamente brilhantes, as Plêiades são um aglomerado de mais de 3.000 estrelas, imersas em uma nuvem de poeira cósmica. São conhecidas também como As Sete Irmãs, embora, de fato, somente seis delas sejam visíveis a olho nu. Ainda segundo o mito grego, a estrela invisível era Mérope, a única das irmãs a relacionar-se com um mortal e, por esse motivo, condenada por Zeus a não ter seu brilho visto da Terra.

Introdução a História da Matemática

Capa do livro de Howard Eves: Altamente recomendável especialmente para quem não gosta de Matemática

Howard Eves, em sua obra “Introdução a História da Matemática” – livro excelente e que tive o prazer de ler no ano passado –, cita as Plêiades celestes para batizar um grupo de brilhantes e competentes matemáticas. Com seus trabalhos, estudos e descobertas, esse grupo formado por Hipátia de Alexandria, Maria Gaetana Agnesi, Marie-Sophie Germain, Mary Fairfax Somerville, Sonya Kovalevsky, Grace Chisholm Young e Amalie Emmy Noether, foi responsável não apenas por grandes descobertas na área, como também por inspirar e capacitar inúmeras outras mulheres a entrar para a Matemática.

Infelizmente, via de regra a história da Matemática não é ensinada nas escolas. E mesmo quando os professores abordam aspectos históricos da disciplina, não raro os nomes citados são de homens. Do célebre “Eureka!” do grego Arquimedes à conhecida fórmula do indiano Bhaskara; do pai da geometria Euclides chegando ao “geômetra divino” Newton, o pouco ensinado sobre a história da Matemática parece apontar para uma ciência aparentemente dominada pelo masculino, levando muitos a acreditar no mito da inaptidão das mulheres para o pensamento matemático ou ainda: que nenhuma mulher dedicou-se a seu estudo, nem deixou nada de relevante a ponto de ter seu nome registrado na história.

Newton_Geometra_divino-WilliamBlake_wikimedia

Newton: O Geômetra Divino de William Blake. Seriam as mulheres incompatíveis com as ciências exatas?

Nada poderia estar mais longe da realidade. Assim como no caso das Plêiades celestes onde, das mais de 3.000 estrelas, apenas seis delas são visíveis da Terra a olho nu, também suas equivalentes matemáticas são o início para o conhecimento as tantas e variadas mulheres nas diferentes áreas das ciências exatas. Apesar de somente nos séculos XIX e XX as mulheres tenham começado a romper as barreiras sexistas, sendo aceitas em universidades, além de outras conquistas, isso não impediu que inúmeras mulheres, antes e depois, contribuíssem com relevantes descobertas e estudos matemáticos.

Foi em parte pensando nisso que, lendo sobre as Plêiades Matemáticas na obra de Eves, pensei em resgatar um pouco da história daquelas mulheres. Aproveitando a proximidade do dia Internacional da Mulher, me dispus a pesquisar e contar em textos breves um pouco sobre cada uma daquelas competentes e praticamente desconhecidas estudiosas. Longe de ser uma mera lista de curiosidades a intenção aqui, repetindo o objetivo de textos anteriores de fugir do lugar comum das declarações de sempre em suposta homenagem às mulheres, também é a de quebrar com a ideia falsa, apesar de amplamente difundida da inaptidão das mulheres para as ciências, especialmente as exatas. Um olhar sobre a vida dessas mulheres, ainda que breve, pode ser de suma importância ao inspirar mais e mais garotas nessas áreas.

A partir de amanhã até o dia 7 de março, postarei diariamente um texto sobre cada uma das Plêiades Matemáticas. No dia 8 de março, retomando a ideia abandonada do ano passado, a postagem será sobre oito mulheres sergipanas que se destacaram em diversas áreas do conhecimento e outras, num resgate histórico extremamente importante para a história das mulheres no meu pequeno Estado de Sergipe.

Gostou do post? Está gostando do Habeas Mentem? Então seja muito bem vindo e fique a vontade para comentar, curtir e compartilhar.

E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

MARIA BEATRIZ NASCIMENTO

beatriz_nascimento-acordacultura

Mais um oito de março passou e, novamente, tanto a mídia como as redes sociais foram tomadas pelas tradicionais congratulações vazias sobre a beleza feminina, sua importância na sociedade e similares. Verdade que esse ano surgiram boas manifestações evocando a discussão de temas verdadeiramente importantes relacionadas à data, a exemplo da desvalorização e da violência enfrentadas pelas mulheres, diária e historicamente, trazendo discussões, debates e reflexões pertinentes sobre esses e outros temas relacionados.

Nesse sentido pensei em dar continuidade ao texto publicado ano passado “Oito Mulheres Para se Conhecer Nesse Oito de Março”, cujo objetivo – entregue já no título – é o de relembrar e também dar a conhecer a história e os feitos de mulheres em diferentes áreas. Dessa vez imaginei uma lista apresentando oito mulheres sergipanas, que, além do conhecido esquecimento legado aos feitos de mulheres em geral, também padecem do, já citado aqui, descaso e esquecimento com a própria história sergipana. Descaso e esquecimento esses que dificultaram imensamente a pesquisa.

Não que eu não tenha encontrado nada de interessante para mostrar. Muito pelo contrário, encontrei um rico acervo de mulheres incríveis capazes de feitos importantes para a história e sociedade sergipana. Infelizmente não tão incrível foi constatar a persistente dificuldade em se dar a conhecer suas histórias. Por esse e outros motivos tive alguma dificuldade em conseguir copilar as informações e dados sobre minhas conterrâneas, me obrigando a abandonar (temporariamente) a ideia. Mas não completamente, pois uma dessas histórias me chamou atenção em especial por sua particular invisibilidade e relativo esquecimento. É a história de Maria Beatriz Nascimento.

beatriz1

Nascida em Aracaju em 12 de julho de 1942, filha da dona de casa Rubina Pereira do Nascimento e do pedreiro Francisco Xavier do Nascimento, Maria Beatriz Nascimento se viu obrigada a migrar junto com a família, que contava ainda com outros dez irmãos, para o Rio de Janeiro na década de 1950. Aos 28 anos entrou para Universidade Federal do Rio de Janeiro onde se formou em 1971 em História. Ainda durante a graduação revela-se uma tenaz pesquisadora da história e cultura negras com artigos publicados em periódicos como Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de inúmeros artigos e entrevistas a jornais e revistas de grande circulação nacional, a exemplo do suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo, IstoÉ, jornal Maioria Falante, Última Hora e revista Manchete. Foi uma das responsáveis por dar visibilidade social na universidade à temática étnico-racial ao participar de grupos de ativistas negras(os). Constituído por um grupo de estudantes negras(os) de vários cursos, esses grupos tinham, dentre seus objetivos, o propósito de introduzir e ampliar, principalmente na universidade, conteúdos acerca das relações raciais no Brasil, almejando o envolvimento do corpo docente.

A militância intelectual ativa de Beatriz Nascimento ajudou a fortalecer o discurso político do movimento negro nas universidades. Ela ainda escreveu e narrou o filme Ori de Raquel Gerber, onde apresenta sua trajetória pessoal como forma de abordar a comunidade negra em sua relação com o tempo, o espaço e a ancestralidade, emblematicamente representados na ideia de quilombo.

beatriznascimento3-coletivo_dijejeb

Em texto no site Alma Preta, Roberta Lima escreve que ser negra no mundo academicista é ser invisível duas vezes. A essa dupla invisibilidade acrescentemos ainda o fato de ser nordestina, ainda que radicada no Rio de Janeiro. Mesmo dona de uma carreira acadêmica digna de nota com uma instigante produção acerca da condição racial e de gênero, com estudos sobre a ressignificação do território/favela como espaço de continuidade de uma experiência histórica que sobrepõe a escravidão à marginalização social, segregação e resistência dos negros no Brasil, Beatriz segue invisível. A mulher que, ao analisar o histórico de invisibilidade racial histórica das comunidades, especialmente quanto ao gênero, amarga hoje do mesmo mal que a que se propôs analisar: uma lamentável invisibilidade de toda sua trajetória e produção.

Ao iniciar a pesquisa para esse texto, ainda com a ideia original em mente sobre as sergipanas de feitos notáveis, não foi nenhuma surpresa a falta de informações sobre as pesquisadas. Surpresa mesmo foi topar, quase por acaso, com o nome Maria Beatriz Nascimento num página escolar e descobrir que, de todas, ela é a que mais padece dessa falta de informação. Chocou-me profundamente o quanto se desconhece e pouco se divulga sua vida e obra não apenas no âmbito local sergipano, mas também nacional. Sequer um artigo sobre ela existe na Wikipédia (mesmo que pequeno e com erros, como no caso das demais pesquisadas).

Mas, se por um lado existe essa invisibilidade, por outro o esquecimento é combatido na rede através de postagem e textos relembrando sua história e vida. Particularmente nos sites e blogs a seguir de onde tirei grande parte das informações que compõem esse post: além do já citado site Alma Preta, encontrei textos no site do Projeto A Cor da Cultura, no site do Instituto da Mulher Negra Geledés, no blog Coletivo Di Jejê (na realidade tradução do texto originalmente publicado no Black Women of Brazil) e em alguns textos do blog MamaTerra.

Não por acaso os textos apresentados acima foram publicados em páginas de ativismo no movimento negro. E, quando lidos, percebe-se que, de uma maneira ou de outra, todos tem como base o livro Eu Sou Atlântica-Sobre a Trajetória de Vida de Beatriz Nascimento, do professor, geógrafo e antropólogo cearense Alex Ratts, que se propôs a, não apenas contar a vida de Beatriz, mas também refletir as discussões sobre racismo, sexismo, quilombos, dominação e identidade, temas indissociáveis à ativista e pesquisadora.

Eu Sou Atlântica

Finalmente à trajetória de Beatriz Nascimento foi adicionada mais um triste nível de invisibilidade: em 28 de janeiro de 1995 Beatriz foi brutalmente assassinada com cinco tiros, ao tentar defender uma amiga da violência do seu companheiro, presidiário com licença para passear e membro de um esquadrão da morte.

A mulher, negra, nordestina que ousou num país racista tornar-se historiadora, pesquisadora, ativista da paridade entre os sexos, tornou-se ela própria vítima da violência, esquecimento e invisibilidade estudados e questionados.

*  *  *

Se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe e não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

OITO MULHERES PARA SE CONHECER NESSE 8 DE MARÇO

O Oito de março está aí novamente e, novamente, a internet está tomada das declarações de sempre em homenagem às mulheres. Muitas delas copiadas daquela fanpage bacana que a galera curte, enquanto outras caem no lugar-comum de tecer elogios a sua  beleza e capacidade multitarefas de atuar como mãe, dona de casa e ainda trabalhar fora.

Preferindo fugir do mais do mesmo optei por relembrar oito mulheres  que, com seus exemplos em variadas áreas, nos lembram que, mais que homenagem num dia do ano, as mulheres merecem respeito. Lembram ainda que, embora muito se tenha avançado nesse sentido, ainda existe um longo caminho a percorrer. Nas palavras de Denise Rangel: “Enquanto houver violência doméstica e familiar, desigualdade salarial, estupro, machismo e sexismo, não há porque receber parabéns”.

1-Malala Yousafzai

malala-yousafzi_nutrefreenerd

Malala Youzafzai é uma estudante paquistanesa de 16 anos. Conhecida mundialmente pelo ativismo a favor da educação das mulheres na sociedade islâmica, Malala foi fortemente estimulada pelo pai a estudar, apesar de viver numa região com forte influência do grupo radical talibã. Aos onze anos, Malala criou um blog sobre a vida em sua cidade, as tentativas de controle do talibã de sua região e seu ponto de vista a respeito da educação das mulheres. Quando um documentário sobre sua vida foi gravado pelo The New York Times, ela ganhou notoriedade, sendo nomeada ao Prêmio Internacional da Criança.

No entanto, em 9 de outubro de 2009, o ônibus escolar onde Malala voltava para casa foi atacado. Duas garotas foram feridas e Malala ficou entre a vida e a morte ao receber um tiro na cabeça. O grupo talibã assumiu a autoria do ataque.

Após uma semana lutando pela vida, Malala apresentou uma melhora em seu quadro clínico que lhe permitiu ser transferida para o Hospital Queen Elizabeth no Reino Unido. Três meses depois Malala pode finalmente deixar o hospital.

Aos 16 anos discursou perante a Assembleia da Juventude da ONU. Apesar do ataque, a garota paquistanesa continuou a apoiar a educação para mulheres. Sua principal mensagem nesse discurso foi: “Vamos pegar nossos livros e canetas. Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução”.

2-Gabrielle Andersen-Scheiss

1280x720-yW5_dailymotion

A suíça Gabrielle Andersen-Scheiss não é uma heroína do esporte por um grande feito. Não venceu nenhuma competição importante, não conquistou nenhuma medalha olímpica, tampouco é considerada um nome vencedor do esporte suíço. Mas o status de heroína de Gabrielle aparece devido ao esforço e espírito esportivo.

A suíça participou da maratona feminina dos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles. Era a primeira vez que as mulheres disputavam a prova nas Olimpíadas e 37 atletas iniciaram a prova. Gabrielle, que tinha 39 anos na época, não vinha bem na prova. Não apenas com relação à sua colocação, mas fisicamente. Desidratada e sofrendo de hipertermia, a atleta recusava-se a receber ajuda médica, pois seria desclassificada. Perto do final entrou no Estádio Coliseum notavelmente debilitada. Restavam 400 metros para o fim do sacrifício. Incentivada pelos aplausos dos torcedores e recomendada pela equipe médica a desistir, Gabrielle percorreu os 400 metros finais mais acompanhados da história do atletismo. A suíça tinha dificuldades em manter-se de pé. Gabrielle tinha o rosto transfigurado pelo excessivo esforço e o andar arrastado devido às fortes câimbras. Ignorando a todo momento os médicos que a acompanhavam de perto e pediam para que ela desistisse, a atleta completou a prova na 37ª e última posição, com o tempo de 2h:48min:42s. Reconhecendo o esforço de Gabrielle, a IAAF criou o artigo “Andersen-Scheiss”, que permite que os atletas sejam atendidos pela equipe médica durante as competições sem serem desclassificados.

Após a recuperação, Gabrielle justificou seu esforço pelo fato de já estar com 39 anos, o que não daria a ela outra oportunidade de disputar uma Olimpíada e que queria honrar seu diploma de participação completando a prova.

3-Florence Nightingale

Florence_Nightingale_Wikipedia2

Florence Nightingale era uma dama da aristocracia inglesa que, ao saber das condições inumanas a que estavam sujeitos os soldados feridos durante a Guerra da Criméia, decidiu cuidar deles quando ninguém mais o pretendia. Apesar dos conhecimentos sobre infecções causadas por micro-organismos ainda não existirem, Florence cuidava da higiene e limpeza dos hospitais de campanha com a maior atenção, assim como da ventilação. Perto dela nunca houve uma janela fechada! A taxa de mortes depois da chegada de Florence caiu de 50% para 2% apenas! Além de cuidar dos feridos nos hospitais ela ia até os campos de batalha dirigir pessoalmente o serviço de recolhimento dos feridos, para que não fossem maltratados. A noite percorria os campos com uma lâmpada acesa vindo daí a ser reconhecida entre os soldados como a Dama da Lâmpada. Com o fim da guerra, voltou para a Inglaterra onde fundou a primeira escola de enfermeira nos moldes modernos. É considerada a fundadora da enfermagem moderna!

4-Dorothy Counts

Dorothy_Counts_reddit

Primeira mulher negra a ser aceita em uma universidade tipicamente branca, Dorothy Counts vinha de uma família que prezava os estudos. Seu pai era professor universitário em uma universidade majoritariamente negra e sua mãe, embora não atuasse, possuía diploma de nível superior. Durante quatro dias em que ela tentou acompanhara as aulas na Harry Harding ela aguentou todo tipo de humilhação: insultos, cuspidas, saques a seu armário. “Quando meu pai me levou naquela manhã, um de seus amigos da universidade, o doutor Thompson, nos acompanhou”, diz ela se referindo ao homem que a segue na foto. “A rua estava bloqueada e meu pai tinha ido procurar onde estacionar. Quando eu vi toda aquela gente, não pensei no que poderia acontecer. Eles tinham sabido pelo jornal que quatro estudantes (negros) tinham sido selecionados para escolas predominantemente brancas.”, conta ela. Quando começaram a fazer ameaças telefônicas seus pais entenderam que a vida de Dorothy poderia estar em risco e optaram por tira-la da universidade. Após e mudarem para a Pensilvânia ela passou a frequentar uma universidade mista.

Os quatro dias em que Dorothy tentou assistir as aulas foi extremamente importante para a consolidação do Movimento pelos Direitos Civis. Atualmente Dorothy é formada em Psicologia e tem uma importante atuação na luta pela igualdade racial.

5-Amelia Mary Earhart

Amelia+Earhart+in+1937_stratusproject

Amelia Mary Earhart nasceu em Atchison, Kansas e teve uma educação bem pouco convencional para a época. Durante toda a sua infância conturbada, Amelia manteve um álbum de recortes de jornal sobre mulheres de sucesso em carreiras predominantemente masculinas como: direção e produção de filmes, advocacia, publicidade, gerência e engenharia mecânica. Durante as férias de Natal em 1917, visitou sua irmã em Toronto, Ontário e revoltou-se ao ver o retorno dos soldados feridos na Primeira Guerra Mundial. Quando a pandemia de Gripe Espanhola chegou a Toronto, Earhart se manteve ocupada na dura tarefa de enfermeira. Acabou por contrair gripe, pneumonia e sinusite.

Por essa época, Earhart visitou, com uma jovem amiga, uma feira aérea que acontecia conjuntamente com a Exposição Nacional do Canadá em Toronto. Um dos destaques do dia foi a exibição aérea de um “ás” da Primeira Guerra Mundial. O piloto avistou do ar Earhart e a amiga, que estavam observando de uma clareira isolada abaixo dele, e mergulhou na direção delas. Quando a aeronave se aproximou, algo dentro dela despertou. Trabalhando em vários empregos, como fotógrafa, motorista de caminhão e estenógrafa na companhia telefônica da cidade, conseguiu juntar $1,000 para aulas de voo. Para chegar até à base aérea, Amelia pegava um ônibus até o ponto final e ainda andava cerca de 6,5 km. Sua professora foi Anita “Neta” Snook, uma das mulheres pioneiras da aviação. Em 22 de outubro de 1922, Earhart voou a uma altitude de 1.4000 pés, batendo um recorde mundial para aviadoras. Em 15 de maio de 1923, Earhart torna-se a 16.ª mulher a conseguir uma licença de voo da Fédération Aéronautique Internationale (FAI).

Earhart manteve seu interesse na aviação, tornando-se membro da “American Aeronautical Society” de Boston, sendo eleita vice-presidente posteriormente. Escreveu para o jornal local promovendo a aviação, e iniciando o projeto de uma organização para pilotos femininos. Em 1928 Amelia tornou-se a primeira mulher a travessar o Atlântico, mas como passageira num voo por instrumentos e tornou-se a primeira mulher a efetuar um voo solo de ida e volta através do continente norte-americano. Em 1930, tornou-se oficial da “National Aeronautic Association” onde trabalhou ativamente para estabelecer a separação dos recordes femininos. Amelia advogou vigorosamente pelas mulheres-piloto e, quando em 1934 a corrida “Bendix Trophy” baniu as mulheres, ela recusou-se a voar com a atriz Mary Pickford para abertura da corrida em Cleveland. Aos 34 anos, na manhã de 20 de maio de 1932, Earhart partiu de Harbour Grace, Terra Nova para Paris no seu Lockheed Vega 5b, replicando assim o voo solo de Charles Lindbergh. Após um voo de 14 horas e 56 minutos durante o qual ela enfrentou fortes ventos do norte, gelo e problemas mecânicos, Earhart pousou num pasto em Culmore, norte de Derry, Irlanda do Norte. O local é agora sede de um pequeno museu, o “Amelia Earhart Centre”. Como a primeira mulher a efetuar um voo solo sem escalas através do Atlântico, Earhart recebeu a “Distinguished Flying Cross” do Congresso dos Estados Unidos, a “Cruz de Cavaleiro” da Legião de Honra do governo francês e a “Medalha de Ouro” da National Geographic Society das mãos do presidente Herbert Hoover.

Em 1937, Amelia tentou por duas vezes o seu famoso voo mundial. Na terceira tentativa o Electra pilotado por Amelia desapareceu após decolar da Nova Guiné no Pacífico. Buscas intensas foram realizadas, mas nada se encontrou o que deu margem a uma série de teorias conspiratórias. Muitas dessas afirmavam que ela foi abatida pelos japoneses por ser na realidade espiã americana, enquanto as mais famosas (e fascinantes) são as que envolvem a abdução de seu avião por discos-voadores, teorias que foram desenvolvidas no excelente episódio “The 37’s” da segunda temporada de Jornada nas Estrelas Voyager. Amelia Earhart foi uma celebridade internacionalmente conhecida durante sua vida. Sua timidez carismática, independência, persistência, frieza sob pressão, coragem e objetivos profissionais definidos somando-se as circunstâncias de seu desaparecimento ainda jovem, fizeram sua fama na cultura popular. Centenas de artigos e livros foram escritos sobre sua vida e frequentemente é citada como estímulo motivacional, especialmente para mulheres, sendo normalmente lembrada como um ícone feminista.

6-Maria Sklodowska (Madame Marie Curie)

Marie_Curie_c1920_Wikipedia2

Nascida Maria Sklodowska, tornou-se mundialmente conhecida como Madame Marie Curie. Polaca de nascimento, precisou fugir pra Cracóvia quando jovem. Estudou na Sorbonne licenciando-se em Matemática e Física. Em 1894 conheceu Pierre Curie, professor na Faculdade de Física, com quem no ano seguinte se casou. Ele ajudou em seus estudos para descobrir elementos químicos como o radio, o polônio, e a radioatividade. Tornou-se a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o prêmio Nobel. Faleceu em 1934 de leucemia, muito provavelmente adquirida devido as incessantes horas de trabalho em seu laboratório. Fez descobertas no campo da radioatividade (quando essa ainda possuía ares de magia) e descobriu os elementos rádio e polônio. Um dos mais brilhantes nomes femininos da ciência!

7-Cecília Helena Payne-Gaposchkin

Cecilia_Helena_Payne_Gaposchkin_Wikipedia

Cecília Payne-Gaposchkin nasceu na Inglaterra em 10 de maio de 1900, mudando-se depois para os Estados Unidos. Ainda na Inglaterra ela estudou química, física e botânica em Cambridge. Na época as mulheres podiam cursar uma universidade, mas não recebiam um diploma de graduação ao fim do curso. Isso motivou Cecília a ir para os Estados Unidos onde recebera uma bolsa no observatório de Harvard. Lá, incentivada pelo diretor do observatório, ela escreveu sua tese de doutorado “Atmosferas Estelares, Uma Contribuição para o Estudo da Observação da Alta Temperatura nas Camadas de Inversão das Estrelas” (Stellar Atmospheres, A Contribution to the Observational Study of High Temperature in the Reversing Layers of Stars) em 1925. Foi graças também a essa tese que se estabeleceu que o hidrogênio é o principal componente do Sol, numa época em que se acreditava que sua composição era similar a da Terra. A tese de Cecília também ajudou a comprovar a Teoria do Big Bang. Primeira tese de doutorado de Harvard, ela foi considerada pelo astrônomo Otto Struve como: “indubitavelmente a tese de doutoramento mais brilhante jamais escrita em astronomia”. Apesar de continuar ativamente trabalhando em astronomia em Harvard, foi somente em 1938 que lhe foi outorgado oficialmente o título de Astrônoma e somente em 1956 ocupou uma cátedra em seu departamento, sendo a primeira mulher a ocupar essa posição.

Cecília Payne-Gaposchkin faleceu em 1975.

8-Maria Goeppert-Mayer

Maria_Goeppert-Mayer_Wikipedia2

Maria Göppert-Mayer nasceu na cidade de Kattowitz, na época pertencente a Alemanha (e atualmente Katowice na Polônia). Foi uma notável pesquisadora sobre a estrutura do átomo e uma das poucas mulheres a receber o Nobel de Física (1963), tendo dividido o prêmio com outros dois cientistas com projetos distintos. Foi educada na Universidade de Göttingen, onde seu pai era professor de pediatria, doutorou-se, casou com o físico-químico americano Joseph E. Mayer  e foi morar nos Estados Unidos, passando a ensinar na Johns Hopkins University por nove anos, tornando-se cidadã americana em 1933. Ensinou no Sarah Lawrence College (1939) e na Columbia University (1939-1945), onde demonstrou que o núcleo atômico tinha uma estrutura de prótons-nêutrons encapsulados e mantidos juntos por uma força de natureza complexa e trabalhou na separação de isótopos de urânio para construção da bomba atômica no Manhattan Project. Continuou suas pesquisas no Institute for Nuclear Studies da Universidade de Chicago (1945) e no Argonne National Laboratory (1946-1960) e publicou a obra Elementoary Teory of NuclearShell Structure em 1955. Após sofrer um derrame cerebral em 1960 que a deixou parcialmente paralítica, trabalhou para a Universidade da Califórnia, em San Diego (1960-1972) onde morreu em 1972.

Obviamente muitas outras mulheres importantes ficaram de fora dessa lista a qual é apenas um recorte de uma lista muito maior. Nomes importantes, cujas histórias merecem, e devem, ser conhecidas e compartilhadas, nos ajudando sempre a não apenas homenagear num dia específico mas a respeitar todas as mulheres todos os dias.

A GRAVIDEZ DA MISS MARVEL

httpbdmarveldc.blogspot.com.br201110herois-em-acao-miss-marvel.html

Quando eu tinha uns doze anos, um amigo, sabendo do meu gosto por quadrinhos, me emprestou uma revista bem especial: a edição número 100 de Heróis da TV, publicada pela Editora Abril, onde revezavam um mix de histórias de alguns dos principais nomes da Marvel, tais como Thor, Namor, Homem de Ferro e outros.

Nessa edição comemorativa foram apresentadas duas histórias de alguns desses heróis. A primeira contava a origem do personagem enquanto a segunda mostrava uma história marcante ou de muito sucesso do mesmo personagem. E, desse modo, fui apresentado às origens do Doutor Estranho, X-Men, Homem de Ferro e dos Vingadores.

Essa revista me marcou profundamente por vários motivos. O principal foi ter me apresentado os X-Men (justamente na primeira história dos mutantes), personagens que se tornariam com o tempo os meus preferidos dentre todos os personagens super-heroicos.Digitalizar0001

Os demais motivos eu só lembraria algum tempo atrás. Movido por um intenso sentimento saudosista fui à caça da versão digitalizada da revista. Ao reler a segunda história dos Vingadores, tive o prazer de reencontrar uma história que, como poucas, me levou a refletir sobre questões pertinentes.

Nela, Carol Danvers, a Miss Marvel, reaparece do limbo para onde fora levada por Marcus, o filho de Immortus, o Senhor do Limbo com uma terráquea. Em retrospecto conta-se a história desse relacionamento: preso na solidão do Limbo, Marcus, por meio de inúmeros aparatos, conseguiu dominar a mente de Carol inseminando-a com sua essência, pois esse era o único modo de fugir do Limbo. Isso sem o conhecimento ou aprovação de Carol.

Para que não precisasse esperar toda uma vida até se tornar adulto, Marcus fez com que seu novo corpo crescesse num ritmo acelerado. Assim, no dia seguinte a inseminação, Carol já apresentava uma gravidez equivalente a 3 meses e em 3 dias dava a luz a criança que em menos de 24 horas tornou-se adulto. O plano de Marcus, no entanto falha, pois, por ainda estar ligado ao Limbo, sua presença na Terra desestabilizou o fluxo do tempo. Ele até tentou criar uma máquina que corrigisse o problema, mas os Vingadores desconfiados de suas intenções destroem a máquina. Marcus não tem alternativa senão voltar para o Limbo, mas não sem antes levar Carol junto, fazendo-a acreditar e dar a entender a todos que estava apaixonada. Os Vingadores não desconfiam de nada (!) e, simplesmente, a deixam ir!!!

Carol Danvers e os Vingadores03

Logo que reli a história me chamou a atenção o modo como Marcus engravidou Carol: inseminando-a contra a sua vontade. No começo entendi esse ato como um estupro. Mas ao pesquisar sobre o assunto percebi que esse não era bem o caso. Segundo a Wikipedia:

“Estupro, coito forçado ou violação é a prática não consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos. Ele consiste em uma penetração da vagina ou do ânus (ou, no sentido mais amplo, também da boca) de uma ou mais vítimas por um ou mais indivíduos. As vítimas podem ser homens ou mulheres.”

Ou seja, como a gravidez da Miss Marvel não ocorreu através de uma relação sexual forçada, não houve de fato um estupro. No caso sua gravidez se deu através de uma inseminação artificial não consentida. Confesso que fiquei um tanto desnorteado quando percebi isso, até porque, toda a lógica e raciocínio desse texto se baseavam no fato de que a Miss Marvel teria sofrido um estupro, embora não tenha sido esse o ocorrido aqui. Carol Danvers na realidade sofreu uma coerção reprodutiva.

Até então eu nunca tinha ouvido falar em algo parecido. E só fui ter ideia do que realmente tinha acontecido com a Miss Marvel, depois de pedir uma providencial ajuda a minha querida Lady Sybylla do Momentum Saga, que não só me apresentou o termo, mas também me explicou tudo direitinho:

“[Coerção reprodutiva é o]… caso onde o companheiro força a companheira a engravidar dele sabotando os métodos anticoncepcionais. Furando camisinha, substituindo a pílula, furando diafragma, bagunçando a tabelinha. Enfim, ele faz o diabo para forçar a mulher a engravidar por N razões. Ou então ele ameaça a mulher se ela não engravidar dele.”

Procurei na internet mais informações a respeito, mas, fora esse link, que me foi enviado pela própria Sybylla, não encontrei nada mais esclarecedor sobre o assunto. De certa forma, não foi nenhuma surpresa.

Outro ponto que chamou minha atenção foi o modo como os Vingadores lidam com Carol durante toda a história. As palavras da heroína sobre seus sentimentos de amargura com os antigos companheiros são um excelente resumo: “De repente, eu tinha engravidado misteriosamente… Passei por uma gestação completa em três dias… Foi demais pra minha cabeça! […] E, pra piorar as coisas… Todos pareciam mais preocupados com o bebê do que comigo! Isso transformou minha mágoa em ódio!

Carol Danvers e os Vingadores02a

Embora tenha aparecido grávida de uma hora para outra, sem nenhum motivo aparente e a gravidez transcorresse em ritmo anormalmente acelerado, nenhum dos heróis pareceu dar muita atenção a isso. Como mencionado ele pareciam mais preocupados com o bebê do que com Carol em si. Foi como se, de repente, não houvesse mais Carol Danvers, existindo apenas a mãe do bebê que estava por nascer. Um invólucro sem vontade ou sentimentos cuja única função era guardar a criança até seu nascimento.

Existe um paralelo aí com a nossa realidade. Quando reli essa história, minha esposa estava em seu quarto mês de gravidez. E era notório o modo como as pessoas se preocupavam demais com o bebê. Simplesmente esqueciam de perguntar pela saúde da mãe. Mesmo sabendo que minha esposa é diabética e insulinodependente a preocupação era sempre com o bebê e tão somente com o bebê. Não acho nada demais as pessoas terem curiosidade em saber sobre a nova vida ali sendo gerada, mas não podemos esquecer que a mãe passa por profundas e intensas mudanças durante toda a gestação. E essas mudanças nem sempre são positivas ou cor de rosa como a propaganda procura fazer-nos acreditar.

Lembrando que essa lógica é igualmente aplicada nos casos de mulheres que engravidaram ao serem estupradas. Cruelmente se esquece do abuso e sofrimento pelo qual a mulher passou substituindo-a por uma exacerbada preocupação para com o feto. Quando muito tentativas canhestras de amenizar o sofrimento, como o argumento de que a criança quando nascer será uma benção para a mulher e outras similares. Esquecem que o trauma passado por ela pode ter sido tão forte, que, ao nascer, a criança não será outra coisa senão a lembrança de um ato violento e de seu criminoso autor.

Carol Danvers e os Vingadores02b

Finalmente, é interessante lembramos também do seguinte fato: nenhum dos heróis pareceu muito surpreso quando Carol decide voltar ao Limbo com o homem que a sequestrou e inseminou-a sem seu conhecimento. Apesar de Marcus já ter demonstrado o quanto era indigno de confiança, eles não só permitem, como ajudam que a heroína (quando Thor abre um portal) seja levada para o Limbo com seu “filho”.

Longe de querer esgotar temas tão espinhosos e polêmicos, procurei aqui apenas apontar alguns fatos que julgo relevantes nessa história tão rica e interessante. Sem deixar a aventura e ação de lado, somos apresentados a um drama interessante cheio de aspectos importantes de serem pensados e que ainda hoje são atuais.

Caso concorde, discorde ou lembre algum ponto ou questão, por favor, não deixe de comentar.

E se você curte o Habeas Mentem não deixe de curtir também nossa fanpage.