RESENHA: DEIXE AS ESTRELAS FALAREM

Rosa não vê a hora de voltar para sua nave, o cargueiro independente Amaterasu. Reúne sua tripulação, mas se vê em uma situação desesperadora quando se percebe sem dinheiro, com a nave ancorada em um espaço-porto. Eis que um contrabando misterioso surge e uma oportunidade rara de fazer muito dinheiro em pouco tempo. Mas o trabalho não virá sem consequências para Rosa e sua tripulação.

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No geral, todo fã de ficção científica tem em mente uma ideia mais ou menos clara de como são (ou deveriam/deverão ser) as viagens espaciais nas obras que leem ou assistem: um homem intrépido e audaz na cadeira de comando de uma poderosa nave de combate e/ou pesquisa a serviço de uma gigantesca frota ou organização política viajando pelo espaço enfrentando inimigos perigosos. Ou seja, o padrão estabelecido com a Série Clássica de Jornada nas Estrelas lá no final dos anos 60 e seguido não apenas por seus spin-offs, mas também por inúmeras outras.

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Um dos vários exemplos de intrépido e audaz capitão

Logo no começo de Deixe as Estrelas Falarem – publicado pela Editora Dame Blanche – sua autora, Lady Sybylla do Momentum Saga, mostra algo totalmente diferente desse perfil: no comando do velho cargueiro independente com problemas para conseguir novos serviços, temos uma mulher de 90 anos, mãe e também avó. Através da narrativa em primeira pessoa descobrimos que Rosa Okonedo, apesar de adorar o trabalho, sente um pouco de remorso de ter sido uma mãe ausente, passando mais tempo no espaço do que em casa na Terra.

Esse é um dos pontos fortes da obra. Sybylla não teve receio em fugir dos padrões estabelecidos em outras obras de ficção. Fazendo isso ela cria personagens muito verossímeis, com os quais fica fácil a identificação, começando pela própria capitã – mas não se limitando a ela, como mostra nossa rápida identificação e simpatia com os personagens secundários. Independente, dando duro toda a vida e tendo que lidar não apenas com o trabalho, mas também as dificuldades de se manter uma família, estando as vezes, literalmente, a meia galáxia de distância, Rosa é facilmente reconhecível em qualquer mulher em nossa sociedade, dando duro em jornadas duplas de trabalho. E o detalhe que mais me chamou a atenção: ainda ativa mesmo aos 90 anos.

Especialmente nas várias séries da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek) fica bem claro que a expectativa de vida dos seres humanos deu um salto, com seres humanos vivendo até os 125 anos em média. A explicação para essa incrível longevidade é muito similar à da nossa realidade: em grande parte graças aos avanços médicos que permitiram controlar e até mesmo eliminar doenças até então letais, além das melhorias e disseminação de melhores condições de higiene e saneamento básico. Assim saltamos de uma expectativa de vida entre 30 e 40 anos no início do século XX para os atuais 60 a 70 anos em média (com alguns países mais privilegiados chegando a 80 e 90 anos em média). Esse aumento na expectativa de vida, acompanhada da melhoria na qualidade de vida obviamente, levou a uma redefinição do que é ser idoso. Hoje é comum vermos senhoras e senhores com mais de setenta anos levando uma vida extremamente ativa, trabalhando, praticando esportes etc. Algo bem diferente do conceito de idoso que tínhamos há algum tempo.

Infelizmente a série pouco utilizou esse aspecto nos mais de 700 episódios que compõem a franquia. Raríssimas são as vezes que vemos pessoas com mais de 90 anos aparecerem de maneira ativa em tela. Uma das poucas lembranças que tenho de uma personagem nesse perfil é a Drª Katherine “Kate” Pulaski, a oficiala médica chefe da U.S.S. Enterprise D. Infelizmente a boa doutora durou apenas uma temporada cedendo o lugar para o retorno da Drª Beverly Crusher. Era de se esperar que com uma sociedade com tão alta expectativa de vida, mais e mais indivíduos fossem mais atuantes, trabalhando e exercendo outras atividades mesmo depois dos 90 anos.

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Doutora Katherine “Kate” Pulaski em imagem do Memory Alpha

Outro ponto interessante é o aspecto econômico das viagens espaciais. Sabemos que enviar veículos, mesmo os não tripulados, ao espaço demanda um custo enorme, vide os orçamentos bilionários das diversas agências espaciais existentes (NASA, ESA, JAXA, Roscomos). Obviamente, no futuro altamente tecnológico imaginado, não apenas em Deixe as Estrelas Falarem, mas em praticamente todas as obras da ficção científica, esses gastos foram consideravelmente reduzidos. Tal redução permitiu a construção e manutenção de imensas frotas de naves e estações espaciais. No entanto, reduzir consideravelmente os gastos não significa necessariamente dizer que as atividades espaciais sejam necessariamente baratas. Como toda e qualquer atividade, essa também demanda recursos consideráveis para sua manutenção, bem como daqueles que a mantem em funcionamento.

Sybylla não só detalha essa questão econômica, inclusive com um certo detalhamento, como o utiliza muito bem na trama usando-o como mote para a Capitã Okonedo aceitar o transporte de um misterioso contrabando, algo que vai totalmente contra seus princípios. Mas entre pegar a carga ilegal – recebendo uma quantia substancialmente alta no processo – e arriscar ficar um tempo sem trabalho e, consequentemente, sem dinheiro, a preocupação com seus tripulantes fala mais alto.

No final das contas Deixe as Estrelas Falarem é uma história atraente, com personagens cativantes, uma trama interessante e que não teme abordar temas até bem poucos usados na Ficção Científica de modo geral. E o modo como isso é feito, integrando organicamente à trama é um dos pontos fortes da trama. E, embora eu não costume achar que um livro curto seja necessariamente um ponto negativo, nesse caso acredito que um mais algumas páginas para um melhor desenvolvimento dos personagens secundários não seria de todo mal. E não falo isso porque eles não tenham tido um desenvolvimento adequado. Ao contrário, cada um dos personagens tem seu momento e seu espaço na trama, mas justamente por serem tão interessantes ficamos com vontade de aprender e saber mais sobre eles. Quem sabe numa bem-vinda continuação?

Se você ainda não leu, recomendo fortemente Deixe as Estrelas Falarem. Pode compra-lo através desse link.

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FICÇÃO CIENTÍFICA, MISTÉRIOS E DISCOS VOADORES

Tempos atrás estava na biblioteca da universidade onde trabalho procurando livros para adicionar a minha meta de leitura do ano de 2017. Meio sem querer, descobri entre as seções de Metodologia Científica e de Filosofia uma seção destinada aos livros catalogados como sendo Realismo Fantástico. Entre obras de J. J. Benítez e Charles Berlitz topei com três títulos que chamaram minha atenção. Eram eles o curioso “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” de Rubens Teixeira Scavone, seguido do interessante “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta”, de Pablo Villarrubia Mauso, finalizando com o instigante título “Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol.

Justamente por apresentarem títulos curiosos, interessantes e instigantes fiquei extremamente interessado. E também porque, ao seu modo, cada um desses temas é do meu interesse. Desde os dez anos de idade, quando encontrei uma ­– já na época –, velha edição de “O Triângulo das Bermudas” de Charles Berlitz, os ditos mistérios de nosso mundo é um tema do meu agrado. Por isso, aproveitando o período de férias, catei as três obras na biblioteca e avidamente mergulhei em sua leitura.

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Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas de Rubens Teixeira Scavone

Comecei logo por “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” não apenas por ser o título que mais me chamou a atenção (afinal, o que temas aparentemente tão distintos como antigos cavaleiros medievais, o monstro de Mary Shelley e singularidades cósmicas tinham em comum para batizar a obra?), mas também por ser de autoria de um velho conhecido meu: Rubens Teixeira Scavone. Esse autor paulistano, apaixonado por ficção científica já me encantara no início da adolescência com o seu livro “O Projeto Dragão”, um livrinho curto e fascinante sobre as desventuras de um importante estudioso que acredita estar recebendo sinais de comunicação extraterrestre. Para anunciar a importante descoberta, convoca inúmeros colegas das mais variadas áreas da ciência ao complexo onde se encontra o imenso radiotelescópio que vem recebendo os sinais.

Esse livrinho de pouco mais de 90 páginas até hoje me fascina pelo modo sóbrio com que tratou de ciência e ficção científica. “Templários…” conseguiu o mesmo feito mais de 15 anos depois. Coletânea de textos do autor, a obra trata com muita propriedade tanto sobre ciência como sobre ficção científica, não raro mostrando as interessantes e curiosas imbricações entre elas. Apesar de ter achado o primeiro texto um pouco hermético demais, o restante do livro foi um verdadeiro deleite.

Cada capítulo é um convite para a reflexão com base no rico acervo de informações e curiosidades sobre temas ainda mais variados que aqueles sugeridos pelo título. De onde viriam os Discos Voadores? De que sistema planetário, de qual galáxia? Tripulados por que espécie de criaturas; que pretenderiam da Terra? O que é ficção científica? Legítimo gênero literário ou formulação inconsequente de cérebros privilegiados? Os terrestres já enviaram mensagens para os extraterrestres, quando e como virão as respostas? Ou visitas? Esses são apenas alguns dos temas abordados aqui, de modo fascinante, honesto e erudito. Um livro altamente recomendado a todos que se interessam pelo assunto.

Misterios do Brasil

Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta, de Pablo Villarrubia Mauso

O encantamento, no entanto, durou só o tempo e terminar a leitura e partir para a próxima obra. Foi começar a leitura de “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta” e percebi logo de cara a diferença no tratamento do assunto. Se no primeiro livro a tônica dada pelo autor era o de seriedade cética ao tratar cada tema (mesmos os mais controversos como nos casos dos discos-voadores), o mesmo não pode se dizer de Pablo Villarrubia Mauso. Desde o início sua obra se pauta pela intensa credulidade para com qualquer dos supostos mistérios que o autor vai encontrando por suas viagens pelo Brasil. Espécie de diário de viagens por mais de trinta e uma cidades brasileiras, onde o autor brasileiro – mas radicado na Espanha – relata suas pesquisas sobre lendas e monstros de nosso folclore nos estados do Maranhão, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e outros o livro nos leva por uma aventura pelo interior desses estados enquanto nos apresenta a todos aqueles mitos e crenças já velhos conhecidos nossos: lobisomens, mapinguaris, curupiras, uma velha casa abandonada e supostamente assombrada por fantasmas, dentre outros similares. Tudo isso temperado com as próprias crenças do autor, que bebe diretamente na fonte do teórico, escritor, arqueólogo e picareta de carteirinha Erich Von Däniken. Não há explicação lógica para os fenômenos observados? Simples: atuação de alienígenas! Estranhas aparições relatadas pelos habitantes locais? Com certeza são seres de outro mundo! E obra vai seguindo nesse tom.

Essa foi a parte que mais me incomodou na escrita de Villarrubia: a facilidade para creditar ao fantástico a causa dos mistérios investigados, não raro atacando sutilmente as pesquisas sérias realizadas sobre os mesmos temas. Infelizmente esse é o tipo de livro que acaba cultivando o interesse das pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico, criando um círculo vicioso que leva a ainda menos interesse pelo conhecimento científico de fato fazendo que consumam cada vez mais o tipo e pseudociência crédula (e não raro criminosa, embora não seja o caso aqui).

Contudo, apesar da insistente credulidade do autor, “Mistérios do Brasil” não deixa de ser um livro interessante e curioso, especialmente por mostrar um Brasil ainda bem pouco conhecido por nós mesmo brasileiros. Não chega nem perto da qualidade da obra anterior, de Rubens Teixeira Scavone, mas nem por isso deixa de ser uma obra interessante, desde que não se leve em conta os ataques as pesquisas sérias feitas por Vilarrubia. E sua relativa qualidade ficaria ainda mais evidente no avançar a leitura do próximo livro.

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Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol

Como comentei na TAG: Copa do Mundo, “Porque Não Há Discos Voadores: A Lógica” engana passando a ideia de ser uma obra fruto de uma vasta pesquisa muito bem documentada. A bem da verdade, pesquisa e documentos não faltam no livro. Mas é só. Todo o livro se resume a nada mais que um gigantesco recorte de notícias sobre os avanços (e supostos avanços também) das potências americana e soviética na época da Guerra Fria. Tais tecnologias, segundo o autor (nas pouquíssimas vezes em que tentou analisar algo), sendo observadas por pessoas leigas durante seus testes seriam facilmente confundidas com discos voadores ou máquinas de outros mundos. E é isso. Eis toda a lógica prometida no título do livro após entediantes 400 páginas.

Essa suposta lógica (de que nem tudo de desconhecido que vemos nos céus seja necessariamente um disco voador) é tão boba que qualquer pessoa toma conhecimento de sua existência nos primeiros momentos de estudos de qualquer ciência ligada aos fenômenos atmosféricos, mesmo quando o intuito passa longe dos estudos ufológicos. Só para ficar num exemplo, quando estava na universidade, ao estudar a disciplina Climatologia Aplicada aprendemos sobre as nuvens lenticulares, que, devido ao seu formato peculiar são comumente confundidas com naves espaciais. É algo tão batido que mesmo muitos sites e portais de ufologia possuem postagens sobre esse tema e outros similares. Ou seja, nada de novo na lógica do Sr. Max Sussol.

Nuvens lenticulares

Dois exemplos típicos de nuvens lenticulares

A leitura dessas três obras de temas relativamente próximo, ainda que com abordagens tão distintas por parte de seus autores, serviu para me lembrar como o nosso mundo é cheio de coisas maravilhosas, algumas tão misteriosas quanto fascinantes, sendo que muitas delas exigem de nós uma mente aberta e receptiva no esforço contínuo de tentar entendê-las. Mas, principalmente, lembrou-me que não podemos nos deixar levar pela credulidade excessiva, aceitando explicações fantasiosas apenas porque se adequam às nossas teorias, mesmo sem nenhuma evidência. Ou ainda, que amontoar um monte de supostas evidências sem racionaliza-las e nem relaciona-las entre si e as teorias que se quer provar (ou refutar) também não adianta de nada.

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A VOLTA PARA CASA: CONSIDERAÇÕES SOBRE STAR TREK E DISCOVERY

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Já tem algum tempo estreou a tão aguardada nova série da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek no original em inglês). E a recepção dos fãs foi – para se dizer o mínimo –, polêmica. Na tentativa de entender a divisão causada, com alguns fãs amando e outro odiando, faço aqui uma breve consideração sobre a franquia  e da nova série tendo por base os episódios lançados até o momento. E para quem não assistiu aos episódios já exibidos pode ler tranquilo que esse é um texto livre de spoilers.

Costumo encarar cada nova série ou filme da franquia, como um volta para casa. Um retorno para aquela específica porção do espaço da qual guardamos um sentimento de afeto e carinho especial, em geral por ter sido onde crescemos, onde fomos criados. Em suma, um cantinho cheio de lembranças e significados, de onde guardamos certo carinho e afetividade em virtude de sua relação com nossas vivências. Na Geografia esse é, grosso modo, o conceito de Lugar, uma das categorias de análise básicas usadas por essa ciência em seus estudos.

A cada novo filme ou série da franquia que assisto a sensação é a de voltar a esse hipotético lar após terem se passado vários anos. Quem já passou pela experiência entende a sensação. Apesar do local não ser mais exatamente o mesmo que conhecemos – afinal pode ser que o piso tenha sido trocado, as portas, janelas e algumas paredes tenham sido pintadas (ou mesmo derrubadas e fechadas com novas paredes levantadas ou portas e janelas abertas), – ainda assim reconhecemos ali o lugar onde passamos tantos momentos e lembranças marcantes. Alguns deles muito bons, outros nem tanto.

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A tripulação de A Nova Geração que gerou um intenso debate entre os fãs que afirmavam que a série não era Star Trek de verdade

Foi assim quando assisti pela primeira vez A Nova Geração. Embora diferente em vários aspectos, ainda era Jornada nas Estrelas. Mudanças estéticas e algumas estruturais foram feitas. Não apenas o visual das naves e uniformes está diferente, mas o próprio modo de contar as histórias também precisava ser diferente. Nem tanto na primeira e segunda temporada, ainda emulando a estética narrativa da Série Clássica, mas, a partir da terceira temporada cada vez mais distintas de sua predecessora. Mas, apesar dessas paredes pintadas e de alguns cômodos modificados (e de todo o choro dos fãs mais xiitas). Apesar de diferente, aquele ainda era um universo capaz de evocar todo o excelente material clássico, sem deixar de imprimir sua própria identidade. Esse processo, aliás, foi essencial em ampliar o background da franquia. Algo como se, ao voltarmos para a casa, percebêssemos que a reforma não só mudou alguns cômodos, mas também acrescentou outros tantos, valorizando-a.

E também foi assim a cada novo produto da franquia, filme ou série: a sensação era sempre esse mesmo misto de estranhamento e reencontro. Deep Space Nine, Voyager, Enterprise. Em graus diferentes, numas mais e noutras menos, conseguíamos nos identificar e identificar os elementos que dão alma e personalidade à franquia ainda que novos elementos fossem agregados.

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Voyager e sua tripulação eclética. Nenhuma outra série de Star Trek (até agora) ousou tanto em diversidade.

Tudo isso mudou com a chegada do aclamado reboot feito por J. J. Abrams. Se por um lado a atualização estética das naves, uniformes e demais apetrechos – num esforço consciente de deixá-los mais realistas – foi, de certa maneira, bem-vinda, o mesmo não se pode dizer da decisão de fazer um filme mais voltado para a ação genérica, deixando de lado os questionamentos filosóficos e/ou sociais. Embora a história tenha arranhado alguns desses questionamentos (as mudanças causadas na linha temporal devido a uma viagem no tempo, que, apesar de batida, quando bem executada rende boas histórias) o grande foco no filme foi de fato a ação e a aventura, aspectos esses que sempre estiveram ligados à franquia, é verdade, mas nunca antes como o destaque principal. Isso causou uma grande estranheza em boa parte dos fãs. De repente aquele lugar antes tão nosso, já não era mais assim tão familiar.

Vejam bem, não estou dizendo que o reboot de Abrams tenha sido um filme ruim. Ele funcionou enquanto um típico blockbuster genérico de ação, com muita correria e porrada, cada vez mais comuns por aí. Salvo alguns buracos no enredo, uma ou outra decisão equivocada (lens flare, alguém?) e uma atuação controversa (Simon Pegg estou falando contigo), Star Trek, foi um bom filme, dos melhores do ano de 2009, com uma direção e edição adequadas, além da boa atuação por boa parte do elenco – com destaque inegável para o Dr. McCoy de Karl Urban, uma das poucas unanimidades do filme. Mas, apesar de ser um bom filme, cumprindo com bastante louvor o objetivo de trazer novo folego e, principalmente, novos fãs consumidores para a franquia, não há como negar que, de algum modo, esse não é bem, bem um filme de Jornada nas Estrelas, daí o estranhamento por parte do fandom. Um estranhamento que só fez se aprofundar com o equivocado Star Trek Além da Escuridão de 2013 e o esforçado Star Trek Sem Fronteiras de 2016.

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Star Trek de 2009: o Reboot que desagradou os fãs, porém serviu de porta de entrada para toda uma nova geração de fãs

O anúncio de que uma nova série estava nos planos da CBS deixou novamente os fãs na expectativa, apesar de um tanto temerosos, conforme relatei nesse texto. E o temor só fez aumentar a cada nova informação. Colocar a trama da nova série se passando cronologicamente após Enterprise, mas antes da Série Clássica e o conceito visual muito mais próximo dos reboots que de qualquer outra série ou filme foram alguns dos principais motivos de polêmica entre os fãs. Mesmo com algumas novidades muito bem-vindas (a exemplo do elenco cheio de medalhões como Michelle Yeoh de O Tigre e o Dragão, Jason Isaacs da série Harry Potter, sem falar da quase novata, mas igualmente talentosa, Sonequa Martin-Green de The Walking Dead), o temor de que a série fosse uma continuação do reboot de Abrams, ou seguisse sua linha mais direcionada para a ação e menos para a reflexão, só fez crescer entre os fãs mais antigos.

A polêmica se acirrou com o lançamento do aguardado trailer da série. Apesar da belíssima produção, o tom altamente bélico apresentado além do já citado conceito visual remetendo muito mais para o Abramsverso, só serviram para reforçar o sentimento de estranheza de muitos fãs. Ainda mais quando se notou nas rápidas cenas uma tecnologia muito mais avançada do que a mostrada, não somente na Série Clássica, como em qualquer outra série ou filme da franquia, com a óbvia exceção do reboot. Mesmo com alguns fãs esperando a estreia para poder emitir uma opinião mais concreta, para uma parcela significativa do fandom, a volta ao lar já não parecia tão excitante assim.

Enterprise

A tripulação de Enterprise, o ponto fora da curva na franquia: muito potencial o qual sequer foi arranhado

Por fim a nova série estreou no dia 24 de setembro com os episódios “The Vulcan Hello” e “Battle At The Binary Stars” através do novo serviço de streaming da CBS, sendo liberada no dia seguinte pela Netflix. A estreia, conforme já mencionado, foi polêmica.

De maneira geral, as opiniões não foram muito diferentes do que já vinha sendo exposto anteriormente. Muitas reclamações a respeito da estética, da tecnologia apresentada ser anacronicamente muito mais avançada do que mostrada em outras séries (não apenas a Clássica) etc. Por outro lado, esses mesmos aspectos foram muito bem aceitos por uma parcela dos fãs menos apegadas aos ditames do chamado cânone, sendo que boa parte deles não é formada pelos fãs mais novos, os que conheceram a franquia através dos filmes do Reboot. Muitos fãs mais antigos, por assim dizer, abraçaram a nova série não apenas por se sentirem órfãos após quase uma década de Jornada fora da TV, mas principalmente por reconhecerem um esforço de toda a equipe de Discovery em entregar um produto de qualidade, nos moldes do que há de melhor sendo feito na TV norte-americana atualmente. O mix direção ágil e moderna aliada aos roteiros inteligentes e dinâmicos estão entre as características mais interessantes da nova série, embora tenhamos outro aspecto importante a se destacar: a dinâmica e tridimensionalidade dos personagens já em seus primeiros momentos (algo que em geral era uma falha nos primeiros episódios das séries anteriores, onde os personagens iam ganhando mais e mais camadas no decorrer dos episódios).

Deep Space Nine

Deep Space Nine: arcos de histórias e tons mais sombrios aspectos elogiados da série e curiosamente não tão admirados em Discovery (até agora)

Particularmente eu destaco como principal ponto positivo de Star Trek Discovery a coragem de quebrar paradigmas estabelecidos anteriormente, em especial na série clássica, inclusive aprofundando o tom mais sombrio explorado com mais força apenas em Deep Space Nine (curiosamente uma das séries mais elogiadas por muitos fãs, justo por flertar com esses tons em seus episódios). Com sua releitura mais moderna, não apenas nos moldes de produção, mas também de exibição, ao abraçar o sistema de streaming, mas sem deixar de lado elementos tão característicos e que fizeram e fazem a cabeça dos fãs de ontem e de hoje, Discovery vem se mostrando uma grata surpresa. Assim como suas antecessoras ela causa um certo estranhamento a primeira vista, mas também um inevitável fascínio. E a medida que os novos episódios vão sendo exibidos, cada vez mais aquela sensação de volta para casa vai se fortalecendo e, aos poucos, criando em nós aqueles sentimento de afeto e carinho especial, através dos novos momentos de encantamento, raiva, beleza, decepção.

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UM MULTIVERSO DE POSSIBILIDADES

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A ideia de um Multiverso foi uma das mais interessantes e legais que a DC poderia ter. Criada para abrigar e explicar cada uma das diferentes versões dos heróis da editora nas diferentes eras dos quadrinhos, o conceito é uma variação – na realidade uma extrapolação – da teoria de que possam existir infinitas Terras Paralelas, todas coexistindo no mesmo espaço e tempo, mas sem nunca interferir uma na outra. O multiverso seria assim o conjunto de infinitos universos (ou realidades) coexistindo, cada um abrigando sua versão própria da Terra e de cada um de nós.

Essa é, de longe, a ideia que mais me encanta na Ficção Científica. Não só pelo incrível número de possibilidades dramáticas possíveis, mas também pelo imenso leque de questões filosóficas e conjecturas inerentes ao conceito. Meus atos em outros universos foram os mesmos? Tomei a mesma atitude num determinado momento de minha vida ou outra totalmente diferente? Que tipo de pessoa eu sou em outra realidade? Sou uma pessoa melhor? Pior? A Ficção Científica explorou e explora ao máximo todas essas questões em séries de TV, livros, contos e filmes além das revistas em quadrinhos.

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“Crise nas Infinitas Terras”

Em histórias envolvendo viagens no tempo os temas acima listados também são muito trabalhados. No filme “Efeito Borboleta” – para ficar num único exemplo – o personagem de Ashton Kutcher precisa lidar com as várias transformações em seu “Eu” a cada vez que ele consegue voltar no tempo e mudar algo. Nesse caso, o personagem tinha toda sua realidade pessoal modificada pelas alterações em seu passado. Ele sentia isso na própria pele, na forma mais direta possível, como quando acordou de volta ao seu presente com os braços amputados ou, ainda, preso por assassinato.

Num multiverso não temos a obrigação de voltar no tempo para presenciarmos as consequências de atitudes de nosso passado influenciando o nosso presente. Podemos observar isso, por assim dizer, de camarote. Sem que nossa vida sofra nenhuma alteração, podemos ver como nossas atitudes e escolhas no passado influenciaram nosso presente observando nosso “Eu” em outra realidade. É a possibilidade de encarar as diferentes possibilidades dos diferentes destinos de sua vida no conforto de sua própria realidade.

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E assim evitamos que algo assim aconteça

Outra interessante questão é mostrada na animação “Crise em Duas Terras”. Na história o Lex Luthor de um universo paralelo vem ao universo regular dos heróis da DC. Ele precisa de ajuda para enfrentar o Sindicato do Crime, nada mais que a versão maligna da Liga da Justiça. Nessa realidade tudo é “invertido”, sendo os heróis os vilões e vice-versa.  Em certo ponto da trama, o Coruja – a versão maligna do Batman daquele universo – explica que o inteiro multiverso não é apenas uma infinidade de mundos e realidades coexistindo, mas também um complexo emaranhado de possibilidades tornadas reais a cada decisão tomada não apenas por mim, mas por cada ser vivo do universo. Cada escolha, cada decisão de ir ou ficar, de tomar esse ou aquele caminho, acaba gerando por si só um inteiro novo universo onde se desdobram as consequências dessa ou daquela escolha. Nessa visão o Multiverso é o inteiro conjunto de possibilidades levadas à existência.

Voltando brevemente ao tema das viagens no tempo: seguindo essa mesma lógica, cada viagem no tempo em que se alterasse algum fato no passado, também seria capaz de gerar, não um novo futuro, mas sim uma nova realidade alternativa originária a partir daquela alteração no passado. Nesse cenário, a cada eventual alteração feita pelo viajante do tempo no passado, seriam criados futuros alternativos que passariam a existir junto ao futuro original e não a alteração desse, que, por essa lógica seria impossível de ser alterado. Ele permaneceria coexistindo com a versão alterada ou alternativa.

Na segunda parte da trilogia “De Volta Para o Futuro” ocorre algo nesse sentido. Quando o velho Biff de 2015 rouba o DeLorean e volta ao passado em 1955, ele altera todo o futuro a partir daquele ponto. Ao voltarem àquilo que é (ou deveria ser) o seu presente, o ano de 1985, o Dr. Brown e Marty McFly o encontram totalmente alterado, uma outra realidade do que entendiam como sendo o presente no qual viviam até então. Ao sugerir retornar ao futuro para impedir o velho Biff antes que esse pudesse voltar no tempo, o Dr. Brown explica a McFly a impossibilidade de fazê-lo, pois eles estariam indo ao futuro alternativo criado pela mudança feita no passado e não para o futuro original, antes da mudança. Embora não se afirme isso no filme, podemos teorizar que as mudanças causadas por Biff gerou um inteiro universo ou realidade, que passou a coexistir com a realidade anterior. Esse novo universo era o futuro (e também o presente alterado) criado em virtude das mudanças feitas na vida do Biff de 1955.

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Dr. Emmet Brown e ilustração onde explica a criação da realidade alternativa de 1985

Assim como eu disse lá no começo do post, são várias as possibilidades dramáticas e mais ainda as questões filosóficas a respeito da teoria da existência de um Multiverso. Quase tantas quanto o próprio número de universos que talvez existam por aí. Longe de querer esgotar o tema, procurei apontar algumas das questões mais intrigantes do meu ponto de vista, mas que, de modo algum, chegam sequer a arranhar a superfície de possibilidades. Quero voltar ao tema outras vezes. Mas por hora, recomendo a leitura dos textos linkados abaixo. Além de extremamente interessantes são muito informativos também. Valem a leitura:

5 Motivos Pelos Quais Devemos Estar em um Multiverso

Além do Multiverso

Abismo do Tempo

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