DA LUZ QUE SE APAGA

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos”

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury (p. 245)

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Desde o início o Habeas Mentem é para mim uma ferramenta de conhecimento. Não apenas compartilhando, mas principalmente adquirindo. Nenhum texto nesse blog é publicado sem antes uma pesquisa, se não exaustiva no mínimo dedicada, de cada tema ou assunto. Aprendo e compartilho um pouco de tanto aprendizado.

Não à toa, desde a reformulação da identidade visual do blog, uma lâmpada acesa iluminando um solo árido é a imagem de destaque e símbolo do Habeas Mentem. Um símbolo que julguei apropriado para o que entendo ser esse pequeno espaço virtual: um local onde o conhecimento é capaz de iluminar a aridez da ignorância.

Ontem eu senti essa luz apagando…

Com um nó na garganta acompanhei um patrimônio incalculável e irrecuperável virar cinzas. Vi, não apenas duzentos anos de história, mas, literalmente, milhares e milhões de anos de conhecimento (tanto descobertos como ainda por descobrir) serem consumidos pelo descaso e desleixo de um Estado incapaz de zelar pela sociedade sob sua responsabilidade.

O Museu Nacional queimou e, atônito, eu não sabia se ficava puto de ódio pelo imenso desprezo das autoridades ditas responsáveis por nosso extremamente rico acervo cultural ou se ficava profundamente triste com tudo o que se perdeu… De certo somente o meu profundo desânimo com nosso país…

Folha de São Paulo

História tornando-se cinzas e fuligem em fotografia da Folha de São paulo

Alguém nas redes sociais disse que ver o Museu Nacional queimando era como ver a própria casa queimando. Fico imaginando a dor e tristeza de todos os pesquisadores que viram anos e anos de seu trabalho tornarem-se pouco mais que cinza e fuligem.

É triste nos vermos num país onde aproximadamente 75% da população é, ou analfabeto funcional ou plenamente analfabeto. Situação lamentável essa que impede uma grande parte das pessoas que aqui vivem entender em sua plenitude o tamanho, não apenas dessa perda, mas principalmente do descaso para com a educação, o conhecimento e o saber no Brasil. E, incapazes desse pleno entendimento, tornam-se incapazes de zelar e se fazer zelar por tudo o que se perdeu e vem se perdendo nessas áreas.

É ainda mais triste entender que essa situação lamentável de nossa população é fruto de um meticuloso e deliberado processo de sucateamento de todo o sistema educacional implementado por uma elite política mesquinha e nojenta que, no intuito de se perpetuarem donas do jogo do poder, não medem esforços em deixar ignorância e desconhecimento como seu legado há gerações. A mesma elite que fez pouco caso da importância do Museu Nacional, assim como faz pouco caso de outros tantos museus, centro de cultura, arte etc. espalhados pelo Brasil afora, e agora, cinicamente, emitem notas de pesar…

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Esse desabafo de minha amiga Sybylla reflete bem o que sinto (Metade dos fósseis do seu mestrado estavam no Museu Nacional)

Especialmente toda a conjuntura nacional, não apenas no âmbito educacional, tem me deixado profundamente desanimado. Ver um acervo de mais de vinte milhões de itens queimando num fogo ainda pior que as chamas literais foi particularmente doloroso. Perceber e entender que pior que o incêndio em si é todo o conjunto de sucateamento, descaso e desinteresse pela cultura e conhecimento em nosso país, foi o mesmo que sentir uma luz se apagando.

Ainda quero acreditar que toda essa situação mudará um dia. Talvez eu não esteja vivo para ver, mas quero acreditar que meu filho poderá ver essa realidade. Por enquanto a sensação é justamente essa que ilustra o cabeçalho, não apenas dessa postagem, mas também da página principal do Habeas Mentem: ao ver se apagar o imenso farol do Museu Nacional me sinto igual a uma lâmpada quebrada que não consegue mais iluminar.

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Vou continuar pesquisando, aprendendo, escrevendo, postando e compartilhando na esperança de que essa luz possa voltar a iluminar.

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DAVID BOWIE: O HOMEM DAS ESTRELAS

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Numa cena do filme Homens de Preto, o Agente J pergunta ao Agente K se ele sabe que Elvis morreu. O colega de imediato responde: “Não, Elvis não morreu! Ele só foi para casa!” Penso que podemos dizer o mesmo de David Bowie.

Hoje acordei com a notícia da morte de David Bowie. Não me lembro de ficar tão abalado e triste com a notícia do falecimento de um artista, como quanto eu fiquei hoje.

Quando Freddie Mercury morreu, eu ainda não conhecia o gênio musical líder do Queen. E apesar de já conhecer as músicas de Renato Russo, eu ainda não entendia plenamente sua importância para lamentar tão profundamente sua morte.

Mas mesmo conhecendo ou entendendo, penso que ainda assim a notícia da morte do Camaleão do Rock me afetaria do mesmo modo. Desde muito cedo sempre tive muitas lembranças que eram (embora eu não soubesse ainda) ligadas a ele. David Bowie é o artista do qual sou fã antes mesmo de sê-lo.

Porém só fui conhecer o artista por trás dessas lembranças muito tempo depois, ao me extasiar ouvindo The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars. E a conexão se fez por completa ao descobrir em seus outros trabalhos evocações de memórias musicais e visuais: Ainda moleque já viajava na melodia de “O Astronauta de Mármore”, estranha adaptação do grupo Nenhum de Nós para o clássico “Starman”. Adolescente me encantava a rouca versão de Kurt Cobain para “The Man Who Sold the World” no disco MTV Unplugged In New York. E se perde em minhas memórias de onde conheço a bela “Heroes”. Isso sem falar na icônica capa de Aladdin Sane que figura em minha mente desde a sexta série, quando vi o referido álbum jogado numa pilha de discos jogados no lixo.

Sou fã antes de conhecer o ídolo.

Artista irrequieto, incapaz de se conformar com a normalidade das coisas, com a normal conformidade das pessoas, Bowie conseguia passar toda essa capacidade mutante em suas obras. Verdadeiro alienígena entre nós tão afeitos à imutabilidade. Além disso, o lirismo e inteligência de suas provocativas composições impactam ao mesmo tempo em que instigam uma viagem imaginativa.

Sempre se reinventando, Bowie trabalhou literalmente até o último momento. Seu último trabalho, “Blackstar” foi lançado em 08 de Janeiro, quando completou 69 anos, com muito de jazz em suas linhas. Na última faixa ele canta: “I can’t give everything away” (Não posso revelar tudo). Talvez uma última provocação do artista.

Para finalizar essa pequena homenagem à sua memória segue abaixo um link com a sua biografia, além da bela e inteligente homenagem feita pelos humoristas do Site Sensacionalista.

Whiplash.net

Sensacionalista

***

P.s.: Somente após terminar o texto percebi a injustiça em meu último Post ao não listar nenhum clip de Bowie. Por isso ilustrei esse texto com aqueles que considero seus mais belos clips. Aproveito também para pedir desculpas antecipadamente por não ter podido escrever um texto mais caprichado. Mas eu não podia deixar de fazer minha homenagem.

DE SHARBAT GULA A AYLAN KURDIN

national_geographic2Foi em uma edição qualquer da Revista Veja que me deparei pela primeira vez com a fotografia ao lado e que jamais iria sair de minha lembrança. Foi numa propaganda de assinaturas de revistas e dentre as muitas miniaturas de capas de revistas masculinas e de saúde, destacava-se uma da National Geographic, revista que, até então eu nunca ouvira falar. Na miniatura, essa jovem de grandes e assustados olhos verdes me encarava! Havia algo naquele olhar que me fascinou, mas na época eu não sabia o que era.

Por anos aquele olhar me perseguiu sem que eu nunca soubesse quem era sua dona. Eram tempos sem internet e procurar informações sobre uma moça sem nome, numa revista que quase não chegava por aqui em Aracaju era uma tarefa, no mínimo, extremamente difícil, ainda mais para um garoto sem recursos financeiros.

Foi somente em 2007, quando já cursava Geografia na Universidade Federal de Sergipe – motivado pela descoberta de inúmeras edições antigas da National Geographic num arquivo esquecido do Diretório Acadêmico do curso – que iniciei pra valer minha busca pela moça dos olhos verdes. Como a edição procurada não estava entre aquelas, iniciei minha busca usando uma ferramenta mais adequada. E, como diz um amigo, se você não encontrar na internet é porque simplesmente não existe.

Eu não tinha nenhuma informação sobre a garota, a não ser o fato de que fora capa de uma edição da National Geographic, iniciei minha busca pelo site oficial da revista. E lá estava ela, com aqueles olhos verdes me encarando da mesma maneira que anos antes: numa miniatura de propaganda de assinatura da revista. Avidamente cliquei no link e…

E nada! Apenas espaços para preenchimento de dados e nenhuma informação sobre a garota! Voltei para a página inicial e tratei de fazer uma busca mais cuidadosa e atenta. Embora a edição em questão fosse quase onipresente, não encontrei nenhuma informação que me fornecesse uma pista sobre a história da garota. Já estava ficando desesperado.

Foi quando a moça que tomava conta do Laboratório de Informática do curso, curiosa me perguntou o que eu tanto procurava naquele site. Em breves palavras expliquei minha busca e meu fracasso, sem muitas esperanças de que ela pudesse me fornecer alguma luz. E, pela primeira, ouvi a frase que seria recorrente não só em minha vida, mas na de muita gente por aí:

– Põe no Google!

– Mas por o quê? – questionei não muito convencido.

– Põe “garota da National Geographic” e vê o que aparece…

E, finalmente, eu encontrava a Garota da National Geographic. Enfim eu descobria o que tanto me chamou a atenção naquela foto: a promessa de uma das histórias mais surpreendentes de quantas já tinha lido ou mesmo ouvido falar.

A foto em questão foi registrada em 1984 num campo para refugiados que fugiam da invasão soviética ao Afeganistão. O fotógrafo Steve McCurry aproveitou o momento em que a jovem estava sem a burca para clica-la. Assustada, a menina fugiu sem que McCurry pudesse perguntar seu nome o que não impediu a revista de publicar a foto na capa da edição de junho de 1985, chamando-a simplesmente de Afghan Girl, a Garota Afegã.

Aquela foto viria a ser tornar um símbolo das dificuldades enfrentadas, principalmente, pelas refugiadas afegãs durante a invasão soviética. Sem saber, a Garota Afegã se tornou um dos rostos mais conhecidos do mundo. E por anos todo o mundo sabia simplesmente nada sobre ela, apesar das constantes tentativas de McCurry de encontra-la.

Somente com a queda do regime talibã em 2001 essa situação mudaria. Em janeiro de 2002, acompanhando uma expedição da National Geographic, McCurry fez nova tentativa. No campo de refugiados onde encontrara a garota, McCurry encontrou um rapaz que afirmava conhecer o irmão da garota. E, num remoto vilarejo no interior do Afeganistão, depois de 17 a Garota Afegã foi encontrada e o mundo conhecia finalmente seu nome: Sharbat Gula.

Através de testes biométricos confirmou-se que aquela jovem senhora precocemente envelhecida em seus prováveis 30 anos e olhar apagado era a mesma garota da foto de McCurry. Quando perguntaram, Sharbat Gula disse lembrar-se do dia em que foi clicada pelo fotógrafo ocidental. Aquela fora a primeira e, até então única, vez a fotografaram.

Aos poucos mais do que seu nome foi revelado. Sharbat contava com algo em torno dos seis anos quando seus pais morreram durante um bombardeio soviético. Obrigada a fugir se juntou a outros refugiados no campo onde McCurry a encontrara. Sem saber do impacto que sua fotografia causara no mundo ocidental, Sharbat tocou a vida. Casou-se aos 16 e durante meados dos anos 90 conseguira retornar para seu vilarejo de origem. Teve quatro filhos, mas um morreu ainda bebê.

Um (dura) vida revelada

Um (dura) vida revelada

É triste constatar que, passados 30 anos, histórias como a de Sharbat Gula continuem a ocorrer em nosso mundo. Lembrar da Garota Afegã deve servir como um convite a reflexão sobre a atual crise dos refugiados da Guerra Civil na Síria, dos fugitivos do Estado Islâmico e de vários países da África que abandonam seus lares a procura, nem digo de uma melhor condição de vida, mas sim de uma vida propriamente dita.

Não é por acaso que me lembrei de contar essa história esse dias. No começo do mês outra história, ou melhor, outra foto de refugiado me chamou a atenção. Fugindo de um arremedo de vida no meio de um conflito do qual não fazia parte, o pequeno Aylan Kurdi encontrou um destino trágico nas areias de uma praia turca. Com o coração dilacerado vi aquele garotinho, camiseta vermelha, bermudinha azul, sapatinhos escuros. Confesso que não vi o pequeno Aylan Kurdi estendido nas areias de uma praia no outro lado do mundo. Vi o meu próprio filho ali estendido. Vi no desespero do pai, meu desespero.

Enquanto o mundo se admirava com seus olhos fotógrafos num campo de refugiados, Sharbat teve sua vida aviltada não apenas por uma guerra. A Garota Afegã viveu alheia a tudo isso e o mundo seguiu alheio à sua história. Três décadas o pequeno Aylan Kurdi perdeu a sua vida pelos mesmos motivos. O Menino Sírio sequer teve a oportunidade de seguir alheio à coisa alguma. E minhas esperanças de que o mundo tenha aprendido diminuíram mais um pouco.

Desculpem-me se não posto aqui a imagem do pequeno Aylan que o tornou famoso. É a imagem mais doída de quantas já vi. Prefiro encerrar esse post com a imagem da criança feliz brincando com sua bola e com esse link com desenhos que homenageiam Aylan Kurdi.

Aylan Kurdi (mas podia ser seu filho ou o meu)

Aylan Kurdi (mas podia ser seu filho ou o meu)

E se o texto parecer molhado para você, não se assuste. Muito provavelmente são minhas lágrimas que teimaram em cair sobre ele.

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RÉQUIEM PARA MARIA HELENA

Maria Helena 16 anos

Minha mãe com 16 anos, naquela que considero sua mais bela fotografia
(Acervo pessoal do autor)

Foi no domingo à tarde. Tinha acabado de conversar com Sybylla sobre o estado de saúde de minha mãe. Estava explicando que ela se recuperava bem da cirurgia para extrair o tumor descoberto recentemente no cérebro, próximo da nuca, quando Geane, minha esposa, pediu para recolher algumas roupas, pois começara a chover.

Da escada ainda pude ouvir o telefone tocando. Geane atendeu e por seu tom de voz percebi que não era ninguém conhecido. Imediatamente senti meu corpo agitado. Venci os dois últimos lances de escada de um salto e entrei em casa perguntando quem era. O susto e a tristeza arregalados em seus olhos falaram por ela. Sua voz embargada apenas confirmou o que eu já temia…

Aos sessenta anos minha mãe, Maria Helena, a pessoa que mais amo no mundo, fragilizada após lutar por sofridos e angustiantes dois meses com o tumor no cérebro e da cirurgia para retirá-lo, não resistiu a um AVC, vindo a falecer na tarde de 2 de novembro de 2014.

Arrasado, desabei no sofá sem conseguir digerir plenamente a notícia. Geane me abraçou num misto de apoio e incredulidade. Senti-me pequeno diante da dor enorme. Choramos juntos por um bom tempo até podermos nos sentir preparados para o que viria em frente.

Minha mãe, minha esposa e eu por ocasião de meu aniversário de 30 anos

Minha mãe, minha esposa e eu por ocasião de meu aniversário de 30 anos
(Acervo pessoal do autor)

De todos os exemplos e modelos de moral e integridade que tive na vida, não sou capaz de dizer nenhum que tenha me influenciado mais que minha mãe. Mulher de conduta exemplar em praticamente todos os aspectos de sua vida, respeitada por amigos, vizinhos e colegas de trabalho, sempre nutri por ela uma admiração maior que o sentimento mãe e filho. Minha mãe, Maria Helena era – e ainda é – minha maior heroína, não apenas devido ao laço sanguíneo, mas por sua inteira história de vida.

Nascida numa família pobre, com vários irmãos e irmãs, mais novos e mais velhos, minha mãe aprendeu a trabalhar duro desde muito cedo, cuidando dos irmãos menores e ajudando nos afazeres da casa. Essa infância dura iria moldar sua personalidade até o fim. Maria Helena cresceu desconhecendo o significado da palavra preguiça. Trabalhadora incansável fosse em casa, fosse nos diversos trabalhos que conseguira na vida. Diante dessa inabalável vontade de trabalhar, dizer que minha mãe ao nascer, ao invés de registro de nascimento, assinara sua carteira de trabalho, era mais que uma brincadeira familiar: era quase um fato.

Minha mãe e eu ainda bebê em seu colo em 1983

Comigo em seu colo em 1983
(Acervo pessoal do autor)

Ainda muito mocinha, ela foi trabalhar na casa de uma família de suíços muito ricos que moravam em São Paulo. Pelo que minha mãe contava, essa família a conheceu aqui em Aracaju quando estavam de férias passeando pelo Nordeste. Ao que parece, a matriarca da família (uma senhora descrita por ela como sendo muito fina, mas também muito dura, com jeitão de nazista fugida da Guerra), teria se encantado com minha mãe, não apenas pelo seu jeito trabalhador e zeloso, mas também por não ser negra, e a levou para trabalhar como empregada e babá na casa da família em São Paulo. Era o inicio dos anos 70 e essa era uma prática relativamente comum no Brasil (na realidade ainda é), de se pegar jovem garotas para trabalhar como quase escravas para famílias mais abonadas financeiramente. O irônico da história fica por conta do fato de que, apesar da pele clara e dos olhos verdes, minha mãe era filha de negros, sendo seus traços mais caucasianos herança de uma avó materna filha de holandeses.

Em São Paulo a vida era dura com muito trabalho, mas minha mãe deu a sorte de trabalhar para uma família culta o que permitiu a ela ter contato com o melhor da literatura e da música, além de poder terminar os estudos do ensino fundamental. Foi através do refinado gosto musical e literário de minha mãe adquirido nessa época que pude crescer numa casa repleta de livros e de muita música boa, não raro cantada por sua bela voz. Sambas, forrós e muita MPB eram seus repertórios preferidos, que, bem cedo na minha vida, me apresentaram nomes como Elis Regina, Chico Buarque, Adoniram Barbosa, Cartola, Luís Gonzaga e outros.

Graças a minha mãe também aprendi a ser um leitor voraz. Lembro com carinho de passar tardes inteiras lendo a coleção do Sítio do Pica-Pau Amarelo ou as inúmeras enciclopédias que ela comprara na época em que morara em São Paulo quando conseguia um dinheirinho extra.

Algo que não lembro, mas que ela sempre fazia questão de contar: muito pequeno ainda, eu adorava ficar horas e horas contando histórias sobre monstros e extraterrestres e aventuras fantásticas, as quais ela escutava com aquela paciência infinita, aparentemente parte do pacote chamado maternidade. Ela dizia que era a semente do jovem escritor contador de histórias que já estava a germinar.

Sempre respeitei muito minha mãe. Apesar de na adolescência, essa fase esquisita de rebeldia sem noção, termos tidos algumas diferenças, jamais levantei a voz para ela ou deixei de acatar alguma determinação sua, por mais que julgasse errada, prepotente, ditatorial ou qualquer outra bobagem que tivesse passado por minha tola cabeça adolescente.

Ela também sempre me foi uma fonte inesgotável de orgulho. Meu primeiro emprego foi numa rede de supermercados tradicional aqui no estado e na qual minha mãe trabalhava já por mais de 15 anos. Embora trabalhássemos em lojas diferentes, vários de meus colegas e superiores tinham sido colegas de minha mãe trabalhando na mesma loja que ela. Com orgulho posso dizer que meu gerente, ao saber que eu era filho de Dona Helena – como ela era carinhosa e respeitosamente conhecida –, fez questão de falar comigo. Queria me elogiar e falar da minha responsabilidade para com a fama de trabalhadora responsável que ela possuía. Queria também dizer o quanto a respeitava por, apesar da dura jornada de trabalho ainda ter encontrado coragem e tempo para estudar e terminar o Ensino Médio.

Orgulhosa em minha formatura (Acervo pessoal do autor)

Orgulhosa em minha formatura
(Acervo pessoal do autor)

Orgulho que sinto também de ter podido dar uma das maiores alegrias que minha mãe pôde ter. A de ver um filho formado numa licenciatura. Ela que admirava o mundo acadêmico e o ofício de ensinar como poucos. São heranças maternas meu carinho e respeito pelos professores. Ver seu filho formado numa licenciatura foi motivo de grande alegria para minha querida mãe, como me foi relatado por várias de suas amigas ao me conhecerem em seu velório.

A noite que passei velando minha mãe foi, obviamente, a mais dolorosa de minha vida. Mas também foi gratificante descobrir o grande número de pessoas que admiravam minha mãe. Pessoas para quem e com quem trabalhara, amigos e amigas com quem ia aos saraus de poesia e de música, conhecidos os mais diversos.

A memória tem o poder de manter vivo àqueles que perdemos. Por isso me pus a contar um pouco sobre o que sei da vida de minha mãe, como uma última forma de homenageá-la. Há muito pretendia fazê-lo e sinto muito só ter podido agora.

Que minha mãe encontre na morte, o descanso e a paz que ela tanto almejou em vida.