OITO MULHERES PARA SE CONHECER NESSE 8 DE MARÇO

O Oito de março está aí novamente e, novamente, a internet está tomada das declarações de sempre em homenagem às mulheres. Muitas delas copiadas daquela fanpage bacana que a galera curte, enquanto outras caem no lugar-comum de tecer elogios a sua  beleza e capacidade multitarefas de atuar como mãe, dona de casa e ainda trabalhar fora.

Preferindo fugir do mais do mesmo optei por relembrar oito mulheres  que, com seus exemplos em variadas áreas, nos lembram que, mais que homenagem num dia do ano, as mulheres merecem respeito. Lembram ainda que, embora muito se tenha avançado nesse sentido, ainda existe um longo caminho a percorrer. Nas palavras de Denise Rangel: “Enquanto houver violência doméstica e familiar, desigualdade salarial, estupro, machismo e sexismo, não há porque receber parabéns”.

1-Malala Yousafzai

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Malala Youzafzai é uma estudante paquistanesa de 16 anos. Conhecida mundialmente pelo ativismo a favor da educação das mulheres na sociedade islâmica, Malala foi fortemente estimulada pelo pai a estudar, apesar de viver numa região com forte influência do grupo radical talibã. Aos onze anos, Malala criou um blog sobre a vida em sua cidade, as tentativas de controle do talibã de sua região e seu ponto de vista a respeito da educação das mulheres. Quando um documentário sobre sua vida foi gravado pelo The New York Times, ela ganhou notoriedade, sendo nomeada ao Prêmio Internacional da Criança.

No entanto, em 9 de outubro de 2009, o ônibus escolar onde Malala voltava para casa foi atacado. Duas garotas foram feridas e Malala ficou entre a vida e a morte ao receber um tiro na cabeça. O grupo talibã assumiu a autoria do ataque.

Após uma semana lutando pela vida, Malala apresentou uma melhora em seu quadro clínico que lhe permitiu ser transferida para o Hospital Queen Elizabeth no Reino Unido. Três meses depois Malala pode finalmente deixar o hospital.

Aos 16 anos discursou perante a Assembleia da Juventude da ONU. Apesar do ataque, a garota paquistanesa continuou a apoiar a educação para mulheres. Sua principal mensagem nesse discurso foi: “Vamos pegar nossos livros e canetas. Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução”.

2-Gabrielle Andersen-Scheiss

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A suíça Gabrielle Andersen-Scheiss não é uma heroína do esporte por um grande feito. Não venceu nenhuma competição importante, não conquistou nenhuma medalha olímpica, tampouco é considerada um nome vencedor do esporte suíço. Mas o status de heroína de Gabrielle aparece devido ao esforço e espírito esportivo.

A suíça participou da maratona feminina dos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles. Era a primeira vez que as mulheres disputavam a prova nas Olimpíadas e 37 atletas iniciaram a prova. Gabrielle, que tinha 39 anos na época, não vinha bem na prova. Não apenas com relação à sua colocação, mas fisicamente. Desidratada e sofrendo de hipertermia, a atleta recusava-se a receber ajuda médica, pois seria desclassificada. Perto do final entrou no Estádio Coliseum notavelmente debilitada. Restavam 400 metros para o fim do sacrifício. Incentivada pelos aplausos dos torcedores e recomendada pela equipe médica a desistir, Gabrielle percorreu os 400 metros finais mais acompanhados da história do atletismo. A suíça tinha dificuldades em manter-se de pé. Gabrielle tinha o rosto transfigurado pelo excessivo esforço e o andar arrastado devido às fortes câimbras. Ignorando a todo momento os médicos que a acompanhavam de perto e pediam para que ela desistisse, a atleta completou a prova na 37ª e última posição, com o tempo de 2h:48min:42s. Reconhecendo o esforço de Gabrielle, a IAAF criou o artigo “Andersen-Scheiss”, que permite que os atletas sejam atendidos pela equipe médica durante as competições sem serem desclassificados.

Após a recuperação, Gabrielle justificou seu esforço pelo fato de já estar com 39 anos, o que não daria a ela outra oportunidade de disputar uma Olimpíada e que queria honrar seu diploma de participação completando a prova.

3-Florence Nightingale

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Florence Nightingale era uma dama da aristocracia inglesa que, ao saber das condições inumanas a que estavam sujeitos os soldados feridos durante a Guerra da Criméia, decidiu cuidar deles quando ninguém mais o pretendia. Apesar dos conhecimentos sobre infecções causadas por micro-organismos ainda não existirem, Florence cuidava da higiene e limpeza dos hospitais de campanha com a maior atenção, assim como da ventilação. Perto dela nunca houve uma janela fechada! A taxa de mortes depois da chegada de Florence caiu de 50% para 2% apenas! Além de cuidar dos feridos nos hospitais ela ia até os campos de batalha dirigir pessoalmente o serviço de recolhimento dos feridos, para que não fossem maltratados. A noite percorria os campos com uma lâmpada acesa vindo daí a ser reconhecida entre os soldados como a Dama da Lâmpada. Com o fim da guerra, voltou para a Inglaterra onde fundou a primeira escola de enfermeira nos moldes modernos. É considerada a fundadora da enfermagem moderna!

4-Dorothy Counts

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Primeira mulher negra a ser aceita em uma universidade tipicamente branca, Dorothy Counts vinha de uma família que prezava os estudos. Seu pai era professor universitário em uma universidade majoritariamente negra e sua mãe, embora não atuasse, possuía diploma de nível superior. Durante quatro dias em que ela tentou acompanhara as aulas na Harry Harding ela aguentou todo tipo de humilhação: insultos, cuspidas, saques a seu armário. “Quando meu pai me levou naquela manhã, um de seus amigos da universidade, o doutor Thompson, nos acompanhou”, diz ela se referindo ao homem que a segue na foto. “A rua estava bloqueada e meu pai tinha ido procurar onde estacionar. Quando eu vi toda aquela gente, não pensei no que poderia acontecer. Eles tinham sabido pelo jornal que quatro estudantes (negros) tinham sido selecionados para escolas predominantemente brancas.”, conta ela. Quando começaram a fazer ameaças telefônicas seus pais entenderam que a vida de Dorothy poderia estar em risco e optaram por tira-la da universidade. Após e mudarem para a Pensilvânia ela passou a frequentar uma universidade mista.

Os quatro dias em que Dorothy tentou assistir as aulas foi extremamente importante para a consolidação do Movimento pelos Direitos Civis. Atualmente Dorothy é formada em Psicologia e tem uma importante atuação na luta pela igualdade racial.

5-Amelia Mary Earhart

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Amelia Mary Earhart nasceu em Atchison, Kansas e teve uma educação bem pouco convencional para a época. Durante toda a sua infância conturbada, Amelia manteve um álbum de recortes de jornal sobre mulheres de sucesso em carreiras predominantemente masculinas como: direção e produção de filmes, advocacia, publicidade, gerência e engenharia mecânica. Durante as férias de Natal em 1917, visitou sua irmã em Toronto, Ontário e revoltou-se ao ver o retorno dos soldados feridos na Primeira Guerra Mundial. Quando a pandemia de Gripe Espanhola chegou a Toronto, Earhart se manteve ocupada na dura tarefa de enfermeira. Acabou por contrair gripe, pneumonia e sinusite.

Por essa época, Earhart visitou, com uma jovem amiga, uma feira aérea que acontecia conjuntamente com a Exposição Nacional do Canadá em Toronto. Um dos destaques do dia foi a exibição aérea de um “ás” da Primeira Guerra Mundial. O piloto avistou do ar Earhart e a amiga, que estavam observando de uma clareira isolada abaixo dele, e mergulhou na direção delas. Quando a aeronave se aproximou, algo dentro dela despertou. Trabalhando em vários empregos, como fotógrafa, motorista de caminhão e estenógrafa na companhia telefônica da cidade, conseguiu juntar $1,000 para aulas de voo. Para chegar até à base aérea, Amelia pegava um ônibus até o ponto final e ainda andava cerca de 6,5 km. Sua professora foi Anita “Neta” Snook, uma das mulheres pioneiras da aviação. Em 22 de outubro de 1922, Earhart voou a uma altitude de 1.4000 pés, batendo um recorde mundial para aviadoras. Em 15 de maio de 1923, Earhart torna-se a 16.ª mulher a conseguir uma licença de voo da Fédération Aéronautique Internationale (FAI).

Earhart manteve seu interesse na aviação, tornando-se membro da “American Aeronautical Society” de Boston, sendo eleita vice-presidente posteriormente. Escreveu para o jornal local promovendo a aviação, e iniciando o projeto de uma organização para pilotos femininos. Em 1928 Amelia tornou-se a primeira mulher a travessar o Atlântico, mas como passageira num voo por instrumentos e tornou-se a primeira mulher a efetuar um voo solo de ida e volta através do continente norte-americano. Em 1930, tornou-se oficial da “National Aeronautic Association” onde trabalhou ativamente para estabelecer a separação dos recordes femininos. Amelia advogou vigorosamente pelas mulheres-piloto e, quando em 1934 a corrida “Bendix Trophy” baniu as mulheres, ela recusou-se a voar com a atriz Mary Pickford para abertura da corrida em Cleveland. Aos 34 anos, na manhã de 20 de maio de 1932, Earhart partiu de Harbour Grace, Terra Nova para Paris no seu Lockheed Vega 5b, replicando assim o voo solo de Charles Lindbergh. Após um voo de 14 horas e 56 minutos durante o qual ela enfrentou fortes ventos do norte, gelo e problemas mecânicos, Earhart pousou num pasto em Culmore, norte de Derry, Irlanda do Norte. O local é agora sede de um pequeno museu, o “Amelia Earhart Centre”. Como a primeira mulher a efetuar um voo solo sem escalas através do Atlântico, Earhart recebeu a “Distinguished Flying Cross” do Congresso dos Estados Unidos, a “Cruz de Cavaleiro” da Legião de Honra do governo francês e a “Medalha de Ouro” da National Geographic Society das mãos do presidente Herbert Hoover.

Em 1937, Amelia tentou por duas vezes o seu famoso voo mundial. Na terceira tentativa o Electra pilotado por Amelia desapareceu após decolar da Nova Guiné no Pacífico. Buscas intensas foram realizadas, mas nada se encontrou o que deu margem a uma série de teorias conspiratórias. Muitas dessas afirmavam que ela foi abatida pelos japoneses por ser na realidade espiã americana, enquanto as mais famosas (e fascinantes) são as que envolvem a abdução de seu avião por discos-voadores, teorias que foram desenvolvidas no excelente episódio “The 37’s” da segunda temporada de Jornada nas Estrelas Voyager. Amelia Earhart foi uma celebridade internacionalmente conhecida durante sua vida. Sua timidez carismática, independência, persistência, frieza sob pressão, coragem e objetivos profissionais definidos somando-se as circunstâncias de seu desaparecimento ainda jovem, fizeram sua fama na cultura popular. Centenas de artigos e livros foram escritos sobre sua vida e frequentemente é citada como estímulo motivacional, especialmente para mulheres, sendo normalmente lembrada como um ícone feminista.

6-Maria Sklodowska (Madame Marie Curie)

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Nascida Maria Sklodowska, tornou-se mundialmente conhecida como Madame Marie Curie. Polaca de nascimento, precisou fugir pra Cracóvia quando jovem. Estudou na Sorbonne licenciando-se em Matemática e Física. Em 1894 conheceu Pierre Curie, professor na Faculdade de Física, com quem no ano seguinte se casou. Ele ajudou em seus estudos para descobrir elementos químicos como o radio, o polônio, e a radioatividade. Tornou-se a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o prêmio Nobel. Faleceu em 1934 de leucemia, muito provavelmente adquirida devido as incessantes horas de trabalho em seu laboratório. Fez descobertas no campo da radioatividade (quando essa ainda possuía ares de magia) e descobriu os elementos rádio e polônio. Um dos mais brilhantes nomes femininos da ciência!

7-Cecília Helena Payne-Gaposchkin

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Cecília Payne-Gaposchkin nasceu na Inglaterra em 10 de maio de 1900, mudando-se depois para os Estados Unidos. Ainda na Inglaterra ela estudou química, física e botânica em Cambridge. Na época as mulheres podiam cursar uma universidade, mas não recebiam um diploma de graduação ao fim do curso. Isso motivou Cecília a ir para os Estados Unidos onde recebera uma bolsa no observatório de Harvard. Lá, incentivada pelo diretor do observatório, ela escreveu sua tese de doutorado “Atmosferas Estelares, Uma Contribuição para o Estudo da Observação da Alta Temperatura nas Camadas de Inversão das Estrelas” (Stellar Atmospheres, A Contribution to the Observational Study of High Temperature in the Reversing Layers of Stars) em 1925. Foi graças também a essa tese que se estabeleceu que o hidrogênio é o principal componente do Sol, numa época em que se acreditava que sua composição era similar a da Terra. A tese de Cecília também ajudou a comprovar a Teoria do Big Bang. Primeira tese de doutorado de Harvard, ela foi considerada pelo astrônomo Otto Struve como: “indubitavelmente a tese de doutoramento mais brilhante jamais escrita em astronomia”. Apesar de continuar ativamente trabalhando em astronomia em Harvard, foi somente em 1938 que lhe foi outorgado oficialmente o título de Astrônoma e somente em 1956 ocupou uma cátedra em seu departamento, sendo a primeira mulher a ocupar essa posição.

Cecília Payne-Gaposchkin faleceu em 1975.

8-Maria Goeppert-Mayer

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Maria Göppert-Mayer nasceu na cidade de Kattowitz, na época pertencente a Alemanha (e atualmente Katowice na Polônia). Foi uma notável pesquisadora sobre a estrutura do átomo e uma das poucas mulheres a receber o Nobel de Física (1963), tendo dividido o prêmio com outros dois cientistas com projetos distintos. Foi educada na Universidade de Göttingen, onde seu pai era professor de pediatria, doutorou-se, casou com o físico-químico americano Joseph E. Mayer  e foi morar nos Estados Unidos, passando a ensinar na Johns Hopkins University por nove anos, tornando-se cidadã americana em 1933. Ensinou no Sarah Lawrence College (1939) e na Columbia University (1939-1945), onde demonstrou que o núcleo atômico tinha uma estrutura de prótons-nêutrons encapsulados e mantidos juntos por uma força de natureza complexa e trabalhou na separação de isótopos de urânio para construção da bomba atômica no Manhattan Project. Continuou suas pesquisas no Institute for Nuclear Studies da Universidade de Chicago (1945) e no Argonne National Laboratory (1946-1960) e publicou a obra Elementoary Teory of NuclearShell Structure em 1955. Após sofrer um derrame cerebral em 1960 que a deixou parcialmente paralítica, trabalhou para a Universidade da Califórnia, em San Diego (1960-1972) onde morreu em 1972.

Obviamente muitas outras mulheres importantes ficaram de fora dessa lista a qual é apenas um recorte de uma lista muito maior. Nomes importantes, cujas histórias merecem, e devem, ser conhecidas e compartilhadas, nos ajudando sempre a não apenas homenagear num dia específico mas a respeitar todas as mulheres todos os dias.

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SABIA QUE VOCÊ FAZ PARTE DA CULTURA DO ESTUPRO?

estuproEu só fui ter plena consciência do que é a cultura do estupro quando, há alguns anos, descobri que a, na época, minha namorada (quase noiva) havia sido violentada duas vezes, sendo pelo menos uma dessas na época de escola quando ela deveria ter 15 anos. Foi através de uma cartinha muito doída de se ler que ela me contou o que ocorrera. Ela só teve coragem de me contar quase dez anos depois do ocorrido, porque, na mente dela havia um conflito muito intenso entre ela saber que sofreu uma violência e o sentimento de culpa pelo o que aconteceu. Mas como ela podia ser a culpada? Na época eu não consegui entender isso.

Na carta ela me contou detalhes de como tudo ocorreu, mas não os contarei aqui. Basta sabermos que ela foi violentada em sua casa.

O mundo sumiu abaixo dos meus pés ao descobrir pelo que ela passara! Eu a amava muito na época, tínhamos um relacionamento relativamente longo e decidi que iria fazer de tudo pra ajuda-la. Mas tudo o que eu sabia sobre estupros era o que via em filmes e vagamente em notícias de jornais. Não era muita coisa. Passei a dedicar uma parte do meu tempo com pesquisas sobre o assunto, sobre o estupro, sobre como auxiliar psicologicamente a mulher que sofrera tal agressão. Encontrei muita coisa! Mas, para meu desespero e tristeza, me deparei com uma realidade aterradora.

Em linhas gerais foi essa a realidade que encontrei:

  • A cada hora, 16 mulheres enfrentam estupradores;
  • Uma mulher é estuprada a cada seis minutos;
  • A cada 18 segundos uma mulher é espancada;
  • Desde 1974, a taxa de agressões contra as mulheres jovens (idades 20-24) saltou 50 por cento;
  • Três em cada quatro mulheres serão vítimas de pelo menos um crime de violência durante a sua vida;
  • Apenas 50 por cento dos estupros são comunicados e daqueles relatados, menos de 40 por cento irá resultar em prisões;
  • Uma em cada sete mulheres atualmente cursando faculdade foi estuprada;

Esse dados são do US Department of Justice (Departamento de Justiça dos EUA) do ano de 2012 e os retirei do excelente Blogueiras Negras (blog que recomendo fortemente). Obviamente esses não são os mesmos dados que encontrei em minha pesquisa anos atrás, mas eles ainda refletem a mesma realidade. A realidade que aprendi ser conhecida como da cultura do estupro.

Fiquei em choque ao ver como nós homens tratamos as mulheres. Molestamentos, violência física, verbal e psicológica, descaso, desrespeito, estupros. Tudo isso não importando o local. Pode ser nas ruas, nos transportes públicos, em suas residências, nas escolas, universidades, no trabalho. Parece que o simples fato da mulher existir seja motivo suficiente para trata-la como lixo. Porém, apesar de tudo isso ser revoltante e degradante, não foi o que mais me chocou.

A violência contra a mulher

A violência contra a mulher

O que me chocou de fato foi que, apesar de todos esses dados, de toda essa violência, nós não damos a menor importância a ela. Ao contrário, chegamos ao ponto de apoia-la.

“Espera um pouco aí, Humberto!” você pode questionar: “Sou uma pessoa consciente, sensata! Jamais iria apoiar algo tão vil e degradante quanto o estupro ou a violência contra as mulheres!” Mas será mesmo que não?

Mas que tal pensarmos um pouco sobre o assunto?

Quantas vezes ao nos depararmos com a notícia de que uma mulher foi estuprada nos pegamos pensando: “Mas também, com essa roupa, ela tava pedindo pra ser estuprada!” Ou: “Mas quem mandou andar nesse lugar e nesse horário? Só podia ser estuprada mesmo!”

Foto Escritos FeministasRepararam no que essas duas frases tem em comum? Além do fato de serem extremamente populares, ambas põem a culpa da agressão em quem foi agredido e não no agressor. Em outras palavras a culpa do estupro está na mulher estuprada e não no estuprador.

Embora essa seja uma afirmação falaciosa sobre vários aspectos, ela é extremamente difundida, sendo comum até mesmo entre as mulheres. De tão difundida é encarada como um fato, uma verdade. Essa ideia está tão enraizada na mentalidade das pessoas em geral que, invariavelmente acabamos por culpar a mulher por ser responsável por ter sido estuprada. Dizemos logo que sua saia estava muito curta, que seu decote muito profundo, que ela estava bêbada, que ela permitiu… A culpa é sempre dela. E sempre que fazemos isso acabamos legitimando a atitude do criminoso, quase como se estivéssemos o desculpando pelo acontecido. Mesmo não sendo estupradores ou machistas, sempre que reproduzimos esse tipo de “verdade” estamos mais do que contribuindo para com a cultura do estupro. Estamos fazendo parte dela.

estupro-c3a9-crime-a-culpa-nunca-c3a9-da-vc3adtima-autor-carlos-latuff-2Minha ex-namorada foi levada a pensar assim. Todos a culparam. E de tanto a culparem ela por muito tempo julgou que os outros estivessem certos. Ela deveria ter feito algo que provocou o seu agressor. De alguma maneira ela deve ter pedido pra ter sido estuprada. Sou só eu ou tem algo muito errado com esses pensamentos? Como uma garota de 15 anos que tem sua casa invadida e roubada por criminosos, aterrorizada por ficar na mira de armas por horas, pode ser culpada por ter sido estuprada por um deles? Parece incoerente pra você também? Pois fique sabendo que não pareceu para o delegado que cuidou do caso.

Infelizmente esse não foi um caso isolado. Todos os dias mulheres são estupradas e a culpa recai sobre elas unicamente. E somos nós quem as culpamos! Em alguns casos, nem nos damos conta disso. Assim como muitos eu também reproduzia várias dessas “verdades”. Eu também reproduzia o discurso da cultura do estupro. Foi preciso que alguém que eu amava sofresse essa terrível experiência para que eu passasse a encarar os fatos sobre um ângulo totalmente diferente. Passasse a notar que, independente da roupa, do lugar, da situação a culpa de um estupro é sempre do estuprador.

Apesar do asco que senti ao encarar toda essa situação, decidi que não tentaria tapar o sol com a peneira e, cinicamente afirmar que nada daquilo me afetava. Procurei informações sobre toda essa cultura terrível, na esperança de poder tentar ajudar minha ex. Com tato, carinho e cuidado ajudei a externalizar parte de sua dor. E, fazendo isso, era obrigado a ver como a mulher calma, cheia de vida e vibrante que ela se esforçava em ser se esvaía em lágrimas revelando a menina fragilizada e impotente, aterrorizada ante a violação de seu corpo. Vi uma ferida enorme em sua alma. O horror de uma inocência arrancada brutalmente!ensine a respeitar

Infelizmente não consegui ajudar muito. O trauma que ela sofreu foi severo demais, intenso demais. Apesar dos meus esforços, sentia que ficava mais difícil. Fui paciente! Tinha de ser! Que outra alternativa eu tinha? Agir como um tolo ignorante e mandar que ela parasse de sentir pena de si mesma? Insensivelmente ordenar que parasse de se lamentar e tocasse a vida, afinal todos temos problemas? Ridículo! Seria apenas legitimar os crimes que ela sofrera. Seria novamente fazer parte da cultura do estupro. Acusa-la de ser a causadora, a culpada!

Tempos depois ela rompeu nosso relacionamento. Fiquei arrasado. Eu, de fato, a amava muito, queria muito ser feliz ao lado dela, mas não foi possível. No entanto, o que me deixou mais arrasado foi não ter conseguido ajuda-la mais.

Ainda sofro por não ter conseguido ajuda-la. Hoje sou casado com uma mulher maravilhosa, uma companheira incrível a qual amo muito e que felizmente nunca sofreu nada parecido! Mas mesmo assim tenho medo, muito, muito medo que algo assim possa ainda acontecer. A realidade, infelizmente, corrobora meu medo.

Procuro fazer minha parte. Quando ensinava (sou Professor de Geografia, embora afastado da licenciatura) procurava conscientizar meus alunos sobre a questão, mostrava que essa realidade precisava mudar. Minha página pessoal no Facebook possui como foto de capa um cartaz alertando sobre a Pedofilia. Mudar minha visão das coisas não foi o suficiente para mim. Decidi que ficar parado não ajudaria em nada pra resolver essa situação. É um trabalho complicado e admiro muito quem decidiu que esse é um trabalho que vale a pena ser feito. Pessoas como Aline Valek, Lady Sybylla, Samantha Martins, Gizelli Souza, as meninas do Blogueiras Negras, mulheres formidáveis com quem aprendi muito, mas muito mesmo. A elas peço que continuem com o excelente trabalho e, apesar de todas as dificuldades, persistam! É preciso dar um basta nessa cultura vil, torpe e degradante em que uma mulher é tratada de maneira tão humilhante!respect1

Existe muito a se falar ainda sobre essa questão, mas o espaço aqui é pouco. Por isso procurei espalhar links pelo texto e nas imagens que levam a sites com mais informações sobre. Vai lá, dá uma olhada! A informação é uma arma poderosa contra a cultura do estupro.

Deixe sua opinião também.

DA IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA MENTE ABERTA

Sir Fred Hoyle foi um brilhante matemático e astrônomo inglês. Durante a primeira metade do século XX ele empreendeu uma verdadeira batalha com os defensores de uma teoria contrária a sua, que afirmava que o universo poderia ter um início. Hoyle, diferente desses, acreditava que a ideia de um universo tendo um começo era absurda e, por isso, postulou uma teoria onde explicava o universo como sendo eterno, sem um começo e sem um fim, onde a matéria era constantemente formada. Essa teoria foi chamada de Teoria do Universo Estacionário.

Fred Hoyle

Fred Hoyle

Na época em que essas teorias eram debatidas não havia meios para se comprovar uma ou outra. Apesar de brilhantes, sem meios para prova-las, ambas eram apenas elaborados exercícios mentais com base em cálculos e conceitos físicos. Brilhantes é verdade, mas ainda assim exercícios mentais. E Hoyle, talentoso propagandista, sabia usar os meios que tinha a mão para tornar sua teoria popular. Ironicamente foi durante uma transmissão de rádio em que rebatia a teoria contrária, que Hoyle (usando um termo depreciativo), acabou por cunhar o nome pelo qual essa teoria viria a ser conhecida: a Teoria do Big Bang.

Os esforços do astrônomo acabaram se revelando em vão quando em 1969 se descobriu a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Em termos simples essa radiação é uma espécie de fóssil de quando o Universo era muito novo, quente e denso. Exatamente como previa a Teoria do Big Bang. O Universo Estacionário de Hoyle acabara de sofrer um golpe fatal!

Os descobridores da radiação cósmica de fundo em micro-ondas: Arno Penzias e Robert Wilson

Os descobridores da radiação cósmica de fundo em micro-ondas: Arno Penzias e Robert Wilson

Mas vocês pensam que Hoyle se convenceu? Além de brilhante, ele também era muito teimoso e jamais aceitou plenamente um universo tendo um começo. Em 1993, aos 78 anos, publicou juntamente com outros dois estudiosos a Teoria do Universo Quase Estacionário, como sendo uma nova visão de sua antiga teoria, tratando de questões adicionais que não tinham sido consideradas antes. Embora seja considerada seriamente por alguns estudiosos, falhas e discrepâncias nessa teoria ainda a tornam bastante impopular.

Alguns podem dizer que Hoyle era um homem obstinado, alguém que se apegava no que acreditava e insistia nisso a despeito dos fatos. É um ponto de vista. Respeito. Mas, sinceramente, não concordo com ele. A meu ver, Hoyle era um homem teimoso, que não conseguiu aceitar a ideia de que uma teoria sua pudesse estar errada. Mesmo com todas as evidências comprovando isso.

Hoje em dia vemos inúmeras pessoas que, assim como o astrônomo inglês, simplesmente não aceitam bem a ideia de estarem erradas. Suas opiniões, conceitos e pontos de vistas são encarados como verdades absolutas, fatos mais que consolidados e comprovados. E ai de quem ousar discordar, mesmo que o faça educada e respeitosamente. Por não concordar é taxado de ingênuo, ignorante, desinformado, alienado (palavrinha essa, inclusive muito usada) dentre outros termos mais fortes, por assim dizer.

A situação piora quando a pessoa é daquelas que se julgam pós-doutoras – ou qualquer outro título equivalente – em algum assunto só por terem assistido um documentário no History Channel ou ainda por terem lido algum livro do Erich Von Daniken. Já tentei dialogar com gente assim. Não dá! Simplesmente não dá! Você utiliza argumentos, lógica, conceitos provados e comprovados e ele acha que um simples “Eu vi num documentário/ Eu li num livro” é suficiente para comprovar que estão certos. Desculpa, mas não é!

É preciso mais do que:

É preciso mais do que:
“Eu li num livro”

Todo mundo tem direito a ter uma opinião sobre qualquer assunto e de expressa-la livremente. É inclusive um direito constitucional. Entretanto, o fato de que podemos ter uma opinião e a liberdade para expressa-la não necessariamente significa que estejamos corretos. Também não nos dá a liberdade de impor nossa opinião aos outros. Lógico que podemos expressa-la, mas nunca menosprezando a opinião alheia. Ao invés disso, por que não respeitar a opinião do outro, procurando manter a mente aberta para novas informações, ideias e perspectivas? Já parou pra pensar por um momento que o outro pode estar certo? Que a sua opinião pode estar errada?

Infelizmente as pessoas parecem estar perdendo a capacidade de se fazer esses questionamentos. Julgam-se as donas da verdade absoluta e que suas opiniões jamais podem estar erradas. E aí discriminam, menosprezam, ofendem, ridicularizam os que pensam diferente, mas quase nunca apresentam argumentos válidos e coerentes que apoiem sua forma de pensar. Não raro partem para a agressão gratuita, quando não conseguem nos impor seu ponto de vista. Situação mais do que comum em muitos blogs abertos aos comentários.

Um tipo bem comum na internet
Imagem gentilmente cedida pela Fernanda Nia Ferreira do blog de tirinhas http://www.comoeurealmente.com/

Essa atitude tão comum hoje em dia, não só na internet, como também no mundo real é extremamente danosa, pois quando julgamos que estamos certos (sem dar uma chance para pensamentos diferentes), acabamos por desperdiçar ótimas chances de aprender e de enriquecer nosso conhecimento com novas informações. Perdemos a chance de evoluir!

Descobrir que nossa opinião, que aquilo no que acreditamos tão fervorosamente, está errado, não transforma ninguém em uma pessoa menor, em alguém menos inteligente. Pelo contrário! Já persistir numa ideia comprovada como errada é no mínimo uma tolice. Se todos agíssemos assim, ainda acreditaríamos num mundo plano sustentado por elefantes ou que é impossível uma máquina mais pesada que o ar voar, além do que boa parte das magníficas descobertas científicas não teriam sequer existido para facilitar nossas vidas.

Antes de encerrar gostaria de deixar claro que não quis com esse texto atacar o cientista Fred Hoyle. Considero-o um grande astrônomo que contribuiu enormemente pra o avanço da ciência. Embora infeliz em sua Teoria do Universo Estacionário, outros estudos desse brilhante astrônomo britânico ajudaram a entender como se dá a formação de elementos pesados, que levaria à famosa constatação de que somos todos nós poeira das estrelas! Sua teoria da Panspermia, que considera a origem da vida como sendo extraterrena, tendo chegado até a Terra através de cometas, embora não comprovada, possui uma considerável aceitação no meio acadêmico.

Hoyle foi um cientista brilhante que assim como muitos outros teve muitos acertos e alguns erros. Igual a qualquer outro ser humano. Como disse o físico estadunidense Robert Alpher, ele “era um homem que tinha muitas ideias, mas nem sempre conseguia distinguir as boas das ruins”. Talvez um pouco mais de bom senso o ajudasse a manter a sua mente aberta para novas perspectivas ajudando a um melhor discernimento sobre suas ideias.

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Atualização de janeiro de 2018: Para quem quiser saber mais sobre a radiação cósmica de fundo e a Teoria do Big Bang recomendo esse excelente vídeo O Começo de Tudo do canal do Youtube Nerdologia.