TAG: MINHA UNIVERSIDADE – GEOGRAFIA LICENCIATURA

Há bastante tempo atrás respondi essa TAG muito interessante e curiosa sobre como eu era em meu tempo de escola, originalmente ideia do blog Just Lia. Ao revisitar a postagem notei que essa era uma ideia derivada de outra similar, sendo que essa se referia aos tempos de universidade. Nem preciso dizer que curti bastante a iniciativa de se falar um pouco mais tanto sobre meus anos de universidade, como também sobre o curso em si.

São 15 perguntas e se você quiser responder também é só lembrar de citar o post original no Just Lia.

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  1. Qual seu curso de graduação?

Eu cursei Geografia Licenciatura na Universidade Federal de Sergipe.

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Brasão da Universidade Federal de Sergipe remodelado para comemorar seus 50 anos de existência

  1. Quantos períodos ele tem? E em qual você está?

Na época o curso de Geografia possuía oito períodos, durando, portanto, 4 anos. Me formei em 2011 depois de sete anos e meio de muita luta, conforme eu já contei nesse Guestpost no Meteorópole.

  1. Porque você escolheu esse curso?

No Guestpost e também nesse post aqui, eu conto como e porque escolhi a Geografia com um pouco mais de detalhes. Mas em resumo eu sempre sonhei fazer jornalismo, mas ao reprovar no primeiro vestibular decidi fazer Geografia um tanto por incentivo de minha mãe.

  1. Antes de escolher esse curso você pesquisou sobre o mercado de trabalho e o piso salarial?

Por ter escolhido o curso tão em cima da hora, não tive tempo de fazer esse tipo de pesquisa. Mas, sendo sincero, nunca fui muito de ligar para a questão salarial especificamente. Quanto ao mercado de trabalho, sendo um curso de licenciatura, não havia muitas dúvidas quanto à situação.

  1. Como foi seu primeiro dia de aula? Tem dicas para os calouros?

Meu primeiro dia de aula começou dando a tônica de como seriam minhas chegadas nas aulas iniciais da manhã: atrasado. Era aula de Organização do Espaço Mundial com o Prof. Edvaldo e, ao chegar atrasado vestido como um típico punk, atraí um olhar dos mais curiosos do velho mestre.

Minha dica primeira é esquecer tudo o que viveu antes nos ensinos médio e fundamental. Nem pior e nem melhor, a realidade no ensino superior é apenas diferente e exige que os alunos sejam mais proativos na hora do estudo. Sabe aquela coisa do seu Professor de história mastigar todo o conteúdo pra você? Pois é, esqueça. Outra boa dica é ser curioso. Procure conversar com os colegas, tanto os calouros como você, como também com os veteranos. Se informe sobre as disciplinas, os professores, processos administrativos e acadêmicos, onde ficam os diversos setores da universidade. Ou seja, procure o máximo de informação possível. Mais cedo ou mais tarde elas vão ser muito úteis.

  1. Sobre seu TCC, já começou a fazer? Qual tema pretende abordar?

 Na época o currículo do curso não previa a necessidade de se fazer um TCC, o famoso (e temido), Trabalho de Conclusão de Curso. O mais próximo disso era um relatório de atividade de Estágio, em geral feito em duplas. Eu e minha dupla estagiamos numa turma do ensino noturno do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva (atualmente Colégio Estadual Professor João Costa). No relatório traçamos um perfil do aluno do turno da noite e analisamos as dificuldades enfrentadas por esse aluno, via de regra trabalhador durante o dia, em conciliar estudo e trabalho.

Colégio Estadual Prof. João Costa

Colégio Estadual Presidente Costa e Silva (atualmente Colégio Estadual Professor João Costa)

  1. Você se considera uma boa aluna(o)?

Apesar de ter sido um excelente aluno no ensino fundamental menor (da 1ª à 4ª série), bom no fundamental maior (da 5ª à 8ª série) e regular no ensino médio, considero que na universidade fui um aluno um tanto medíocre. Parte por precisar trabalhar e estudar, outro tanto pois por essa época já ter me decepcionado de vez com todo o sistema educacional em nosso país. No entanto, isso não me impediu de procurar correr atrás por conta própria de mais leitura e conteúdo.

  1. Você está 100% satisfeita com o curso que escolheu?

Durante o curso tive sérias dúvidas se era aquilo mesmo o que queria. Mas todas elas se foram quando comecei a lecionar. Apesar das dificuldades que enfrentei nos primeiros anos como professor, lecionar me ajudou a ter uma visão mais pé no chão da profissão e me ajudou a perceber o quanto ela era capaz de fornecer em prazer e satisfação ao exercê-la.

  1. O seu curso tem algum material especifico que não tem em outros cursos? (ex: estetoscópio e calculadora cientifica.)

Até onde eu saiba não existe nenhum material que seja específico do curso. Utilizamos bastante mapas e cartas e, em certos casos, aparelhos como o GPS. No entanto tanto as cartas e o GPS são muito utilizados por diversas outras áreas do conhecimento além da Geografia, embora sejam, quase sempre, ligadas a ela, especialmente pelo senso comum das pessoas.

  1. Na sua faculdade teve trote? Se sim como foi?

Não houve trote. Na realidade a UFS e outras universidades no Nordeste não possuem um histórico de trotes (ao menos não aqueles violentos ou humilhantes). Não é muito raro, no entanto, os veteranos promoverem trotes solidários, com arrecadação de roupas ou materiais de limpeza para instituições de caridade ou de acolhimento. Um desses trotes que ficou em minha memória foi o que foi feito tempos depois, quando eu já era veterano. Com a desculpa de que iríamos fazer uma dinâmica de grupo pedimos um dos calçados de cada calouro colocando-o num saco. Enquanto passávamos informações sobre o curso, discretamente demos sumiço nesse saco. A partir daí fizemos os calouros iniciar uma peregrinação pelo campus a procura do calçado desaparecido. E, a cada ponto onde insinuávamos ser o local onde estaria o saco sumido (reitoria, biblioteca, restaurante universitário etc.), um veterano estrategicamente ali postado explicava o que era e para que servia cada um daqueles prédios para, então, indicar o próximo passo. Ao final dessa gincana – terminando exatamente onde começou –, os calouros tinham adquirido uma gama considerável de informações, não apenas sobre seu curso, mas também sobre toda a universidade. E de quebra recuperaram os calçados.

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Trote o curso não teve, mas visitas técnicas e viagens de estudo foram várias. Na foto, uma das visitas técnicas ao Município de Laranjeiras (Alguém já me achou aí?)

  1. Seu curso tem muita matemática?

Não muita. Somente no segundo período precisamos usar bastante a matemática ao cursarmos a disciplina Cartografia Temática, onde aprendemos a fazer gráficos e tabelas os mais variados, e não apenas analisando os dados nelas contidos. Mas caso fosse do seu interesse, havia a possibilidade de se pegar a disciplina Introdução à Estatística, e aí sim, a matemática come solta. E como a matemática e eu vivemos uma relação de amor não correspondido, tratei de ficar bem longe dessa disciplina.

  1. Geralmente nas faculdades existem o “ciclo natural de desistência” a turma começa com 70 alunos e permanecem só 20. Isso aconteceu na sua faculdade?

De modo geral o curso de Geografia não possui um histórico de grandes desistências. Muitos alunos se atrasam, mas as desistências são poucas relativamente falando. Aliás, o terceiro período era famoso como o semestre que separava os calouros, pois era quando pegávamos a disciplina Geomorfologia Estrutural com o temido Professor Hélio Mário e Geografia Agrária da exigente Professora Núbia Dias. A coisa mais comum era metade da turma não conseguir passar em uma ou outra, não raro, em ambas. E, curiosamente, apesar de ter perdido várias matérias, fui aprovado nessas duas logo na primeira vez em que as cursei.

  1. Quais dicas você daria para quem está querendo começar a fazer o mesmo curso que você?

Esse é um conselho que eu daria a qualquer pessoa independentemente do curso escolhido: pesquise bastante sobre o seu curso. Procure saber o máximo possível sobre ele. Assim as chances de escolher uma área e acabar se arrependendo depois serão bem menores. E se isso ocorrer não hesite em mudar de área, mas não faça isso sem refletir bastante antes.

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Na foto o garboso grupo de alunos (olha eu ali escondido) que ajudou a organizar um dos vários eventos o curso, nesse caso o I Simpósio Sergipano de Geografia Contemporânea

  1. Já ficou em DP? Possui algum método diferente de estudo?

Sendo bem sincero, perdi várias disciplinas. Boa parte devido a dupla jornada trabalho/estudo. Mas uma ou duas por outros motivos. Para ficar somente num caso bem específico houve a vez em que logo no primeiro dia de aula de Geografia Urbana I, após uma explanação do professor, um aluno fez um comentário muito pertinente e embasado. Para nossa surpresa, ao invés de elogiar o comentário o professor displicentemente comentou: “Já sei qual é o seu problema: você lê demais!” diante de uma turma atônita, que não sabia se aquilo era algum tipo de piada (garanto que não era pois já conhecia o professor do semestre anterior com quem cursei a disciplina Geografia da População), dei uma gostosa gargalhada, peguei meus livros e saí daquela sala para nunca mais voltar. Tempos depois tive que explicar ao colega que minha gargalhada não era para ele, mas sim para a situação ridícula de ver um professor universitário tripudiar assim e um aluno que fizera um comentário tão pertinente e enriquecedor para a aula.

Por esse exemplo podemos dizer que meu método diferenciado de estudo podia muito bem ser evitar aprender esses maus exemplos dados por alguns profissionais. Felizmente não por todos.

  1. Faça um resumo básico do seu curso para quem estiver interesse em fazê-lo.

Em seus quatro anos o curso de Geografia Licenciatura procura dar ao aluno as competências para poder entender como o ser humano em suas diferentes sociedades é e foi capaz de alterar a superfície terrestre criando um espaço próprio, procurando entender as relações existentes entre o homem (como sociedade) e esse espaço, seja ele natural ou antrópico. Ainda trabalha as competências necessárias para ser capaz de transmitir esse conhecimento de modo didático e crítico levando o aluno a refletir sobre essa intricada relação entre ser humano e espaço.

É um curso bastante rico e abrangente que procura estudar a sociedade humana através de seus mais variados aspectos, utilizando para isso conhecimentos igualmente diversos, tais como da biologia, climatologia, geologia, economia, história, filosofia etc. Se, assim como eu, você estudou uma geografia decoreba e extremamente chata na escola, esqueça tudo isso. Geografia é uma ciência extremamente crítica, interessante e capaz de nos dar um entendimento e compreensão muito abrangente do mundo em que vivemos.

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Finalmente depois de muito esforço e luta, colando grau ao lado de meus orgulhosos pais

Gostou das respostas? Pois então fique a vontade para responder também. Pode ser aqui nos comentários ou no seu blog. Só não esqueça de mandar o link.

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TAG: COMO VOCÊ ERA NOS TEMPOS DE ESCOLA

Vi essa TAG no Momentum Saga, que, por sua vez, viu no Just Lia. Como já faz um tempinho que não respondo uma TAG assim novinha em folha, cá estou eu respondendo sobre como eu era nos meus saudosos tempos de escola.

Durante minha infância e adolescência eu estudei em várias escolas diferentes, alternando períodos em escolas públicas e outros em particulares. Para essa TAG vou privilegiar o período entre 1990 a 2001, correspondente a todo o ensino fundamental e médio. Nesse período estudei em três diferentes escolas, uma particular o Santa Fé (SF) e duas públicas, a Escola Estadual Professora Ofenísia Soares Freire (OSF) e a Escola de 1º e 2º Graus Governador João Alves Filho (JAF)*. Para facilitar a leitura, utilizei no texto as siglas que acompanham os nomes das escolas.

Em cada uma dessas três escolas eu vivi bons e maus momentos que me marcaram profundamente. Ao responder as perguntas da TAG irei identificando onde e quando ocorreu cada evento. Em algumas respostas relatei momentos ocorridos nas três, já em outras apenas uma ou duas delas.

  1. Quem era você na escola, como você era? E como era sua escola?

No OSF eu cursei da 1ª à 5ª série do fundamental. Nessa época eu era extremamente tímido e também extremamente dedicado aos estudos e por isso eu procurava sentar na frente. Essa também era uma tática para fugir dos colegas bagunceiros, que volta e meia me escolhiam como alvo de suas brincadeiras de mau gosto.

Já na época de SF, onde fiz a 6ª e 7ª série e do JAF, onde fiz todo o ensino médio, eu já estava mais desinibido e a vontade e por isso mesmo fui migrando aos poucos para as carteiras que ficavam no fundo da sala. Foi também nesse período onde comecei a refletir sobre o sistema de ensino e a desgostar daquele sistema que privilegiava a decoreba em detrimento ao raciocínio. Um pouco por causa disso e muito por causa da própria adolescência, passei a desinteressar um pouco dos estudos e a me tornar mais rebelde.

  1. Qual era sua tribo?

Nunca fui muito de integrar esse ou aquele rótulo. Tirando o período de OSF, eu era conhecido por conversar e ter amizades com todo mundo. E, sendo bem sincero, depois de anos onde a timidez me impedia de me aproximar e fazer amizades, eu realmente gostava de ser alguém capaz de fazer amizades com os mais diferentes tipos de colegas.

Foi somente na época de JAF que passei a ser identificado mais como roqueiro, pois passei a frequentar as aulas usando calças rasgadas e riscadas, um tênis super detonado, com grampos remendando os calcanhares rasgados (e que logo ganharia o apelido de Brutus), e nas aulas de reposição aos sábados ou aulas extra-classe – quando estávamos liberados da camisa do uniforme –, camisas de minhas bandas preferidas. Mas nem por isso deixei de ter amizade ou conversar com o pessoal que curtia pagode ou forró. Aliás a minha melhor amiga nessa época era uma forrozeira incorrigível.

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Eu e minha amiga irmã Dani no intervalo (pelo menos eu acho que era o intervalo)

  1. No recreio, onde era mais fácil te encontrar?

Quando no OSF brincando com dois amigos que também eram vizinhos e estudavam na mesma sala. Já no SF eu passava boa parte do tempo conversando com as meninas da sala ou de outras turmas. Por essa época eu não tinha muita paciência para as brincadeiras da moda nas escolas, em geral muito violentas. Ou então estava na cantina tentando descolar um rango grátis. A dona da cantina fazia supletivo à noite e em troca de lanche grátis eu a ajudava com as atividades e trabalhos de casa.

Finalmente quando estudei no JAF eu poderia ser facilmente encontrado pelos corredores em animados bate-papos com colegas e amigos que curtiam as mesmas coisas que eu. Pela primeira vez na vida eu encontrava pessoas que eram tão ou mais viciadas em leitura, curtiam o mesmo tipo de som e também adoravam escrever. Dalvinha, Aline, Tiago e eu formávamos uma espécie de grupo intelectual onde debatíamos de tudo, de Nietsche a livros de auto-ajuda, de Nirvana a Paulo Coelho. Debatíamos, trocávamos dicas de leituras, líamos os textos uns dos outros, combinávamos de ir ao cinema ou saraus de poesias. Pra falar a verdade, as vezes nem precisávamos estar no intervalo para ficar pelos corredores de papo.

  1. Já namorou ou ficou com alguém da escola? Foi dentro ou fora da escola?

Namorar, namorar alguém da escola propriamente falando, nunca namorei. Mas ao cursar o terceiro ano do ensino médio passei por um período de popularidade no JAF, que o garotinho tímido do OSF jamais sonharia ter, nem mesmo em seus devaneios mais loucos. Nessa época fiquei com uma garota que conheci nas escadarias da escola. Aliás, hoje faz exatamente 15 anos que ficamos pela primeira vez. Lembro, pois era o dia do meu aniversário e acabamos flagrados aos beijos e abraços pela Professora de Química e vários amigos de turma que me zuaram muito depois.

Pouco tempo depois durante a gincana do colégio fiquei com uma menina extremamente bonita, que me gerou muitas críticas e advertências por parte de alguns colegas e amigos, pois ela tinha fama de ser “rodada”. Não dei ouvidos e continuei ficando com ela de vez em quando.

Finalmente, já no finalzinho do ano acabei ficando com a mesma Aline do grupinho citado no tópico acima. Embora tenhamos nos entendido super bem desde o dia em que nos conhecemos, uma série de encontros e desencontros dignos de uma novela mexicana, impediu que ficássemos antes. Isso gerou muitas coisas boas, mas também muitas ruins, que, quem sabe um dia eu conto por aqui.

  1. Já fez alguma coisa escondida ou contra as regras? Já cabulou aula?

Até entrar no JAF eu era muito certinho e não gostava de cabular (ou gazear aula, como dizemos aqui). Tudo isso mudou obviamente ao passar a estudar no JAF, na época reconhecidamente um dos colégios, senão o mais, violento do estado. Gazear aula era uma prática comum entre os alunos. Várias vezes passei pelo vão aberto por nós mesmos na grade dos fundos da escola, para atividades triviais como assistir cinema no shopping próximo, ou outras bem menos ortodoxas, como ir até o Calçadão da 13 de Julho para beber vinho barato, que comprávamos através de uma cotinha entre os gazeadores, ao som de muito rock.

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Visão atual da Escola João Alves Filho e da grade pela qual fugíamos para gazear as aulas

  1. Se lembra de alguma modinha que você seguiu?

Nunca gostei de modinhas e não lembro de ter participado de nenhuma. Na verdade sempre tive pavor de moda ou qualquer coisa similar. Mas lembro que fui eu e alguns amigos que costumavam assistir televisão lá em casa, que viciamos a galera da escola em vários programas que passavam na TV Cultura. Doug, O Mundo de Beakman são alguns exemplos. Isso na época do SF.

  1. Qual foi o melhor e o pior dia?

O melhor dia foi no segundo ano do ensino médio quando ganhamos a gincana escolar. Era o ano 2000 e todas as atividades da gincana deveriam ser cumpridas utilizando temas brasileiros. Por puro desleixo minha turma simplesmente deixou o barco andar e quando demos por nós, já era véspera da gincana e não tínhamos nada pronto. No desespero fizemos uma reunião de emergência onde minha amiga-irmã Dani nos estimulou a correr atrás do prejuízo usando o argumento de que não poderíamos passar a vergonha de não apresentar nada. Do nada nos mobilizamos e, sem pensar em vitória, cumprimos cada uma das tarefas preocupando-nos apenas em nos divertir e não passar a dita vergonha. O resultado final foi tão leve, espontâneo e brasileiro (éramos uma turma muito ufanista, muito ligada as coisas do Brasil e do próprio estado de Sergipe), que acabamos por ganhar a gincana com uma gigantesca vantagem em relação a segunda colocada. Nem a gente acreditou!

Tive vários momentos ruins em toda minha vida escolar. Mas aquele que mais me marcou foi quando reprovei a 6ª Série no SF e precisei contar para minha mãe. Sua expressão de decepção ficou permanentemente gravada em minha mente e coração.

  1. Se envolveu em algum tipo de briga ou movimento/protesto?

Foi no JAF onde aprendi a importância da militância política e onde desenvolvi uma postura que eu poderia chamar de esquerdo-anárquica. Não muito fã de cumprir normas que eu julgava autoritárias, incoerentes ou simplesmente imbecis, tendo lido livros como 1984 e fã de punk rock, eu costumava ter alguns embates homéricos com a diretora da escola, por conta de determinadas regras que visavam moralizar a escola. Estando bem popular na época do terceiro ano, cheguei a ser convidado a participar do Grêmio Estudantil, mas recusei, explicando que poderiam contar comigo para ajudar no que fosse preciso, mas não queria me ver preso a nenhum grupo, para poder continuar tendo a liberdade de criticar o que quer que estivesse errado, fosse de onde fosse.

Quanto as brigas literais, de murro e pontapés nunca briguei na escola. Quando mais novo por medo da surra dupla que levaria em casa (de minha mãe e do meu pai), e mais velho por consciência de que minha mãe já se desgastava demais num emprego cansativo para ainda ter que ir na escola pra ouvir reclamação do filho brigão.

  1. Sua escola tinha alguma lenda, tipo loira do banheiro? Você tinha algum medo na escola?

Quando estudei no OSF muitos garotos costumavam subir até a enorme caixa d’água da escola para nadar lá dentro. Outros costumavam jogar as carteiras quebradas lá dentro, por sabe-se lá qual motivo. Isso acabou gerando a lenda de que um garoto teria morrido lá dentro ao se cortar nas ferragens das carteiras velhas que lentamente enferrujavam dentro da caixa d’água.

A história do garoto era lenda, mas um garoto realmente quase morreu afogado certa vez e água que saía dos bebedouros tinha um forte gosto de ferrugem.

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A entrada do Ofenísia Soares Freire atualmente fechada para reformas**

  1. Sofreu ou causou Bullying em alguém?

Principalmente na época de OSF eu sofri uma certa quantidade bullying, principalmente dos garotos mais velhos. Muito calado, muito estudioso e com gostos e costumes meio estranhos, os valentões adoravam me zuar. Particularmente não guardo mágoa, pois tudo isso me ajudou a me defender e a ter uma atitude mais positiva sobre mim mesmo.

Até onde lembre, jamais causei bullying. Mas como é mais fácil lembrar de nossa própria dor e não da causada por nós…

  1. Como era a sua performance em apresentações da escola? Curtia?

Eu só fui participar de apresentações já na época do JAF, quando já dominava quase totalmente minha timidez. E eu adorava participar de apresentações de seminários, gincanas e feiras literárias. É por causa da apresentação de uma versão moderna do Auto da Barca do Inferno do autor português Gil Vicente (que entraria pra história do JAF), onde interpretei um pastor que roubava os fiéis, que alguns amigos dessa época ainda hoje me chamam de pastor!

  1. Do que você mais lembra desse tempo? Quais as coisas que mais te trazem lembranças?

Lembro de muitas, mas muitas coisas mesmo da época de OSF, SF e JAF. Mesmo com os problemas e momentos ruins foram os momentos mais felizes da minha vida. Especialmente o último ano de OSF, o último do SF e o último no JAF (particularmente esse último) foram anos marcantes para mim, que me deixaram uma gama enorme de boas lembranças.

  1. Teve algum professor(a) ou funcionário(a) que te marcou?

A Professora Malvina de Geografia na 5ª Série no OSF. Durona, ninguém andava fora da linha em sua aula. Mas era também extremamente competente. A Professora Adalgisa de Biologia e Leila de Química do ensino médio no JAF também me marcaram pelo comprometimento. Enquanto muitos professores fingiam que davam aula e nos fingíamos que estudávamos, elas jamais deixaram de passar um conteúdo sequer de sua matéria e nem de tentar enfiar em nossas cabeças teimosas a importância do estudo.

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Turma (ou parte dela) do 3º Ano D. Essa foto é especial pois foi tirada poucos dias depois do ataque às Torres Gêmeas em 11 de Setembro de 2001

  1. Se você pudesse voltar no tempo, o que você diria pra você mesmo naquela época?

Esse é um ponto sobre o qual já refleti muito na minha vida. E nos últimos tempos, tenho chegado a conclusão de que não diria nada. Deixar-me-ia seguir o curso que segui, pois, mesmos que alguns tenham sido muito dolorosos, me deixaram como legado ensinamentos profundos e importantes em minha vida atual.

Pensando bem, diria algo sim. Um breve, porém caloroso: “Viva intensamente essa vida! Você não vai se arrepender!”

E tenho certeza de que seria atendido.

Gostou das respostas? Pois então fique a vontade para responder também. Pode ser aqui nos comentários ou no seu blog. Só não esqueça de mandar o link.

*Atualmente a Escola de 1º e 2º Graus Governador João Alves Filho passou a se chamar Centro de Excelência Professor José Carlos de Sousa. A mudança se deu em cumprimento da determinação do Tribunal de Justiça, que obriga a remoção dos nomes de pessoas vivas em prédios e demais logradouros públicos de Sergipe, inclusive fachadas, placas interna ou externamente, material publicitário, documentos e outros papéis oficiais.

**A Escola Estadual Professora Ofenísia Freire teve sua reforma finalizada recentemente. Abaixo ponho uma foto da nova fachada da escola.

Colégio Estadual Prof Ofenisia Soares Freire

Nova fachada da Escola Estadual Prof.ª Ofenísia Soares Freire em imagem do Google Maps

RÉQUIEM PARA MARIA HELENA

Maria Helena 16 anos

Minha mãe com 16 anos, naquela que considero sua mais bela fotografia
(Acervo pessoal do autor)

Foi no domingo à tarde. Tinha acabado de conversar com Sybylla sobre o estado de saúde de minha mãe. Estava explicando que ela se recuperava bem da cirurgia para extrair o tumor descoberto recentemente no cérebro, próximo da nuca, quando Geane, minha esposa, pediu para recolher algumas roupas, pois começara a chover.

Da escada ainda pude ouvir o telefone tocando. Geane atendeu e por seu tom de voz percebi que não era ninguém conhecido. Imediatamente senti meu corpo agitado. Venci os dois últimos lances de escada de um salto e entrei em casa perguntando quem era. O susto e a tristeza arregalados em seus olhos falaram por ela. Sua voz embargada apenas confirmou o que eu já temia…

Aos sessenta anos minha mãe, Maria Helena, a pessoa que mais amo no mundo, fragilizada após lutar por sofridos e angustiantes dois meses com o tumor no cérebro e da cirurgia para retirá-lo, não resistiu a um AVC, vindo a falecer na tarde de 2 de novembro de 2014.

Arrasado, desabei no sofá sem conseguir digerir plenamente a notícia. Geane me abraçou num misto de apoio e incredulidade. Senti-me pequeno diante da dor enorme. Choramos juntos por um bom tempo até podermos nos sentir preparados para o que viria em frente.

Minha mãe, minha esposa e eu por ocasião de meu aniversário de 30 anos

Minha mãe, minha esposa e eu por ocasião de meu aniversário de 30 anos
(Acervo pessoal do autor)

De todos os exemplos e modelos de moral e integridade que tive na vida, não sou capaz de dizer nenhum que tenha me influenciado mais que minha mãe. Mulher de conduta exemplar em praticamente todos os aspectos de sua vida, respeitada por amigos, vizinhos e colegas de trabalho, sempre nutri por ela uma admiração maior que o sentimento mãe e filho. Minha mãe, Maria Helena era – e ainda é – minha maior heroína, não apenas devido ao laço sanguíneo, mas por sua inteira história de vida.

Nascida numa família pobre, com vários irmãos e irmãs, mais novos e mais velhos, minha mãe aprendeu a trabalhar duro desde muito cedo, cuidando dos irmãos menores e ajudando nos afazeres da casa. Essa infância dura iria moldar sua personalidade até o fim. Maria Helena cresceu desconhecendo o significado da palavra preguiça. Trabalhadora incansável fosse em casa, fosse nos diversos trabalhos que conseguira na vida. Diante dessa inabalável vontade de trabalhar, dizer que minha mãe ao nascer, ao invés de registro de nascimento, assinara sua carteira de trabalho, era mais que uma brincadeira familiar: era quase um fato.

Minha mãe e eu ainda bebê em seu colo em 1983

Comigo em seu colo em 1983
(Acervo pessoal do autor)

Ainda muito mocinha, ela foi trabalhar na casa de uma família de suíços muito ricos que moravam em São Paulo. Pelo que minha mãe contava, essa família a conheceu aqui em Aracaju quando estavam de férias passeando pelo Nordeste. Ao que parece, a matriarca da família (uma senhora descrita por ela como sendo muito fina, mas também muito dura, com jeitão de nazista fugida da Guerra), teria se encantado com minha mãe, não apenas pelo seu jeito trabalhador e zeloso, mas também por não ser negra, e a levou para trabalhar como empregada e babá na casa da família em São Paulo. Era o inicio dos anos 70 e essa era uma prática relativamente comum no Brasil (na realidade ainda é), de se pegar jovem garotas para trabalhar como quase escravas para famílias mais abonadas financeiramente. O irônico da história fica por conta do fato de que, apesar da pele clara e dos olhos verdes, minha mãe era filha de negros, sendo seus traços mais caucasianos herança de uma avó materna filha de holandeses.

Em São Paulo a vida era dura com muito trabalho, mas minha mãe deu a sorte de trabalhar para uma família culta o que permitiu a ela ter contato com o melhor da literatura e da música, além de poder terminar os estudos do ensino fundamental. Foi através do refinado gosto musical e literário de minha mãe adquirido nessa época que pude crescer numa casa repleta de livros e de muita música boa, não raro cantada por sua bela voz. Sambas, forrós e muita MPB eram seus repertórios preferidos, que, bem cedo na minha vida, me apresentaram nomes como Elis Regina, Chico Buarque, Adoniram Barbosa, Cartola, Luís Gonzaga e outros.

Graças a minha mãe também aprendi a ser um leitor voraz. Lembro com carinho de passar tardes inteiras lendo a coleção do Sítio do Pica-Pau Amarelo ou as inúmeras enciclopédias que ela comprara na época em que morara em São Paulo quando conseguia um dinheirinho extra.

Algo que não lembro, mas que ela sempre fazia questão de contar: muito pequeno ainda, eu adorava ficar horas e horas contando histórias sobre monstros e extraterrestres e aventuras fantásticas, as quais ela escutava com aquela paciência infinita, aparentemente parte do pacote chamado maternidade. Ela dizia que era a semente do jovem escritor contador de histórias que já estava a germinar.

Sempre respeitei muito minha mãe. Apesar de na adolescência, essa fase esquisita de rebeldia sem noção, termos tidos algumas diferenças, jamais levantei a voz para ela ou deixei de acatar alguma determinação sua, por mais que julgasse errada, prepotente, ditatorial ou qualquer outra bobagem que tivesse passado por minha tola cabeça adolescente.

Ela também sempre me foi uma fonte inesgotável de orgulho. Meu primeiro emprego foi numa rede de supermercados tradicional aqui no estado e na qual minha mãe trabalhava já por mais de 15 anos. Embora trabalhássemos em lojas diferentes, vários de meus colegas e superiores tinham sido colegas de minha mãe trabalhando na mesma loja que ela. Com orgulho posso dizer que meu gerente, ao saber que eu era filho de Dona Helena – como ela era carinhosa e respeitosamente conhecida –, fez questão de falar comigo. Queria me elogiar e falar da minha responsabilidade para com a fama de trabalhadora responsável que ela possuía. Queria também dizer o quanto a respeitava por, apesar da dura jornada de trabalho ainda ter encontrado coragem e tempo para estudar e terminar o Ensino Médio.

Orgulhosa em minha formatura (Acervo pessoal do autor)

Orgulhosa em minha formatura
(Acervo pessoal do autor)

Orgulho que sinto também de ter podido dar uma das maiores alegrias que minha mãe pôde ter. A de ver um filho formado numa licenciatura. Ela que admirava o mundo acadêmico e o ofício de ensinar como poucos. São heranças maternas meu carinho e respeito pelos professores. Ver seu filho formado numa licenciatura foi motivo de grande alegria para minha querida mãe, como me foi relatado por várias de suas amigas ao me conhecerem em seu velório.

A noite que passei velando minha mãe foi, obviamente, a mais dolorosa de minha vida. Mas também foi gratificante descobrir o grande número de pessoas que admiravam minha mãe. Pessoas para quem e com quem trabalhara, amigos e amigas com quem ia aos saraus de poesia e de música, conhecidos os mais diversos.

A memória tem o poder de manter vivo àqueles que perdemos. Por isso me pus a contar um pouco sobre o que sei da vida de minha mãe, como uma última forma de homenageá-la. Há muito pretendia fazê-lo e sinto muito só ter podido agora.

Que minha mãe encontre na morte, o descanso e a paz que ela tanto almejou em vida.