MARY FAIRFAX SOMERVILLE

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Nem bem o garoto chegara à bela mansão dos Fairfax em Jedburgo, na Escócia, sua irmã mais velha avançou até ele perguntando se conseguira. Com um sorriso maroto, o garoto estendeu um embrulho de tamanho significativo. Sem esconder a ansiedade, a mocinha praticamente arrancou o pacote de suas mãos. Seu conteúdo era considerado tão extremamente impróprio para os olhos de uma mocinha bem educada e de boa família da época, que ela precisara pedir ao irmão para compra-los numa livraria. Com cuidado desembrulhou revelando a perigosa leitura: os volumes de “Elementos”, de Euclides, e da “Álgebra” de John Bonnycastle.

Nascida em 1780 numa bem situada família escocesa, Mary Fairfax Somerville recebeu desde cedo uma educação adequada para, o que se acreditava na época, ser fundamental para uma mulher da boa sociedade, ou seja, ler e fazer algumas contas. O que seus pais não esperavam é que a jovem acabasse por adquirir gosto pela leitura, sempre ansiando ler e aprender mais e mais. Alertados por uma tia de que tantas leituras poderiam incutir na menina um desejo de ser mais do que homem, ela foi enviada para uma escola onde aprenderia atividades propícias e adequadas para uma mulher: mexer com agulhas e trabalhos manuais.

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Mary Fairfax Somerville em pintura de Thomas Phillips de 1872 – Wikimedia

Apesar de ressentida por ter seu desejo de aprender restringido daquela maneira, Mary Fairfax não desistiu. Acreditando que era tão direito das mulheres receber a mesma educação recebida pelos homens, ela aproveitava cada oportunidade para melhorar sua leitura, escrita, compreensão das palavras e ampliar suas noções de aritmética. Graças às ideias liberais do pai, teve contato com os ideais da revolução Francesa e com isso sua revolta com aquela opressão só aumentava. Seu empenho em aprender latim sozinha chamou a atenção de um tio que dali em diante passou a ajuda-la. Logo ela já dominava não apenas o latim, mas também o grego. Aos 13 anos foi permitido que se matriculasse numa escola de Edimburgo que passara a aceitar garotas. Aí teria os primeiros contatos com os estudos dos fundamentos de mecânica e astronomia os quais estudava para poder ensinar um colega com dificuldades nessas áreas.

Sem poder avançar nos estudos de maneira formal, Mary Fairfax tornou-se uma autodidata. Aos 24 anos casou-se com um primo, que, para sua infelicidade, além de ser pouco interessado em qualquer tipo de conhecimento científico, nutria profundos preconceitos sobre as capacidades intelectuais das mulheres. O casamento, no entanto, durou apenas três anos. Com o falecimento do marido, ela pode retornar para a Escócia com os filhos onde intensificou os estudos de matemática. Por essa época também começou a estudar trigonometria, seções cônicas e o livro do astrônomo escocês James Ferguson, “Astronomy”. Passou a contribuir com o periódico de matemática da Real Academia Militar de Sandhurst, onde publicava resoluções de complexos problemas matemáticas, chegando a receber uma medalha de prata por sua resolução da equação diofantina. Como não poderia deixar de ser, aproveitou a notoriedade alcançada para ampliar ainda mais a gama de áreas de interesse e estudo, como também comprou uma extensa biblioteca de obras científicas, as quais estudou com o mesmo zelo de anos antes, quando precisara pedir para os irmão comprar os livros que gostaria de estudar.

Seus profundos conhecimentos não só em matemática, mas também em astronomia, química, geografia, microscopia, magnetismo, eletricidade e outros, levou a Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil a convencê-la a escrever uma exposição em linguagem acessível da obra “Traité de Mécanique Céleste” de Pierre Simon Laplace. O resultado foi o brilhante “The Mechanisms of The Heavens”, obra clássica do sistema educacional inglês e que se tornaria leitura obrigatória nas universidades britânicas por mais de um século. O sucesso alcançado pela obra é ainda mais admirável quando lembramos que Mary Fairfax estudou o trabalho de Laplace por conta própria, além de nunca ter podido ter acesso à preparação e estudos formais.

Title-page of Mary Somerville's Mechanism of the heavens (London, 1831)

Folha de rosto de Mechanism of the Heavens

Em 1812 ela casa-se novamente com outro primo, o médico William Somerville, que, ao contrário de seu primeiro marido, a encorajou a prosseguir nos estudos e trabalhos científicos. Vivendo em Londres, o casal pode ter acesso a inúmeros e ilustres pensadores e estudiosos da época, como Ada Lovelace e Charles Babbage, tidos como os precursores da computação. De fato Ada tinha sido não somente amiga, mas aluna de Mary Fairfax com quem tomara lições de matemática.

Frente a todos os obstáculos e dificuldades enfrentados por Mary Fairfax Sommerville para ter acesso à educação, não é de se admirar o papel assumido por ela de ativista pelos direitos da mulher, passando a dedicar boa parte de seus últimos anos de vida empenhada em tornar a educação feminina mais acessível e menos intolerante. Quatro anos antes de falecer aos 91 anos, fez questão do seu nome ser o primeiro na petição feita em 1868 por John Stuart Mill para permitir o voto feminino. Tamanho foi o impacto de sua genialidade que recebeu, tanto em vida como após a sua morte, inúmeras e variadas demonstrações de reconhecimento e homenagens. Foi eleita membro honorário da Sociedade de Física e História Natural de Genebra e da Academia Real Irlandesa. Também foi uma das primeiras mulheres a se tornar membro honorário da Sociedade Astronômica Real, do Reino Unido, em 1835. O astrônomo John Couch Adams afirmou que a razão que o levara a procurar um novo planeta (Netuno), para expoicar as observadas perturbações de Urano, foi uma referência no “The Mechanisms of the Heavens” de Somerville, conforme relatado por Howard Eves em “Introdução à História da Matemática”.

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De menina que precisou usar de subterfúgios para comprar e ler livros de álgebra, a uma das mais brilhantes e geniais matemáticas de que se tem conhecimento: Mary Fairfax Somerville não somente teimou em brilhar naquele firmamento onde sempre lhe fora negado seu espaço, como lutou intensamente pelo direito de outras iguais a ela poderem brilhar também.

Mary Fairfax Somerville é o quarto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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AS PLÊIADES MATEMÁTICAS

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As Plêiades, obra do artista americano Elihu Vedder de 1885

Na mitologia grega as Plêiades eram as sete filhas da oceânide Pleione com o titã Atlas. Segundo o relato mitológico, Órion, o Caçador encontrou e se enamorou pelas filhas de Pleione, quando elas passeavam pela Beócia na companhia de sua mãe. Obcecado pela beleza das irmãs, Órion iniciou uma perseguição que durou sete anos, levando uma desesperada Pleione a solicitar a intervenção de Zeus. A solução dada pelo Deus Supremo foi transforma-las em pombas e posteriormente em estrelas, as quais foram colocadas num relicário no firmamento, na forma das estrelas principais do aglomerado das Plêiades, sobre a proteção da Constelação do Touro.

Esse curioso e interessante conto foi a maneira encontrada pelos gregos antigos para explicar a origem do brilhante grupo de estrelas localizado na “cauda” da constelação do Touro. Extremamente brilhantes, as Plêiades são um aglomerado de mais de 3.000 estrelas, imersas em uma nuvem de poeira cósmica. São conhecidas também como As Sete Irmãs, embora, de fato, somente seis delas sejam visíveis a olho nu. Ainda segundo o mito grego, a estrela invisível era Mérope, a única das irmãs a relacionar-se com um mortal e, por esse motivo, condenada por Zeus a não ter seu brilho visto da Terra.

Introdução a História da Matemática

Capa do livro de Howard Eves: Altamente recomendável especialmente para quem não gosta de Matemática

Howard Eves, em sua obra “Introdução a História da Matemática” – livro excelente e que tive o prazer de ler no ano passado –, cita as Plêiades celestes para batizar um grupo de brilhantes e competentes matemáticas. Com seus trabalhos, estudos e descobertas, esse grupo formado por Hipátia de Alexandria, Maria Gaetana Agnesi, Marie-Sophie Germain, Mary Fairfax Somerville, Sonya Kovalevsky, Grace Chisholm Young e Amalie Emmy Noether, foi responsável não apenas por grandes descobertas na área, como também por inspirar e capacitar inúmeras outras mulheres a entrar para a Matemática.

Infelizmente, via de regra a história da Matemática não é ensinada nas escolas. E mesmo quando os professores abordam aspectos históricos da disciplina, não raro os nomes citados são de homens. Do célebre “Eureka!” do grego Arquimedes à conhecida fórmula do indiano Bhaskara; do pai da geometria Euclides chegando ao “geômetra divino” Newton, o pouco ensinado sobre a história da Matemática parece apontar para uma ciência aparentemente dominada pelo masculino, levando muitos a acreditar no mito da inaptidão das mulheres para o pensamento matemático ou ainda: que nenhuma mulher dedicou-se a seu estudo, nem deixou nada de relevante a ponto de ter seu nome registrado na história.

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Newton: O Geômetra Divino de William Blake. Seriam as mulheres incompatíveis com as ciências exatas?

Nada poderia estar mais longe da realidade. Assim como no caso das Plêiades celestes onde, das mais de 3.000 estrelas, apenas seis delas são visíveis da Terra a olho nu, também suas equivalentes matemáticas são o início para o conhecimento as tantas e variadas mulheres nas diferentes áreas das ciências exatas. Apesar de somente nos séculos XIX e XX as mulheres tenham começado a romper as barreiras sexistas, sendo aceitas em universidades, além de outras conquistas, isso não impediu que inúmeras mulheres, antes e depois, contribuíssem com relevantes descobertas e estudos matemáticos.

Foi em parte pensando nisso que, lendo sobre as Plêiades Matemáticas na obra de Eves, pensei em resgatar um pouco da história daquelas mulheres. Aproveitando a proximidade do dia Internacional da Mulher, me dispus a pesquisar e contar em textos breves um pouco sobre cada uma daquelas competentes e praticamente desconhecidas estudiosas. Longe de ser uma mera lista de curiosidades a intenção aqui, repetindo o objetivo de textos anteriores de fugir do lugar comum das declarações de sempre em suposta homenagem às mulheres, também é a de quebrar com a ideia falsa, apesar de amplamente difundida da inaptidão das mulheres para as ciências, especialmente as exatas. Um olhar sobre a vida dessas mulheres, ainda que breve, pode ser de suma importância ao inspirar mais e mais garotas nessas áreas.

A partir de amanhã até o dia 7 de março, postarei diariamente um texto sobre cada uma das Plêiades Matemáticas. No dia 8 de março, retomando a ideia abandonada do ano passado, a postagem será sobre oito mulheres sergipanas que se destacaram em diversas áreas do conhecimento e outras, num resgate histórico extremamente importante para a história das mulheres no meu pequeno Estado de Sergipe.

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