GRACE CHISHOLM YOUNG

Grace Chisholm Young3

A universidade de Göttingen na Alemanha é famosa não apenas pelo número de grandes intelectuais e cientistas que por ela passaram ou estudaram, mas também por ser uma das primeiras instituições a reconhecer o trabalho de mulheres nas áreas acadêmicas, especialmente na Matemática. Nessa série de textos sobre as Plêiades Matemáticas já vimos os nomes de Marie-Sophie Germain e de Sonja Kovalevsky reconhecidos pela instituição com o título de Doutor.

Infelizmente, Marie-Sophie Germain receberia o título somente após a sua morte, enquanto Sonja Kovalevsky o recebeu in absentia, ou seja, sem a obrigação de prestar o exame oral (embora, nesse caso o motivo real da liberação tenha sido a excelência do artigo apresentado). A primeira mulher a receber o doutorado em Göttingen foi a inglesa Grace Chisholm Young, já que as universidades na Grã-Bretanha insistiam em não aceitar mulheres em seus cursos de pós-graduação.

Nascida Grace Emily Chisholm numa família consideravelmente abastada em 15 de março de 1868, optou pelo estudo da matemática quando seus pais a impediram de cursar medicina. Graduou-se em primeiro lugar na turma de 1892 de Matemática da Girton College, em Cambridge, quando decidiu continuar seus estudos em Göttingen onde uma turma para mulheres tinha sido recentemente aberta. Após a defesa de sua tese sobre os grupos algébricos de trigonometria esférica, que lhe valeu o doutorado, Chisholm decidiu retornar para a Inglaterra para cuidar dos pais idosos. Acabaria casando com seu antigo tutor da época do Girton College, William Young e, algum tempo depois voltariam a morar em Göttingen.

young

Mesmo não sendo um pesquisador, Grace Chisholm convenceu o marido a acompanha-la nessa carreira. Juntos acabariam publicando uma vasta obra, incluindo trabalhos e artigos científicos, além de livros voltados a introduzir as crianças no saber matemático. Infelizmente, mais uma vez o machismo e preconceitos não permitiam que o gênio matemático de Grace fosse devidamente reconhecido, uma vez que as obras eram publicadas em conjunto com o nome do marido, muito embora ele mesmo reconhecesse que boa parte do mérito das obras cabia à sua esposa, conforme verificado em algumas de suas correspondências.

Durante os anos da Primeira Guerra Mundial, Grace Chisholm e a família se viram obrigados a mudar para Suíça onde continuou em seus trabalhos de pesquisa matemática. Por essa época conseguiu finalmente publicar uma trabalho sobre as bases de cálculo sob seu próprio nome além de escreve um ensaio sobre derivadas infinitas, que ganhou o Prêmio Gamble Girton College em 1915. Infelizmente foi também nessa época que o seu filho mais velho, que era aviador, acabou morrendo em combate. Essa tragédia acabaria por minar a saúde da pesquisadora, interrompendo sua brilhante carreira.

Grace Chisholm Young ainda viveria para ver novamente outra guerra de proporções mundiais se abater sobre a Europa. Com o início dos combates o casal Young foi obrigado a se separar com Grace indo viver na Inglaterra e William ficando na Suiça. Deprimidos com a distância, William morreria em 1942 e Grace em 1944.

young_geometryCP

Capa de um dos inúmeros trabalhos acadêmicos escritos por Grace Chisholm Young

No mito das Plêiades, conta-se que Mérope foi a única das sete irmãs a não ter seu brilho vislumbrado da Terra, por ter ousado casar com um mortal ao contrário de suas irmãs. É triste notar também esse paralelo com relação a vida da Matemática e Pesquisadora Grace Chisholm que teve boa parte de seu talento, por assim dizer, encobertos pelo nome do marido, em virtude da imposição de uma sociedade que não via com bons olhos uma mulher assumindo notoriedade em uma área supostamente mais adequada aos homens.

Igualmente triste é saber que a universidade de Göttingen, referência no mundo da Matemática e também por seu pioneirismo em quebrar as barreiras impostas às mulheres, tenha tido um triste fim ao ser praticamente destruída nas mãos do totalitarismo e discriminação racial e de gênero do governo nazista de Adolph Hitler. Um lembrete válido do quanto pode ser perdido e se regredir quando permitimos que supostos salvadores da pátria com soluções fáceis e dedos acusadores tomem o poder e solapem todas os pequenos avanços conquistados a duras penas.

Grace Chisholm Young é o sexto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

Anúncios

SONJA KOVALEVSKY

Sofia_Kovalevskaya

A decoração era a mais inusitada que poderia se imaginar para um quarto de crianças. Por todas as paredes inúmeras e variadas folhas de papel repleto de cálculos integrais e diferenciais. Fascinada, uma jovem nascida no seio da nobreza russa já estava ali por horas e horas tentando decifrar e dar alguma ordem àquele emaranhado de números, anotações feitas por seu pai quando ainda estudante de matemática. Impressionada, jurou que um ainda entenderia plenamente toda aquela complexa simbologia.

Nascida Sofia Korvin-Krukovsky Kovalevskaya em Moscou a 15 de janeiro de 1850, aquela jovem seria conhecida posteriormente pelo nome de Sonja Kovalevsky e, ainda hoje é considerada a maior matemática da história da Rúsia. Tal era seu talento e obstinação que, aos 14 anos, querendo entender um tratado sobre ótica em um livro de física escrito pelo seu vizinho, Kovalevsky simplesmente ensinou trigonometria a si mesma. Nas palavras do autor do livro: “Ela criou todo aquele ramo da ciência – a trigonometria – uma segunda vez”. Para se ter uma noção do feito, quando Isaac Newton deparara-se com situação similar, ele foi estudar os Elementos de Euclides.

Sofia_Kovalevskaya1

Sonja Kovalevsky

Apesar de todo seu talento, Kovalevsky não escapou do preconceito reinante em relação a mulheres estudando matemática. Impedida de matricular-se na universidade de São Petersburgo precisou de um preceptor particular para continuar os estudos de cálculo. Insatisfeita com essa situação, realizou um casamento de conveniência com o paleontologista Vladimir Kovalevsky, livrando-se assim das objeções familiares sobre estudar no exterior. O casal mudou-se para Heidelberg na Alemanha, onde a jovem matemática manifestou o desejo de estudar com o célebre matemático da época, Karl Weiertrass, após assistir palestras entusiasmadas de um antigo discípulo, Leo Königsberger. Infelizmente o preconceito novamente impediu Kovalevsky de se matricular na universidade onde Weiertrass lecionava por ser mulher. Mas Königsberger fez recomendações tão calorosas, que Weiertrass aceitou-a como aluna particular. Logo ela se tornaria a sua discípula predileta, com quem estudou por quatro anos. Nesse período ela cobriu todo um curso universitário de matemática, além de escrever três importantes artigos, um sobre a teoria das equações diferenciais parciais (pelo qual seria consagrada com o título de Doutor in absentia pela universidade de Göttingen anos depois), um sobre a redução de integrais abelianas de terceira espécie e uma suplementação da pesquisa de Laplace sobre os anéis de Saturno.

Apesar de toda sua qualificação, a dificuldade para encontrar emprego obrigou-a a retornar para casa. No período que passou na Rússia quase não produziu nada relativo à matemática, priorizando atividades literárias, escrevendo ficção, críticas teatrais artigos científicos para um jornal. No entanto, após o suicídio de seu marido em 1883 decidiu voltar a dedicar-se novamente aos estudos matemáticos com ainda mais afinco, retornando para Berlim. Foi a maneira que encontrou para lidar com a tristeza. Ficaria pouco tempo na capital alemã: um ex-aluno de Weiertrass a convidou para lecionar temporariamente na Universidade de Estocolmo, não demorando para assumir em definitivo o emprego, aí permanecendo até sua morte em 1891, vítima de gripe.

Sofya_Vasilyevna_Kovalevskaya_Bust

Pensando na imensa genialidade e capacidade matemática demonstradas por Sonja Kovalevsky, sua morte precoce com apenas 41 anos de idade torna esse fato ainda mais lamentável e triste. No auge de sua carreira e no apogeu de suas capacidades, um dos seus últimos feitos notáveis foi o de conquistar o prestigioso Prêmio Bordin da Academia Francesa com o trabalho “Sobre o Problema da Rotação de um Corpo Sólido em Torno de um Ponto Fixo”, concorrendo com 15 outros trabalhos. Seu artigo foi considerado tão impecável e de tão alto nível que a organização do evento aumentou o prêmio de 3000 para 5000 francos.

Howard Eves afirma que seu lema era: “Diga o que você sabe, faça o que deve, conclua o que puder”. Um lema apropriado para a notável matemática que, mesmo em um período de vida tão curto, foi capaz de aprender, fazer e concluir tanto.

Sonja Kovalevsky é o quinto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

MARY FAIRFAX SOMERVILLE

Mary-Fairfax-Somerville-116050788x1-56aa24975f9b58b7d000fb93

Nem bem o garoto chegara à bela mansão dos Fairfax em Jedburgo, na Escócia, sua irmã mais velha avançou até ele perguntando se conseguira. Com um sorriso maroto, o garoto estendeu um embrulho de tamanho significativo. Sem esconder a ansiedade, a mocinha praticamente arrancou o pacote de suas mãos. Seu conteúdo era considerado tão extremamente impróprio para os olhos de uma mocinha bem educada e de boa família da época, que ela precisara pedir ao irmão para compra-los numa livraria. Com cuidado desembrulhou revelando a perigosa leitura: os volumes de “Elementos”, de Euclides, e da “Álgebra” de John Bonnycastle.

Nascida em 1780 numa bem situada família escocesa, Mary Fairfax Somerville recebeu desde cedo uma educação adequada para, o que se acreditava na época, ser fundamental para uma mulher da boa sociedade, ou seja, ler e fazer algumas contas. O que seus pais não esperavam é que a jovem acabasse por adquirir gosto pela leitura, sempre ansiando ler e aprender mais e mais. Alertados por uma tia de que tantas leituras poderiam incutir na menina um desejo de ser mais do que homem, ela foi enviada para uma escola onde aprenderia atividades propícias e adequadas para uma mulher: mexer com agulhas e trabalhos manuais.

Thomas_Phillips_-_Mary_Fairfax,_Mrs_William_Somerville,_1780_-_1872._Writer_on_science_-_Google_Art_Project

Mary Fairfax Somerville em pintura de Thomas Phillips de 1872 – Wikimedia

Apesar de ressentida por ter seu desejo de aprender restringido daquela maneira, Mary Fairfax não desistiu. Acreditando que era tão direito das mulheres receber a mesma educação recebida pelos homens, ela aproveitava cada oportunidade para melhorar sua leitura, escrita, compreensão das palavras e ampliar suas noções de aritmética. Graças às ideias liberais do pai, teve contato com os ideais da revolução Francesa e com isso sua revolta com aquela opressão só aumentava. Seu empenho em aprender latim sozinha chamou a atenção de um tio que dali em diante passou a ajuda-la. Logo ela já dominava não apenas o latim, mas também o grego. Aos 13 anos foi permitido que se matriculasse numa escola de Edimburgo que passara a aceitar garotas. Aí teria os primeiros contatos com os estudos dos fundamentos de mecânica e astronomia os quais estudava para poder ensinar um colega com dificuldades nessas áreas.

Sem poder avançar nos estudos de maneira formal, Mary Fairfax tornou-se uma autodidata. Aos 24 anos casou-se com um primo, que, para sua infelicidade, além de ser pouco interessado em qualquer tipo de conhecimento científico, nutria profundos preconceitos sobre as capacidades intelectuais das mulheres. O casamento, no entanto, durou apenas três anos. Com o falecimento do marido, ela pode retornar para a Escócia com os filhos onde intensificou os estudos de matemática. Por essa época também começou a estudar trigonometria, seções cônicas e o livro do astrônomo escocês James Ferguson, “Astronomy”. Passou a contribuir com o periódico de matemática da Real Academia Militar de Sandhurst, onde publicava resoluções de complexos problemas matemáticas, chegando a receber uma medalha de prata por sua resolução da equação diofantina. Como não poderia deixar de ser, aproveitou a notoriedade alcançada para ampliar ainda mais a gama de áreas de interesse e estudo, como também comprou uma extensa biblioteca de obras científicas, as quais estudou com o mesmo zelo de anos antes, quando precisara pedir para os irmão comprar os livros que gostaria de estudar.

Seus profundos conhecimentos não só em matemática, mas também em astronomia, química, geografia, microscopia, magnetismo, eletricidade e outros, levou a Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil a convencê-la a escrever uma exposição em linguagem acessível da obra “Traité de Mécanique Céleste” de Pierre Simon Laplace. O resultado foi o brilhante “The Mechanisms of The Heavens”, obra clássica do sistema educacional inglês e que se tornaria leitura obrigatória nas universidades britânicas por mais de um século. O sucesso alcançado pela obra é ainda mais admirável quando lembramos que Mary Fairfax estudou o trabalho de Laplace por conta própria, além de nunca ter podido ter acesso à preparação e estudos formais.

Title-page of Mary Somerville's Mechanism of the heavens (London, 1831)

Folha de rosto de Mechanism of the Heavens

Em 1812 ela casa-se novamente com outro primo, o médico William Somerville, que, ao contrário de seu primeiro marido, a encorajou a prosseguir nos estudos e trabalhos científicos. Vivendo em Londres, o casal pode ter acesso a inúmeros e ilustres pensadores e estudiosos da época, como Ada Lovelace e Charles Babbage, tidos como os precursores da computação. De fato Ada tinha sido não somente amiga, mas aluna de Mary Fairfax com quem tomara lições de matemática.

Frente a todos os obstáculos e dificuldades enfrentados por Mary Fairfax Sommerville para ter acesso à educação, não é de se admirar o papel assumido por ela de ativista pelos direitos da mulher, passando a dedicar boa parte de seus últimos anos de vida empenhada em tornar a educação feminina mais acessível e menos intolerante. Quatro anos antes de falecer aos 91 anos, fez questão do seu nome ser o primeiro na petição feita em 1868 por John Stuart Mill para permitir o voto feminino. Tamanho foi o impacto de sua genialidade que recebeu, tanto em vida como após a sua morte, inúmeras e variadas demonstrações de reconhecimento e homenagens. Foi eleita membro honorário da Sociedade de Física e História Natural de Genebra e da Academia Real Irlandesa. Também foi uma das primeiras mulheres a se tornar membro honorário da Sociedade Astronômica Real, do Reino Unido, em 1835. O astrônomo John Couch Adams afirmou que a razão que o levara a procurar um novo planeta (Netuno), para expoicar as observadas perturbações de Urano, foi uma referência no “The Mechanisms of the Heavens” de Somerville, conforme relatado por Howard Eves em “Introdução à História da Matemática”.

somerville_mary

De menina que precisou usar de subterfúgios para comprar e ler livros de álgebra, a uma das mais brilhantes e geniais matemáticas de que se tem conhecimento: Mary Fairfax Somerville não somente teimou em brilhar naquele firmamento onde sempre lhe fora negado seu espaço, como lutou intensamente pelo direito de outras iguais a ela poderem brilhar também.

Mary Fairfax Somerville é o quarto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

MARIE-SOPHIE GERMAIN

1-sophie-germain-1776-1831-granger2

Paris vivia dias conturbados e violentos em meados de 1789. Eram os primeiros momentos da intensa agitação política e social, que desencadearia a Revolução Francesa.  Nos dias que antecederam a Queda da Bastilha em julho, uma jovem de 13 anos, reclusa na vasta biblioteca de seu pai, um rico comerciante de seda, lia com profundo interesse a história de vida e morte de Arquimedes durante os dias igualmente violentos após o cerco de Siracusa. Aquela leitura marcaria profundamente a vida de Marie-Sophie Germain.

Nascida em 1º de abril de 1776, o impacto daquela leitura a levou a ler, não somente sobre a vida de Arquimedes, mas toda e qualquer obra que versasse sobre cálculos, teoria básica dos números, além dos tratados de Newton e Euler. Esse fascínio pelos números logo chamaria atenção de seus pais, que consideravam preocupante tanto interesse. Levados pelo pensamento ainda corrente na época de que aquilo não eram assuntos para mulheres, a jovem Germain foi privada por seus pais do fogo, luz e casacos, numa tentativa de fazê-la desistir das tais leituras impróprias. Foi um esforço em vão: determinada, a menina esperava os pais dormirem para, enrolada em cobertores, entregar-se aos livros que tanto amava.

O esforço valeu a pena. Com o tempo seus pais foram percebendo que não adiantava insistir. Vencidos pela tenacidade da filha, não só diminuíram a oposição aos seus estudos, como passaram apoia-la. O pai de Sophie Germain chegou mesmo a sustenta-la em sua vida adulta para que a filha pudesse dedicar-se plenamente aos estudos e pesquisa.

sophiegermain1

Essa, porém, não seria a última vez que Sophie Germain enfrentaria oposição em seu interesse pela Matemática devido ao fato de ser mulher. Aos 18 anos demonstrou interesse em matricular-se na recém-inaugurada Escola Politécnica de Paris, mas foi impedida justamente por ser mulher. Mostrando novamente o quanto era determinada, Germain conseguiu acesso aos dados de um certo Monsieur Antoine August Le Blanc, um ex-aluno da Politécnica que havia deixado a cidade recentemente. Utilizando-se desses dados, Germain interceptava as lições enviadas a Le Blanc, devolvendo-as com as devidas respostas a cada semana.

Através desse subterfúgio, ela recebeu inúmeros e rasgados elogios, ao ponto de fazer o supervisor do curso Joseph-Louis Lagrange querer conhecer aquele rapaz que, do dia para a noite, passara de aluno medíocre a alguém capaz de fornecer respostas engenhosas e versáteis para os mais diversos problemas propostos. Apesar do receio, ela se revelou a Lagrange como a verdadeira autora das respostas enviadas. O resultado não poderia ter sido mais positivo, pois, verdadeiramente impressionado pelo talento e aptidão demonstrados pela jovem estudante, Lagrange tornou-se seu mentor e amigo.

Apesar dessa recepção positiva, compreensivelmente, Germain continuou a usar o pseudônimo especialmente para corresponder-se com outros matemáticos e estudiosos. Foi assim que, desejosa de ampliar de seus conhecimentos sobre a teoria dos números, utilizou do mesmo subterfúgio para se corresponder com Carl Friedrich Gauss, um dos maiores matemáticos vivos na época, devidamente apelidado de Príncipe dos Matemáticos. A amizade que surgiria daí levou a sobrevivência de Gauss, quando da invasão da Prússia, onde vivia pelas tropas de Napoleão, graças à intervenção de Sophie Germain. Assim como ocorreu com Lagrange, Gauss ficou impressionado e satisfeito ao descobrir a verdadeira identidade do Monsiuer Le Blanc.

Pesquisas sobre a teoria das superficies elásticas

Capa do seu trabalho Pesquisas Sobre a Teoria das Superfícies Elásticas

Graças à correspondência com o colega prussiano, Sophie Germain pode aprimorar seus conhecimentos e assim contribuir enormemente não apenas na teoria dos números, mas também na física, com ênfase na elasticidade e acústica, e mesmo na engenharia, graças a esses estudos. Em 1808 a Academia Francesa de Ciências propôs um prêmio para quem formulasse uma teoria matemática que explicasse os estranhos experimentos do físico Ernst Chladni. Esses experimentos consistiam em espalhar areia em um prato de vidro e depois passar um arco de violino na borda do prato o que criava desenhos com curiosos formatos. Única concorrente, Germain conquistou o prêmio ao apresentar uma teoria sobre a matemática da elasticidade. Em 1831 ela ainda introduziria em geometria diferencial a útil noção de curvatura média de uma superfície num ponto de superfície. Por tudo isso é frequentemente chamada de Hipátia do século XIX.

Não obstante toda notoriedade alcançada ainda em vida por seus trabalhos, lamentavelmente o título honorário de doutor em matemática lhe tenha sido conferido pela Universidade de Göttingen – em virtude do muito insistir de Gauss – somente após a sua morte em 1831, vítima de um câncer de mama. Ainda mais lamentável foi a notícia oficial de sua morte, designando-a como solteira sem profissão, ao invés de matemática – muito provavelmente a de maior capacidade intelectual já produzida na França. Como se não bastassem essas afrontas, seu atestado de óbito a designava como tão somente como arrendatária, muito provavelmente por nunca ter se casado e ter sido sustentada pelo pai boa parte da vida (mesmo porque, por ser mulher, não lhe era permitido ensinar), bem como seu nome não tenha sido incluído na lista de matemáticos e engenheiros que, com seus trabalhos, possibilitaram a construção da Torre Eiffel, a despeito de seus estudos em elasticidade.

GermainSophie-Bust300px

Marie-Sophie Germain é, ainda hoje, um vívido exemplo das dificuldades enfrentadas pelas mulheres que optam pela carreira acadêmica. Ainda mais: é uma inspiração por toda sua perseverança resoluta em insistir naqueles “assuntos impróprios para mulheres”.  Dos pais que não a queriam interessada em estudos de números ao depreciamento enfrentado na morte, nada foi capaz de parar aquela jovem que, em meio ao terror e violência de uma revolução, pode, numa biblioteca, se encantar com o universo dos números.

Marie-Sophie Germain é o terceiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

HIPÁTIA DE ALEXANDRIA

 

Hypatia_portrait-700x395

Embora seja certo que – a despeito de todas as barreiras e posições de submissão impostas às mulheres nos tempos antigos –, muitas foram àquelas a se dedicarem aos estudos matemáticos, é somente no século IV de nossa era o primeiro registro de uma mulher matemática. Embora não se saiba a data exata de seu nascimento, acredita-se que Hipátia (ou Hipácia, conforme alguns) nascera em 370 ou 350 Antes da Era Comum na ainda culturalmente relevante cidade de Alexandria no Egito.

Filha de Téon de Alexandria, um proeminente matemático e astrônomo da Academia daquela cidade, Hipátia foi criada desde cedo nesse ambiente estritamente acadêmico. Sob a tutela do pai dedicou-se, não apenas aos estudos matemáticos e astronômicos, mas também à filosofia, religião, poesia, artes, oratória e retórica, além de uma rigorosa disciplina física, seguindo o ideal helênico de uma mente sã num corpo são. Provavelmente ainda adolescente viajou para Atenas onde estudou na renomada Academia Neoplatônica, de onde retornou para assumir a cadeira de Plotino na Academia Alexandrina. Aos trinta anos já era a diretora.

Fugindo completamente do papel atribuído às mulheres na época, Hipátia provavelmente não se casou, permitindo dedicar-se mais plenamente aos estudos, o ensino e direção da Academia. Conta-se que, ao ser indagada do por que nunca ter se casado, ela afirmara já ser casada com a verdade. Entusiasta do processo de demonstração lógica, não foram poucas as provas desse comprometimento com a verdade: no século XV, na biblioteca do Vaticano, descobriu-se uma cópia de seu comentário sobre a obra de Diofanto, sobre o qual escreveu um tratado. E, embora não se tenha registro de nenhum de seus outros escritos terem sobrevivido e chegado até nós, vários historiadores acreditam que o Livro III da versão de Téon para o Almagesto, de Ptolomeu (um tratado que estabeleceu o modelo geocêntrico para o universo que não seria derrubado até o tempo de Copérnico e Galileu) foi na verdade trabalho de sua filha, bem como lhe são atribuídas comentários sobre inúmeros matemáticos clássicos, além de escrever um tratado sobre Euclides em parceria com o pai.

Hipátia de Alexandria - Gravura de Elbert Hubbard, 1908

Hipátia de Alexandria, gravura de Elbert Hubbard, 1908 – Wikimedia

Hipátia era ainda uma professora dedicada e eficiente. Suas palestras públicas pela cidade chamavam a atenção das pessoas que a escutavam versar com propriedade sobre Platão e Aristóteles, sendo extremamente elogiadas. Através da correspondência entre ela e um de seus alunos, o futuro bispo de Ptolemaida e também filósofo Sinésio de Cirene, sabe-se que, entre suas lições, estava como projetar um astrolábio. Era famosa também pela resolução de complexos problemas matemáticos, enviados a ela por matemáticos de todo o mundo antigo conhecido, problemas esses os quais, muito raramente deixava de elucidar.

Vivendo num período conturbado da história de Alexandria, Hipátia se viu no meio de uma controvérsia entre o governador da cidade (e grande admirador e pessoa próxima da estudiosa), Orestes e o Patriarca Cirilo que, ao suceder o falecido tio o Patriarca anterior Teodósio, deu mais fervor as hostilidades contra as religiões não-cristãs. Apesar do verniz religioso a divergência entre os dois era de fato política. Orestes, apesar de cristão, não tinha interesse em ceder o mínimo de espaço de sua influência para o novo líder religioso, cujas pretensões (e por extensão da igreja) era centralizar o controle da cidade em suas mãos.

A ira de Cirilo se voltou contra Hipátia, não apenas por ela ser amiga próxima do governador, mas especialmente por sua destacada defesa do paganismo contra o cristianismo uma vez que era a líder da escola neoplatônica de filosofia. Some-se a isto o fato de que uma mulher palestrando publicamente contra a doutrina religiosa vigente, além de se dedicar aos estudos matemáticos e filosóficos dentre outros, ao invés de cumprir seu papel submisso de mulher devotada aos interesses domésticos e familiares, não devia ser nenhum pouco bem visto pelo Patriarca.

Hipátia antes de ser morta na igreja, por Charles William Mitchell, 1885

Hipátia Antes de Ser Morta na Igreja, de Charles William Mitchell, 1885 – Wikimedia

Esse conjunto de fatores selou o destino de Hipátia. Após uma série de rusgas entre Cirilo e Orestes, que atingiu seu ponto mais crítico após a expulsão de todos os judeus de Alexandria, em virtude do assassinato de um grupo de cristãos por extremistas judeus, um boato se espalhou pela cidade culpando-a pelas divergências entre o governador e o Patriarca.

Insuflados por Cirilo, um grupo de cristãos guiados por um certo Pedro, o Leitor, cercou a carruagem de Hipátia, de onde a arrancaram para espanca-la e tortura-la. A turba enfurecida arrancou-lhe os cabelos, descarnou-a com carapaças de ostras para então lançar ao fogo os restos de seu corpo.

Mort_de_la_philosophe_Hypatie

A Morte da Filósofa, de Louis Figuier, 1866 – Wikimedia

O assassinato de Hipátia é considerado por muitos como um momento crucial, dentre aqueles que marcaram o período entre os séculos IV e V. A morte brutal e sem sentido da brilhante filósofa, matemática, astrônoma, professora, que ousou não se enquadrar no papel submisso e menor designado às mulheres, nas mãos ensandecidas de fanáticos religiosos serve como uma alegoria mais que adequada, ainda que lamentável, do fim da Antiguidade Clássica e o início da Idade Média.

Estrela de primeira grandeza no firmamento científico, mesmo sua morte horrenda não foi capaz de apagar o brilho da excepcionalidade da primeira matemática de que se tem registro. Ainda que, por séculos a fio seu trabalho tenha sido menosprezado e desconsiderado por toda uma lógica francamente misógina, sua importância na história, não só da matemática e das ciências, não foi completamente eliminada. Hipátia de Alexandria não foi somente a primeira matemática, mas a primeira a quebrar a imensa barreira do sexo, abrindo caminho para inúmeras outras trilharem seus passos pioneiros com o mesmo brilhantismo.

Rachel Weiss como hipátia no filme Ágora_Universo racionalista

A atriz Rachel Weiss vive Hipátia no filme Ágora – imagem do site Universo Racionalista

Hipátia de Alexandria é o primeiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

AS PLÊIADES MATEMÁTICAS

elihu_vedder_-_the_pleiades_1885.jpg

As Plêiades, obra do artista americano Elihu Vedder de 1885

Na mitologia grega as Plêiades eram as sete filhas da oceânide Pleione com o titã Atlas. Segundo o relato mitológico, Órion, o Caçador encontrou e se enamorou pelas filhas de Pleione, quando elas passeavam pela Beócia na companhia de sua mãe. Obcecado pela beleza das irmãs, Órion iniciou uma perseguição que durou sete anos, levando uma desesperada Pleione a solicitar a intervenção de Zeus. A solução dada pelo Deus Supremo foi transforma-las em pombas e posteriormente em estrelas, as quais foram colocadas num relicário no firmamento, na forma das estrelas principais do aglomerado das Plêiades, sobre a proteção da Constelação do Touro.

Esse curioso e interessante conto foi a maneira encontrada pelos gregos antigos para explicar a origem do brilhante grupo de estrelas localizado na “cauda” da constelação do Touro. Extremamente brilhantes, as Plêiades são um aglomerado de mais de 3.000 estrelas, imersas em uma nuvem de poeira cósmica. São conhecidas também como As Sete Irmãs, embora, de fato, somente seis delas sejam visíveis a olho nu. Ainda segundo o mito grego, a estrela invisível era Mérope, a única das irmãs a relacionar-se com um mortal e, por esse motivo, condenada por Zeus a não ter seu brilho visto da Terra.

Introdução a História da Matemática

Capa do livro de Howard Eves: Altamente recomendável especialmente para quem não gosta de Matemática

Howard Eves, em sua obra “Introdução a História da Matemática” – livro excelente e que tive o prazer de ler no ano passado –, cita as Plêiades celestes para batizar um grupo de brilhantes e competentes matemáticas. Com seus trabalhos, estudos e descobertas, esse grupo formado por Hipátia de Alexandria, Maria Gaetana Agnesi, Marie-Sophie Germain, Mary Fairfax Somerville, Sonya Kovalevsky, Grace Chisholm Young e Amalie Emmy Noether, foi responsável não apenas por grandes descobertas na área, como também por inspirar e capacitar inúmeras outras mulheres a entrar para a Matemática.

Infelizmente, via de regra a história da Matemática não é ensinada nas escolas. E mesmo quando os professores abordam aspectos históricos da disciplina, não raro os nomes citados são de homens. Do célebre “Eureka!” do grego Arquimedes à conhecida fórmula do indiano Bhaskara; do pai da geometria Euclides chegando ao “geômetra divino” Newton, o pouco ensinado sobre a história da Matemática parece apontar para uma ciência aparentemente dominada pelo masculino, levando muitos a acreditar no mito da inaptidão das mulheres para o pensamento matemático ou ainda: que nenhuma mulher dedicou-se a seu estudo, nem deixou nada de relevante a ponto de ter seu nome registrado na história.

Newton_Geometra_divino-WilliamBlake_wikimedia

Newton: O Geômetra Divino de William Blake. Seriam as mulheres incompatíveis com as ciências exatas?

Nada poderia estar mais longe da realidade. Assim como no caso das Plêiades celestes onde, das mais de 3.000 estrelas, apenas seis delas são visíveis da Terra a olho nu, também suas equivalentes matemáticas são o início para o conhecimento as tantas e variadas mulheres nas diferentes áreas das ciências exatas. Apesar de somente nos séculos XIX e XX as mulheres tenham começado a romper as barreiras sexistas, sendo aceitas em universidades, além de outras conquistas, isso não impediu que inúmeras mulheres, antes e depois, contribuíssem com relevantes descobertas e estudos matemáticos.

Foi em parte pensando nisso que, lendo sobre as Plêiades Matemáticas na obra de Eves, pensei em resgatar um pouco da história daquelas mulheres. Aproveitando a proximidade do dia Internacional da Mulher, me dispus a pesquisar e contar em textos breves um pouco sobre cada uma daquelas competentes e praticamente desconhecidas estudiosas. Longe de ser uma mera lista de curiosidades a intenção aqui, repetindo o objetivo de textos anteriores de fugir do lugar comum das declarações de sempre em suposta homenagem às mulheres, também é a de quebrar com a ideia falsa, apesar de amplamente difundida da inaptidão das mulheres para as ciências, especialmente as exatas. Um olhar sobre a vida dessas mulheres, ainda que breve, pode ser de suma importância ao inspirar mais e mais garotas nessas áreas.

A partir de amanhã até o dia 7 de março, postarei diariamente um texto sobre cada uma das Plêiades Matemáticas. No dia 8 de março, retomando a ideia abandonada do ano passado, a postagem será sobre oito mulheres sergipanas que se destacaram em diversas áreas do conhecimento e outras, num resgate histórico extremamente importante para a história das mulheres no meu pequeno Estado de Sergipe.

Gostou do post? Está gostando do Habeas Mentem? Então seja muito bem vindo e fique a vontade para comentar, curtir e compartilhar.

E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!