A ideia inicial era boa: postar 8 textos sobre a riqueza cultural, histórica, política e outras de Sergipe. E estava indo bem. Até que na hora de postar o sétimo texto, tudo começou a desandar numa sequência de imprevistos, problemas e até questões de saúde (nada grave felizmente) que, formando uma tempestade perfeita, me deixaram longe das atividades do blog até o presente momento. Ainda falarei sobre eles num futuro próximo.

Mas, apesar dos percalços, estamos de volta para finalizar a série de textos. E bem a tempo do dia da Sergipanidade, comemorado neste 24 de Outubro. Nesse antepenúltimo texto da série aproveito para, depois de falar sobre vários motivos de orgulho, apontar 8 monumentos esquecidos, abandonados e destruídos que, se, devidamente cuidados, poderiam nos ajudar a aumentar ainda mais os motivos para comemorar nossa Sergipanidade.

1-Memorial da Bandeira (Aracaju)

Memorial da Bandeira antes

No ano de 2004 a Prefeitura de Aracaju, por intermédio da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), criou o Projeto Museu de Rua com o objetivo de ocupar espaços públicos com museus “mais simples que irão estimular o cidadão que está na rua, a procurar o conhecimento”, nas palavras da arquiteta Terezinha Nunes Bandeira. Os locais escolhidos foram a Ponte do Imperador, onde foi instalada uma maquete itinerante da cidade de Aracaju entre os anos 20 e 40 com toda sua parte arquitetônica, urbanística e até os meios de transportes utilizados na época (uma maquete muito similar fez parte da decoração do Palácio Olímpio Campos quando esse ainda era a sede do governo estadual), o Bairro Coroa do Meio onde foi construído o Museu do Mangue ou Museu Ecológico com o intuito de ser uma referência em educação ambiental, além de parte dos planos de reurbanização do bairro, e, finalmente, a Praça da Bandeira, onde foi erguido o Memorial da Bandeira, uma linda e funcional, apesar de incrivelmente simples, construção que, através da história dos símbolos cívicos, especialmente as bandeiras nacionais, estadual e dos municípios sergipanos, buscava cumprir o objetivo de “resgatar parte da história do povo aracajuano, aproximando o cidadão da sua história, facilitando também o acesso a espaços onde estarão concentradas informações importantes sobre eventos que marcaram a vida sergipana”. Pouco depois de sua inauguração tive o privilégio de visitar esse espaço o qual me encantou profundamente. Logo na entrada fui recepcionado por uma jovem que se identificou como estagiária do curso de História da Universidade Federal de Sergipe e minha guia no breve, porém riquíssimo, tour pelo local. Após um esclarecedor resumo histórico da evolução da bandeira nacional, exemplificados por belas e bem cuidadas réplicas em tamanho oficial das bandeiras do Brasil Colônia, Império e República, além dos principais símbolos cívicos brasileiros, do estado e da capital sergipana, pude conferir uma panóplia (conjunto de bandeiras em miniatura) de todos os Estados da Federação. Fiquei simplesmente extasiado com o que vi e aprendi naquela breve visita. Finalmente parecia que, depois de anos de descaso com a nossa história, o poder público finalmente dava a devida atenção a esse aspecto tão cínica e deploravelmente negligenciado. Não foi o caso. Depois de apenas seis anos de funcionamento, o Memorial foi fechado em 2010 e, após um incêndio em 2014, teve todas as suas entradas fechadas com concreto. Apesar do acervo ter sido transferido para o Mirante que funciona no Calçadão do Bairro Treze de Julho, não há mais o serviço de recepção explicativa do Memorial, o que empobrece tremendamente a experiência de visitá-la.

Memorial da Bandeira atualmente

2-Engenho Santa Bárbara de Cima (Carmópolis)

Engenho Santa Bárbara de Cima atualmente

Deputado geral, vice-presidente de província, presidente da província de Sergipe e senador do Império do Brasil, cavaleiro da Imperial Ordem de Cristo, oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro, cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa e comendador da Ordem de São Gregório Magno. Esse foi João Gomes de Melo, que receberia em título honorífico de Barão de Maruim em 1848. Destacado líder político sergipano na corte imperial, foi um dos principais nomes no processo de transferência da capital sergipana da cidade de São Cristóvão para Aracaju. Embora não se tenha absoluta certeza do seu local de nascimento, acredita-se que tenha nascido numa das sedes do Engenho Santa Bárbara, localizado no município de Carmópolis, o qual era administrado por seu pai Teothônio Correia Dantas casado com Clara Angélica de Menezes em 1832. Conforme citado o Engenho Santa Bárbara era dividido em dois, o de cima e o de baixo, foi importante na produção açucareira do estado até os anos 60 do século XX. De suas duas casas-grandes resiste somente a de cima, justamente aquela a qual se credita o nascimento do futuro Barão de Maruim. Por ser um patrimônio, não apenas arquitetonicamente importante, mas também do ponto de vista histórico, sendo o provável local de nascimento de uma figura importante de nossa história, era de se esperar que o local tivesse todo um projeto de preservação e manutenção. Infelizmente nada nem perto disso ocorre. Abandonado, a antiga chaminé e a casa de máquinas já ruíram e o que resta da Casa Grande logo terá o mesmo destino caso alguma medida não seja tomada com urgência.

3-Farol do Bairro Farolândia (Aracaju)

Farol do Bairro Farolândia antes

Inaugurado em 12 de outubro de 1862 esse foi o primeiro farol instalado na barra do rio Sergipe. Inicialmente construído em madeira, após um incêndio ocorrido em 1884,  a estrutura foi substituída por outra metálica e recebeu um novo aparelho luminoso, ambos vindos da França, sendo reinaugurado em 7 de setembro de 1888. O novo farol, cuja luz alcançava 17 milhas em dias claros, só seria desativado em 1991 com a inauguração de um novo farol no Bairro Coroa do Meio. Durante seu período de funcionamento, o solitário farol viu a paisagem ao seu redor mudar de uma isolada e distante área da cidade, mas desde já bastante procurada por banhista em virtude da existência ali perto da praia de Atalaia, para um dos maiores bairros da cidade e cujo nome, Farolândia, remete ao, se não o primeiro, com certeza o mais ilustre habitante. Depois de sua desativação o farol ficou abandonado por mais de uma década, mesmo tendo sido tombado pelo Patrimônio Histórico de Sergipe desde 1995. Somente em 2009, após um competente trabalho de restauro, não apenas da torre metálica de forma troncônica sob esteios de rosca (sistema Mitchel), mas também de sua base onde fica a casa dos faroleiros e do cume e do aparelho lenticular que utilizava o querosene como fonte de energia. A esse restauro se somou um belíssimo trabalho de urbanização e paisagismo que transformou o antigo e descampado terreno circular numa aconchegante praça com área de lazer, passeios, um espelho d’água, acesso para carros e um estacionamento. Todo esse trabalho transformou o que antes era abandono num dos mais belos cartões postais de Aracaju e motivo de orgulho para todos os moradores do Bairro, além de servir para valorizar ainda mais a área que, desde a inauguração do campus da maior universidade particular do estado em 1994 e da consequente especulação imobiliária, já vinha se tornando uma das mais visadas e caras da cidade. Infelizmente, quem passa pelo local hoje, pode perceber o profundo descaso, não apenas do farol, mas de todo o equipamento urbano que o abriga. Tendo nascido e me criado no Conjunto Habitacional Augusto Franco, que está inserido no Bairro Farolândia, tenho uma ligação especial com o farol. Ligação que só aumentou após trabalhar vários anos ali perto no Campus da Universidade Tiradentes. Pude presenciar em primeira mão seu abandono, restauro e, novamente, abandono. E me dói profundamente observar o jogo de empurra entre o governo do Estado e a prefeitura de Aracaju, joguinho sórdido e mesquinho que permite que essa “testemunha ocular de inúmeras transformações urbanas da nossa cidade”, conforme descrição feita por Neto Aquilino no site Expressão Sergipana, seja novamente entregue ao descaso e abandono.

Farol do Bairro Farolândia atualmente

4-Fazenda Borda da Mata (Canhoba)

Fazenda Borda da Mata atualmente

Corria o ano de 1929 quando Virgulino Ferreira, o temido cangaceiro Lampião, a frente de 20 de seus cabras, chegou na Fazenda Borda da Mata em Canhoba, na época, localidade ainda pertencente ao município de Propriá. Quem o recebeu foi o poderoso coronel e dono daquelas terras Antônio Ferreira de Carvalho, ou, como era mais conhecido Coronel Antônio Caixeiro. Lampião era velho conhecido de Antônio Caixeiro, o qual permitiu abrigo e alimentação ao cangaceiro, com a condição de que nem ele e nem seus homens molestassem os contratados da fazenda ou os moradores da região. Acredita-se que foi nessa passagem que Lampião foi apresentado ao igualmente poderoso filho de Antônio Caixeiro, Eronides Ferreira de Carvalho, já então proeminente político e autoridade em Sergipe, atuando anos depois como interventor estadual e governador. Eronides estava na Fazenda Jaramataia, outras das posses de seu pai em Canhoba, se recuperando de uma enfermidade que o antigira. Ao cumprimentar o cangaceiro alfinetou: “Então, como devo chamá-lo: capitão ou coronel? Porque eu também sou capitão e deve haver aqui uma hierarquia – como oficial do exército não posso ser comandado pelo senhor”. Provando que não era rápido apenas no gatilho, Lampião de pronto respondeu: “Pois desde já o senhor está promovido a coronel” Com essa história, contada pelo pesquisador Kiko Monteiro, podemos perceber um pouco da rica história que um monumento do porte da Fazenda Borda da Mata pode revelar, mesmo no estado lastimável de abandono e destruição em que se encontra. Parte irrecuperável da história sergipana, ela lentamente se deteriora displicente e eternamente.

5-Cine Rio Branco (Aracaju)

Cine Rio Branco, já em sua fase de cinema pornô

Foi com o nome de Theatro Carlos Gomes que, no dia 4 de abril de 1904, foi inaugurado aquele que viria a ser conhecido posteriormente como Cine Rio Branco. Na verdade, um cineteatro que também funcionou como auditório e cassino. Em seus primeiros anos sua principal função era de fato o teatro, mas a partir de 1909, sob o nome de Kinema Sergipe, as peças teatrais passariam a dividir o palco com as exibições de filmes, tornando-se assim o primeiro cinema a funcionar no Estado. Foi por anos ininterruptos o principal espaço de lazer dos aracajuanos que lotavam suas dependências não apenas para assistir as grandes obras do cinema, mas também estrela de renome no cenário nacional, a exemplo de Procópio Ferreira, Bidú Sayão e Tito Schipa. A partir dos anos 50, no entanto, o Cine Rio Branco passou a perder prestígio, muito devido a inauguração do mais moderno Cine Palace, pouco metros adiante. Com a morte do último de seus incentivadores nos anos 80, entra de vez no caminho da derrocada ao adotar uma programação exclusivamente voltada ao gênero pornográfico até o seu fechamento em definitivo até seu fechamento no início dos anos 2000 e culminou com sua venda e demolição para dar lugar a uma loja de departamentos. Assim, de uma tacada só, Aracaju e Sergipe perdiam aquele, que, tivesse tido um olhar mais atento e cuidadoso do poder público e da sociedade como um todo, poderia ainda estar em funcionamento para poder ostentar com orgulho o título de mais antigo cinema do mundo em funcionamento, conforme explicado pelo professor Ivan Valença. Um mais do que triste e lamentável fim.

6-Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, na Fazenda Engenho Itaperoá (São Cristóvão)

Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, na Fazenda Engenho Itaperoá atualmente

Se, saindo da capital sergipana, você seguir pela BR-349, pouco antes de chegar no município vizinho de Itaporanga d’Ajuda, ao olhar para o seu lado esquerdo notará a existência de uma sombria igreja de torres enegrecidas pela ação do tempo e, mesmo a distância, os claros e inequívocos sinais de abandono. Caso esteja curioso, saiba tratar-se da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, que, em outros tempos, foi a orgulhosa igreja da Fazenda Engenho Taperoá do município de São Cristóvão, antiga capital sergipana. Apesar de se encontrar em terreno particular, há quem se aventure até lá. Ao fazer isso, o visitante encontrará uma imponente igreja com uma grande nave, capela-mor, galerias laterais, varandas e um frontão elaborado em estilo barroco com volutas, mas em estado avançado de deterioração. Cada torre possui uma pequena porta correspondente às portas centrais da igreja no nível mais baixo e uma janela acima correspondente às do nível do coro. Cada torre é encimada por uma cúpula encimada por um pináculo em forma de pirâmide. Toda essa rica e impressionante estrutura encontra-se, para variar, num estado de abandono que só rivaliza com a dificuldade de se encontrar informações sobre ela e sua história. Abandonada física, histórica e (por que não?), espiritualmente, a Igreja de Nossa Senhora de Nazaré ainda persiste em encantar e assombrar quem a conhece, apesar de tanto descaso.

7-Quartel da Rua Itabaiana, Antigo Grupo Escolar Siqueira de Menezes

Quartel da Polícia Militar de Sergipe (foto do site Expressão Sergipana)

Talvez não seja do conhecimento de todos aqueles que passam pelo n.º 336 da Rua Itabaiana (ou, como é costume no dizer dos aracajuanos com o acréscimo de preposição às ruas da capital: Rua de Itabaiana), estarem diante de um centenário edifício, que, a despeito de hoje abrigar o Quartel da Polícia Militar de Sergipe, foi inaugurado em 15 de março de 1914 para abrigar o Grupo Escolar Central Siqueira de Menezes. Contando com 8 salas amplas e arejadas, pátio de recreio e sala de diretoria, a escola diferia das demais por sua infraestrutura arquitetônica, o grupo escolar funcionou por onze anos, quando, com a desativação do antigo Quartel da Força Pública, passou a abrigar a sede da PM sergipana. Por muitos anos foi também sede do Museu da Polícia Militar e, por seu valor arquitetônico e patrimonial, foi tombado em 2000 como Patrimônio Material Cultural de Sergipe. Tombamento esse que não impede esse ser mais um exemplo de descaso do poder público para com a história em Sergipe.

8-Palácio Inácio Barbosa (Aracaju)

Palácio Inácio Barbosa antes

Apesar de, nessa lista, termos visto casos extremos de abandono e degradação tais como o da Engenho Santa Bárbara de Cima em Carmópolis ou ainda da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, na Fazenda Engenho Itaperoá em São Cristóvão, penso que o caso do Palácio Inácio Barbosa, antiga sede da prefeitura aracajuana, seja, de todos, o mais grave. Motivos para isso não me faltam. Edifício pertencente ao poder público, localizado no centro da capital sergipana (muito próximo aliás de um exemplo de restauro, no caso o Palácio Museu Olímpio Campos), a antiga sede está longe de ser um prédio esquecido no interior no meio de uma propriedade particular (o que pode até dificultar, mas não necessariamente impedir qualquer intervenção de restauro). Isso para não citar toda a confusão envolvendo a prefeitura de Aracaju e a Universidade Tiradentes, conforme relatei no texto Oito Personalidades Femininas Sergipanas, ao contar a história de Rosa Moreira Faria. Confusão essa que ainda está longe de terminar e terá como saldo negativo a destruição de mais um rico patrimônio cultural e arquitetônico de nossa história.

Palácio Inácio Barbosa atualmente (foto do site Expressão Sergipana)

♦ ♦ ♦

Para finalizar, deixo aqui minha manifestação de agradecimento ao site Expressão Sergipana, de onde veio a inspiração para essa postagem, com seu brilhante trabalho de resgate histórico e alerta social para o descaso com o acervo patrimonial sergipano. Boa parte das informações aqui presentes, foram tiradas das matérias do site, sendo que, em alguns casos, foi a única fonte que pude encontrar com informações. Obrigado e parabéns pelo riquíssimo trabalho!

Esse é o sexto texto das comemorações pelo bicentenário da Emancipação Política de Sergipe comemorado no dia 8 de Julho (e agora também pela passagem do dia da Sergipanidade). Para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais com o penúltimo texto da série!

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