OITO MULHERES SERGIPANAS PARA SE CONHECER NESSE 8 DE MARÇO

O dia Internacional da Mulher, comemorado todo dia 8 de março, foi instituído em memória das mulheres que, em uma série de lutas e reinvindicações por melhores condições de trabalho e direitos sociais e políticos entre os séculos XIX e XX. Data para lembrar não apenas do muito conquistado com muitas lutas, mas principalmente do muito que ainda precisa ser alcançado.

Infelizmente não é raro que a história de lutas e conquistas de muitas mulheres ainda hoje sejam simplesmente relegadas ao esquecimento. Vítimas do desprezo e do preconceito, inúmeras histórias de mulheres talentosas e competentes são condenadas ao esquecimento apenas por serem consideradas mulheres.

Esse é o caso de muitas das principais personalidades femininas da história sergipana. Como já relatei em outros textos, Sergipe, mesmo com toda a riqueza de sua história e cultura, possui uma grave deficiência quando se trata de divulgar e valorizar toda essa riqueza. O quadro se agrava ainda mais quando se trata das mulheres sergipanas. Em sua grande maioria são totalmente desconhecidas no próprio estado onde nasceram e viveram, mesmo quando em muitos casos alcançam reconhecimento em outras partes do Brasil e até mesmo em outros países.

Por esse e outros motivos, decidi retomar esse texto que, originalmente, estava programado para o ano passado. Mas, como expliquei no texto sobre Maria Beatriz Nascimento, foi extremamente complicado encontrar informações a respeito das inúmeras mulheres que eu tinha listado. Felizmente, após um ano de algum esforço, consegui não apenas acesso a mais informações, como ainda ampliei a minha lista ao encontrar ainda mais nomes de sergipanas esquecidas a despeito de toda notoriedade por elas alcançadas.

Fica aqui inclusive um comprometimento comigo mesmo de continuar essa pesquisa, complementar as informações já conseguidas e persistir no esforço de tornar novamente conhecidas essas histórias infelizmente tão negligenciadas. Esse texto é apenas o primeiro passo.

Afinal, nas palavras da minha amiga Lady Sybylla: “Leia mulheres, conheça e divulgue nossos trabalhos, apoie e consuma nossa arte. Não apenas no Dia Internacional da Mulher, mas todos os dias, sempre.”

1-Maria Thetis Nunes

01-Maria Thetis Nunes

Nascida no município de Itabaiana em 06 de janeiro de 1925, Maria Thetis Nunes foi a primeira sergipana a ingressar no ensino superior, formando-se em História e Geografia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, primeira mulher a lecionar no influente e prestigiado Colégio Atheneu Sergipense, onde cursara o secundário e também viria a se tornar a primeira diretora poucos anos depois. Após ter cursado a primeira turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), onde permaneu quatro anos como assistente da cadeira de História, dedicando-se à Pesquisa da História da Educação no Brasil, Maria Thetis foi nomeada pelo Ministério das Relações Exteriores a Diretora do Centro de Estudos Brasileiros na Argentina, onde permaneceu mais quatro anos, ao término dos quais retornou à Sergipe em 1968 para ocupar o cargo de professora titular de História do Brasil, História Contemporânea e Cultura Brasileira da recém criada Universidade Federal de Sergipe, onde, na qualidade de decana, foi por duas vezes Vice-Reitora e Professora Emérita ao se aposentar depois de 47 anos de serviços prestados ao magistério. De importância crucial para o ensino e magistério no estado de Sergipe, Maria Thetis não apenas deu a conhecer a história sergipana como se integrou a ela, ajudando a difundi-la ao mesmo tempo em que formava inúmeros intelectuais sergipanos.

2-Beatriz Góis Dantas

02-Beatriz Gois Dantas

Graduada em Geografia e História pela Faculdade Católica de Filosofia, em História pela Universidade Federal de Sergipe e Mestra em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas, Beatriz Góis Dantas é a mais importante antropóloga e pesquisadora na área em Sergipe. Possui rica obra publicada em livros, capítulos de livros e artigos em revistas especializadas sobre as populações indígenas e religiões afro-brasileiras em Sergipe. Nascida em 1 de Dezembro de 1941 na cidade de Lagarto, essa pesquisadora incansável foi responsável por preencher uma lacuna histórica na bibliografia sobre o suposto “desaparecimento” dos índios sergipanos na segunda metade do século XIX, identificado na realidade como um processo de negação das identidades indígenas associada a expropriação de terras. Em 1970 assumiu a direção do Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico onde permaneceu apenas oito meses, tempo suficiente para efetivar o mapeamento da situação dos monumentos tombados pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Sergipe, bem como o registro fotográfico das imagens e santos localizados na igreja e a reorganização e recuperação do Arquivo Público Estadual. Aposentou-se como Professora da Universidade Federal de Sergipe em 1991 estando atualmente a frente da Comissão Permanente de História do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

3-Terezinha Alves Oliva

03-Terezinha Oliva de Souza

Terezinha Alves Oliva é autora do livro “Impasses do Federalismo no Brasil: Sergipe e a Revolta de Fausto Cardoso”, obra importante no entendimento dos primeiros anos da República em Sergipe. É a mais velha de dez irmãos, nascida na pequena Riachão do Dantas, no sul do estado. Mudou-se para a capital, Aracaju, em 1956 onde, por já saber ler com fluência, foi transferida do pré-primário para o Primeiro Ano. Cursou no Colégio Patrocínio São José os ensinos Primários e o Ginásio ingressando recém-criada Universidade Federal de Sergipe em 1968, graduando-se em História em 1971, finalizando o mestrado também em História pela Universidade Federal de Pernambuco em 1981 e o doutorado em Geociências (Geociências e Meio Ambiente) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho em 1998. Aluna de Beatriz Góis Dantas durante a graduação atuou junto à mestra, na qualidade de estagiária no fim do curso, no projeto de reorganização do Arquivo Público do Estado, órgão o qual dirigiu depois de formada. Foi também diretora do Museu do Homem Sergipano, vinculado à Universidade Federal de Sergipe, ocupou a chefia do Departamento de História e do Programa de Documentação e Pesquisa Histórica (PDPH), e atualmente é a oradora oficial do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Seguindo os passos de Maria Thétis Nunes e Beatriz Góis Dantas, Terezinha Oliva foi peça fundamental na ampliação do conhecimento da história sergipana, seja através dos livros e artigos, frutos de extensa e minuciosa pesquisa, seja pelo comprometimento, seriedade e rigor a frente dos órgãos e departamentos onde atuou.

4-Ofenísia Soares Freire

04-Ofenisia Soares Freire

Professora, militante política e intelectual sergipana, Ofenísia Soares Freire é natural da cidade de Estância de onde saiu para estudar no Colégio Interno Senhora Santana em Aracaju em 1925. Retornou para Estância após se diplomar no magistério pela Escola Normal Rui Barbosa, onde se dedicou a docência com especial engajamento. Possui uma longa história na atividade docente, lecionando no Atheneu Sergipense onde ficou até sua aposentaria em 1966. Além do Atheneu, lecionou no Colégio Jackson de Figueiredo e no Colégio Tobias Barreto e, depois de sua aposentadoria continuou suas atividades, dando aulas em pré-vestibulares, ministrando cursos, participando da comissão julgadora de vários concursos literários. Foi ainda assessora do reitor na UFS, com o Cargo de Revisora de Textos no período de 1984-1988, membro do Conselho Estadual de Cultura, membro do Conselho Estadual de Educação, sócia do Instituto Histórico de Sergipe. Foi também militante política, especialmente nos duros anos da Ditadura Militar quando foi perseguida, teve seu mandato extinto como conselheira estadual da educação e foi afastada da cadeira no Atheneu Sergipense. Intelectual respeitada publicou inúmeros livros, com destaque para a obra “Presença Feminina em Os Lusíadas”, tendo sido a segunda mulher a assumir uma cadeira na Academia Sergipana de Letras. Faleceu em 24 de julho de 2007 aos 93 anos deixando um vasto legado intelectual para o estado de Sergipe.

5-Eufrozina Amélia “Zizinha” Guimarães

05-Zizinha Guimarães-a

Nascida no município sergipano de Laranjeiras, Eufrozina Amélia Guimarães, a Professora Zizinha, destacou-se em sua atuação comprometida como professora e artista numa época em que uma mulher e em especial a mulher negra dificilmente alcançava alguma posição de destaque. Infelizmente, mesmo com sua atuação decisiva no campo educacional de Laranjeiras, sabemos muito pouco sobre sua história. Acredita-se que tenha nascido em 26 de dezembro do ano de 1872. Teve acesso a educação tendo assim a oportunidade de demonstrar sua inteligência aguçada, talentos e habilidades. Afirma  a discente do curso de Museologia da Universidade Federal de Sergipe e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em História das Mulheres – GEPHIM, Lívia Borges Santana: “É inquestionável a importância da professora Zizinha para a formação da sociedade de Laranjeiras. Ela dedicou sua vida ao ofício de ensinar e contribuiu para o crescimento intelectual de várias gerações de sergipanos. Contudo, sua história está dispersa em páginas de trabalhos acadêmicos e em algumas publicações. Seus objetos pessoais estão espalhados nos mais diversos e inusitados acervos, fato que torna sua memória ameaçada pelo esquecimento. Diante de tudo isso, é necessário garantir a salvaguarda dessa memória, uma memória que conta de maneira surpreendente detalhes da vida de uma professora que é lembrada até hoje por seus ex-alunos como uma pessoa inteligente, elegante e amável.” Infelizmente, mesmo tendo se passado quase sete anos desde que essas palavras foram escritas, pouco foi feito no intuito de se mudar essa realidade de falta de reconhecimento sobre a história de uma das mais ilustres personalidade não apenas de Laranjeiras, mas de todo o estado.

6-Aglaé D’Ávila Fontes

06-Aglae Fontes

Professora, escritora, folclorista, historiadora, uma das maiores pesquisadoras do folclore do estado de Sergipe, diretora do Centro de Criatividade de Sergipe, sócia do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e integrante da Academia Sergipana de Letras. Chegou a ser secretária de Estado 3 vezes. Apresentadora e produtora do programa “Andanças do Folclore Sergipano” na TV Caju. Ajudou muito a ingressar na vida artística, com sua escolinha de música, por volta do ano de 1950. A incansável Aglaé D’Ávila Fontes nasceu na cidade Lagarto, mas morou em diversas cidades em virtude da profissão do pai, servidor público. Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Educação Musical pela Universidade Federal de Sergipe, sua grande paixão sempre foi a licenciatura além da dedicação para com a cultura e tradição sergipana, tanto que, mesmo aposentada continua ativa, ensinando e preocupada com a conscientização dos sergipanos da importância de que as novas gerações tenham um referencial cultural.

7-Maria Rita Soares de Andrade

07-Maria Rita Soares Andrade-a

Nascida em 03 de abril de 1904 em Aracaju, a filha de operários Maria Rita Soares de Andrade foi a primeira mulher nomeada Juíza Federal no Brasil. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1926, apenas a terceira no estado a conseguir o feito, atuando como advogada tanto na capital baiana como em Aracaju. Foi membro do Ministério Público e do Conselho Penal e Penitenciário, professora de literatura no Colégio Atheneu Sergipense e de Direito Comercial na Escola do Comércio, além de ter funcionado ad hoc como Procurador da República e Procurador Geral do Estado. Teve atuação de destaque no movimento feminista ao lado de Bertha Lutz. Numa CPI para investigar a situação da mulher ocorrida na década de 70, ela falou de improviso citando pessoas, datas e narrando acontecimentos relacionados com a história da liberação da mulher brasileira com uma precisão que impressionou a todos (três senadores e três deputados, alguns jornalistas e curiosos) que assistiram ao seu depoimento. Ao final da palestra, quando o senador Heitor Dias (Arena-BA) afirmou que não havia mais discriminação contra a mulher, tanto que o homem geralmente a coloca “num altar”, Maria Rita interrompeu-o com um sonoro “discordo” esclarecendo que “é justamente esta história de colocar a mulher num altar, que vem nos desgraçando”. Faleceu em 1998 aos 94 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro onde atuava como advogada após sua aposentadoria compulsória do cargo de Juíza Federal, exercendo a magistratura como titular da 4ª Vara Federal. Apesar do alto grau de renome e importância alcançado por ela na magistratura brasileira, infelizmente Maria Rita é mais uma de muitas ilustres desconhecidas em sua própria terra.

8-Alina Leite Paim

08-Alina Paim

Sergipana, escritora, comunista, silenciada e esquecida. Assim podemos resumir a vida e obra da sergipana nascida no município de Estância em 10 de outubro de 1919, cuja obra chegou a ser prefaciada e elogiada por Graciliano Ramos e Jorge Amado. Por ter perdido a mãe ainda pequena Alina Leite Paim foi criada na cidade de Simão Dias por três tias, com quem teve uma educação severa e rígida. Militante do Partido Comunista do Brasil e das causas feministas foi perseguida pelo regime militar, sofrendo perseguições e pressões de toda ordem inclusive processo judicial conforme relatado pelo pesquisador Gilfrancisco dos Santos. Além de contribuir com artigos em vários jornais, Alina escreveu dez romances e quatro livros infantis, tendo alguns deles editados na Rússia, China, Bulgária, e Alemanha. A Professora Ana Leal Cardoso, da Universidade Federal de Sergipe, destaca o fato de as obras de Alina Paim estarem “repletas de personagens femininas e feministas que lutam por um mundo mais justo. De ‘Estrada da Liberdade’ (1944) a ‘A Correnteza’ (1979), a luta da mulher por um espaço mais democrático e inclusivo está presente. Sua narrativa é construída por uma sensibilidade artística bem trabalhada, capaz de traçar caminhos que levam o (a) leitor (a) a diferentes ‘mundos’: do Nordeste rural à vida de mulheres trabalhadoras”. No artigo “Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo”, a Professora Ana Leal explica o provável motivo do esquecimento de sua obra: “talvez pelo fato de ela ser comunista e suas obras estarem repletas de denso teor socialista (naquela época, um compromisso com o PCB) que reivindica direitos iguais para todos, o que não agradava nem ao governo e nem aos empresários do mundo editorial e artístico”. Alina Leite Paim faleceu no dia primeiro de março de 2011.

♦ ♦

Essa postagem é dedicada especialmente a minha esposa Geane Almeida e a minha irmã Dani Oliveira, mulheres especiais, talentosas, competentes e capazes de inspirar todos ao seu redor.

♦ ♦ ♦

Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos no blog. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

Anúncios

AMALIE EMMY NOETHER

EmmyNoether

Poucos meses após o término da Primeira Guerra Mundial, a conceituada Universidade de Göttingen estava dividida. Contrariando o histórico da instituição no reconhecimento de mulheres matemáticas, uma ala conservadora questionava e se opunha à possibilidade de aulas ministradas por mulheres. “O que nossos militares pensarão”, argumentavam, “quando retornarem à universidade e verificarem que tem de aprender aos pés de uma mulher?” O proeminente Professor da instituição, David Hilbert, extremamente irritado com o questionamento, retrucou: “Não vejo em que o sexo de um candidato possa ser um argumento contra sua admissão como Privatdozent. Afinal, o Conselho não é nenhuma casa de banhos”.

Emmy Noether

Essa não foi a primeira e tampouco seria a última vez que Amalie Emmy Noether precisara enfrentar o preconceito de gênero em sua brilhante carreira acadêmica. Mesmo sendo filha do eminente Algebrista, Max Noether, foi preciso uma autorização especial para que pudesse cursar a Universidade de Erlanger, onde seu pai lecionava. Aí Amalie alcançaria o doutorado em 1907 defendendo a tese Sobre Sistemas Completos de Invariantes para Formas Biquadradas Ternárias. Alcançou enorme prestígio nos círculos matemáticos em virtude de suas significativas contribuições significativas à teoria dos invariantes e dos corpos numéricos e, em especial, por desenvolver o Teorema de Noether, “um dos teoremas matemáticos mais importantes já provados dentre os que guiaram o desenvolvimento da física moderna”. Por tudo isso foi convidada por David Hilbert para universidade de Göttingen, onde pode assumir o cargo após aprovação no exame e superar as objeções. Ainda assim, suas aulas oficialmente eram ministradas por Hilbert, a ela sendo designada apenas a condição de ajudante.

Tantas barreiras não diminuíram seu gosto pela matemática e pela álgebra em particular. Com o tempo seu talento angariou lhe uma fama e reputação difíceis de serem questionados. Mesmo tendo algumas dificuldades do ponto de vista pedagógico, foi capaz de atrair e inspirar um surpreendente número de alunos que seguiriam os passos da mestra no campo da álgebra abstrata. É dessa época o lançamento de um de seus trabalhos mais icônicos, o clássico “Idealtheorie in Ringbereichen” (“Teoria de Ideais nos Domínios dos Anéis”), de 1921, onde transformou a teoria dos ideais em anéis comutativos em uma poderosa ferramenta matemática que serve para diversas aplicações.

Amalie Emmy Noether

Amalie Emmy estava no auge de sua carreira e produção acadêmica quando o regime nazista de Hitler chegou ao poder. Sendo de origem judia, Amalie receberia em abril de 1933 um aviso do governo retirando seu direito de ensinar. Sem se abalar, continuou a lecionar em casa onde reunia grupos de alunos, além de ajudar outros colegas que também foram vitimas do expurgo judeu das universidades alemãs. Essa situação durou até a fatídica Noite dos Cristais, quando Amalie percebeu que era hora de deixar a Alemanha Nazista. Vários foram os cientistas que fizeram o mesmo, levando a uma migração acentuada de eminentes pesquisadores das mais variadas áreas para outras partes do mundo, especialmente os Estados Unidos, resultando num crescimento da produção científica estadunidense na primeira metade do século XX.

Tendo recebido convite de trabalho de duas eminentes instituições, uma na Inglaterra e outra nos Estados Unidos, Amalie acabaria optando justamente por essa última. Passaria os últimos anos de sua vida lecionando em instituições americanas de Princeton e Pensilvânia, produzindo intensamente como já era costumeiro. Infelizmente esse período tranquilo acabaria abruptamente com sua morte em abril de 1935, em decorrência de complicações de uma operação no quadril.

A morte de Amalie Emmy Noether gerou grande comoção entre seus colegas. Nas cerimônias que se seguiram ao seu falecimento, Albert Einstein – que usou seu trabalho sobre teoria dos invariantes na formulação da teoria da relatividade – não a poupou de elogios chamando-a de “o gênio matemático criativo mais significativo já produzido desde que a educação superior para mulheres foi iniciada”. Quando alguém se referiu a ela como sendo a filha de Max Noether, seu notório colega e conterrâneo alemão, Edmund Landau retrucou com veemência: “Max Noether foi o pai de Emmy Noether. Emmy é a origem das coordenadas da família Noether.” Em 1982 celebrou-se no Bryn Mawr College, onde suas cinzas foram enterradas, o centenário de seu nascimento.

noether4

Descrita por todos como uma pessoa extremamente amável e afetuosa, isso não impediu que Amalie lutasse pelos direitos femininos na Academia com intensidade e dedicação indescritíveis. Tendo conquistado o direito ao curso superior, depois a poder ensinar e finalmente encarado o opressivo sistema Nazista, tornou-se, não apenas um exemplo de excepcional algebrista, mas também uma fonte de inspiração para inúmeras gerações de mulheres que, assim como ela, precisam encarar diariamente um sem número de barreiras em virtude de seu gênero.

Amalie Emmy Noether é o sétimo e último texto da série sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

GRACE CHISHOLM YOUNG

Grace Chisholm Young3

A universidade de Göttingen na Alemanha é famosa não apenas pelo número de grandes intelectuais e cientistas que por ela passaram ou estudaram, mas também por ser uma das primeiras instituições a reconhecer o trabalho de mulheres nas áreas acadêmicas, especialmente na Matemática. Nessa série de textos sobre as Plêiades Matemáticas já vimos os nomes de Marie-Sophie Germain e de Sonja Kovalevsky reconhecidos pela instituição com o título de Doutor.

Infelizmente, Marie-Sophie Germain receberia o título somente após a sua morte, enquanto Sonja Kovalevsky o recebeu in absentia, ou seja, sem a obrigação de prestar o exame oral (embora, nesse caso o motivo real da liberação tenha sido a excelência do artigo apresentado). A primeira mulher a receber o doutorado em Göttingen foi a inglesa Grace Chisholm Young, já que as universidades na Grã-Bretanha insistiam em não aceitar mulheres em seus cursos de pós-graduação.

Nascida Grace Emily Chisholm numa família consideravelmente abastada em 15 de março de 1868, optou pelo estudo da matemática quando seus pais a impediram de cursar medicina. Graduou-se em primeiro lugar na turma de 1892 de Matemática da Girton College, em Cambridge, quando decidiu continuar seus estudos em Göttingen onde uma turma para mulheres tinha sido recentemente aberta. Após a defesa de sua tese sobre os grupos algébricos de trigonometria esférica, que lhe valeu o doutorado, Chisholm decidiu retornar para a Inglaterra para cuidar dos pais idosos. Acabaria casando com seu antigo tutor da época do Girton College, William Young e, algum tempo depois voltariam a morar em Göttingen.

young

Mesmo não sendo um pesquisador, Grace Chisholm convenceu o marido a acompanha-la nessa carreira. Juntos acabariam publicando uma vasta obra, incluindo trabalhos e artigos científicos, além de livros voltados a introduzir as crianças no saber matemático. Infelizmente, mais uma vez o machismo e preconceitos não permitiam que o gênio matemático de Grace fosse devidamente reconhecido, uma vez que as obras eram publicadas em conjunto com o nome do marido, muito embora ele mesmo reconhecesse que boa parte do mérito das obras cabia à sua esposa, conforme verificado em algumas de suas correspondências.

Durante os anos da Primeira Guerra Mundial, Grace Chisholm e a família se viram obrigados a mudar para Suíça onde continuou em seus trabalhos de pesquisa matemática. Por essa época conseguiu finalmente publicar uma trabalho sobre as bases de cálculo sob seu próprio nome além de escreve um ensaio sobre derivadas infinitas, que ganhou o Prêmio Gamble Girton College em 1915. Infelizmente foi também nessa época que o seu filho mais velho, que era aviador, acabou morrendo em combate. Essa tragédia acabaria por minar a saúde da pesquisadora, interrompendo sua brilhante carreira.

Grace Chisholm Young ainda viveria para ver novamente outra guerra de proporções mundiais se abater sobre a Europa. Com o início dos combates o casal Young foi obrigado a se separar com Grace indo viver na Inglaterra e William ficando na Suiça. Deprimidos com a distância, William morreria em 1942 e Grace em 1944.

young_geometryCP

Capa de um dos inúmeros trabalhos acadêmicos escritos por Grace Chisholm Young

No mito das Plêiades, conta-se que Mérope foi a única das sete irmãs a não ter seu brilho vislumbrado da Terra, por ter ousado casar com um mortal ao contrário de suas irmãs. É triste notar também esse paralelo com relação a vida da Matemática e Pesquisadora Grace Chisholm que teve boa parte de seu talento, por assim dizer, encobertos pelo nome do marido, em virtude da imposição de uma sociedade que não via com bons olhos uma mulher assumindo notoriedade em uma área supostamente mais adequada aos homens.

Igualmente triste é saber que a universidade de Göttingen, referência no mundo da Matemática e também por seu pioneirismo em quebrar as barreiras impostas às mulheres, tenha tido um triste fim ao ser praticamente destruída nas mãos do totalitarismo e discriminação racial e de gênero do governo nazista de Adolph Hitler. Um lembrete válido do quanto pode ser perdido e se regredir quando permitimos que supostos salvadores da pátria com soluções fáceis e dedos acusadores tomem o poder e solapem todas os pequenos avanços conquistados a duras penas.

Grace Chisholm Young é o sexto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

SONJA KOVALEVSKY

Sofia_Kovalevskaya

A decoração era a mais inusitada que poderia se imaginar para um quarto de crianças. Por todas as paredes inúmeras e variadas folhas de papel repleto de cálculos integrais e diferenciais. Fascinada, uma jovem nascida no seio da nobreza russa já estava ali por horas e horas tentando decifrar e dar alguma ordem àquele emaranhado de números, anotações feitas por seu pai quando ainda estudante de matemática. Impressionada, jurou que um ainda entenderia plenamente toda aquela complexa simbologia.

Nascida Sofia Korvin-Krukovsky Kovalevskaya em Moscou a 15 de janeiro de 1850, aquela jovem seria conhecida posteriormente pelo nome de Sonja Kovalevsky e, ainda hoje é considerada a maior matemática da história da Rúsia. Tal era seu talento e obstinação que, aos 14 anos, querendo entender um tratado sobre ótica em um livro de física escrito pelo seu vizinho, Kovalevsky simplesmente ensinou trigonometria a si mesma. Nas palavras do autor do livro: “Ela criou todo aquele ramo da ciência – a trigonometria – uma segunda vez”. Para se ter uma noção do feito, quando Isaac Newton deparara-se com situação similar, ele foi estudar os Elementos de Euclides.

Sofia_Kovalevskaya1

Sonja Kovalevsky

Apesar de todo seu talento, Kovalevsky não escapou do preconceito reinante em relação a mulheres estudando matemática. Impedida de matricular-se na universidade de São Petersburgo precisou de um preceptor particular para continuar os estudos de cálculo. Insatisfeita com essa situação, realizou um casamento de conveniência com o paleontologista Vladimir Kovalevsky, livrando-se assim das objeções familiares sobre estudar no exterior. O casal mudou-se para Heidelberg na Alemanha, onde a jovem matemática manifestou o desejo de estudar com o célebre matemático da época, Karl Weiertrass, após assistir palestras entusiasmadas de um antigo discípulo, Leo Königsberger. Infelizmente o preconceito novamente impediu Kovalevsky de se matricular na universidade onde Weiertrass lecionava por ser mulher. Mas Königsberger fez recomendações tão calorosas, que Weiertrass aceitou-a como aluna particular. Logo ela se tornaria a sua discípula predileta, com quem estudou por quatro anos. Nesse período ela cobriu todo um curso universitário de matemática, além de escrever três importantes artigos, um sobre a teoria das equações diferenciais parciais (pelo qual seria consagrada com o título de Doutor in absentia pela universidade de Göttingen anos depois), um sobre a redução de integrais abelianas de terceira espécie e uma suplementação da pesquisa de Laplace sobre os anéis de Saturno.

Apesar de toda sua qualificação, a dificuldade para encontrar emprego obrigou-a a retornar para casa. No período que passou na Rússia quase não produziu nada relativo à matemática, priorizando atividades literárias, escrevendo ficção, críticas teatrais artigos científicos para um jornal. No entanto, após o suicídio de seu marido em 1883 decidiu voltar a dedicar-se novamente aos estudos matemáticos com ainda mais afinco, retornando para Berlim. Foi a maneira que encontrou para lidar com a tristeza. Ficaria pouco tempo na capital alemã: um ex-aluno de Weiertrass a convidou para lecionar temporariamente na Universidade de Estocolmo, não demorando para assumir em definitivo o emprego, aí permanecendo até sua morte em 1891, vítima de gripe.

Sofya_Vasilyevna_Kovalevskaya_Bust

Pensando na imensa genialidade e capacidade matemática demonstradas por Sonja Kovalevsky, sua morte precoce com apenas 41 anos de idade torna esse fato ainda mais lamentável e triste. No auge de sua carreira e no apogeu de suas capacidades, um dos seus últimos feitos notáveis foi o de conquistar o prestigioso Prêmio Bordin da Academia Francesa com o trabalho “Sobre o Problema da Rotação de um Corpo Sólido em Torno de um Ponto Fixo”, concorrendo com 15 outros trabalhos. Seu artigo foi considerado tão impecável e de tão alto nível que a organização do evento aumentou o prêmio de 3000 para 5000 francos.

Howard Eves afirma que seu lema era: “Diga o que você sabe, faça o que deve, conclua o que puder”. Um lema apropriado para a notável matemática que, mesmo em um período de vida tão curto, foi capaz de aprender, fazer e concluir tanto.

Sonja Kovalevsky é o quinto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

MARY FAIRFAX SOMERVILLE

Mary-Fairfax-Somerville-116050788x1-56aa24975f9b58b7d000fb93

Nem bem o garoto chegara à bela mansão dos Fairfax em Jedburgo, na Escócia, sua irmã mais velha avançou até ele perguntando se conseguira. Com um sorriso maroto, o garoto estendeu um embrulho de tamanho significativo. Sem esconder a ansiedade, a mocinha praticamente arrancou o pacote de suas mãos. Seu conteúdo era considerado tão extremamente impróprio para os olhos de uma mocinha bem educada e de boa família da época, que ela precisara pedir ao irmão para compra-los numa livraria. Com cuidado desembrulhou revelando a perigosa leitura: os volumes de “Elementos”, de Euclides, e da “Álgebra” de John Bonnycastle.

Nascida em 1780 numa bem situada família escocesa, Mary Fairfax Somerville recebeu desde cedo uma educação adequada para, o que se acreditava na época, ser fundamental para uma mulher da boa sociedade, ou seja, ler e fazer algumas contas. O que seus pais não esperavam é que a jovem acabasse por adquirir gosto pela leitura, sempre ansiando ler e aprender mais e mais. Alertados por uma tia de que tantas leituras poderiam incutir na menina um desejo de ser mais do que homem, ela foi enviada para uma escola onde aprenderia atividades propícias e adequadas para uma mulher: mexer com agulhas e trabalhos manuais.

Thomas_Phillips_-_Mary_Fairfax,_Mrs_William_Somerville,_1780_-_1872._Writer_on_science_-_Google_Art_Project

Mary Fairfax Somerville em pintura de Thomas Phillips de 1872 – Wikimedia

Apesar de ressentida por ter seu desejo de aprender restringido daquela maneira, Mary Fairfax não desistiu. Acreditando que era tão direito das mulheres receber a mesma educação recebida pelos homens, ela aproveitava cada oportunidade para melhorar sua leitura, escrita, compreensão das palavras e ampliar suas noções de aritmética. Graças às ideias liberais do pai, teve contato com os ideais da revolução Francesa e com isso sua revolta com aquela opressão só aumentava. Seu empenho em aprender latim sozinha chamou a atenção de um tio que dali em diante passou a ajuda-la. Logo ela já dominava não apenas o latim, mas também o grego. Aos 13 anos foi permitido que se matriculasse numa escola de Edimburgo que passara a aceitar garotas. Aí teria os primeiros contatos com os estudos dos fundamentos de mecânica e astronomia os quais estudava para poder ensinar um colega com dificuldades nessas áreas.

Sem poder avançar nos estudos de maneira formal, Mary Fairfax tornou-se uma autodidata. Aos 24 anos casou-se com um primo, que, para sua infelicidade, além de ser pouco interessado em qualquer tipo de conhecimento científico, nutria profundos preconceitos sobre as capacidades intelectuais das mulheres. O casamento, no entanto, durou apenas três anos. Com o falecimento do marido, ela pode retornar para a Escócia com os filhos onde intensificou os estudos de matemática. Por essa época também começou a estudar trigonometria, seções cônicas e o livro do astrônomo escocês James Ferguson, “Astronomy”. Passou a contribuir com o periódico de matemática da Real Academia Militar de Sandhurst, onde publicava resoluções de complexos problemas matemáticas, chegando a receber uma medalha de prata por sua resolução da equação diofantina. Como não poderia deixar de ser, aproveitou a notoriedade alcançada para ampliar ainda mais a gama de áreas de interesse e estudo, como também comprou uma extensa biblioteca de obras científicas, as quais estudou com o mesmo zelo de anos antes, quando precisara pedir para os irmão comprar os livros que gostaria de estudar.

Seus profundos conhecimentos não só em matemática, mas também em astronomia, química, geografia, microscopia, magnetismo, eletricidade e outros, levou a Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil a convencê-la a escrever uma exposição em linguagem acessível da obra “Traité de Mécanique Céleste” de Pierre Simon Laplace. O resultado foi o brilhante “The Mechanisms of The Heavens”, obra clássica do sistema educacional inglês e que se tornaria leitura obrigatória nas universidades britânicas por mais de um século. O sucesso alcançado pela obra é ainda mais admirável quando lembramos que Mary Fairfax estudou o trabalho de Laplace por conta própria, além de nunca ter podido ter acesso à preparação e estudos formais.

Title-page of Mary Somerville's Mechanism of the heavens (London, 1831)

Folha de rosto de Mechanism of the Heavens

Em 1812 ela casa-se novamente com outro primo, o médico William Somerville, que, ao contrário de seu primeiro marido, a encorajou a prosseguir nos estudos e trabalhos científicos. Vivendo em Londres, o casal pode ter acesso a inúmeros e ilustres pensadores e estudiosos da época, como Ada Lovelace e Charles Babbage, tidos como os precursores da computação. De fato Ada tinha sido não somente amiga, mas aluna de Mary Fairfax com quem tomara lições de matemática.

Frente a todos os obstáculos e dificuldades enfrentados por Mary Fairfax Sommerville para ter acesso à educação, não é de se admirar o papel assumido por ela de ativista pelos direitos da mulher, passando a dedicar boa parte de seus últimos anos de vida empenhada em tornar a educação feminina mais acessível e menos intolerante. Quatro anos antes de falecer aos 91 anos, fez questão do seu nome ser o primeiro na petição feita em 1868 por John Stuart Mill para permitir o voto feminino. Tamanho foi o impacto de sua genialidade que recebeu, tanto em vida como após a sua morte, inúmeras e variadas demonstrações de reconhecimento e homenagens. Foi eleita membro honorário da Sociedade de Física e História Natural de Genebra e da Academia Real Irlandesa. Também foi uma das primeiras mulheres a se tornar membro honorário da Sociedade Astronômica Real, do Reino Unido, em 1835. O astrônomo John Couch Adams afirmou que a razão que o levara a procurar um novo planeta (Netuno), para expoicar as observadas perturbações de Urano, foi uma referência no “The Mechanisms of the Heavens” de Somerville, conforme relatado por Howard Eves em “Introdução à História da Matemática”.

somerville_mary

De menina que precisou usar de subterfúgios para comprar e ler livros de álgebra, a uma das mais brilhantes e geniais matemáticas de que se tem conhecimento: Mary Fairfax Somerville não somente teimou em brilhar naquele firmamento onde sempre lhe fora negado seu espaço, como lutou intensamente pelo direito de outras iguais a ela poderem brilhar também.

Mary Fairfax Somerville é o quarto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

MARIE-SOPHIE GERMAIN

1-sophie-germain-1776-1831-granger2

Paris vivia dias conturbados e violentos em meados de 1789. Eram os primeiros momentos da intensa agitação política e social, que desencadearia a Revolução Francesa.  Nos dias que antecederam a Queda da Bastilha em julho, uma jovem de 13 anos, reclusa na vasta biblioteca de seu pai, um rico comerciante de seda, lia com profundo interesse a história de vida e morte de Arquimedes durante os dias igualmente violentos após o cerco de Siracusa. Aquela leitura marcaria profundamente a vida de Marie-Sophie Germain.

Nascida em 1º de abril de 1776, o impacto daquela leitura a levou a ler, não somente sobre a vida de Arquimedes, mas toda e qualquer obra que versasse sobre cálculos, teoria básica dos números, além dos tratados de Newton e Euler. Esse fascínio pelos números logo chamaria atenção de seus pais, que consideravam preocupante tanto interesse. Levados pelo pensamento ainda corrente na época de que aquilo não eram assuntos para mulheres, a jovem Germain foi privada por seus pais do fogo, luz e casacos, numa tentativa de fazê-la desistir das tais leituras impróprias. Foi um esforço em vão: determinada, a menina esperava os pais dormirem para, enrolada em cobertores, entregar-se aos livros que tanto amava.

O esforço valeu a pena. Com o tempo seus pais foram percebendo que não adiantava insistir. Vencidos pela tenacidade da filha, não só diminuíram a oposição aos seus estudos, como passaram apoia-la. O pai de Sophie Germain chegou mesmo a sustenta-la em sua vida adulta para que a filha pudesse dedicar-se plenamente aos estudos e pesquisa.

sophiegermain1

Essa, porém, não seria a última vez que Sophie Germain enfrentaria oposição em seu interesse pela Matemática devido ao fato de ser mulher. Aos 18 anos demonstrou interesse em matricular-se na recém-inaugurada Escola Politécnica de Paris, mas foi impedida justamente por ser mulher. Mostrando novamente o quanto era determinada, Germain conseguiu acesso aos dados de um certo Monsieur Antoine August Le Blanc, um ex-aluno da Politécnica que havia deixado a cidade recentemente. Utilizando-se desses dados, Germain interceptava as lições enviadas a Le Blanc, devolvendo-as com as devidas respostas a cada semana.

Através desse subterfúgio, ela recebeu inúmeros e rasgados elogios, ao ponto de fazer o supervisor do curso Joseph-Louis Lagrange querer conhecer aquele rapaz que, do dia para a noite, passara de aluno medíocre a alguém capaz de fornecer respostas engenhosas e versáteis para os mais diversos problemas propostos. Apesar do receio, ela se revelou a Lagrange como a verdadeira autora das respostas enviadas. O resultado não poderia ter sido mais positivo, pois, verdadeiramente impressionado pelo talento e aptidão demonstrados pela jovem estudante, Lagrange tornou-se seu mentor e amigo.

Apesar dessa recepção positiva, compreensivelmente, Germain continuou a usar o pseudônimo especialmente para corresponder-se com outros matemáticos e estudiosos. Foi assim que, desejosa de ampliar de seus conhecimentos sobre a teoria dos números, utilizou do mesmo subterfúgio para se corresponder com Carl Friedrich Gauss, um dos maiores matemáticos vivos na época, devidamente apelidado de Príncipe dos Matemáticos. A amizade que surgiria daí levou a sobrevivência de Gauss, quando da invasão da Prússia, onde vivia pelas tropas de Napoleão, graças à intervenção de Sophie Germain. Assim como ocorreu com Lagrange, Gauss ficou impressionado e satisfeito ao descobrir a verdadeira identidade do Monsiuer Le Blanc.

Pesquisas sobre a teoria das superficies elásticas

Capa do seu trabalho Pesquisas Sobre a Teoria das Superfícies Elásticas

Graças à correspondência com o colega prussiano, Sophie Germain pode aprimorar seus conhecimentos e assim contribuir enormemente não apenas na teoria dos números, mas também na física, com ênfase na elasticidade e acústica, e mesmo na engenharia, graças a esses estudos. Em 1808 a Academia Francesa de Ciências propôs um prêmio para quem formulasse uma teoria matemática que explicasse os estranhos experimentos do físico Ernst Chladni. Esses experimentos consistiam em espalhar areia em um prato de vidro e depois passar um arco de violino na borda do prato o que criava desenhos com curiosos formatos. Única concorrente, Germain conquistou o prêmio ao apresentar uma teoria sobre a matemática da elasticidade. Em 1831 ela ainda introduziria em geometria diferencial a útil noção de curvatura média de uma superfície num ponto de superfície. Por tudo isso é frequentemente chamada de Hipátia do século XIX.

Não obstante toda notoriedade alcançada ainda em vida por seus trabalhos, lamentavelmente o título honorário de doutor em matemática lhe tenha sido conferido pela Universidade de Göttingen – em virtude do muito insistir de Gauss – somente após a sua morte em 1831, vítima de um câncer de mama. Ainda mais lamentável foi a notícia oficial de sua morte, designando-a como solteira sem profissão, ao invés de matemática – muito provavelmente a de maior capacidade intelectual já produzida na França. Como se não bastassem essas afrontas, seu atestado de óbito a designava como tão somente como arrendatária, muito provavelmente por nunca ter se casado e ter sido sustentada pelo pai boa parte da vida (mesmo porque, por ser mulher, não lhe era permitido ensinar), bem como seu nome não tenha sido incluído na lista de matemáticos e engenheiros que, com seus trabalhos, possibilitaram a construção da Torre Eiffel, a despeito de seus estudos em elasticidade.

GermainSophie-Bust300px

Marie-Sophie Germain é, ainda hoje, um vívido exemplo das dificuldades enfrentadas pelas mulheres que optam pela carreira acadêmica. Ainda mais: é uma inspiração por toda sua perseverança resoluta em insistir naqueles “assuntos impróprios para mulheres”.  Dos pais que não a queriam interessada em estudos de números ao depreciamento enfrentado na morte, nada foi capaz de parar aquela jovem que, em meio ao terror e violência de uma revolução, pode, numa biblioteca, se encantar com o universo dos números.

Marie-Sophie Germain é o terceiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!