TAG: MINHA UNIVERSIDADE – GEOGRAFIA LICENCIATURA

Há bastante tempo atrás respondi essa TAG muito interessante e curiosa sobre como eu era em meu tempo de escola, originalmente ideia do blog Just Lia. Ao revisitar a postagem notei que essa era uma ideia derivada de outra similar, sendo que essa se referia aos tempos de universidade. Nem preciso dizer que curti bastante a iniciativa de se falar um pouco mais tanto sobre meus anos de universidade, como também sobre o curso em si.

São 15 perguntas e se você quiser responder também é só lembrar de citar o post original no Just Lia.

 ♦

  1. Qual seu curso de graduação?

Eu cursei Geografia Licenciatura na Universidade Federal de Sergipe.

50_ufs

Brasão da Universidade Federal de Sergipe remodelado para comemorar seus 50 anos de existência

  1. Quantos períodos ele tem? E em qual você está?

Na época o curso de Geografia possuía oito períodos, durando, portanto, 4 anos. Me formei em 2011 depois de sete anos e meio de muita luta, conforme eu já contei nesse Guestpost no Meteorópole.

  1. Porque você escolheu esse curso?

No Guestpost e também nesse post aqui, eu conto como e porque escolhi a Geografia com um pouco mais de detalhes. Mas em resumo eu sempre sonhei fazer jornalismo, mas ao reprovar no primeiro vestibular decidi fazer Geografia um tanto por incentivo de minha mãe.

  1. Antes de escolher esse curso você pesquisou sobre o mercado de trabalho e o piso salarial?

Por ter escolhido o curso tão em cima da hora, não tive tempo de fazer esse tipo de pesquisa. Mas, sendo sincero, nunca fui muito de ligar para a questão salarial especificamente. Quanto ao mercado de trabalho, sendo um curso de licenciatura, não havia muitas dúvidas quanto à situação.

  1. Como foi seu primeiro dia de aula? Tem dicas para os calouros?

Meu primeiro dia de aula começou dando a tônica de como seriam minhas chegadas nas aulas iniciais da manhã: atrasado. Era aula de Organização do Espaço Mundial com o Prof. Edvaldo e, ao chegar atrasado vestido como um típico punk, atraí um olhar dos mais curiosos do velho mestre.

Minha dica primeira é esquecer tudo o que viveu antes nos ensinos médio e fundamental. Nem pior e nem melhor, a realidade no ensino superior é apenas diferente e exige que os alunos sejam mais proativos na hora do estudo. Sabe aquela coisa do seu Professor de história mastigar todo o conteúdo pra você? Pois é, esqueça. Outra boa dica é ser curioso. Procure conversar com os colegas, tanto os calouros como você, como também com os veteranos. Se informe sobre as disciplinas, os professores, processos administrativos e acadêmicos, onde ficam os diversos setores da universidade. Ou seja, procure o máximo de informação possível. Mais cedo ou mais tarde elas vão ser muito úteis.

  1. Sobre seu TCC, já começou a fazer? Qual tema pretende abordar?

 Na época o currículo do curso não previa a necessidade de se fazer um TCC, o famoso (e temido), Trabalho de Conclusão de Curso. O mais próximo disso era um relatório de atividade de Estágio, em geral feito em duplas. Eu e minha dupla estagiamos numa turma do ensino noturno do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva (atualmente Colégio Estadual Professor João Costa). No relatório traçamos um perfil do aluno do turno da noite e analisamos as dificuldades enfrentadas por esse aluno, via de regra trabalhador durante o dia, em conciliar estudo e trabalho.

Colégio Estadual Prof. João Costa

Colégio Estadual Presidente Costa e Silva (atualmente Colégio Estadual Professor João Costa)

  1. Você se considera uma boa aluna(o)?

Apesar de ter sido um excelente aluno no ensino fundamental menor (da 1ª à 4ª série), bom no fundamental maior (da 5ª à 8ª série) e regular no ensino médio, considero que na universidade fui um aluno um tanto medíocre. Parte por precisar trabalhar e estudar, outro tanto pois por essa época já ter me decepcionado de vez com todo o sistema educacional em nosso país. No entanto, isso não me impediu de procurar correr atrás por conta própria de mais leitura e conteúdo.

  1. Você está 100% satisfeita com o curso que escolheu?

Durante o curso tive sérias dúvidas se era aquilo mesmo o que queria. Mas todas elas se foram quando comecei a lecionar. Apesar das dificuldades que enfrentei nos primeiros anos como professor, lecionar me ajudou a ter uma visão mais pé no chão da profissão e me ajudou a perceber o quanto ela era capaz de fornecer em prazer e satisfação ao exercê-la.

  1. O seu curso tem algum material especifico que não tem em outros cursos? (ex: estetoscópio e calculadora cientifica.)

Até onde eu saiba não existe nenhum material que seja específico do curso. Utilizamos bastante mapas e cartas e, em certos casos, aparelhos como o GPS. No entanto tanto as cartas e o GPS são muito utilizados por diversas outras áreas do conhecimento além da Geografia, embora sejam, quase sempre, ligadas a ela, especialmente pelo senso comum das pessoas.

  1. Na sua faculdade teve trote? Se sim como foi?

Não houve trote. Na realidade a UFS e outras universidades no Nordeste não possuem um histórico de trotes (ao menos não aqueles violentos ou humilhantes). Não é muito raro, no entanto, os veteranos promoverem trotes solidários, com arrecadação de roupas ou materiais de limpeza para instituições de caridade ou de acolhimento. Um desses trotes que ficou em minha memória foi o que foi feito tempos depois, quando eu já era veterano. Com a desculpa de que iríamos fazer uma dinâmica de grupo pedimos um dos calçados de cada calouro colocando-o num saco. Enquanto passávamos informações sobre o curso, discretamente demos sumiço nesse saco. A partir daí fizemos os calouros iniciar uma peregrinação pelo campus a procura do calçado desaparecido. E, a cada ponto onde insinuávamos ser o local onde estaria o saco sumido (reitoria, biblioteca, restaurante universitário etc.), um veterano estrategicamente ali postado explicava o que era e para que servia cada um daqueles prédios para, então, indicar o próximo passo. Ao final dessa gincana – terminando exatamente onde começou –, os calouros tinham adquirido uma gama considerável de informações, não apenas sobre seu curso, mas também sobre toda a universidade. E de quebra recuperaram os calçados.

538763_223182257786505_1674710922_n

Trote o curso não teve, mas visitas técnicas e viagens de estudo foram várias. Na foto, uma das visitas técnicas ao Município de Laranjeiras (Alguém já me achou aí?)

  1. Seu curso tem muita matemática?

Não muita. Somente no segundo período precisamos usar bastante a matemática ao cursarmos a disciplina Cartografia Temática, onde aprendemos a fazer gráficos e tabelas os mais variados, e não apenas analisando os dados nelas contidos. Mas caso fosse do seu interesse, havia a possibilidade de se pegar a disciplina Introdução à Estatística, e aí sim, a matemática come solta. E como a matemática e eu vivemos uma relação de amor não correspondido, tratei de ficar bem longe dessa disciplina.

  1. Geralmente nas faculdades existem o “ciclo natural de desistência” a turma começa com 70 alunos e permanecem só 20. Isso aconteceu na sua faculdade?

De modo geral o curso de Geografia não possui um histórico de grandes desistências. Muitos alunos se atrasam, mas as desistências são poucas relativamente falando. Aliás, o terceiro período era famoso como o semestre que separava os calouros, pois era quando pegávamos a disciplina Geomorfologia Estrutural com o temido Professor Hélio Mário e Geografia Agrária da exigente Professora Núbia Dias. A coisa mais comum era metade da turma não conseguir passar em uma ou outra, não raro, em ambas. E, curiosamente, apesar de ter perdido várias matérias, fui aprovado nessas duas logo na primeira vez em que as cursei.

  1. Quais dicas você daria para quem está querendo começar a fazer o mesmo curso que você?

Esse é um conselho que eu daria a qualquer pessoa independentemente do curso escolhido: pesquise bastante sobre o seu curso. Procure saber o máximo possível sobre ele. Assim as chances de escolher uma área e acabar se arrependendo depois serão bem menores. E se isso ocorrer não hesite em mudar de área, mas não faça isso sem refletir bastante antes.

524570_223176801120384_93546396_n

Na foto o garboso grupo de alunos (olha eu ali escondido) que ajudou a organizar um dos vários eventos o curso, nesse caso o I Simpósio Sergipano de Geografia Contemporânea

  1. Já ficou em DP? Possui algum método diferente de estudo?

Sendo bem sincero, perdi várias disciplinas. Boa parte devido a dupla jornada trabalho/estudo. Mas uma ou duas por outros motivos. Para ficar somente num caso bem específico houve a vez em que logo no primeiro dia de aula de Geografia Urbana I, após uma explanação do professor, um aluno fez um comentário muito pertinente e embasado. Para nossa surpresa, ao invés de elogiar o comentário o professor displicentemente comentou: “Já sei qual é o seu problema: você lê demais!” diante de uma turma atônita, que não sabia se aquilo era algum tipo de piada (garanto que não era pois já conhecia o professor do semestre anterior com quem cursei a disciplina Geografia da População), dei uma gostosa gargalhada, peguei meus livros e saí daquela sala para nunca mais voltar. Tempos depois tive que explicar ao colega que minha gargalhada não era para ele, mas sim para a situação ridícula de ver um professor universitário tripudiar assim e um aluno que fizera um comentário tão pertinente e enriquecedor para a aula.

Por esse exemplo podemos dizer que meu método diferenciado de estudo podia muito bem ser evitar aprender esses maus exemplos dados por alguns profissionais. Felizmente não por todos.

  1. Faça um resumo básico do seu curso para quem estiver interesse em fazê-lo.

Em seus quatro anos o curso de Geografia Licenciatura procura dar ao aluno as competências para poder entender como o ser humano em suas diferentes sociedades é e foi capaz de alterar a superfície terrestre criando um espaço próprio, procurando entender as relações existentes entre o homem (como sociedade) e esse espaço, seja ele natural ou antrópico. Ainda trabalha as competências necessárias para ser capaz de transmitir esse conhecimento de modo didático e crítico levando o aluno a refletir sobre essa intricada relação entre ser humano e espaço.

É um curso bastante rico e abrangente que procura estudar a sociedade humana através de seus mais variados aspectos, utilizando para isso conhecimentos igualmente diversos, tais como da biologia, climatologia, geologia, economia, história, filosofia etc. Se, assim como eu, você estudou uma geografia decoreba e extremamente chata na escola, esqueça tudo isso. Geografia é uma ciência extremamente crítica, interessante e capaz de nos dar um entendimento e compreensão muito abrangente do mundo em que vivemos.

421031_382308281780852_1774048491_n

Finalmente depois de muito esforço e luta, colando grau ao lado de meus orgulhosos pais

Gostou das respostas? Pois então fique a vontade para responder também. Pode ser aqui nos comentários ou no seu blog. Só não esqueça de mandar o link.

Anúncios

FICÇÃO CIENTÍFICA, MISTÉRIOS E DISCOS VOADORES

Tempos atrás estava na biblioteca da universidade onde trabalho procurando livros para adicionar a minha meta de leitura do ano de 2017. Meio sem querer, descobri entre as seções de Metodologia Científica e de Filosofia uma seção destinada aos livros catalogados como sendo Realismo Fantástico. Entre obras de J. J. Benítez e Charles Berlitz topei com três títulos que chamaram minha atenção. Eram eles o curioso “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” de Rubens Teixeira Scavone, seguido do interessante “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta”, de Pablo Villarrubia Mauso, finalizando com o instigante título “Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol.

Justamente por apresentarem títulos curiosos, interessantes e instigantes fiquei extremamente interessado. E também porque, ao seu modo, cada um desses temas é do meu interesse. Desde os dez anos de idade, quando encontrei uma ­– já na época –, velha edição de “O Triângulo das Bermudas” de Charles Berlitz, os ditos mistérios de nosso mundo é um tema do meu agrado. Por isso, aproveitando o período de férias, catei as três obras na biblioteca e avidamente mergulhei em sua leitura.

_templariosfrankensteinburacosnegroseoutrostemas

Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas de Rubens Teixeira Scavone

Comecei logo por “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” não apenas por ser o título que mais me chamou a atenção (afinal, o que temas aparentemente tão distintos como antigos cavaleiros medievais, o monstro de Mary Shelley e singularidades cósmicas tinham em comum para batizar a obra?), mas também por ser de autoria de um velho conhecido meu: Rubens Teixeira Scavone. Esse autor paulistano, apaixonado por ficção científica já me encantara no início da adolescência com o seu livro “O Projeto Dragão”, um livrinho curto e fascinante sobre as desventuras de um importante estudioso que acredita estar recebendo sinais de comunicação extraterrestre. Para anunciar a importante descoberta, convoca inúmeros colegas das mais variadas áreas da ciência ao complexo onde se encontra o imenso radiotelescópio que vem recebendo os sinais.

Esse livrinho de pouco mais de 90 páginas até hoje me fascina pelo modo sóbrio com que tratou de ciência e ficção científica. “Templários…” conseguiu o mesmo feito mais de 15 anos depois. Coletânea de textos do autor, a obra trata com muita propriedade tanto sobre ciência como sobre ficção científica, não raro mostrando as interessantes e curiosas imbricações entre elas. Apesar de ter achado o primeiro texto um pouco hermético demais, o restante do livro foi um verdadeiro deleite.

Cada capítulo é um convite para a reflexão com base no rico acervo de informações e curiosidades sobre temas ainda mais variados que aqueles sugeridos pelo título. De onde viriam os Discos Voadores? De que sistema planetário, de qual galáxia? Tripulados por que espécie de criaturas; que pretenderiam da Terra? O que é ficção científica? Legítimo gênero literário ou formulação inconsequente de cérebros privilegiados? Os terrestres já enviaram mensagens para os extraterrestres, quando e como virão as respostas? Ou visitas? Esses são apenas alguns dos temas abordados aqui, de modo fascinante, honesto e erudito. Um livro altamente recomendado a todos que se interessam pelo assunto.

Misterios do Brasil

Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta, de Pablo Villarrubia Mauso

O encantamento, no entanto, durou só o tempo e terminar a leitura e partir para a próxima obra. Foi começar a leitura de “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta” e percebi logo de cara a diferença no tratamento do assunto. Se no primeiro livro a tônica dada pelo autor era o de seriedade cética ao tratar cada tema (mesmos os mais controversos como nos casos dos discos-voadores), o mesmo não pode se dizer de Pablo Villarrubia Mauso. Desde o início sua obra se pauta pela intensa credulidade para com qualquer dos supostos mistérios que o autor vai encontrando por suas viagens pelo Brasil. Espécie de diário de viagens por mais de trinta e uma cidades brasileiras, onde o autor brasileiro – mas radicado na Espanha – relata suas pesquisas sobre lendas e monstros de nosso folclore nos estados do Maranhão, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e outros o livro nos leva por uma aventura pelo interior desses estados enquanto nos apresenta a todos aqueles mitos e crenças já velhos conhecidos nossos: lobisomens, mapinguaris, curupiras, uma velha casa abandonada e supostamente assombrada por fantasmas, dentre outros similares. Tudo isso temperado com as próprias crenças do autor, que bebe diretamente na fonte do teórico, escritor, arqueólogo e picareta de carteirinha Erich Von Däniken. Não há explicação lógica para os fenômenos observados? Simples: atuação de alienígenas! Estranhas aparições relatadas pelos habitantes locais? Com certeza são seres de outro mundo! E obra vai seguindo nesse tom.

Essa foi a parte que mais me incomodou na escrita de Villarrubia: a facilidade para creditar ao fantástico a causa dos mistérios investigados, não raro atacando sutilmente as pesquisas sérias realizadas sobre os mesmos temas. Infelizmente esse é o tipo de livro que acaba cultivando o interesse das pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico, criando um círculo vicioso que leva a ainda menos interesse pelo conhecimento científico de fato fazendo que consumam cada vez mais o tipo e pseudociência crédula (e não raro criminosa, embora não seja o caso aqui).

Contudo, apesar da insistente credulidade do autor, “Mistérios do Brasil” não deixa de ser um livro interessante e curioso, especialmente por mostrar um Brasil ainda bem pouco conhecido por nós mesmo brasileiros. Não chega nem perto da qualidade da obra anterior, de Rubens Teixeira Scavone, mas nem por isso deixa de ser uma obra interessante, desde que não se leve em conta os ataques as pesquisas sérias feitas por Vilarrubia. E sua relativa qualidade ficaria ainda mais evidente no avançar a leitura do próximo livro.

porque-no-ha-discos-voadores-a-logica-ufologia-D_NQ_NP_629490-MLB27903712535_082018-F

Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol

Como comentei na TAG: Copa do Mundo, “Porque Não Há Discos Voadores: A Lógica” engana passando a ideia de ser uma obra fruto de uma vasta pesquisa muito bem documentada. A bem da verdade, pesquisa e documentos não faltam no livro. Mas é só. Todo o livro se resume a nada mais que um gigantesco recorte de notícias sobre os avanços (e supostos avanços também) das potências americana e soviética na época da Guerra Fria. Tais tecnologias, segundo o autor (nas pouquíssimas vezes em que tentou analisar algo), sendo observadas por pessoas leigas durante seus testes seriam facilmente confundidas com discos voadores ou máquinas de outros mundos. E é isso. Eis toda a lógica prometida no título do livro após entediantes 400 páginas.

Essa suposta lógica (de que nem tudo de desconhecido que vemos nos céus seja necessariamente um disco voador) é tão boba que qualquer pessoa toma conhecimento de sua existência nos primeiros momentos de estudos de qualquer ciência ligada aos fenômenos atmosféricos, mesmo quando o intuito passa longe dos estudos ufológicos. Só para ficar num exemplo, quando estava na universidade, ao estudar a disciplina Climatologia Aplicada aprendemos sobre as nuvens lenticulares, que, devido ao seu formato peculiar são comumente confundidas com naves espaciais. É algo tão batido que mesmo muitos sites e portais de ufologia possuem postagens sobre esse tema e outros similares. Ou seja, nada de novo na lógica do Sr. Max Sussol.

Nuvens lenticulares

Dois exemplos típicos de nuvens lenticulares

A leitura dessas três obras de temas relativamente próximo, ainda que com abordagens tão distintas por parte de seus autores, serviu para me lembrar como o nosso mundo é cheio de coisas maravilhosas, algumas tão misteriosas quanto fascinantes, sendo que muitas delas exigem de nós uma mente aberta e receptiva no esforço contínuo de tentar entendê-las. Mas, principalmente, lembrou-me que não podemos nos deixar levar pela credulidade excessiva, aceitando explicações fantasiosas apenas porque se adequam às nossas teorias, mesmo sem nenhuma evidência. Ou ainda, que amontoar um monte de supostas evidências sem racionaliza-las e nem relaciona-las entre si e as teorias que se quer provar (ou refutar) também não adianta de nada.

♦ ♦ ♦

Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos no blog. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

DA LUZ QUE SE APAGA

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos”

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury (p. 245)

 Habeas Mentem Luto-1014x487

Desde o início o Habeas Mentem é para mim uma ferramenta de conhecimento. Não apenas compartilhando, mas principalmente adquirindo. Nenhum texto nesse blog é publicado sem antes uma pesquisa, se não exaustiva no mínimo dedicada, de cada tema ou assunto. Aprendo e compartilho um pouco de tanto aprendizado.

Não à toa, desde a reformulação da identidade visual do blog, uma lâmpada acesa iluminando um solo árido é a imagem de destaque e símbolo do Habeas Mentem. Um símbolo que julguei apropriado para o que entendo ser esse pequeno espaço virtual: um local onde o conhecimento é capaz de iluminar a aridez da ignorância.

Ontem eu senti essa luz apagando…

Com um nó na garganta acompanhei um patrimônio incalculável e irrecuperável virar cinzas. Vi, não apenas duzentos anos de história, mas, literalmente, milhares e milhões de anos de conhecimento (tanto descobertos como ainda por descobrir) serem consumidos pelo descaso e desleixo de um Estado incapaz de zelar pela sociedade sob sua responsabilidade.

O Museu Nacional queimou e, atônito, eu não sabia se ficava puto de ódio pelo imenso desprezo das autoridades ditas responsáveis por nosso extremamente rico acervo cultural ou se ficava profundamente triste com tudo o que se perdeu… De certo somente o meu profundo desânimo com nosso país…

Folha de São Paulo

História tornando-se cinzas e fuligem em fotografia da Folha de São paulo

Alguém nas redes sociais disse que ver o Museu Nacional queimando era como ver a própria casa queimando. Fico imaginando a dor e tristeza de todos os pesquisadores que viram anos e anos de seu trabalho tornarem-se pouco mais que cinza e fuligem.

É triste nos vermos num país onde aproximadamente 75% da população é, ou analfabeto funcional ou plenamente analfabeto. Situação lamentável essa que impede uma grande parte das pessoas que aqui vivem entender em sua plenitude o tamanho, não apenas dessa perda, mas principalmente do descaso para com a educação, o conhecimento e o saber no Brasil. E, incapazes desse pleno entendimento, tornam-se incapazes de zelar e se fazer zelar por tudo o que se perdeu e vem se perdendo nessas áreas.

É ainda mais triste entender que essa situação lamentável de nossa população é fruto de um meticuloso e deliberado processo de sucateamento de todo o sistema educacional implementado por uma elite política mesquinha e nojenta que, no intuito de se perpetuarem donas do jogo do poder, não medem esforços em deixar ignorância e desconhecimento como seu legado há gerações. A mesma elite que fez pouco caso da importância do Museu Nacional, assim como faz pouco caso de outros tantos museus, centro de cultura, arte etc. espalhados pelo Brasil afora, e agora, cinicamente, emitem notas de pesar…

Screenshot_2018-09-03-09-42-22

Esse desabafo de minha amiga Sybylla reflete bem o que sinto (Metade dos fósseis do seu mestrado estavam no Museu Nacional)

Especialmente toda a conjuntura nacional, não apenas no âmbito educacional, tem me deixado profundamente desanimado. Ver um acervo de mais de vinte milhões de itens queimando num fogo ainda pior que as chamas literais foi particularmente doloroso. Perceber e entender que pior que o incêndio em si é todo o conjunto de sucateamento, descaso e desinteresse pela cultura e conhecimento em nosso país, foi o mesmo que sentir uma luz se apagando.

Ainda quero acreditar que toda essa situação mudará um dia. Talvez eu não esteja vivo para ver, mas quero acreditar que meu filho poderá ver essa realidade. Por enquanto a sensação é justamente essa que ilustra o cabeçalho, não apenas dessa postagem, mas também da página principal do Habeas Mentem: ao ver se apagar o imenso farol do Museu Nacional me sinto igual a uma lâmpada quebrada que não consegue mais iluminar.

museu

Vou continuar pesquisando, aprendendo, escrevendo, postando e compartilhando na esperança de que essa luz possa voltar a iluminar.

♦ ♦ ♦

Para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

TAG: COPA DO MUNDO

tag-literaria-copa-do-mundo-Momentum Saga

Imagem copiada na cara dura do Momentum Saga

Tem tempo que não respondo uma TAG por aqui. Por isso, assim que vi essa no Momentum Saga, corri para responde-la. Especialmente agora, nessa fase de mata – quando o espírito de Mick Jagger baixou em mim e fez com que todo time que ganhava minha torcida acabava por ganhar de brinde uma passagem de despedida da Copa (precisei torcer pra Inglaterra pra ver se dava Croácia) –, nada como responder uma TAG sobre livros para relaxar.

Se você se animou (ou também está sem sorte nas torcidas), fique a vontade para participar. É só copiar as perguntas e mencionar o Blog Sem Serifa, criador da TAG.

Pênalti: um livro que te encheu de esperança

A Menina Quebrada

A Menina Quebrada” de Eliane Brum

Descobri Eliane Brum vagando pela biblioteca da universidade onde trabalho, onde encontrei esse livro, uma coletânea com 64 crônicas e artigos publicados pela autora no site da revista Época. Botei na lista de minhas leituras para esse ano sem muito interesse nele. E logo nas primeiras páginas a autora me surpreendeu com seu olhar, se não único, com certeza especial sobre as pessoas, relações, sentimentos, sociedade. Enfim, sobre a vida. Me encheu de esperança saber que ainda existem pessoas, não apenas capazes desse olhar especial, mas, principalmente, de serem capazes de escrever sobre elas.

 Prorrogação: um livro que merece continuação

O Boi Aruá

O Boi Aruá” de Luís Jardim

Apesar do título, esse livro conta três histórias diferentes, todas narradas por Sá Dondom, uma velha contadora de histórias, narrados aos meninos Pedro, Joãozinho e Juca. Somente o primeiro trata do boi do título, sendo os outros “História das Maracanãs” e “História do Bacurau”. Esse livro é uma delícia de ser ler especialmente para nós nordestinos, onde encontramos os mais variados aspectos do rico acervo mitológico do sertanejo condensadas nas histórias contadas por Sá Dondom. Uma pequena obra-prima do pernambucano Luís Jardim, que muito merece uma continuação. Uma pena o autor, falecido em 1987, não estar mais entre nós para poder nos agraciar com esse presente.

Impedimento: um livro que alguém precisou explicar para você

Porque Não Há Discos Voadores

Por Que Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol

Tudo nesse livro parecia indicar uma pesquisa fortemente embasada, cujo intuito seria apresentar evidências lógicas e cientificas mostrando os inúmeros avistamentos de objetos voadores não identificados serem, através de explicações bem menos extraordinárias que naves extraterrestres. Nada disso! O livro é uma imensa colagem (420 páginas!) de notícias e fatos históricos recentes – isso até o ano de 1986 – sem muita correlação entre si. O autor não manifestou nenhuma preocupação em explicar como essas informações comprovam a certeza manifesta no título. Somente nas últimas 20 páginas o “autor” finalmente aparece para afirmar que, conforme tudo o que foi exposto (!), é óbvio constatar que Discos Voadores não existem (!!). E aí de modo bem preguiçoso expõe algumas possibilidades. Sinceramente, para mim, esse livro é como aqueles trabalhos de alunos preguiçosos: um recorte de inúmeros textos diversos e no final o aluno quer nos convencer que pesquisou e fez o trabalho. Até hoje não entendo qual foi a tal lógica usada por seu “autor”. E, não sei o que é pior: se o fato de ainda não ter encontrado quem me explicasse a obra ou descobrir que esse é apenas a primeira parte de uma trilogia que ainda conta com os títulos: “Os Falsos Discos Voadores – Secreto” e “Não Existem Discos Voadores – Comprovado”!

Goleiro: um autor ou livro que segurou a barra, mesmo com várias críticas

preconceito-linguc3adstico-de-marcos-bagno

Preconceito Linguístico” de Marcos Bagno

Dos livros que já li, esse é sem dúvida o mais criticado. Eu o comprei e li por indicação da Samantha em uma resenha sua no Meteorópole. Por ter gostado tanto do livro fiquei profundamente impressionado com o número de críticas negativas do livro, tanto no Skoob (quem quiser me seguir é só clicar nesse link) como na internet como um todo. Nem tão surpreendente foi perceber o quanto essas críticas só ajudavam a confirmar todo o preconceito linguístico existente em nosso país. Aliás mais um tipo de preconceito no qual nos destacamos, infelizmente.

7×1: um livro que te deixou derrotada(o)

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” de Svetlana Aleksiévitch

Já li e já assisti muita coisa sobre as guerras mundiais. Mas nada do que eu já tinha visto antes poderia me preparar para esse livro. Ler os relatos das mulheres russas que lutaram na Grande Guerra Patriótica (como a Segunda Guerra Mundial é conhecida na Rússia) foi uma experiência destruidora acima de qualquer outra coisa. Esse é daqueles livros que, apesar da crueza e violência (ou mesmo por causa disso tudo) a leitura é essencial para entendermos melhor a participação feminina no pior conflito armado pelo qual a humanidade já passou até hoje.

Canarinho pistola: um livro que você leu usando a força do ódio

Diário da Corte

Diário da Corte” de Paulo Francis

Misógino, racista, esnobe. Diário da Corte é um livro que, através dos textos publicados pelo autor na Folha de São Paulo, nos mostra todas essas facetas do, assim considerado, “monstro sagrado” do jornalismo brasileiro Paulo Francis. Como lembrou um resenhista da obra no Skoob, ele “em um artigo sobre a sociedade Nova Iorquina dos anos 70, chama Bianca Jagger de prostituta, imagine o que não escreveria sobre Luciana Gimenez…” Para piorar o livro ainda apresenta passadas de pano inacreditáveis sobre esses preconceitos em sua orelha, prefácio e posfácio. Um livro que nem mesmo a alta erudição do Sr. Francis impediu de me dar engulhos a cada página lida.

Hexa: um livro que você não perde a esperança de que vai ler

Vovó Nagô e Papai Branco

Vovó Nagô e Papai Branco – usos e abusos da África no Brasil” de Beatriz Góis Dantas

Esse é considerado um “livro desmistificador, polêmico e iconoclasta, [onde] a autora mostra que a configuração das religiões afro-brasileiras se dá no confronto das posições ideológicas dos vários atores sociais: senhores, escravos, políticos, policiais, poderosos homens de negócio, padres, pais e mães-de-santo, psiquiatras etc.” Só por essa sinopse há muito tempo tenho vontade de ler esse livro, que é tido como um dos grandes trabalhos da antropóloga sergipana Beatriz Góis Dantas (sobre quem eu falei um pouquinho nesse post: Oito Mulheres Sergipanas Para Se Conhecer Nesse 8 de Março). Uma obra que, a despeito de seu status de polêmico, tenho certeza será muito enriquecedor.

*   *   *

Gostou da TAG? Está gostando do Habeas Mentem? Então não deixe de comentar, curtir e compartilhar! E não esqueça de visitar e curtir também nossa fanpage!

Até mais!

90-AUTOMATIC

Automatic

Banda: The Jesus and Mary Chain

Integrantes: Jim Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias) e William Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias).

Gravação: 1989

Lançamento: 9 de outubro de 1989

Duração: 43m26s

Produção: Alan Moulder

Sobre o disco:

The Jesus and Mary Chain é uma das bandas mais interessantes a surgirem nos anos 80. Misturando as influências que iam de Velvet Underground a Beach Boys, passando por The Stooges e uma inconfundível atitude punk rock, os irmãos William e Jim Reid assombraram o mundo da música a partir de 1984 com o lançamento de inúmeros singles de sucesso como “Upside Down”, culminando com o lançamento do clássico inegável Psychocandy um ano depois.

jesusandmaryFEAT-1600x856

Os irmãos Reid

A recepção positiva desse disco por parte do público foi acompanhada pela crítica que logo tratou de marcar que os irmãos Reid tinham “reinventado o punk rock”. O impacto desse primeiro álbum é sentido até hoje com inúmeras bandas repetindo sua fórmula, nem sempre com os mesmos resultados, infelizmente. Com o sucesso banda começou então a excursionar pela Europa e também pelos Estados Unidos. Seus shows ficaram famosos por terem no máximo 35 minutos de duração onde reinava o caos, com os músicos vestidos totalmente de preto tocando de costas para o público na maior parte do tempo. Com os irmãos Reid subindo nos palcos invariavelmente bêbados e drogados era comum os shows terminarem com brigas entre eles. Músicos entravam e saíam constantemente e assim o grupo continuou até 1989 quando lançam seu terceiro trabalho, Automatic.

Apesar de seus últimos álbuns serem considerados por muitos como alguns dos melhores discos de estreia de uma banda de rock, o que pode ser visto nas relativamente boas vendas, Automatic não teve uma recepção positiva nem dos críticos e menos ainda dos público. Com uma sonoridade diferente dos trabalhos anteriores, mais eletrônico (um tanto devido ao uso de baterias eletrônicas e outro muito por conta do novo produtor, Alan Moulder, que reduziu significativamente as distorções características da banda), o disco revelou um The Jesus and Mary Chain bem menos inspirado. Com altos e baixos Automatic, apesar das boas faixas “Head On” e “Blues From a Gun”, era apenas uma sombra do que os Reid eram capazes de fazer.

Sendo assim, é muito natural nos perguntarmos: “Se Automatic não é essa maravilha toda, que diabos então esse disco está fazendo nessa lista?” Bem, a resposta mais sincera de minha parte é um enfático “não faço a menor ideia!”

Quando analisamos a lista completa de discos nessa lista fica fácil perceber os critérios utilizados por seus autores para escolher cada um. São álbuns que, de um modo ou de outro, mudaram a face do rock e, em alguns casos, da música como um todo (a exemplo de Nevermind ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, respectivamente). Trabalhos que, não apenas foram, mas ainda hoje são capazes de influenciar novos trabalhos e novos artistas (qualquer um dos discos de David Bowie). Obras que, ainda que tivessem sido um fracasso total quando lançados, acabaram tempos depois sendo reconhecidos como verdadeiras obras primas (melhor exemplo que vem à mente é Funhouse do The Stooges). E Automatic não é nada disso.

Sendo bem pragmático, mesmo quando analisado sem ter em mente o potencial das mesmas mentes criadoras de Psychocandy – esse sim um clássico incontestável – e Darklands (o segundo e muito bom álbum da dupla), esse é um disco apenas regular. The Jesus and Mary Chain é uma da grandes bandas a surgirem, mas definitivamente considero bastante equivocada a presença de Automatic nessa lista. Nada contra o álbum em si, que é até bem legalzinho, porém um tanto irregular, além de pouco inspirado e com certas incongruências. Primeiro: ele não me parece honrar o som feito pelo Jesus and Mary; segundo: as limitações de se usar uma bateria eletrônica e até mesmo algumas linhas do baixo feitas com o sintetizador; terceiro: tanto a crítica quanto o público não receberam bem esse álbum, sendo ainda hoje considerado um trabalho menor do grupo. Se os autores da lista queriam tanto colocar um outro trabalho dos caras aqui – além de Psychocandy –, que ao menos fosse em 100º, fechando a fila. Ou, melhor ainda, que pusessem em seu lugar Darklands, um álbum, se não emblemático, ao menos com uma melhor recepção tanto de crítica quanto de público.

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

OITO MULHERES SERGIPANAS PARA SE CONHECER NESSE 8 DE MARÇO

O dia Internacional da Mulher, comemorado todo dia 8 de março, foi instituído em memória das mulheres que, em uma série de lutas e reinvindicações por melhores condições de trabalho e direitos sociais e políticos entre os séculos XIX e XX. Data para lembrar não apenas do muito conquistado com muitas lutas, mas principalmente do muito que ainda precisa ser alcançado.

Infelizmente não é raro que a história de lutas e conquistas de muitas mulheres ainda hoje sejam simplesmente relegadas ao esquecimento. Vítimas do desprezo e do preconceito, inúmeras histórias de mulheres talentosas e competentes são condenadas ao esquecimento apenas por serem consideradas mulheres.

Esse é o caso de muitas das principais personalidades femininas da história sergipana. Como já relatei em outros textos, Sergipe, mesmo com toda a riqueza de sua história e cultura, possui uma grave deficiência quando se trata de divulgar e valorizar toda essa riqueza. O quadro se agrava ainda mais quando se trata das mulheres sergipanas. Em sua grande maioria são totalmente desconhecidas no próprio estado onde nasceram e viveram, mesmo quando em muitos casos alcançam reconhecimento em outras partes do Brasil e até mesmo em outros países.

Por esse e outros motivos, decidi retomar esse texto que, originalmente, estava programado para o ano passado. Mas, como expliquei no texto sobre Maria Beatriz Nascimento, foi extremamente complicado encontrar informações a respeito das inúmeras mulheres que eu tinha listado. Felizmente, após um ano de algum esforço, consegui não apenas acesso a mais informações, como ainda ampliei a minha lista ao encontrar ainda mais nomes de sergipanas esquecidas a despeito de toda notoriedade por elas alcançadas.

Fica aqui inclusive um comprometimento comigo mesmo de continuar essa pesquisa, complementar as informações já conseguidas e persistir no esforço de tornar novamente conhecidas essas histórias infelizmente tão negligenciadas. Esse texto é apenas o primeiro passo.

Afinal, nas palavras da minha amiga Lady Sybylla: “Leia mulheres, conheça e divulgue nossos trabalhos, apoie e consuma nossa arte. Não apenas no Dia Internacional da Mulher, mas todos os dias, sempre.”

1-Maria Thetis Nunes

01-Maria Thetis Nunes

Nascida no município de Itabaiana em 06 de janeiro de 1925, Maria Thetis Nunes foi a primeira sergipana a ingressar no ensino superior, formando-se em História e Geografia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, primeira mulher a lecionar no influente e prestigiado Colégio Atheneu Sergipense, onde cursara o secundário e também viria a se tornar a primeira diretora poucos anos depois. Após ter cursado a primeira turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), onde permaneu quatro anos como assistente da cadeira de História, dedicando-se à Pesquisa da História da Educação no Brasil, Maria Thetis foi nomeada pelo Ministério das Relações Exteriores a Diretora do Centro de Estudos Brasileiros na Argentina, onde permaneceu mais quatro anos, ao término dos quais retornou à Sergipe em 1968 para ocupar o cargo de professora titular de História do Brasil, História Contemporânea e Cultura Brasileira da recém criada Universidade Federal de Sergipe, onde, na qualidade de decana, foi por duas vezes Vice-Reitora e Professora Emérita ao se aposentar depois de 47 anos de serviços prestados ao magistério. De importância crucial para o ensino e magistério no estado de Sergipe, Maria Thetis não apenas deu a conhecer a história sergipana como se integrou a ela, ajudando a difundi-la ao mesmo tempo em que formava inúmeros intelectuais sergipanos.

2-Beatriz Góis Dantas

02-Beatriz Gois Dantas

Graduada em Geografia e História pela Faculdade Católica de Filosofia, em História pela Universidade Federal de Sergipe e Mestra em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas, Beatriz Góis Dantas é a mais importante antropóloga e pesquisadora na área em Sergipe. Possui rica obra publicada em livros, capítulos de livros e artigos em revistas especializadas sobre as populações indígenas e religiões afro-brasileiras em Sergipe. Nascida em 1 de Dezembro de 1941 na cidade de Lagarto, essa pesquisadora incansável foi responsável por preencher uma lacuna histórica na bibliografia sobre o suposto “desaparecimento” dos índios sergipanos na segunda metade do século XIX, identificado na realidade como um processo de negação das identidades indígenas associada a expropriação de terras. Em 1970 assumiu a direção do Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico onde permaneceu apenas oito meses, tempo suficiente para efetivar o mapeamento da situação dos monumentos tombados pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Sergipe, bem como o registro fotográfico das imagens e santos localizados na igreja e a reorganização e recuperação do Arquivo Público Estadual. Aposentou-se como Professora da Universidade Federal de Sergipe em 1991 estando atualmente a frente da Comissão Permanente de História do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

3-Terezinha Alves Oliva

03-Terezinha Oliva de Souza

Terezinha Alves Oliva é autora do livro “Impasses do Federalismo no Brasil: Sergipe e a Revolta de Fausto Cardoso”, obra importante no entendimento dos primeiros anos da República em Sergipe. É a mais velha de dez irmãos, nascida na pequena Riachão do Dantas, no sul do estado. Mudou-se para a capital, Aracaju, em 1956 onde, por já saber ler com fluência, foi transferida do pré-primário para o Primeiro Ano. Cursou no Colégio Patrocínio São José os ensinos Primários e o Ginásio ingressando recém-criada Universidade Federal de Sergipe em 1968, graduando-se em História em 1971, finalizando o mestrado também em História pela Universidade Federal de Pernambuco em 1981 e o doutorado em Geociências (Geociências e Meio Ambiente) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho em 1998. Aluna de Beatriz Góis Dantas durante a graduação atuou junto à mestra, na qualidade de estagiária no fim do curso, no projeto de reorganização do Arquivo Público do Estado, órgão o qual dirigiu depois de formada. Foi também diretora do Museu do Homem Sergipano, vinculado à Universidade Federal de Sergipe, ocupou a chefia do Departamento de História e do Programa de Documentação e Pesquisa Histórica (PDPH), e atualmente é a oradora oficial do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Seguindo os passos de Maria Thétis Nunes e Beatriz Góis Dantas, Terezinha Oliva foi peça fundamental na ampliação do conhecimento da história sergipana, seja através dos livros e artigos, frutos de extensa e minuciosa pesquisa, seja pelo comprometimento, seriedade e rigor a frente dos órgãos e departamentos onde atuou.

4-Ofenísia Soares Freire

04-Ofenisia Soares Freire

Professora, militante política e intelectual sergipana, Ofenísia Soares Freire é natural da cidade de Estância de onde saiu para estudar no Colégio Interno Senhora Santana em Aracaju em 1925. Retornou para Estância após se diplomar no magistério pela Escola Normal Rui Barbosa, onde se dedicou a docência com especial engajamento. Possui uma longa história na atividade docente, lecionando no Atheneu Sergipense onde ficou até sua aposentaria em 1966. Além do Atheneu, lecionou no Colégio Jackson de Figueiredo e no Colégio Tobias Barreto e, depois de sua aposentadoria continuou suas atividades, dando aulas em pré-vestibulares, ministrando cursos, participando da comissão julgadora de vários concursos literários. Foi ainda assessora do reitor na UFS, com o Cargo de Revisora de Textos no período de 1984-1988, membro do Conselho Estadual de Cultura, membro do Conselho Estadual de Educação, sócia do Instituto Histórico de Sergipe. Foi também militante política, especialmente nos duros anos da Ditadura Militar quando foi perseguida, teve seu mandato extinto como conselheira estadual da educação e foi afastada da cadeira no Atheneu Sergipense. Intelectual respeitada publicou inúmeros livros, com destaque para a obra “Presença Feminina em Os Lusíadas”, tendo sido a segunda mulher a assumir uma cadeira na Academia Sergipana de Letras. Faleceu em 24 de julho de 2007 aos 93 anos deixando um vasto legado intelectual para o estado de Sergipe.

5-Eufrozina Amélia “Zizinha” Guimarães

05-Zizinha Guimarães-a

Nascida no município sergipano de Laranjeiras, Eufrozina Amélia Guimarães, a Professora Zizinha, destacou-se em sua atuação comprometida como professora e artista numa época em que uma mulher e em especial a mulher negra dificilmente alcançava alguma posição de destaque. Infelizmente, mesmo com sua atuação decisiva no campo educacional de Laranjeiras, sabemos muito pouco sobre sua história. Acredita-se que tenha nascido em 26 de dezembro do ano de 1872. Teve acesso a educação tendo assim a oportunidade de demonstrar sua inteligência aguçada, talentos e habilidades. Afirma  a discente do curso de Museologia da Universidade Federal de Sergipe e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em História das Mulheres – GEPHIM, Lívia Borges Santana: “É inquestionável a importância da professora Zizinha para a formação da sociedade de Laranjeiras. Ela dedicou sua vida ao ofício de ensinar e contribuiu para o crescimento intelectual de várias gerações de sergipanos. Contudo, sua história está dispersa em páginas de trabalhos acadêmicos e em algumas publicações. Seus objetos pessoais estão espalhados nos mais diversos e inusitados acervos, fato que torna sua memória ameaçada pelo esquecimento. Diante de tudo isso, é necessário garantir a salvaguarda dessa memória, uma memória que conta de maneira surpreendente detalhes da vida de uma professora que é lembrada até hoje por seus ex-alunos como uma pessoa inteligente, elegante e amável.” Infelizmente, mesmo tendo se passado quase sete anos desde que essas palavras foram escritas, pouco foi feito no intuito de se mudar essa realidade de falta de reconhecimento sobre a história de uma das mais ilustres personalidade não apenas de Laranjeiras, mas de todo o estado.

6-Aglaé D’Ávila Fontes

06-Aglae Fontes

Professora, escritora, folclorista, historiadora, uma das maiores pesquisadoras do folclore do estado de Sergipe, diretora do Centro de Criatividade de Sergipe, sócia do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e integrante da Academia Sergipana de Letras. Chegou a ser secretária de Estado 3 vezes. Apresentadora e produtora do programa “Andanças do Folclore Sergipano” na TV Caju. Ajudou muito a ingressar na vida artística, com sua escolinha de música, por volta do ano de 1950. A incansável Aglaé D’Ávila Fontes nasceu na cidade Lagarto, mas morou em diversas cidades em virtude da profissão do pai, servidor público. Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Educação Musical pela Universidade Federal de Sergipe, sua grande paixão sempre foi a licenciatura além da dedicação para com a cultura e tradição sergipana, tanto que, mesmo aposentada continua ativa, ensinando e preocupada com a conscientização dos sergipanos da importância de que as novas gerações tenham um referencial cultural.

7-Maria Rita Soares de Andrade

07-Maria Rita Soares Andrade-a

Nascida em 03 de abril de 1904 em Aracaju, a filha de operários Maria Rita Soares de Andrade foi a primeira mulher nomeada Juíza Federal no Brasil. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1926, apenas a terceira no estado a conseguir o feito, atuando como advogada tanto na capital baiana como em Aracaju. Foi membro do Ministério Público e do Conselho Penal e Penitenciário, professora de literatura no Colégio Atheneu Sergipense e de Direito Comercial na Escola do Comércio, além de ter funcionado ad hoc como Procurador da República e Procurador Geral do Estado. Teve atuação de destaque no movimento feminista ao lado de Bertha Lutz. Numa CPI para investigar a situação da mulher ocorrida na década de 70, ela falou de improviso citando pessoas, datas e narrando acontecimentos relacionados com a história da liberação da mulher brasileira com uma precisão que impressionou a todos (três senadores e três deputados, alguns jornalistas e curiosos) que assistiram ao seu depoimento. Ao final da palestra, quando o senador Heitor Dias (Arena-BA) afirmou que não havia mais discriminação contra a mulher, tanto que o homem geralmente a coloca “num altar”, Maria Rita interrompeu-o com um sonoro “discordo” esclarecendo que “é justamente esta história de colocar a mulher num altar, que vem nos desgraçando”. Faleceu em 1998 aos 94 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro onde atuava como advogada após sua aposentadoria compulsória do cargo de Juíza Federal, exercendo a magistratura como titular da 4ª Vara Federal. Apesar do alto grau de renome e importância alcançado por ela na magistratura brasileira, infelizmente Maria Rita é mais uma de muitas ilustres desconhecidas em sua própria terra.

8-Alina Leite Paim

08-Alina Paim

Sergipana, escritora, comunista, silenciada e esquecida. Assim podemos resumir a vida e obra da sergipana nascida no município de Estância em 10 de outubro de 1919, cuja obra chegou a ser prefaciada e elogiada por Graciliano Ramos e Jorge Amado. Por ter perdido a mãe ainda pequena Alina Leite Paim foi criada na cidade de Simão Dias por três tias, com quem teve uma educação severa e rígida. Militante do Partido Comunista do Brasil e das causas feministas foi perseguida pelo regime militar, sofrendo perseguições e pressões de toda ordem inclusive processo judicial conforme relatado pelo pesquisador Gilfrancisco dos Santos. Além de contribuir com artigos em vários jornais, Alina escreveu dez romances e quatro livros infantis, tendo alguns deles editados na Rússia, China, Bulgária, e Alemanha. A Professora Ana Leal Cardoso, da Universidade Federal de Sergipe, destaca o fato de as obras de Alina Paim estarem “repletas de personagens femininas e feministas que lutam por um mundo mais justo. De ‘Estrada da Liberdade’ (1944) a ‘A Correnteza’ (1979), a luta da mulher por um espaço mais democrático e inclusivo está presente. Sua narrativa é construída por uma sensibilidade artística bem trabalhada, capaz de traçar caminhos que levam o (a) leitor (a) a diferentes ‘mundos’: do Nordeste rural à vida de mulheres trabalhadoras”. No artigo “Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo”, a Professora Ana Leal explica o provável motivo do esquecimento de sua obra: “talvez pelo fato de ela ser comunista e suas obras estarem repletas de denso teor socialista (naquela época, um compromisso com o PCB) que reivindica direitos iguais para todos, o que não agradava nem ao governo e nem aos empresários do mundo editorial e artístico”. Alina Leite Paim faleceu no dia primeiro de março de 2011.

♦ ♦

Essa postagem é dedicada especialmente a minha esposa Geane Almeida e a minha irmã Dani Oliveira, mulheres especiais, talentosas, competentes e capazes de inspirar todos ao seu redor.

♦ ♦ ♦

Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos no blog. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!