OS 40 ANOS DO PROGRAMA VOYAGER

Em 20 de agosto e 5 de setembro de 1977 eram lançadas ao espaço pela NASA uma das mais importantes e longevas missões espaciais da história: o Programa Voyager.

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Sua origem remonta aos anteriores programas de exploração do Sistema Solar desenvolvidas pela NASA (National Aeronautics and Space Administration) através de sondas não tripuladas. O primeiro foi o Programa Pioneer contando com inúmeras missões entre 1958 e 1978, sendo as mais bem sucedidas as Pioneer 10 e Pioneer 11. Depois veio o Programa Mariner entre os anos de 1962 a 1973, sendo esse o primeiro programa espacial com o objetivo específico de explorar os planetas do Sistema Solar (inicialmente o objetivo das Pioneer era a Lua e somente depois se estendeu aos planetas externos). Contando com cinco missões e a utilização de dez sondas, o Programa Mariner conseguiu êxito em alcançar Vênus em 1962 com a Mariner 2, Marte dois anos depois com a Mariner 4 e finalmente Mercúrio em 1973 com a Mariner 10.

Foi pensando em dar continuidade ao Programa Mariner que a NASA traçou o objetivo de mais duas missões visando alcançar os planetas além do cinturão de asteroides entre as órbitas de Marte e Júpiter. Por ser um objetivo diferente da missão original, decidiu-se iniciar um programa totalmente novo, o qual acabou sendo designado Voyager.

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Concepção artística de uma das sondas Voyager tendo ao fundo o Senhor dos Anéis: Saturno. Imagem do wallup.net

O Programa contou com duas missões distintas. Aproveitando um raro alinhamento entre os planetas exteriores que facilitaria o estudo de cada um deles com o uso da mesma nave, ao contrário dos programas anteriores, onde cada sonda era direcionada a um astro específico. Assim em 20 de agosto de 1977 foi lançada a Voyager 2, sendo sua missão principal visitar os gigantes gasosos Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, enquanto a Voyager 1, lançada em 5 de setembro, visitaria apenas Júpiter e Saturno, mergulhando logo após num longo voo até Plutão, sendo que objetivo final mudou no decorrer da missão. A diferença entre as missões foi proposital, fazendo com que percorressem trajetórias distintas, permitindo assim a uma das sondas atingir o distante Plutão, na época ainda considerado um planeta.

A diferença entre as trajetórias fez com que a Voyager 1, mesmo lançada depois, chegasse primeiro ao seu objetivo inicial, após uma jornada de quase dois anos. A 05 de março de 1979 a sonda alcançava seu ponto mais próximo do gigantesco Júpiter, podendo ser vista no vídeo logo abaixo. Tendo realizado uma série de fascinantes descobertas sobre o planeta e seus satélites, rumou na direção de Saturno, onde chegou em novembro de 1980 e, também aí, realizando descobertas impressionantes.

Embora houvesse muita curiosidade sobre as eventuais novidades sobre os anéis de Saturno (nisso não houve decepções), o mais impressionante foi identificar uma densa atmosfera ao redor de seu satélite natural Titã. Tão impressionante foi essa descoberta, que os cientistas da NASA optaram por mudar a trajetória da nave, levando-a a sobrevoar Titã. Devido a essa mudança de trajetória o próximo passo da missão (ir até Plutão) precisou ser abandonado. Somente em julho de 2015, com a sonda New Horizons o distante mundo congelado foi finalmente alcançado.

Seguindo os passos da irmã, a Voyager 2 chegou em Júpiter e em Saturno em 09 de julho de 1979 e 25 de janeiro de 1986. Em ambos foi capaz de fazer novas descobertas não registradas pela Voyager 1. Repetiu os feitos em sua passagem por Urano em janeiro de 1986 e Netuno em agosto de 1989, encerrando assim a missão programada.

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Concepção artística da Voyager fazendo seu sobrevoo sobre o gelado e distante planeta Netuno. Imagem do celestiaproject.net

Tendo boa parte de seus equipamentos ainda totalmente operacionais e capazes de enviar dados, o Programa Voyager iniciou uma longa viagem rumo aos confins do Sistema Solar. Sabendo que seu destino era se perder além dos limites de nosso próprio sistema, uma equipe da NASA liderada pelo brilhante e saudoso Carl Sagan teve a ideia de criar uma mensagem a ser acoplada às naves. Essa mensagem deveria falar um pouco sobre seus criadores e sobre o mundo de onde vinham. O destinatário? Uma possível civilização alienígena ou mesmo os próprios seres humanos, num futuro quando o segredo para se viajar pelas imensas distâncias do cosmo já tenha sido revelado.

O Golden Record foi criado com esse objetivo. Composto de um disco de cobre banhado a ouro, tem gravado nele os mais variados imagens e sons terrestres, incluindo saudações em 55 idiomas e uma coletânea musical de diferentes épocas e culturas, incluindo obras de Beethoven e Chuck Berry.

Voyager Golden record-Galeria do Meteorito

O Golden Record em imagem do Galeria do Meteorito

Sendo uma criança muito curiosa sobre o espaço, astronomia e crescendo em meados dos anos 80 e começo dos 90, as Voyager sempre exerceram um grande fascínio em minha vida. Perceber como os livros escolares de ciência e geografia eram atualizados de um ano para o outro por conta das novas descobertas era algo incrível. Foi quando pela primeira vez na vida eu percebi que estava vendo a história acontecendo. Lembro especialmente de comparar meus livros escolares com uma enciclopédia lançada poucos anos antes e perceber a diferença gritante no conteúdo. Informações como a existência de anéis em todos os gigantes gasosos por exemplo, eram inexistentes na enciclopédia, mas bem detalhadas no livro escolar.

Foi também graças a essa constante atualizações de informações que pude entender plenamente que a ciência não é algo estanque, imutável. É um crescendo de conhecer que nunca se esgota, sempre se renovando, se corrigindo e evoluindo. Entender isso ajudou na minha própria formação. Me ajudou a desenvolver um certo ceticismo, ao mesmo tempo que desenvolvia minha curiosidade em querer sempre aprender mais e mais.

Blog Mega Arquivo-voyager

A Voyager 1 em infográfico retirado do Blog Mega Arquivo

O Programa Voyager foi fundamental na evolução do nosso conhecimento sobre nosso próprio sistema estelar e do universo que habitamos. Não apenas por nos trazer lindas imagens nunca antes vistas de nossa vizinhança planetária, mas, especialmente, por nos mostrar o quão surpreendente o universo lá fora pode ser, lembrando a todos nós, a toda sociedade humana que a maior e melhor aventura de todas é o constante aprendizado.

A seguir copio alguns links legais e curiosidades para se aprender mais sobre o Programa Voyager e seus 40 anos de missão:

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Até mais!

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DA IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA MENTE ABERTA

Sir Fred Hoyle foi um brilhante matemático e astrônomo inglês. Durante a primeira metade do século XX ele empreendeu uma verdadeira batalha com os defensores de uma teoria contrária a sua, que afirmava que o universo poderia ter um início. Hoyle, diferente desses, acreditava que a ideia de um universo tendo um começo era absurda e, por isso, postulou uma teoria onde explicava o universo como sendo eterno, sem um começo e sem um fim, onde a matéria era constantemente formada. Essa teoria foi chamada de Teoria do Universo Estacionário.

Fred Hoyle

Fred Hoyle

Na época em que essas teorias eram debatidas não havia meios para se comprovar uma ou outra. Apesar de brilhantes, sem meios para prova-las, ambas eram apenas elaborados exercícios mentais com base em cálculos e conceitos físicos. Brilhantes é verdade, mas ainda assim exercícios mentais. E Hoyle, talentoso propagandista, sabia usar os meios que tinha a mão para tornar sua teoria popular. Ironicamente foi durante uma transmissão de rádio em que rebatia a teoria contrária, que Hoyle (usando um termo depreciativo), acabou por cunhar o nome pelo qual essa teoria viria a ser conhecida: a Teoria do Big Bang.

Os esforços do astrônomo acabaram se revelando em vão quando em 1969 se descobriu a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Em termos simples essa radiação é uma espécie de fóssil de quando o Universo era muito novo, quente e denso. Exatamente como previa a Teoria do Big Bang. O Universo Estacionário de Hoyle acabara de sofrer um golpe fatal!

Os descobridores da radiação cósmica de fundo em micro-ondas: Arno Penzias e Robert Wilson

Os descobridores da radiação cósmica de fundo em micro-ondas: Arno Penzias e Robert Wilson

Mas vocês pensam que Hoyle se convenceu? Além de brilhante, ele também era muito teimoso e jamais aceitou plenamente um universo tendo um começo. Em 1993, aos 78 anos, publicou juntamente com outros dois estudiosos a Teoria do Universo Quase Estacionário, como sendo uma nova visão de sua antiga teoria, tratando de questões adicionais que não tinham sido consideradas antes. Embora seja considerada seriamente por alguns estudiosos, falhas e discrepâncias nessa teoria ainda a tornam bastante impopular.

Alguns podem dizer que Hoyle era um homem obstinado, alguém que se apegava no que acreditava e insistia nisso a despeito dos fatos. É um ponto de vista. Respeito. Mas, sinceramente, não concordo com ele. A meu ver, Hoyle era um homem teimoso, que não conseguiu aceitar a ideia de que uma teoria sua pudesse estar errada. Mesmo com todas as evidências comprovando isso.

Hoje em dia vemos inúmeras pessoas que, assim como o astrônomo inglês, simplesmente não aceitam bem a ideia de estarem erradas. Suas opiniões, conceitos e pontos de vistas são encarados como verdades absolutas, fatos mais que consolidados e comprovados. E ai de quem ousar discordar, mesmo que o faça educada e respeitosamente. Por não concordar é taxado de ingênuo, ignorante, desinformado, alienado (palavrinha essa, inclusive muito usada) dentre outros termos mais fortes, por assim dizer.

A situação piora quando a pessoa é daquelas que se julgam pós-doutoras – ou qualquer outro título equivalente – em algum assunto só por terem assistido um documentário no History Channel ou ainda por terem lido algum livro do Erich Von Daniken. Já tentei dialogar com gente assim. Não dá! Simplesmente não dá! Você utiliza argumentos, lógica, conceitos provados e comprovados e ele acha que um simples “Eu vi num documentário/ Eu li num livro” é suficiente para comprovar que estão certos. Desculpa, mas não é!

É preciso mais do que:

É preciso mais do que:
“Eu li num livro”

Todo mundo tem direito a ter uma opinião sobre qualquer assunto e de expressa-la livremente. É inclusive um direito constitucional. Entretanto, o fato de que podemos ter uma opinião e a liberdade para expressa-la não necessariamente significa que estejamos corretos. Também não nos dá a liberdade de impor nossa opinião aos outros. Lógico que podemos expressa-la, mas nunca menosprezando a opinião alheia. Ao invés disso, por que não respeitar a opinião do outro, procurando manter a mente aberta para novas informações, ideias e perspectivas? Já parou pra pensar por um momento que o outro pode estar certo? Que a sua opinião pode estar errada?

Infelizmente as pessoas parecem estar perdendo a capacidade de se fazer esses questionamentos. Julgam-se as donas da verdade absoluta e que suas opiniões jamais podem estar erradas. E aí discriminam, menosprezam, ofendem, ridicularizam os que pensam diferente, mas quase nunca apresentam argumentos válidos e coerentes que apoiem sua forma de pensar. Não raro partem para a agressão gratuita, quando não conseguem nos impor seu ponto de vista. Situação mais do que comum em muitos blogs abertos aos comentários.

Um tipo bem comum na internet
Imagem gentilmente cedida pela Fernanda Nia Ferreira do blog de tirinhas http://www.comoeurealmente.com/

Essa atitude tão comum hoje em dia, não só na internet, como também no mundo real é extremamente danosa, pois quando julgamos que estamos certos (sem dar uma chance para pensamentos diferentes), acabamos por desperdiçar ótimas chances de aprender e de enriquecer nosso conhecimento com novas informações. Perdemos a chance de evoluir!

Descobrir que nossa opinião, que aquilo no que acreditamos tão fervorosamente, está errado, não transforma ninguém em uma pessoa menor, em alguém menos inteligente. Pelo contrário! Já persistir numa ideia comprovada como errada é no mínimo uma tolice. Se todos agíssemos assim, ainda acreditaríamos num mundo plano sustentado por elefantes ou que é impossível uma máquina mais pesada que o ar voar, além do que boa parte das magníficas descobertas científicas não teriam sequer existido para facilitar nossas vidas.

Antes de encerrar gostaria de deixar claro que não quis com esse texto atacar o cientista Fred Hoyle. Considero-o um grande astrônomo que contribuiu enormemente pra o avanço da ciência. Embora infeliz em sua Teoria do Universo Estacionário, outros estudos desse brilhante astrônomo britânico ajudaram a entender como se dá a formação de elementos pesados, que levaria à famosa constatação de que somos todos nós poeira das estrelas! Sua teoria da Panspermia, que considera a origem da vida como sendo extraterrena, tendo chegado até a Terra através de cometas, embora não comprovada, possui uma considerável aceitação no meio acadêmico.

Hoyle foi um cientista brilhante que assim como muitos outros teve muitos acertos e alguns erros. Igual a qualquer outro ser humano. Como disse o físico estadunidense Robert Alpher, ele “era um homem que tinha muitas ideias, mas nem sempre conseguia distinguir as boas das ruins”. Talvez um pouco mais de bom senso o ajudasse a manter a sua mente aberta para novas perspectivas ajudando a um melhor discernimento sobre suas ideias.

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Atualização de janeiro de 2018: Para quem quiser saber mais sobre a radiação cósmica de fundo e a Teoria do Big Bang recomendo esse excelente vídeo O Começo de Tudo do canal do Youtube Nerdologia.