Quem leu o primeiro texto dessa série, ou sua versão anterior, deve ter notado que Sergipe não é apenas terra de intelectuais e literatos. Aqui também se fez e ainda se faz muita música boa. E não apenas naquele que é o ritmo mais tradicional nordestino, o forró. Terra de Patrícia Polayne, Grupo Cataluzes, Amorosa Sergipana e Lacertae, somente para citar aqueles que já passaram pelas páginas virtuais desse blog, Sergipe sempre foi o berço de inúmeros musicistas de talento indo do reggae à MPB passando pelo rock e quantos gêneros, estilos e ritmos se possam imaginar.

O objetivo desse texto é duplo, sendo o primeiro divulgar nomes que talvez já tenham sido esquecidos pelos próprios sergipanos, mas também de exaltar e dar a conhecer o de outros que, cada um a seu tempo, conquistam e conquistaram seu espaço de destaque na música brasileira.

1-Banda e Orquestra Los Guaranis

Criado com o nome de Grupo Los Guaranis em 1963 por um grupo de amigos da cidade de Lagarto apaixonados por música, esse, talvez, seja o mais influente e conhecido grupo musical do Estado. Integrantes da “Lira Nossa Senhora da Piedade” seus primeiros integrantes se inspiraram em grupos similares da época passando a tocar em bailes e bailinhos os mais variados. Depois de fazer sucesso no estado, sua agenda passou a incluir shows por todo o Nordeste com uma média de 20 shows por mês, muitas vezes dividindo o palco com artistas do quilate de Roberto Carlos, Dominguinhos e Luiz Gonzaga. Com a renovação constante dos integrantes, ainda hoje a banda continua na ativa animando gerações de amantes de boa música e seguindo como sinônimo de competência musical.

2-Pedrinho Rodrigues

Cantor e compositor sergipano que chegou a ser reverenciado como “A voz do crooner brasileiro”, conforme relatado pelo radialista e pesquisador da história da MPB Mário Sérgio Félix. Chegando no Rio de Janeiro nos anos 50 logo de cara emplacou alguns sucessos. Sua carreira deslancharia mesmo nos anos 60 e 70, cantando não apenas composições suas mas também a de amigos como “Lapinha” de Baden Powell em parceria com Paulo César Pinheiro. Participou do grupo Ed Lincoln, mas, com o sucesso alcançado, abraça de vez a carreira solo, sendo substituído por ninguém menos que Emílio Santiago. Grande intérprete de sambas excursionou pelo Brasil e pelo mundo com os grupos “Os Nacionais” e “Conjunto Samba Som Sete”. Sua interpretação de “Alta Sociedade” entraria para a trilha sonora da novela da Rede Globo “O Cafona”. Pedrinho Rodrigues faleceu em 1996 em Aracaju, mesma cidade onde nasceu em 1934.

3-Erivaldo de Carira

Apesar de termos um excelente rol de grandes mestres na sanfona, o nome de Erivaldo de Carira não poderia ficar de fora dessa lista. Não apenas pelo talento e carreira repleta de grandes sucessos, pelos três filhos (Erivaldinho, Mestrinho e Thais) que, seguindo os passos do pai demonstram todo o talento musical, mas, principalmente por ser o forrozeiro mais tocado em minha casa. Grande fã, minha mãe tinha vários de seus discos e cds, sempre muito tocados em especial durante os festejos juninos. Dividiu o palco com vários mestres não só da sanfona, mas do forró em geral, como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Flávio José, Clemilda, Adelmário Coelho, Oswaldinho do Acordeon, Sivuca, Pedro Sertanejo, Mestre Zinho, Trio Nordestino, Antônio e Cecéu, Josa, O Vaqueiro do Sertão. É admirado por ser um dos poucos sanfoneiros que consegue tocar a sanfona com o fole fechado, o que é considerado pelos sanfoneiros como uma raridade dada a dificuldade de execução.

4-Ismar Barreto

Dono de uma inteligência apurada que só rivalizava com seu olhar aguçado sobre a sociedade e a capacidade quase infindável de compor canções de melodias simples ainda que cheias de humor, romance ou crítica social. Por vezes elegante, por vezes satírico, sempre boêmio. Grande admirador, defensor e, principalmente, divulgador da música sergipana, Ismar Barreto foi por duas vezes o vencedor do Festival Canta Nordeste, a primeira vez com a voz de Amorosa interpretando sua “Coco da Capsulana”, a segunda com a divertida e genial “Salada Tupiniquim” que, a um só tempo homenageia o Nordeste e satiriza vários nomes da cenário pop internacional. É ainda o compositor de algumas das mais belas e verdadeiras canções sobre sua terra, sendo o maior exemplo “Viver Aracaju”. O versátil musicista faleceu em 2006, vítima de um câncer. Como todo boêmio que se preze seu velório e enterro foram marcados pela alegria, irreverência e bom humor que caracterizam sua vida e obra.

5-Rogério

E por falar em grande divulgador da música sergipana, impossível não lembrar do autor daquela que é considerada um verdadeiro hino do Estado “Sergipe É o País do Forró”, Pedro Rogério Cardoso Barbosa, ou apenas Rogério. Apesar de ser um grande forrozeiro, sua versatilidade musical o levou a gravar axé, reggae entre outros, sempre exaltando sua terra. Foi um dos nomes participantes do Forró Caju, evento musical que reúne em Aracaju os maiores nomes do ritmo do Nordeste durante os festejos juninos, além de sempre incentivar a realização de eventos pelo interior do Estado. O artista talentoso veio a falecer de doenças hepáticas em 2014. Tristemente, ao pesquisar sobre sua obra e vida, encontrei apenas as notícias de sua morte. Outro lamentável exemplo de descaso para com um nome que tanto fez pela música e cultura sergipanas.

6-Chiko Queiroga e Antônio Rogério

Sinônimo de excelência. Assim podemos definir a dupla formada pelos dois exímios violonistas e excelentes cantores (ambos profissionalmente graduados em violão e canto pelo conservatório de música de Sergipe), além de sensíveis e competentes letristas. Após alguns anos de carreira solo, Chiko Queiroga e Antônio Rogério formaram uma dupla de sucesso imediato. Suas apresentações são sempre lotadas e são frequentes representantes sergipanos em festivais de jazz nos Estados Unidos, além de se apresentarem em vários outros países. Seguindo os passos de vários outros artistas sergipanos, são grandes divulgadores da nossa arte musical e zelosos defensores de nossa cultura. Seu amplo repertório inclui inúmeras canções muito bem conhecidas dos sergipanos em geral.

7-The Baggios

The Baggios, fundada em 2004 por Júlio Andrade e Lucas Goo e atualmente composta por Júlio Andrade (Voz, Guitarra, Violão, Contrabaixo Elétrico), Gabriel Perninha (Bateria) e Rafael Ramos (Teclas, Contrabaixo Elétrico), é talvez o grupo musical mais elogiado e conhecido fora do Estado. Citados pela conceituada revista Rolling Stones Brasil com seu terceiro disco “Brutown” eleito o 21º melhor disco brasileiro do ano de 2016, disco que ainda seria indicado à concorrida premiação do Grammy Latino de 2017 na categoria Melhor Álbum de Rock ou Alternativo em Língua Portuguesa, feito repetido em 2019 com o disco seguinte “Vulcão” o qual foi extremamente elogiado pela crítica especializada. Mesclando a psicodelia nordestina dos anos 70 com o blues e o misticismo oriental The Baggios cria um som original que ora lembra Novos Baianos, ora sentimos aquela pegada Jimmy Page. Apesar de sua sonoridade não ser tão aberta ao público como o da NaurÊa, o próximo nome dessa lista, conseguem ser menos herméticos que a Lacertae, que citei nesse primeiro texto dessa série.

8-NaurÊa

Formada por Alex Sant´Anna (voz e triângulo), Aragão (cavaquinho, caixa e voz) e Abraão (guitarra) e Patrick Torquato (percussão) a NaurÊa é dona de um som que mistura ritmos e estilos os mais variados, tais como samba, baião nordestino, influências do funk e até da música angolana. A essa mistura aparentemente tão incongruente, o grupo é capaz de dar uma cara e identidade próprias extremamente dançante e bem-humorado, sem deixar de lado, obviamente suas raízes nordestinas, em especial sergipanas, como podemos ver, não apenas em suas canções, mas também no próprio nome da banda, que brinca com o modo coloquial de falar do sergipano. Com muita irreverência e ritmo contagiante o grupo tem conquistado um grande espaço especialmente entre os mais jovens. É de uma de suas canções os versos de exaltação a terra de origem: “Minha menina/ Estrela matutina/ Vivo só brincando/ Como é bom ser sergipano!”

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Esse é o quarto texto das comemorações pelo bicentenário da Emancipação Política de Sergipe comemorado no dia 8 de Julho. E aqui me vejo obrigado a fazer um agradecimento especial aos amigos André Medeiros, Floriano Neto, Ícaro Ribeiro, Rairam de Jesus e Rodrigo Coutinho, todos geógrafos que conheci em meus anos de graduação. Sem suas sugestões e lembranças esse texto levaria muito mais tempo para ser pesquisado e escrito.

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Até amanhã com mais um texto da série!

4 comentários em “OITO MUSICISTAS SERGIPANOS

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