Chego finalmente ao sétimo e último (por enquanto) texto da série em homenagem ao bicentenário da Emancipação Política de Sergipe. Conforme o explicado no texto anterior, uma série de acontecimentos me impediram de trabalhar essa série da maneira que planejei. Daquele texto pra esse, inclusive tais acontecimentos tornaram-se ainda mais frequentes. Mas sobre tais falarei melhor num futuro texto, tal qual já prometi. Por hora basta esclarecer que, dos oito textos planejados e prometidos entrego sete, com o oitavo e último ficando para uma data posterior ainda a definir (a saber, tal texto também é a terceira e última parte de uma trilogia de textos sobre a história de Sergipe desde sua conquista até a emancipação política, passando por sua colonização).

Explicação dada, trago hoje uma breve olhada sobre oito manifestações culturais populares em Sergipe e mais uma tradição única de bônus. Num esforço de preservação da memória cultural sergipana, foi inaugurado na capital do Estado o Largo da Gente Sergipana, instalação artística urbana, parte integrante do museu da Gente Sergipana, sendo formado por uma plataforma com atracadouro para pequenas embarcações, e pelas bases de suporte das esculturas representativas de cada uma das manifestações. Inspirado nas esculturas dos Orixás no Dique do Tororó em Salvador, o projeto é de autoria do arquiteto e urbanista Ézio Déda (profissional que tive o prazer de conhecer quando trabalhei na Assistência Acadêmica do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIT), sendo as esculturas de 7m de altura de autoria do artista plástico Tatti Moreno. Confeccionadas em fibra de vidro e resina de poliéster, sendo instaladas sobre vigas metálicas, o que dá a impressão de que as peças flutuam acima do espelho d’água.

Embora o valor educacional, simbólico e cultural de tal obra seja evidente, o mesmo não deixou de ser alvo de polêmicas, sendo criticado por uma parcela da população como um gigantesco desperdício. Reação essa não apenas fruto de uma sociedade desligada da sua história, negadora de seus movimentos populares e culturais, mas também, em uma escala maior, orgulhosa de sua ignorância sobre o mundo que o cerca, seja esse mundo o físico e tangível, seja o mundo das simbologias expressas através de suas manifestações artísticas e populares.

Felizmente o Largo da Gente Sergipana sobreviveu à controvérsia. Atualmente o Largo segue sendo motivo de encantamento por parte dos turistas que o visitam e de um reacender do orgulho sergipano com o constante redescobrimento de parte de nossa cultura por cada pessoa que, ao conhecer mais um pouco sobre nossas festividades, seja ou não sergipano, aprende também a importância da identificação de um povo com sua história. Para escrever sobre as manifestações culturais foram consultadas inúmeras fontes, mas com destaque para os textos do site do Museu da Gente Sergipana baseados em estudo aprofundado por parte da educadora e pesquisadora de Cultura Popular Aglaé D’Ávila Fontes e da historiadora e educadora Josevanda Mendonça Franco, bem como no livro “Sergipe Cultura e Diversidade” organizado pelo Governo do Estado de Sergipe.

Aglaé D’Ávila Fontes, Josevanda Mendonça Franco e o livro Sergipe Cultura e Diversidade

A foto do Largo da Gente Sergipana que ilustra o cabeçalho do post é do site Sergipe Turismo.

1-Lambe-sujos e Caboclinhos

O embate entre Lambe Sujos e Caboclinhos em foto de Ana Lícia Menezes

“Estamos retratando a história da cultura brasileira, de um povo humilde do Brasil. A senhora não encontra isto nas universidades. As universidades é que vem aqui beber da fonte do mestre.” Essas orgulhosas palavras são ditas pelo principal responsável de manter viva a tradição cultural e histórica tida por Câmara Cascudo como a maior manifestação de teatro espontâneo ao ar livre do mundo: Mestre Zé Rolinha, brincante desde criança e há mais de 30 anos organizador da festa do Lambe-Sujo e Caboclinhos, que ocorre todo segundo domingo de outubro na cidade de Laranjeiras, distante pouco mais de 24 quilômetros da capital sergipana.

A festividade consiste numa representação dos combates ou embaixadas entre lambe-sujos representando os negros escravizados e fugidos para os quilombos contra os caboclinhos, representando os indígenas incitados pelos capitães do mato a atacar os fugitivos por conhecerem melhor a região. Para dar vida aos personagens da trama a população da cidade se lambuza de tinta preta misturada a mel de cabaú (um derivado da cana responsável pelo brilho) vestem bermudas e gorros vermelhos para viver os lambe sujos, enquanto aqueles que serão os caboclinhos se pintam de vermelho e se adornam com indumentárias indígenas como cocares. Às 4 da manhã de domingo a alvorada de fogos de artifício dá o sinal de início com os caboclinhos dando início aos seus rituais enquanto os lambe-sujos se reúnem na casa de seu rei. Daí ocorrem as embaixadas, com o sequestro da rainha dos caboclinhos, a prisão de negros pelos caboclinhos que são levados de porta em porta pelos guerreiros captores, para que paguem pela sua liberdade. Todos esses movimentos são acompanhados por um grupo musical com ganzás, pandeiros, cuícas, tambores e reco-recos. Por fim ocorre a batalha final pela libertação da rainha com a vitória dos caboclinhos.

Lambe Sujo em foto de Ricardo Teles para a National Geographic

Rica em sentidos, histórias, simbologias e informações, que já renderam um vasto conjunto de textos, ensaios, livros e artigos científicos, isso sem falar da singular beleza estética tão bem destacada em inúmeros ensaios fotográficos, a festa dos Lambe-Sujos e Caboclinhos é, provavelmente, encenada desde antes da abolição, muito embora os primeiros registros oficiais datem apenas de 1930 e representa um dos mais belos e impactantes registros de orgulho de um povo para com sua história em nosso país. Exemplo raro de manifestação cultural que, conforme o Ministério da Cultura e, ao contrário do que ocorre no restante do Brasil, cresce a cada ano. Tendo como tema principal a luta pela liberdade dos negros escravizados, que, apesar da derrota sofrida no combate final, permanecem altivos sabedores de que não se permitiram escravizar sem lutar. Mesmo vencidos ainda são vencedores, conforme as palavras da antropóloga Beatriz Góis Dantas, doutora pela Universidade Federal de Sergipe, que se aprofundou nos estudos dessa festa entre 1969 e 1990 em reportagem ao El Pais Brasil: “Nunca vi um rei ser vencido tão altaneiro como o Rei dos Lambe Sujos que sai de cabeça erguida, como se não houvesse perdido a batalha”.

A seguir links de algumas páginas onde pode-se aprender mais sobre essa festividade singular:

Todo mundo aqui é negro

Outubro em Laranjeiras: Cabaú, Lambe-Sujos e Caboclinhos

2-Bacamarteiros

Batalhão de Bacamarteiros de Carmopolis-SE em foto do site Voz Olimpiense

No dia 24 de agosto de 2016 o Grupo Folclórico Batalhão de Bacamarteiros do Povoado Aguada, do município de Carmópolis foi reconhecido Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado de Sergipe ao ser inscritos no Livro do Tombo pela diretoria do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC), após sua aprovação pelo Conselho Estadual e Cultura (CEC) através do Decreto nº30.281, de 29 de julho de 2016.

Originalmente um grupo de samba de roda formado por volta do ano 1780 por escravizados nos canaviais ao redor do povoado. Ao grupo foi introduzido o uso dos bacamartes, arma de fogo de cano curto e largo, parecendo uma garrucha alongada, alargada na boca e reforçada na coronha (embora os exemplares modernos sejam de cano longo), muito usada para defesa na defesa pessoal e privada no interior do Nordeste e nas comemorações dos festejos juninos após a Guerra do Paraguai. Nessas festividade, num desafio à valentia, o bacamarte era carregado apenas com a pólvora (sem o chumbo que servia de projétil) e, adotando posições difíceis, quando não extravagantes, atiravam ao mesmo tempo que evitavam uma queda causada pelo “coice” do disparo, mantendo o equilíbrio com meneios elegantes de corpo.

Embora existam batalhões de bacamarteiros em outras cidades sergipanas, a do Povoado Aguada é, não apenas o mais tradicional, mas também o mais popular contando com 60 integrantes de todas as idades, com os mais velhos responsáveis pelas canções tocando os instrumentos, como o ganzá, cuíca, pandeiro, reco-reco e a caixa, as mulheres dançando em círculo, enquanto os atiradores vêm atrás disparando de acordo com o desenrolar da música e da dança. Em geral as mulheres vestem vestidos estampados, chapéus de palhas e sandálias de couro e os homens usam camisas do mesmo tecido da mulher, calça jeans, chapéu e sandálias de couro. Tanto os bacamartes, quanto os instrumentos usados no folguedo são artesanalmente produzidos pelos próprios brincantes com matérias primas locais.

Com seus tiros estrondosos, muita fumaça, música e dança o Batalhão de Bacamarteiros do Povoado Aguada são a prova que, de fato, cabra da peste não teme fogo mantendo viva e atuante essa rica e belíssima manifestação da herança africana em Sergipe.

Abaixo alguns links para aprender um pouco mais:

1º de Junho – Dia Municipal dos Bacamarteiros de Carmópolis

Especial Folclore: Bacamarteiro é Grupo Centenário

3-Cacumbi

Cacumbi do Mestre Deca de Laranjeiras em foto de Ricardo Torres

“Gosto de fazer o que eu faço. Não só eu, mas toda a minha turma que está dando continuidade ao trabalho que foi feito, tanto tempo, por meu pai que hoje está sem condições” As palavras firmes e generosas são ditas por José Carlos, filho de Mestre Deca, que por motivos de saúde após cinquenta anos de serviço dedicado, passou aos filhos a tarefa de cuidar e manter a tradição do Cacumbi em Laranjeiras.

Eles não estão sozinhos. Em Itaporanga d’Ajuda o Mestre Juarez e em Japaratuba o Mestre Nêgo são os responsáveis pela manutenção dessa que é, muito provavelmente, a evolução e junção de elementos de outras danças e folguedos, como variantes de congos e congadas, sendo encontrada em diversos municípios brasileiros, recebendo as mais variadas denominações em cada um deles: Ticumbi, Quicumbi ou Cucumbi.

Essa manifestação cultural é basicamente constituída apenas por homens, que se apresentam para louvar São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, vestidos de calça branca, camisa amarela e chapéu decorado com fitas coloridas e espelhos dançando ao som do ritmo forte do batuque cantando sua origem em uma série de volteios no ritmo marcado pelo tambor acompanhado do corror, da onça, do ganzá, do pandeiro, do reco-reco e do tamborim, tocados por todos os brincantes. A formação é de dois cordões em círculos contínuos voltando sempre às fileiras, no centro dos quais atuam o Mestre e o Contramestre, distintos dos demais componentes do grupo por usarem camisa azul.

Além dos grupos de Laranjeiras, Itaporanga d’Ajuda e Japaratuba, há ainda grupos nos municípios de Lagarto, Maruim e Riachuelo.

Para saber mais sobre o Cacumbi é só acessar o link abaixo:

CACUMBI MESTRE DECA: Renovando a tradição – A relação grupo cultural e gestão pública

4-Parafusos

Parafusos em foto do site Expressão Sergipana

Grupo folclórico único no Brasil, existente apenas no município de Lagarto, os Parafusos possuem em sua origem a história dos escravizados que, sonhando com a liberdade, elaboraram um plano, no mínimo, inusitado. Na noite em que fugiriam, os escravizados vestiam-se com várias anáguas roubadas do quaradouro. Vestiam-nas uma sobre as outras desde o pescoço além de pintar o rosto com tabatinga e completavam o visual com um chapéu em forma de cone. Assim paramentados, quando se embrenhavam pelos canaviais em fuga, geralmente em noites de lua, aqueles que por acaso testemunhassem a fuga, os tomariam por almas penadas ou visagens. Com o tempo as histórias e o medo popular das visagens foi aumentando e poucos eram os corajosos o suficiente que se arriscavam a andar pelos canaviais nas noites de luar, deixando assim o caminho aberto para novas fugas.

Com o término da escravidão não havia mais necessidade de se manter a lenda que acabou por se transformar em tradição comemorativa com homens vestidos com anáguas, rosto pinado e chapéus em cone brincando e rodopiando ao som de tambores e triângulos pelas ruas da cidade de Lagarto. Foi o vigário da cidade, padre José Saraiva Salomão, quem acabou nomeando o grupo quando, observando-os em seus rodopios para direita e para a esquerda, os comparou com parafusos torcendo e distorcendo.

Como o próprio nome do grupo denuncia, sua coreografia é composta de volteios nos sentidos horários e anti-horários, fazendo as anáguas se abrirem criando um belo efeito estético. O grupo se apresenta em duas filas e imitam a fuga dos escravizados pelos canaviais e suas tentativas de despistar os capitães do mato. Originalmente o grupo era formado por vinte e um brincantes, sendo um deles a personificação do índio que auxiliava os fugitivos. Atualmente as apresentações contam com treze brincantes, todos do sexo masculino.

Para quem quiser aprender um pouquinho sobre essa belíssima manifestação popular:

A Dança dos Parafusos

5-Reisado

Reisado em foto de Fabiana Costa para o Secult

Considerada uma das mais importantes manifestações folclóricas do Brasil, o Reisado (ou Folia de Reis, Boi de Reis, Terno de Reis dependendo da localidade), tem sua origem em Sergipe ainda no período colonial trazido pelos portugueses. Originalmente era comemorada no período natalino em comemoração e honra ao nascimento do menino Jesus e homenagem aos reis magos que, indo do dia 24 de dezembro, quando os grupos formados por músicos cantores e dançarinos vão de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam e dançam, chegando à véspera do dia 06 de janeiro, o dia de Santos Reis, quando a comemoração se inicia de fato. Atualmente, no entanto, o reisado também é dançado em outras épocas do ano.

Assim como o nome, as características do folguedo variam de um lugar para o outro. Em Sergipe ele tradicionalmente é formado por dois cordões que disputam a simpatia da plateia e são liderados pelas personagens centrais: o “Caboclo” ou “Mateus” e a “Dona Deusa” ou “Dona do Baile”. Também se destaca a figura do “Boi”, cuja aparição representa o ponto alto da dança. Os instrumentos que acompanham o grupo são violão, sanfona, pandeiro, zabumba, triângulo e ganzá. Conforme relatado no verbete sobre o Reisado na página do Museu da Gente Sergipana:

“Mesmo quando se profanizou, o Reisado manteve as características mais importantes da contribuição portuguesa como o cantar Benditos; as loas ao Menino, sua mãe Maria e a São José; a organização em cordões, o azul e o encarnado; os pedidos de abrição de porta ou pedição de sala para começar a apresentação; os cantos com solo e estribilho; as homenagens às pessoas com versos e entremez e as despedidas. Cantos, danças e entremezes compõem o roteiro do Reisado, onde participam elementos humanos, animais e fantásticos. Os brincantes ou figural são conduzidos pelo Mateus ou Caboclo, que divide com a Dona Deusa, o desenvolvimento do folguedo.”

Ainda segundo a mesma página o Reisado é comemorado em praticamente todo o Estado de Sergipe, com destaque para os do município de Laranjeiras:  Bom Jesus dos Navegantes, Flor do Lírio, Benjamim, Reisado de Nadir, São Benedito, Menino Jesus, Sagrado Coração de Jesus; em Estância: Sete Estrelinha e Mulatinhas Dengosas; Pirambu: o reisado Marimbondo; em Japaratuba: o de Dona Bizu; em Japoatã, o Reisado Prima com Prima e o de Dona Vavá; em Itaporanga D’Ajuda: o Santo Antônio, o Filhas de Maria, e o de Juarez; na Barra dos Coqueiros: o reisado da Barra; Moita Bonita: o Baile Estrela, o Reisado da Melhor Idade e o Familiar Pé de Serra, além do Reisado São José de São Miguel do Aleixo; o Reisado da Terceira Idade de Frei Paulo; os Reisados Sergipano de Guarujá, o da Paz e o infantil de São Cristóvão; o grupo Filhas de Maria de Santa Rosa de Lima; Reisado de dona Anúsia de Santo Amaro das Brotas; e o grupo de reisado Manuel Joaquim de Cristinápolis; em Rosário do Catete o Reisado 12 Estrelinhas.

Para saber mais sobre o Reisado:

Portal Geledés: Reisado

Reisado sergipano e a riqueza imaterial residente em Guarujá

6-Chegança

Chegança Almirante Barroso Laranjeiras em foto de Grazziele Santos

Inspirada nas lutas medievais entre os povos ibéricos contra árabes, turcos e mouros, a Chegança dos Mouros é outra manifestação popular que chegou ao Brasil com os colonizadores, sendo, ao lado dos reisados, um dos mais representativos exemplos das marcas culturais deixadas pelos portugueses em nossa cultura popular. Narrando as aventuras marítimas de embarcações, como a nau Catarineta, o folguedo representa os embates entre dois grupos distintos e rivais, os cristãos e os mouros, terminando com a derrota desses últimos após o cumprimento das diversas jornadas do folguedo: o embarque, a nau perdida, a rezinga grande, o contrabando, a agulha de marear, o combate e o batismo. Seus componentes vestem-se como marujos e oficiais, com predominância dos trajes das cores azul e branco, além de utilizarem títulos ligados à Marinha Brasileira, tais como o Piloto, o General, o Almirante, o Vice-almirante, o Mestre, o Contramestre, o Capitão-tenente, os Gajeiros, os Calafatinhos, o Padre e os Marinheiros. Isso do lado dos cristãos. Os mouros por sua vez são representados por Rei, os Embaixadores, as princesas Floripes, Angélica e Dama de Ouro.

Sendo comum em várias partes do Brasil, recebe nomes diversos, a depender da região, como Barca, Marujada, Fandango, Chegança de Marujos, Chegança de Mouros, Mourama ou simplesmente Chegança, nome esse popular em Sergipe, onde grupos existem nos municípios de Laranjeiras, Divina Pastora, Itabaiana, Lagarto e São Cristóvão.

Um pouco mais sobre essa bela festividade pode ser conferido nos dois links abaixo:

Museu da gente Sergipana: Chegança

Chegança de Maruim realiza primeira apresentação

7-Taieira

Saudação das Taieiras em foto do Blog de Thiago Fragata

Também conhecida por Talheira ou Taineira, essa é outra manifestação folclórica de caráter religioso, tendo como objetivo a louvação à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, tendo entre seus personagens integrantes dançarinas (as Taieiras propriamente ditas), Guias, Contra Guias, Lacraia, Capacetes, Ministro, Patrão, Rei e Rainhas. Popular em várias partes do Brasil as Taieiras estão presentes não apenas nas festas dos seus Santos de devoção, mas também no Natal, para louvar o Menino Jesus, no Ano Novo e no dia dos Santos Reis, quando a rainha das Taieiras é laureada, com a coroa de Nossa Senhora do Rosário, pousada sobre sua cabeça, pelo Padre, durante a missa.

O folguedo possui forte influência africana de origem nagô. O cortejo, ao som do tambor e dos ganzás, chamados de querequeché, saem da casa do líder seguindo pelas ruas da cidade até a igreja, sempre dançando e cantando. Ao fim da missa as Taieiras saem da Igreja, sem dar as costas para o altar, voltando o cortejo para as ruas. Sua indumentária é composta por blusa vermelha e saia branca, enfeitada com fitas multicoloridas, com faixas amarradas na cintura de cores e formatos diferentes para diferenciar os cordões. Em Sergipe os grupos mais destacados são os dos munícipios de Japaratuba, Lagarto e Laranjeiras, sendo esse último lar da mais antiga manifestação das Taieiras no Estado. Na internet não achei nenhum site falando mais do que o transcrito aqui. Assim, para quem quiser saber mais sobre as Taieiras, recomendo o livro “A Taieira de Sergipe: Uma Dança Folclórica” da pesquisadora Beatriz Góis Dantas.

Capa do livro A Taieira de Sergipe da pesquisadora Beatriz Góis Dantas

8-Dança de São Gonçalo

São Gonçalo em foto de Fabiana Costa para o Secult

Conforme relatado no livro “Sergipe Cultura e Diversidade”: Esta dança é sem dúvida um dos ritos mais difundidos do catolicismo popular brasileiro. De origem portuguesa, a dança teria sido criada por São Gonçalo, um frade franciscano que dançava, cantava e tocava viola todas as noites para as prostitutas, esperando assim que, cansadas de dançar e cantar, não pecassem, pelo menos naquela noite. Para não ser tentado pelo pecado durante essas farras, São Gonçalo usava prego nas botas, fazendo-o dançar de modo cambaleante. Após sua morte em 10 de janeiro de 1259vários milagres foram a ele atribuídos e seus devotos passaram a celebrá-lo imitando sua dança cambaleante.

No Brasil a festividade em honra ao Santo tomou formas distintas de sua origem portuguesa, com forte influência africana. Em Laranjeiras uma única mulher, a Mariposa, toma parte sendo a responsável por carregar a imagem do santo em um barquinho, enquanto os demais brincantes, todos homens, usam sobre a calça longas saias coloridas, blusas rendadas e xale enfeitado com fitas de várias cores. Na cabeça, um lenço branco adornado com fita vermelha. Pulseiras, colares e brincos completam o traje, trazendo uma simbologia feminina ao grupo, relembrando as mulheres salvas pelo Santo do pecado. Somente o chefe do grupo, chamado de patrão veste-se como um marinheiro, em alusão a uma suposta vida no mar do santo antes de virar frade. É o Patrão quem toma a frente das duas filas com seu tarol enquanto os brincantes dançam e cantam ao som de dois violões, dois cavaquinhos, uma caixa e dois pulés, numa coreografia “simples, em movimentos circulares, laterais, volteios pelo meio das filas, giros em torno de si mesmo, movimento de ponta de pé e de calcanhar, movimento de braços ao alto e troca de lado entre as fileiras, exigindo dos brincantes grande destreza na cadência do ritmo”, conforme descrito na página do Museu da Gente Sergipana. Existem grupos do folguedo nos municípios de Itaporanga D’Ajuda, Laranjeiras, Pinhão, Poço Verde, Riachão do Dantas, São Cristóvão e Simão Dias.

Para aprender um pouquinho mais sobre a Dança de São Gonçalo é só clicar no link abaixo:

Você sabe o que é Dança de São Gonçalo? Conheça essa incrível tradição nordestina!

Bônus: Barco de Fogo

Barco de Fogo em foto de Márcio Garcez

“Por todo o mês de junho até 29, dia de São Pedro, o chaveiro do Céu, Estância se transforma em um imenso palco dentro e fora das casas para encenação dos ritos tradicionais que assinalam os festejos juninos, cujo apogeu se dá na véspera e nos dias 23 e 24. Na madrugada fria da salva, enquanto os sinos tocam e busca-pés rabeiam, hasteia-se a bandeira de São João em frente à Catedral Diocesana. E qual um mensageiro de sonhos e aspirações estancianas, o barco de fogo, impulsionado por foguetes e retrofoguetes, corre num arame esticado sob os aplausos do povo.” Com essas palavras carregadas de saudade e carinho, a Professora Ofenísia Soares Freire relembra um dos mais significativos símbolos das festividades juninas de sua cidade natal: o Barco de Fogo.

Reconhecido como Patrimônio Cultural do Povo Sergipano pela Lei Estadual 7.690, o Barco de Fogo é uma criação do fogueteiro Antônio Francisco da Silva Cardoso, ou Chico Surdo como era conhecido. As primeiras citações sobre essa criação original datam do final da década de 30 do século XX. Acredita-se que a ideia surgiu quando Chico Surdo imaginou um barco que não precisasse das águas do rio Piauitinga para navegar, elaborando para tanto uma embarcação feita de papelão grosso e propelida por dois foguetes, deslizando sobre fios de arames amarrados em dois postes, um de cada lado do rio. A ideia foi um sucesso e a brincadeira se espalhou pelo município. Atualmente os Barcos de Fogo fazem sua travessia nos trezentos metros entre dois pontos da Praça Barão do Rio Branco. Tendo um metro de comprimento, armação de madeira recoberto com papel colorido, os barcos continuam a realizar suas viagens impulsionados por foguetes laterais feitos de tabocas recheadas de pólvora pisada e embebida em cachaça para não empedrar. No percurso, como se já não fosse espetáculo suficiente as limalhas de fogo dos foguetes (ou espadas como são chamados), girândolas e outros tipos de fogos, a depender da criatividade dos fogueteiros, vão deixando um rastro de beleza sem par à medida que queimam durante o percurso. A maior felicidade do fogueteiro é quando seu Barco de Fogo percorre todo o trajeto sem perder o rojão. Espetáculo dos mais singulares o Barco de Fogo é um símbolo, se não o mais, com certeza um dos mais queridos na tradição festiva dos santos juninos em Estância. Fruto da mente inventiva de Chico Surdo, nada mais que justo que a data de seu nascimento, 11 de julho, tenha sido escolhida para homenagear sua, ainda hoje, bela criação.

♦ ♦ ♦

Obviamente as manifestações culturais sergipanas não se restringem às aqui citadas. Inúmeras e variadas são as manifestações tanto tradicionais como contemporâneas. Da Procissão do Fogaréu em São Cristóvão à Festa do Mastro em Capela, do Teatro de Bonecos do Mamulengo do Cheiroso ao Toré dos remanescentes dos índios Xocós em Porto da Folha, Sergipe se mostra um Estado tão rico e diverso culturalmente quanto qualquer outro da Federação. Fica aqui então meu conselho, não apenas aos sergipanos, mas a todos brasileiros, independente de sua naturalidade, seja baiano ou amazonense, amapaense ou capixaba, gaúcho ou goiano, conheçam sua história, sua cultura. Conheçam, admirem, mas também reflitam, analisem e questionem. Aprendam a reconhecer, admirar e se orgulhar da diversidade inerente de nossa sociedade, tornando-a, assim, cada vez mais rica, diversa e, porque não, tolerante.

Até mais!

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