OITO MULHERES SERGIPANAS PARA SE CONHECER NESSE 8 DE MARÇO

O dia Internacional da Mulher, comemorado todo dia 8 de março, foi instituído em memória das mulheres que, em uma série de lutas e reinvindicações por melhores condições de trabalho e direitos sociais e políticos entre os séculos XIX e XX. Data para lembrar não apenas do muito conquistado com muitas lutas, mas principalmente do muito que ainda precisa ser alcançado.

Infelizmente não é raro que a história de lutas e conquistas de muitas mulheres ainda hoje sejam simplesmente relegadas ao esquecimento. Vítimas do desprezo e do preconceito, inúmeras histórias de mulheres talentosas e competentes são condenadas ao esquecimento apenas por serem consideradas mulheres.

Esse é o caso de muitas das principais personalidades femininas da história sergipana. Como já relatei em outros textos, Sergipe, mesmo com toda a riqueza de sua história e cultura, possui uma grave deficiência quando se trata de divulgar e valorizar toda essa riqueza. O quadro se agrava ainda mais quando se trata das mulheres sergipanas. Em sua grande maioria são totalmente desconhecidas no próprio estado onde nasceram e viveram, mesmo quando em muitos casos alcançam reconhecimento em outras partes do Brasil e até mesmo em outros países.

Por esse e outros motivos, decidi retomar esse texto que, originalmente, estava programado para o ano passado. Mas, como expliquei no texto sobre Maria Beatriz Nascimento, foi extremamente complicado encontrar informações a respeito das inúmeras mulheres que eu tinha listado. Felizmente, após um ano de algum esforço, consegui não apenas acesso a mais informações, como ainda ampliei a minha lista ao encontrar ainda mais nomes de sergipanas esquecidas a despeito de toda notoriedade por elas alcançadas.

Fica aqui inclusive um comprometimento comigo mesmo de continuar essa pesquisa, complementar as informações já conseguidas e persistir no esforço de tornar novamente conhecidas essas histórias infelizmente tão negligenciadas. Esse texto é apenas o primeiro passo.

Afinal, nas palavras da minha amiga Lady Sybylla: “Leia mulheres, conheça e divulgue nossos trabalhos, apoie e consuma nossa arte. Não apenas no Dia Internacional da Mulher, mas todos os dias, sempre.”

1-Maria Thetis Nunes

01-Maria Thetis Nunes

Nascida no município de Itabaiana em 06 de janeiro de 1925, Maria Thetis Nunes foi a primeira sergipana a ingressar no ensino superior, formando-se em História e Geografia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, primeira mulher a lecionar no influente e prestigiado Colégio Atheneu Sergipense, onde cursara o secundário e também viria a se tornar a primeira diretora poucos anos depois. Após ter cursado a primeira turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), onde permaneu quatro anos como assistente da cadeira de História, dedicando-se à Pesquisa da História da Educação no Brasil, Maria Thetis foi nomeada pelo Ministério das Relações Exteriores a Diretora do Centro de Estudos Brasileiros na Argentina, onde permaneceu mais quatro anos, ao término dos quais retornou à Sergipe em 1968 para ocupar o cargo de professora titular de História do Brasil, História Contemporânea e Cultura Brasileira da recém criada Universidade Federal de Sergipe, onde, na qualidade de decana, foi por duas vezes Vice-Reitora e Professora Emérita ao se aposentar depois de 47 anos de serviços prestados ao magistério. De importância crucial para o ensino e magistério no estado de Sergipe, Maria Thetis não apenas deu a conhecer a história sergipana como se integrou a ela, ajudando a difundi-la ao mesmo tempo em que formava inúmeros intelectuais sergipanos.

2-Beatriz Góis Dantas

02-Beatriz Gois Dantas

Graduada em Geografia e História pela Faculdade Católica de Filosofia, em História pela Universidade Federal de Sergipe e Mestra em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas, Beatriz Góis Dantas é a mais importante antropóloga e pesquisadora na área em Sergipe. Possui rica obra publicada em livros, capítulos de livros e artigos em revistas especializadas sobre as populações indígenas e religiões afro-brasileiras em Sergipe. Nascida em 1 de Dezembro de 1941 na cidade de Lagarto, essa pesquisadora incansável foi responsável por preencher uma lacuna histórica na bibliografia sobre o suposto “desaparecimento” dos índios sergipanos na segunda metade do século XIX, identificado na realidade como um processo de negação das identidades indígenas associada a expropriação de terras. Em 1970 assumiu a direção do Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico onde permaneceu apenas oito meses, tempo suficiente para efetivar o mapeamento da situação dos monumentos tombados pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Sergipe, bem como o registro fotográfico das imagens e santos localizados na igreja e a reorganização e recuperação do Arquivo Público Estadual. Aposentou-se como Professora da Universidade Federal de Sergipe em 1991 estando atualmente a frente da Comissão Permanente de História do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

3-Terezinha Alves Oliva

03-Terezinha Oliva de Souza

Terezinha Alves Oliva é autora do livro “Impasses do Federalismo no Brasil: Sergipe e a Revolta de Fausto Cardoso”, obra importante no entendimento dos primeiros anos da República em Sergipe. É a mais velha de dez irmãos, nascida na pequena Riachão do Dantas, no sul do estado. Mudou-se para a capital, Aracaju, em 1956 onde, por já saber ler com fluência, foi transferida do pré-primário para o Primeiro Ano. Cursou no Colégio Patrocínio São José os ensinos Primários e o Ginásio ingressando recém-criada Universidade Federal de Sergipe em 1968, graduando-se em História em 1971, finalizando o mestrado também em História pela Universidade Federal de Pernambuco em 1981 e o doutorado em Geociências (Geociências e Meio Ambiente) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho em 1998. Aluna de Beatriz Góis Dantas durante a graduação atuou junto à mestra, na qualidade de estagiária no fim do curso, no projeto de reorganização do Arquivo Público do Estado, órgão o qual dirigiu depois de formada. Foi também diretora do Museu do Homem Sergipano, vinculado à Universidade Federal de Sergipe, ocupou a chefia do Departamento de História e do Programa de Documentação e Pesquisa Histórica (PDPH), e atualmente é a oradora oficial do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Seguindo os passos de Maria Thétis Nunes e Beatriz Góis Dantas, Terezinha Oliva foi peça fundamental na ampliação do conhecimento da história sergipana, seja através dos livros e artigos, frutos de extensa e minuciosa pesquisa, seja pelo comprometimento, seriedade e rigor a frente dos órgãos e departamentos onde atuou.

4-Ofenísia Soares Freire

04-Ofenisia Soares Freire

Professora, militante política e intelectual sergipana, Ofenísia Soares Freire é natural da cidade de Estância de onde saiu para estudar no Colégio Interno Senhora Santana em Aracaju em 1925. Retornou para Estância após se diplomar no magistério pela Escola Normal Rui Barbosa, onde se dedicou a docência com especial engajamento. Possui uma longa história na atividade docente, lecionando no Atheneu Sergipense onde ficou até sua aposentaria em 1966. Além do Atheneu, lecionou no Colégio Jackson de Figueiredo e no Colégio Tobias Barreto e, depois de sua aposentadoria continuou suas atividades, dando aulas em pré-vestibulares, ministrando cursos, participando da comissão julgadora de vários concursos literários. Foi ainda assessora do reitor na UFS, com o Cargo de Revisora de Textos no período de 1984-1988, membro do Conselho Estadual de Cultura, membro do Conselho Estadual de Educação, sócia do Instituto Histórico de Sergipe. Foi também militante política, especialmente nos duros anos da Ditadura Militar quando foi perseguida, teve seu mandato extinto como conselheira estadual da educação e foi afastada da cadeira no Atheneu Sergipense. Intelectual respeitada publicou inúmeros livros, com destaque para a obra “Presença Feminina em Os Lusíadas”, tendo sido a segunda mulher a assumir uma cadeira na Academia Sergipana de Letras. Faleceu em 24 de julho de 2007 aos 93 anos deixando um vasto legado intelectual para o estado de Sergipe.

5-Eufrozina Amélia “Zizinha” Guimarães

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Nascida no município sergipano de Laranjeiras, Eufrozina Amélia Guimarães, a Professora Zizinha, destacou-se em sua atuação comprometida como professora e artista numa época em que uma mulher e em especial a mulher negra dificilmente alcançava alguma posição de destaque. Infelizmente, mesmo com sua atuação decisiva no campo educacional de Laranjeiras, sabemos muito pouco sobre sua história. Acredita-se que tenha nascido em 26 de dezembro do ano de 1872. Teve acesso a educação tendo assim a oportunidade de demonstrar sua inteligência aguçada, talentos e habilidades. Afirma  a discente do curso de Museologia da Universidade Federal de Sergipe e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em História das Mulheres – GEPHIM, Lívia Borges Santana: “É inquestionável a importância da professora Zizinha para a formação da sociedade de Laranjeiras. Ela dedicou sua vida ao ofício de ensinar e contribuiu para o crescimento intelectual de várias gerações de sergipanos. Contudo, sua história está dispersa em páginas de trabalhos acadêmicos e em algumas publicações. Seus objetos pessoais estão espalhados nos mais diversos e inusitados acervos, fato que torna sua memória ameaçada pelo esquecimento. Diante de tudo isso, é necessário garantir a salvaguarda dessa memória, uma memória que conta de maneira surpreendente detalhes da vida de uma professora que é lembrada até hoje por seus ex-alunos como uma pessoa inteligente, elegante e amável.” Infelizmente, mesmo tendo se passado quase sete anos desde que essas palavras foram escritas, pouco foi feito no intuito de se mudar essa realidade de falta de reconhecimento sobre a história de uma das mais ilustres personalidade não apenas de Laranjeiras, mas de todo o estado.

6-Aglaé D’Ávila Fontes

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Professora, escritora, folclorista, historiadora, uma das maiores pesquisadoras do folclore do estado de Sergipe, diretora do Centro de Criatividade de Sergipe, sócia do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e integrante da Academia Sergipana de Letras. Chegou a ser secretária de Estado 3 vezes. Apresentadora e produtora do programa “Andanças do Folclore Sergipano” na TV Caju. Ajudou muito a ingressar na vida artística, com sua escolinha de música, por volta do ano de 1950. A incansável Aglaé D’Ávila Fontes nasceu na cidade Lagarto, mas morou em diversas cidades em virtude da profissão do pai, servidor público. Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Educação Musical pela Universidade Federal de Sergipe, sua grande paixão sempre foi a licenciatura além da dedicação para com a cultura e tradição sergipana, tanto que, mesmo aposentada continua ativa, ensinando e preocupada com a conscientização dos sergipanos da importância de que as novas gerações tenham um referencial cultural.

7-Maria Rita Soares de Andrade

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Nascida em 03 de abril de 1904 em Aracaju, a filha de operários Maria Rita Soares de Andrade foi a primeira mulher nomeada Juíza Federal no Brasil. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1926, apenas a terceira no estado a conseguir o feito, atuando como advogada tanto na capital baiana como em Aracaju. Foi membro do Ministério Público e do Conselho Penal e Penitenciário, professora de literatura no Colégio Atheneu Sergipense e de Direito Comercial na Escola do Comércio, além de ter funcionado ad hoc como Procurador da República e Procurador Geral do Estado. Teve atuação de destaque no movimento feminista ao lado de Bertha Lutz. Numa CPI para investigar a situação da mulher ocorrida na década de 70, ela falou de improviso citando pessoas, datas e narrando acontecimentos relacionados com a história da liberação da mulher brasileira com uma precisão que impressionou a todos (três senadores e três deputados, alguns jornalistas e curiosos) que assistiram ao seu depoimento. Ao final da palestra, quando o senador Heitor Dias (Arena-BA) afirmou que não havia mais discriminação contra a mulher, tanto que o homem geralmente a coloca “num altar”, Maria Rita interrompeu-o com um sonoro “discordo” esclarecendo que “é justamente esta história de colocar a mulher num altar, que vem nos desgraçando”. Faleceu em 1998 aos 94 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro onde atuava como advogada após sua aposentadoria compulsória do cargo de Juíza Federal, exercendo a magistratura como titular da 4ª Vara Federal. Apesar do alto grau de renome e importância alcançado por ela na magistratura brasileira, infelizmente Maria Rita é mais uma de muitas ilustres desconhecidas em sua própria terra.

8-Alina Leite Paim

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Sergipana, escritora, comunista, silenciada e esquecida. Assim podemos resumir a vida e obra da sergipana nascida no município de Estância em 10 de outubro de 1919, cuja obra chegou a ser prefaciada e elogiada por Graciliano Ramos e Jorge Amado. Por ter perdido a mãe ainda pequena Alina Leite Paim foi criada na cidade de Simão Dias por três tias, com quem teve uma educação severa e rígida. Militante do Partido Comunista do Brasil e das causas feministas foi perseguida pelo regime militar, sofrendo perseguições e pressões de toda ordem inclusive processo judicial conforme relatado pelo pesquisador Gilfrancisco dos Santos. Além de contribuir com artigos em vários jornais, Alina escreveu dez romances e quatro livros infantis, tendo alguns deles editados na Rússia, China, Bulgária, e Alemanha. A Professora Ana Leal Cardoso, da Universidade Federal de Sergipe, destaca o fato de as obras de Alina Paim estarem “repletas de personagens femininas e feministas que lutam por um mundo mais justo. De ‘Estrada da Liberdade’ (1944) a ‘A Correnteza’ (1979), a luta da mulher por um espaço mais democrático e inclusivo está presente. Sua narrativa é construída por uma sensibilidade artística bem trabalhada, capaz de traçar caminhos que levam o (a) leitor (a) a diferentes ‘mundos’: do Nordeste rural à vida de mulheres trabalhadoras”. No artigo “Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo”, a Professora Ana Leal explica o provável motivo do esquecimento de sua obra: “talvez pelo fato de ela ser comunista e suas obras estarem repletas de denso teor socialista (naquela época, um compromisso com o PCB) que reivindica direitos iguais para todos, o que não agradava nem ao governo e nem aos empresários do mundo editorial e artístico”. Alina Leite Paim faleceu no dia primeiro de março de 2011.

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Essa postagem é dedicada especialmente a minha esposa Geane Almeida e a minha irmã Dani Oliveira, mulheres especiais, talentosas, competentes e capazes de inspirar todos ao seu redor.

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A COLONIZAÇÃO DE SERGIPE DEL REY

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Mapa da Praefectura de Cirîjîvel Seregipe del Rey cum Itâpuáma representando a Capitania de Sergipe Del Rey, de Georg Marcgraf entre 1638-1643. Imagem retirada do livro A História de Sergipe Através da Cartografia

Dando continuidade ao post sobre a história Colonial de Sergipe, iniciada com o texto A Conquista de Sergipe Del Rey, chegou a vez de contar como se deu os primeiros anos da colonização sergipana, a procura por minas de metais e pedras preciosas e a invasão holandesa.

Essa postagem estava planejada para o dia 24 de Outubro, quando se comemora a Sergipanidade em nosso Estado. No entanto, devido a uma série de compromissos de trabalhos e outros só consegui terminar a elaboração do texto essa semana. Como o texto acabou ficando um pouco maior que o previsto, optei por deixar a parte sobre a anexação à Bahia e o período até 1763 para o próximo e último texto e não nesse como programado.

A Conquista de Sergipe foi obtida ao fim de uma guerra, que praticamente dizimou os habitantes autóctones, e da posterior perseguição dos sobreviventes que fugiram para o interior. O conquistador Cristóvão de Barros deu então início ao processo de colonização do território sergipano com a fundação da cidade-forte de São Cristóvão e com a distribuição de sesmarias e cativos aos soldados que participaram da guerra de conquista. Após oito meses de lutas para consolidar a conquista, retornou a Bahia, mas não sem antes criar uma força policial e construir um presídio, deixando Tomé da Rocha como Capitão-Mor e responsável pela administração, ficando este no cargo de 1591 à 1594.

São Cristóvão foi inicialmente construída em área próxima a foz do Rio Sergipe na data provável de 1º de janeiro de 1590. Entre 1595 e 1596 a cidade sofreria uma mudança de localidade com o objetivo de evitar o ataque dos piratas franceses. Esses piratas conheciam bem a região devido ao tempo que passaram comercializando com os indígenas e eram uma constante ameaça à cidade. Em 1607 ocorreu nova mudança para a localidade onde a cidade encontra-se atualmente, quatro léguas distantes da enseada do Vaza-Barris, na confluência do rio Paramopama.

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Praça São Francisco no Centro Histórico da atual cidade de São Cristóvão. Fundada em 1607, foi designada Patrimônio da Humanidade em 1º de agosto de 2010 pela UNESCO pelo seu valor como documento histórico, paisagístico, urbanístico e sociocultural do período da União Ibérica. Foto de Adilson Andrade

As primeiras sesmarias doadas nos inícios da colonização eram voltadas principalmente para as atividades pastoris. Por muito tempo essa foi a principal atividade econômica da capitania, o que levou o historiador Felisbelo Freire a escrever: “O sergipano antes de ser agricultor foi pastor”. A produção canavieira só iniciaria por volta de 1602 nas férteis terras do vale do Cotinguiba. Ambas as atividades, pecuária e agricultura, visavam principalmente abastecer a capitania da Bahia. Paralelo a essas atividades econômicas, nos grandes latifúndios desenvolvia-se a lavoura de mantimentos, através das plantações de mandioca, milho, arroz, feijão, legumes, além da criação de aves em geral nas pequenas roças dos colonos que chegavam trazendo suas famílias. Esses eram bem diferentes dos grandes donos de terra, veteranos da conquista que, nas palavras de Luis Mott “deixavam na Bahia suas mulheres, algumas delas felizes por se verem livres das pancadas e da má vida que lhe davam seus senhores”.

Tanto a conquista de Sergipe como sua colonização ocorreram por ocasião da União Ibérica, no contexto da Dinastia Filipina em Portugal. Nesse período, estimulado pela descoberta das vultosas minas de prata e ouro nas colônias espanholas na América, a procura da existência de minas similares na América portuguesa fez florescer todo tipo de lenda a respeito de montanhas de ouro ou eldorados. Em Sergipe a mais famosa dessas lendas surgiu com a curiosa história sobre as Minas de Prata da Serra de Itabaiana, supostamente descobertas por Belchior Dias Moréia.

Veterano da guerra de conquista de Sergipe, Belchior era neto por parte de mãe de Diogo Alvares Correia, o Caramuru e pelo lado paterno de Garcia Dias D’Ávila, considerado o primeiro latifundiário brasileiro tendo possuído inúmeras terras nos estados da Bahia e de Sergipe. Após ter servido como um dos capitães de Cristóvão de Barros, Belchior recebeu lotes de terra junto a serra do Canini, entre os rios Real e Jabiberi, mais ou menos onde hoje se localiza a cidade de Tobias Barreto.

Influenciado pelo primo Gabriel Soares de Souza morto em 1592 quando participava de uma entrada a procura de ouro e pedras preciosas nos sertões baianos, Belchior saiu em 1594 na sua própria expedição. Após oito anos de andanças pelos sertões de Bahia e Sergipe, quando todos já o julgavam morto, retornou à sua fazenda afirmando ter descoberto ricas minas de prata. Em 1605 viajou para Espanha onde planejava encontrar patrocínio para a exploração das minas, retornando quatro anos depois com a promessa real “torna-lo fidalgo e lhe dar a administração das minas” conforme relata Maria Thétis Nunes no livro Sergipe Colonial I.

Apesar do apoio real, Belchior encontrou dificuldades impostas pelo então superintendente de todas as minas do Brasil, Dom Francisco de Souza. Mas, com a morte de Dom Francisco em 1611 e o constante fracasso nas buscas das riquezas minerais, a corte espanhola lembrou-se das promessas de Belchior de que as minas por ele descobertas seriam capazes de calçar as ruas de Madri com prata.  O então Governador-Geral do Brasil, Dom Luís de Souza, recebeu carta do rei de Espanha instando que se contatasse Belchior Dias Moreia. Na carta era garantida ao sertanista o foro de fidalguia, a administração das minas e terras que pretendesse, contanto que informasse a localização das minas e passasse a explorá-la o quanto antes.

Assim, em fins de 1617, o Capitão-Mor de Sergipe João Mendes acompanhado de Cristóvão da Rocha, pessoa de destaque em Sergipe e o Ouvidor Gaspar de Oliveira, em nome do Governador-Geral do Brasil chegam à fazenda Jabibiry, para acertarem os detalhes da expedição que levaria às minas. Belchior recebe a comitiva, mas, desconfiado, diz que só revelará a localização das minas com a confirmação das vantagens ofertadas pelo rei e não depois.  A confirmação real só viria em 1619. Alegando serem tais concessões muito pouco em razão da imensidão de riquezas a ser gerada, Belchior exigiu mais concessões, dentre elas a hereditariedade do foro de fidalguia e da administração das minas, além de mais trinta léguas de terras igualmente hereditárias, onde teria poder total sem necessidade de prestar contas aos governadores-gerais, aos tribunais e juízes, além dos direitos de instituir hábitos de cavaleiros de Cristo e apresentar párocos às freguesias dos seus distritos. Tudo lhe foi concedido e depois de grandes preparativos a comitiva composta do próprio Governador Dom Luís de Souza e do Desembargador Francisco Fonseca Leitão, contando ainda com o capitães-mores do Espírito Santo, Gaspar Allures de Siqueira e de Sergipe, João Mendes e de um mineiro castelhano trazido do Peru especialmente para essa entrada, Fernão Gil, partiu em meados de 1619, sob o comando de Belchior que os levou até a Serra de Itabaiana.

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Vista parcial da Serra de Itabaiana, onde, ainda hoje, muitos acreditam ser o local das Minas de Prata de Belchior Dias

O técnico castelhano submeteu vários exemplares de rocha a testes sem encontrar nenhum traço de qualquer tipo de metal precioso. Segundo relato do próprio Governador em carta ao Rei Felipe II, Belchior ainda tentou oferecer a localização de nova mina de grande rendimento próximo ao rio Real. Mas entendendo que ele estava confuso e variava, Dom Luís de Souza ordenou o retorno da expedição para São Cristóvão onde os exemplares de rocha foram submetidos a novos exames, confirmando a inexistência dos metais preciosos. Belchior foi então preso e conduzido para Salvador onde permaneceria encarcerado até que as despesas com a expedição fossem repostas à Fazenda Real. Para liberta-lo, sua família pagou a indenização, permitindo que retornasse para sua fazenda onde, octogenário, morreria em 1622.

A história das minas de prata da Serra de Itabaiana, no entanto, não terminaria aí. Segundo Maria Thétis Nunes, embasada em documentação de Vasco Fernandes César de Menezes, Governador da Bahia em 1726, Belchior teria encontrado na realidade minas de ouro no interior da Bahia. Porém, sempre desconfiado das promessas das autoridades metropolitanas, levou a comitiva para a Serra de Itabaiana onde pretendia submete-los a prova. Com a confirmação de suas suspeitas optou por não revelar a verdadeira localização das minas. Esse pensamento levaria muitos outros sertanistas à procura das Minas de Prata de Belchior Dias Moréia, não apenas na Serra de Itabaiana, mas por todo o sertão sergipano e de partes da Bahia, criando todo tipo de lenda sobre riquezas incalculáveis, que, por sua vez, levou a inúmeras expedições organizadas nos anos e séculos a frente com o intuito de descobrir o local exato das minas. Graças a essas expedições grande parte do interior do estado sergipano foi explorado, auxiliando no melhor conhecimento de seu território, na criação de novas rotas e novos pastos para o gado e de novos núcleos de povoamento.

Ainda durante o período da União Ibérica (na realidade, mas especificamente por causa dela) outro fato importante ocorreu na história da pequena capitania: A invasão dos holandeses ao Nordeste colonial. A Holanda integrava o Império Castelhano até 1579, quando consegue a independência depois de um período de lutas intensas. Como retaliação, Felipe II proibiu a entrada de navios holandeses em portos ibéricos, o que, na época, incluía todas as colônias portuguesas e espanholas, ou seja, praticamente metade do mundo conhecido até então. Essa medida impactou diretamente o rico comércio que os holandeses tinham com os portugueses e suas colônias.

Por contramedida, a Holanda cria as Companhias de Comércio, cujo objetivo era assegurar os negócios holandeses no mundo. Com o sucesso da Companhia das Índias Orientais no extremo Oriente, foi criada em 1621 a sua equivalente, a Companhia das Índias Ocidentais, com o intuito de atacar as principais áreas de importância colonial espanhola no Novo Mundo, em especial as portuguesas, assegurando o monopólio holandês sobre a lucrativa produção açucareira do Nordeste brasileiro. Os holandeses calculavam serem essas colônias o ponto fraco do império espanhol e por isso foi escolhido como alvo inicial.

Uma primeira tentativa de invasão a Salvador se deu em 1624, mas depois de um ano os holandeses foram expulsos por uma frota luso-espanhola sob o comando de Dom Fradique Toledo Osório. Cinco anos mais tarde nova tentativa é feita, tendo como alvo a próspera Capitania de Pernambuco. Com um melhor conhecimento do litoral nordestino e com uma frota bem preparada, conquistam a capitania após vencer a frágil resistência local e vão alargando a área conquistada. Ao norte chegam até o Maranhão e ao Sul chegam até o rio Real, na divisa entre Sergipe e Bahia.

Desde o início da ocupação holandesa a ocupação de Sergipe era imprescindível, pois era, conforme relata o holandês Gaspar Barléu: “Situada entre a capitania da Bahia e a terra do domínio holandês era vantajosa para a defesa de nossas fronteiras, abundava de gado e dava mais de uma esperança de minas”. A pequena capitania tornava-se estratégica para as pretensões holandesas de conquista da capital baiana, assegurando assim sua posição no Nordeste do Brasil colônia.

Foi no início do governo de Maurício de Nassau em 1637 que começou a se dar a tomada do território sergipano. Após a Batalha de Mata Redonda, Maurício de Nassau perseguiu as tropas vencidas até as margens do Rio São Francisco fundando o Forte Maurício onde mais tarde seria a cidade alagoana de Penedo. Doente, Nassau não pode continuar na luta, retornando a Recife ordenou que Segismundo Van Schoppke, no comando de 3.000 homens invadisse o território sergipano. O comandante das tropas vencidas por Nassau em Mata Redonda, Conde de Bagnuolo, aquartelado em São Cristóvão, percebendo que a resistência era inútil fugiu para Salvador ordenando que, tudo o que pudesse servir para o inimigo fosse destruído. Quando os exércitos invasores finalmente chegaram encontraram uma capitania devastada. Das 13 mil cabeças de gado existentes 8 mil foram levadas na fuga sendo sacrificadas as restantes, os canaviais foram incendiados, casas e engenhos destruídos.

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Cidade de Penedo em Alagoas nas margens do rio São Francisco na divisa com Sergipe

Apesar da devastação encontrada, era intenção de Maurício de Nassau reestruturar Sergipe fazendo-a retornar a prosperidade anterior. Entendia Nassau que, devido à sua posição estratégica, a existência de uma população sob a autoridade holandesa em Sergipe traria maior segurança diante da possibilidade de um ataque luso-espanhol, seus pastos servindo para o abastecimento de carne e montarias para as tropas. No entanto a Companhia das Índias Ocidentais considerou o projeto muito dispendioso e contrário à política econômica que vinha orientando as conquistas holandesas. Essa política era pautada numa colonização essencialmente urbana, enquanto a colonização portuguesa efetuada em Sergipe era essencialmente rural, praticamente sem vida urbana e com seus poucos engenhos (eram quatro antes da invasão, todos de pouca importância) e canaviais destruídos não apresentavam as vantagens das demais capitanias sergipanas. Nassau insistiu em seu projeto, mas no fim a Companhia ordenou a construção de alguns fortes estratégicos nas margens dos rios Vaza-Barris e Real garantindo a segurança das fronteiras e a retirada das tropas, não sem antes finalizar a destruição iniciada por Bagnuolo durante sua fuga.

O pouco que sobrou de São Cristóvão foi totalmente destruído. No caminho de volta ao Forte nas margens do São Francisco o exército holandês destruiu “a pequena riqueza que uma colonização de 47 anos havia acumulado”, conforme narrado por Felisbelo Freire no livro “História de Sergipe”. O resultado foi o completo abandono político de Sergipe no período que perdurou a dominação espanhola no Brasil. Na capitania poucos e pobres agricultores e criadores que não conseguiram acompanhar a fuga de Bagnuolo, escapando da sanha destruidora das tropas holandesas, persistiam esquecido por ambas às nações.

No inicio de 1640 a coroa luso-espanhola insta o governo colonial brasileiro a retomar os territórios perdidos. Várias batalhas ocorrem no território sergipano e em abril desse mesmo ano é tomado o Forte Maurício. Ainda em 1640 a dominação espanhola sobre Portugal tem fim com a ascensão ao trono luso de Dom João IV, que contou com o apoio da burguesia urbana mercantil das cidades portuárias e de cristãos-novos. Uma vez que, um dos motivos da dominação espanhola no Nordeste brasileiro era atingir a Espanha, iniciam-se as conversações de paz entre Portugal e Holanda. Em 1641 é assinado um armistício entre as duas nações onde Portugal tentava assegurar a posse de Sergipe alegando ser a capitania a fonte de gado e mantimentos que sustentavam a Bahia e o fato de nunca ter sido efetivamente ocupada pelos holandeses.

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Gravura da época mostrando um arcabuzeiro do exército holandês. Gravura de Jacob de Gheyn II

O armistício jamais foi respeitado no Brasil. Sergipe continuou sendo palco de inúmeras batalhas, guerrilhas e emboscadas, com tropas do lado português comandadas por Henrique Dias, André Vidal de Negreiros e João Lopes Barbalho. Em 1645 essas tropas já dominavam grande parte do território sergipano e preparavam-se para avançar sobre Alagoas. Junto a essas ações os senhores de engenho do Nordeste ocupado, endividados com os mercadores holandeses e sem condição de saldar as dívidas, organizavam uma revolta com o apoio do Governador-Geral Antônio Teles da Silva.

Em 1646 é enviada uma expedição contra o Forte Maurício reconquistando-o e depois partindo para o ataque da povoação de Urubu (atual cidade de Propriá) onde são derrotados numa emboscada armada pelo Capitão Francisco Rabelo, com o apoio de Pedro Gomes à frente dos índios Urumarus. A situação para os holandeses ficou insustentável e acabaram forçados a se retirarem da região do São Francisco. Terminava assim o tempo dos Flamengos em terras sergipanas.

O período de oito anos de ocupação holandesa em Sergipe foi pouco proveitosa para a capitania. O tímido progresso registrado desde a conquista de Cristóvão de Barros foi interrompido abruptamente: a criação de gado, até então principal atividade econômica foi praticamente interrompida, a iniciante indústria açucareira destruída e a embrionária vida urbana sofreu um atraso significativo com a destruição da capital São Cristóvão e dos pequenos núcleos de povoamento. No entanto, instigados pelas histórias deixadas pela procura das Minas de Prata de Belchior Dias Moréia, os holandeses realizaram várias expedições que exploraram as Serras de Itabaiana e Miaba, chegando até as terras onde hoje se encontra a cidade de Simão Dias e provavelmente até as cachoeiras de Paulo Afonso. Mesmo não encontrando as míticas minas, essas expedições aumentaram enormemente o conhecimento dos sertões sergipanos.

Por anos acreditou-se que a ocupação holandesa tinha deixado marcas na população sergipana através da existência de um maior número de pessoas loiras e de olhos claros especialmente na região do vale do São Francisco. Atualmente essa marca é questionada por historiadores, que acreditam serem esses loiros descendentes de portugueses originários da região da Galícia, ao norte de Portugal, cujos habitantes possuem esses mesmos traços físicos. Viria inclusive daí a origem do termo “galego”, muito comum em Sergipe e em alguns outros estados do nordeste para se referir a pessoas loiras.

Além desses fatos não houve em Sergipe nenhum impacto permanente ou significativo da permanência holandesa como ocorreu em outras áreas nordestinas, especialmente Pernambuco.

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Bandeira usada por Maurício de Nassau durante a ocupação holandesa do Nordeste Brasileiro

Fontes utilizadas nesse texto (e para se aprender mais):

“História de Sergipe” de Felisbelo Freire;

“História dos Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil e Noutras Partes sob o Governo do Ilustríssimo João Maurício Conde de Nassau” de Gaspar Barléus, Edição do Ministério da Cultura;

“Sergipe Colonial I” de Maria Thétis Nunes;

“Repertório de Documentos para a História Indígena” Organizado por Diana Maria de Foro Leal;

“Textos para a História de Sergipe”, de Diana Maria de Faro Leal Diniz (Organizadora).

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A CONQUISTA DE SERGIPE DEL REY

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Bandeira de Sergipe – Imagem do Portal de Sergipe

Oito de Julho é a data em que se comemora a Emancipação Política de Sergipe. Em teoria é a data cívica mais importante do calendário estadual. Infelizmente, conforme relatei nesse texto de exatamente um ano atrás, o caráter comemorativo da data foi se perdendo com o tempo, num misto de desinteresse das instituições (governamentais ou não) de se valorizar e dar a conhecer os aspectos históricos e culturais de nosso estado, bem como um certo sentimento de desapego do próprio sergipano para com esses aspectos.

No contínuo esforço de se conhecer e, principalmente, dar a conhecer esses e outros aspectos de Sergipe, iniciei uma pesquisa com o intuito de resgatar a história do “descobrimento”, conquista e consequente colonização de seu território (sem obviamente esquecer o massacre das tribos de nativos), até sua emancipação da Bahia em 1820, assim como seus inúmeros personagens. Contrariando minhas expectativas, encontrei em sites e livros um rico material (ainda que com algumas lacunas sobre determinados fatos e eventos) que, uma vez organizado, levou a um texto enorme, além de ter consumido um longo período de dedicação e escrita que fatalmente impediria sua publicação a tempo de ser postado no dia 08 de Julho, conforme minha intenção. Assim, optei por dividir o material em três textos menores (mas nem tanto), os quais irei postando a medida que forem sendo concluídos.

Nesse primeiro texto veremos como se deu o início da formação do estado de Sergipe com a chegada dos portugueses às nossas praias em 1501, as primeiras tentativas de colonização culminando numa guerra que levou ao extermínio de boa parte dos seus habitantes originários, os indígenas, em 1590. O segundo texto contará sobre a colonização propriamente dita, a invasão holandesa e anexação à Capitania da Bahia abrangendo o período de tempo entre 1590 à 1763.  Finalmente no terceiro e último texto saberemos como se deu a emancipação política, a luta pela sua confirmação e uma visão breve dos governos nos primeiros anos de autonomia política até a mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju em 1855.

Essa foi a maneira que encontrei para não apenas celebrar os 196 anos de nossa Emancipação Política, mas especialmente nossa Sergipanidade: lembrando da história hoje virtualmente esquecida pelos sergipanos.

O primeiro relato histórico referente ao território do futuro Estado de Sergipe é encontrado em carta do piloto florentino Américo Vespúcio, onde são narrados os principais fatos ocorridos na primeira expedição exploradora enviada ao Brasil pela Coroa Portuguesa, sob o comando de Gaspar de Lemos em 1501. Informa-se nessa carta, que as três naus que compunham a expedição tiveram dificuldades em desembarcar na altura do estuário do rio São Francisco, encontrando mais ao sul praias que permitiam a frota ancorar, favorecendo também o desembarque. Com base nesse relato, os historiadores atuais concluem que esse desembarque ocorreu no litoral próximo à foz do rio Vaza-Barris.

A Expedição permaneceu cinco dias naquele local. Do contato com os nativos, Vespúcio escreveu: “…assentamos de trazer deste lugar um par de homens para aprender a língua e vieram três deles por sua vontade para o Portugal.” Conforme conclui a historiadora Maria Thetis Nunes no livro “Sergipe Colonial I” – de onde esse relato foi extraído –, foram estes os primeiros sergipanos a emigrar. No local onde aportaram predominavam as tribos Tupinambás e Caetés, mas no território viviam também os Aramurus e Kiriris nas margens dos rios São Francisco e Jacaré, os Aramaris, Abacatiaras e Ramaris no interior, além dos Boimés, Karapatós e os Natus.

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Vista aérea da foz do Rio Vaza-Barris atualmente

Com a divisão do Brasil pela Coroa em 15 Capitanias Hereditárias, em 1534, os Sertões do Rio Real (como a região era conhecida entre os portugueses até então) foram integrados a Capitania da Bahia de Todos os Santos, a qual foi doada a Francisco Pereira Coutinho, português que fizera fortuna nas Índias. Em 1536 chegava o donatário à Bahia, dando inicio à colonização fundando, onde hoje se encontra o Farol da Barra em Salvador, o Arraial do Pereira, mais tarde chamada de Vila Velha do Pereira. Sua presença não teve nenhum efeito sobre Sergipe, que, esquecido, favoreceu a ação de piratas franceses que contrabandeavam com a colaboração dos Tupinambás os produtos da região, dentre eles o Pau-Brasil.

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Tomé de Souza durante a construção de Salvador

Em 1547, após se retirar para a vizinha Capitania de Porto Seguro devido a divergências com alguns colonos, Francisco Pereira Coutinho retornava para Salvador quando naufragou próximo à Ilha de Itaparica, sendo aprisionado e morto pelos índios tupinambás. Com sua morte a Coroa compra a Capitania dos herdeiros e a torna sede do Governo-Geral, novo sistema implantado em virtude do fracasso do sistema anterior de Capitanias Hereditárias. Tomé de Souza foi nomeado Governador Geral sendo uma de suas atribuições a exploração das terras até o rio São Francisco.

Por essa época os Sertões do Rio Real já eram conhecidos pelo nome do principal rio da região, chamado pelos indígenas de Siriípe, que significa Rio dos Siris. No falar e principalmente no escrever dos colonizadores Siriípe foi se transformando e assumindo as pronúncias e grafias de Cirizipe, Cirigype, Serigype, até assumir sua forma atual: Sergipe. Por encontrar-se em Capitania pertencente à Coroa Portuguesa, e também para diferencia-la de uma localidade baiana chamada Sergipe do Conde, as terras passaram a ser conhecidas como Sergipe Del Rey depois de sua conquista.

Apesar das ordens reais, nem Tomé de Souza e nem seus sucessores Duarte da Costa e Mem de Sá tiveram êxito em explorar as terras sergipanas. Mas onde os colonizadores falhavam, tinham sucesso os jesuítas através de suas expedições missionárias, que adentravam os sertões inexplorados pelos portugueses com o objetivo de catequizar os selvagens indígenas.

No entanto, no governo de Mem de Sá, foi realizada uma grande perseguição aos índios, com o pretexto de puni-los por terem devorado Dom Pero Fernandes Sardinha, o Primeiro Bispo do Brasil, em 1556, durante o governo de seu antecessor, Duarte da Costa. A violência foi tamanha que, com a denúncia dos jesuítas dos crimes à corte, essa decidiu que a guerra era injusta, ordenando que os índios capturados fossem postos em liberdade. Devido a essa perseguição os indígenas do território sergipano passaram a odiar e temer os portugueses, intensificando sua aliança com os franceses.

Essa perseguição não impediu que, em 1575, o Padre Gaspar Lourenço e o Padre João Salônio, em expedição missionária da qual faziam parte alguns colonos e um grupo de soldados da Bahia, atravessem o Rio Real e ergam uma capela jesuítica nas proximidades do rio Piauí e uma escola, chamada de São Sebastião, tendo o Padre João Salônio o seu professor. Ali acabou sendo fundado pouco depois o povoado de São Tomé por Garcia D’Ávila a quem o Governador de Salvador Luís de Brito delegara o início da colonização de Sergipe e que muito provavelmente comandava a expedição. Mais tarde a vila seria rebatizada de Vila de Santa Luzia do Piaguy (como era grafado o nome do rio Piauí) e posteriormente Vila de Santa Luzia de Itanhy, a qual deu origem a cidade atual com mesmo nome. Os padres ainda construiriam mais adiante na margem direita do rio Vaza-Barris a igreja de Santo Inácio, próximo da atual cidade de Itaporanga D’Ajuda, e a igreja de São Paulo no litoral em alguma localidade próximo de onde séculos mais tarde se ergueria a atual capital, Aracaju. A empreitada dos padres contou com a colaboração e apoio de três líderes locais, que entrariam para a história de Sergipe: os Caciques Aperipê (líder as terras do rio Real até próximo ao rio Vaza-Barris), Surubi (líder da região do rio Vaza-Barris) e aquele que viria a ser seu principal líder, o Cacique Serigy (no litoral).

Igreja de Santa Luzia do Itanhi-Prefeitura municipal

Atual Igreja de Santa Luzia do Itanhy

Infelizmente a colaboração com os jesuítas terminaria de forma trágica. Insatisfeito com a atuação dos padres, o Governador Luís de Brito não aprovou a fundação do povoado de São Tomé, e, sob determinação do governo português, ainda em 1575, atravessou o rio Real com um exército de soldados e moradores da Bahia. Os padres mandaram avisos de que os índios não desejavam confrontos e estavam dispostos a tornarem-se cristãos, mas o governador não lhes deu ouvidos. Na realidade, o interesse do governo luso não era o de catequizar os índios, mas sim que fossem pacificados pelos padres, facilitando assim sua captura e a conquista de suas terras.

Receando o avanço das tropas os índios fugiram das Missões, levando Luis de Brito a usar essa fuga como pretexto para caçar os fugitivos alegando “uma quebra da paz” dando inicio a um ataque violento e mortal sobre as aldeias. Na luta que se travou os indígenas, pegos de surpresa, tiveram suas aldeias destruídas, morrendo Surubi com um tiro de mosquete ao defender o Povoado de Santo Inácio, o qual também foi destruído. Aperipê foi seguido por homens do governador por cerca de cinquenta léguas, mas conseguiu escapar. Os índios sobreviventes escaparam da captura fugindo para o interior juntamente com Aperipê. Durante os combates foram capturados mais de mil e duzentos índios. Esses foram transportados para Salvador onde, em pouco mais de um ano de cativeiro a varíola e o sarampo matou metade deles.

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Cidade de Itaporanga D’Ajuda: Foi nessa região que Surubi foi morto ao tentar defender seu povo do ataque ao Povoado de Santo Inácio

Para vingar a morte de Surubi, Serigy se uniu aos seus irmãos Siriri e Pacatuba (líderes das terras dos atuais rios Sergipe ao Siriri e entre os rios Poxim do Norte e São Francisco, respectivamente). Aos irmãos se uniriam ainda os Caciques Japaratuba e também Aperipê. Juntos formulam um plano de vingança. Solicitam o envio de nova missão jesuítica sob uma suposta alegação de paz. Apesar dos reforços enviados com os jesuítas, foram todos mortos, dando início à, assim chamada pela Coroa Portuguesa, “guerra justa” contra os indígenas.

Com o apoio dos quatro chefes indígenas Serigy estruturou uma forte milícia dentre os jovens guerreiros de sua tribo, reforçada pelos guerreiros das demais aldeias. Acredita-se que em torno de 20.000 índios fizessem parte dessa formação, com 1.800 deles mobilizados e prontos para o combate defendendo as terras sergipanas do invasor português, com um segundo agrupamento em constante treinamento de aproximadamente 1.000 guerreiros, cuja função era substituir prontamente os mortos na linha de frente. O próprio Serigy, auxiliado por seus comandados, escolhia os mais fortes e ágeis no manejo das flechas, zarabatanas e armas de fogo. Essas últimas eram conseguidas através de relações de troca com os franceses.

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Estátua representando o Cacique Serigy, localizada no Palácio Serigy no Centro histórico de Aracaju

Sob o comando de Serigy, os índios sergipanos resistiram aos ataques portugueses até o ano de 1590. Devido a sua localização privilegiada entre a capital da Colônia e a próspera Capitania de Pernambuco, os portugueses precisavam criar caminhos seguros através do território sergipano. Mas todas essas tentativas foram rechaçadas pelos homens dos cinco caciques defensores das terras sergipanas.

O destino dos guerreiros de Serigy viria a mudar quando, cansado das constantes derrotas, o governo colonial deu ao então governador de Salvador, o Capitão-Mor Cristóvão de Barros, o comando de uma esquadra de guerra e a chefia de uma milícia a soldo ao quais se juntaram aventureiros e colonos baianos. Nas palavras de Luis Antônio Barreto, destacado historiador e jornalista sergipano, Cristóvão de Barros era um “veterano em dizimar índios”, tendo atuado junto a Mem de Sá em 1566, quando socorreram os moradores do Rio de Janeiro expulsando e massacrando os índios tamoios que ali viviam.

Nos últimos meses de 1589 a esquadra chega ao litoral sergipano na região controlada por Serigy. Travam-se intensas batalhas e, segundo alguns relatos não confirmados, o próprio Cristóvão de Barros teria tentado negociar um acordo com Serigy para fundar uma cidade nas margens do rio Sergipe, pois desejava evitar mais confrontos sangrentos. O líder indígena, no entanto rejeitou o acordo, pois sabia que essa seria o início da colonização e do extermínio de seu povo.

Seguiu-se uma intensa batalha e, após quase um mês de lutas, “na noite de ano novo de 1590, quando os arcos e flechas dos guerreiros de Baepeba (como também era conhecido Serigy) e seus aliados sucumbem aos arcabuzes das tropas portuguesas, o que se declara é que já não é possível deter o avanço dos conquistadores,” conforme relatado por Beatriz Góis Dantas, professora de Antropologia da UFS. As fontes históricas sobre o que aconteceu após a batalha falam pouco sobre o destino dos cinco caciques que resistiram até o fim. Acredita-se que, uma vez que não foi relatada a captura de nenhum deles, tenham morrido na batalha Aperipê, Siriri, Pacatuba e Japaratuba. Serigy teria sido o único capturado e enviado à prisão na Bahia onde morreu devido a uma greve de fome contra a escravidão que lhe fora imposta. Seria esse o último ato de rebeldia do guerreiro, ao qual se somou uma maldição lançada com seus últimos suspiros sobre as terras conquistadas: “Nada que se fizer por aqueles prados dará certo!” Infelizmente o colonizador não tinha interesse em documentar com detalhes nada que dissesse respeito aos nativos, por isso esses fatos não podem ser confirmados, embora seu caráter lendário ajude a enriquecer o contexto cultural sergipano.

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Mural de Jenner Augusto, representando os povos indígenas de Sergipe

Com a conquista, Cristóvão de Barros funda a cidade de São Cristóvão – próximo às praias onde 265 anos depois seria construída a cidade de Aracaju -, a quarta mais antiga do Brasil, e a torna sede do governo da Capitania a qual oficializou o nome de Sergipe Del Rey. Em 1763 Sergipe seria incorporada, juntamente com as capitanias de Ilhéus e Porto Seguro à Capitania da Bahia a qual só terminaria em 08 de julho de 1820, quando da Emancipação Política promulgada por Dom João VI.

O saldo da “guerra justa” contou com mais de 4.000 índios escravizados e cerca de 2.400 mortos. No entanto, o etnocídio e o genocídio das tribos indígenas de Sergipe não parou aí, estendendo-se por todo o século XVII e XVIII com o avanço para o interior e às margens do São Francisco onde se refugiaram os poucos sobreviventes da Guerra de Conquista de Sergipe. Resistindo ao desaparecimento, sobrou apenas a comunidade indígena Xokó, na antiga Missão de São Pedro em Porto da Folha, município do sertão sergipano às margens do rio São Francisco.

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Brasão da capitania de Sergipe Del Rey

Fontes utilizadas nesse texto (e para se aprender mais):

Agência Sergipe de Notícias

Blog Ser Tão/Sertão

Ache Tudo e Região

Povos Indígenas de Sergipe

Livros:

“Apontamentos para a História da Companhia de Jesus”, de Antônio Henrique Leal;

“Investigações Histórico-Geográficas de Sergipe”, de Felte Bezerra;

“Sergipe Colonial I” de Maria Thétis Nunes;

“Textos para a História de Sergipe”, de Diana Maria de Faro Leal Diniz (Organizadora).

161 ANOS DE ARACAJU: UM BREVE RELATO DE SUA HISTÓRIA

Hoje, 17 de março é o dia em que se comemora o aniversário de Aracaju, capital do estado de Sergipe, onde tenho o orgulho de ter nascido e onde vivo até hoje. Para comemorar a data, me propus a escrever um breve relato de seu nascimento e evolução histórica.

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Bandeira de Aracaju-Wikimedia

Fundada por Cristóvão de Barros em 1º de janeiro de 1590 (sendo, portanto, a quarta cidade mais antiga do Brasil), a cidade de São Cristóvão serviu de Capital da então província de Sergipe, desde sua emancipação política da Bahia, em 8 de julho de 1820. E assim permaneceu até 17 de março de 1855, quando o Presidente da Província, Inácio Joaquim Barbosa, assinou a resolução que elevava o pequeno povoado de Santo Antônio do Aracaju, na região do Cotinguiba, com o intuito de transformá-la na nova capital da Província.

Uma fusão de fatores econômicos e políticos motivaram a mudança. Desses o principal era a necessidade do escoamento do açúcar, principal produto de exportação, o qual ocorria em sua maior parte, justamente às margens do pequeno povoado, através da Barra do Cotinguiba, como era então conhecido o rio Sergipe naquela região. Percebendo a importância que o produto tinha na economia local, bem como pretendendo corrigir os problemas gerados pela concorrência do café no sul e a extinção do tráfico negreiro, Inácio Barbosa procurava criar na região um porto que pudesse facilitar o escoamento do açúcar – consequentemente aumentando a produção e barateando os custos, além de diminuir a quantidades significativas que eram escoadas pelo porto da Bahia. Para tanto, ainda em 1854, mudou para a praia do pequena povoado a Alfândega, abriu uma subdelegacia, uma agência dos correios e a mesa de rendas provinciais. Preparava o terreno para a mudança.

Do ponto de vista político, existia na elite sergipana o desejo de romper com o passado colonial, visto como antiquado e cuja representação era encontrada na velha São Cristóvão, com suas ruas estreitas e tortas, cheias de ladeiras. A nova capital representaria a modernidade almejada pelos poderosos de então, junto ao enfraquecimento da elite dos senhores de engenho do Vale do Vaza-Barris.

A 2 de março de 1855, após reunião preliminar no engenho Unha de Gato de propriedade do Barão de Maruim, foi convocada uma Assembleia Provincial numa das poucas residências de Aracaju. João Gomes de Melo, o Barão de Maruim, possuía especial interesse na transferência da sede do governo, pois aumentaria assim a influência política e o poder comercial dos senhores de engenho do vale do Cotinguiba na província (liderados pelo Barão).

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Dois momentos distintos da Colina do Santo Antônio (início do século XX e atualmente), onde Aracaju nasce

Apesar de alguns protestos de pouco efeito durante os debates na Assembleia – que se estendera até o dia 16 ­–, onde se enfatizou a insalubridade e áreas inóspitas da vila com seus areais e brejos, a transferência foi aprovada com 16 votos a favor e apenas 2 contrários, esses de  Martinho Garcez e do Vigário Barroso. E, através da resolução n. 413 de 17 de março de 1855, o Presidente Inácio Barbosa eleva a categoria de cidade o pequeno povoado de pescadores transformando-a na nova capital de Sergipe.

Mas engana-se quem pensa que a mudança foi ponto pacífico para a sociedade sergipana, em especial a são cristovense. Entrou para o imaginário popular a revolta do Sr. João Nepomuceno Borges, o João Bebe-Água, nem tanto por ter arregimentando 400 homens em protesto, e muito mais pela sua hoje folclórica profecia do retorno da capital à sua São Cristóvão. Tanta era sua certeza do cumprimento de sua profecia, que João Bebe-Água teria guardado uma caixa de fogos atrás da porta de sua casa para comemorar o feito. Morreu pobre, sozinho, desacreditado e sem ter visto o cumprimento de seu sonho. Por outro lado, jamais se dispôs a por os pés na nova capital.

Uma vez feita a mudança, o desafio era dar ao vilarejo de pouco mais de cem pessoas, na maioria simples pescadores, os ares de modernidade almejados por seus idealizadores. Entra em cena o capitão de Engenharia Sebastião José Basílio Pirro, ao elaborar a primeira planta da nova cidade num traçado em xadrez “dentro de um quadrado de 540 braças de fado estavam traçados quarteirões iguais, de forma quadrada com 55 braças de lado, separados por ruas de 60 palmos de largura. Como se vê, o supra-sumo da simplicidade e do rigor geométrico”. Era o Quadrado de Pirro, termo cunhado pelo engenheiro sergipano Renato Conde Garcia, em seu livro de mesmo nome.

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Palácio do Governo do Estado, hoje transformado no Palácio Museu Olímpio Campos

Drenados os pântanos e feitos os devidos aterramentos iniciou-se a construção dos primeiros edifícios públicos da nova capital: “o palacete provisório para sediar a presidência, o quartel para a Polícia, e, com contribuições particulares, inclusive dele, a Casa da Oração, de pequeno tamanho, para as práticas religiosas enquanto a Matriz N. S. da Conceição não estivesse concluída, tendo sido lançados os alicerces,” conforme nos conta a Geógrafa e Historiadora Maria Thétis Nunes em artigo publicado no site Infonet. Junto a essas somava-se a construção de residências em números sempre crescentes.

Mas eis que, a 6 de outubro daquele mesmo ano de 1855, a província era sacudida com a morte de Inácio Barbosa, vítima de malária. Terminadas as obrigações fúnebres, instalou-se a dúvida sobre o destino da nova capital, visto não ter sido seu fundador a única vítima das “febres intermitentes”. Estariam as pragas rogadas por João Bebe-Água fazendo cumprir sua profecia?

Não seria dessa vez que João poderia comemorar com seus fogos. Os presidentes seguintes mantiveram as construções já iniciadas e deram início a outras, tão necessárias para se minimizar os evidentes problemas sanitários. Em 1860, a cidade recebe a visita ilustre do Imperador Dom Pedro II, tendo registrado em seu diário o funcionamento normal da cidade. Mas os problemas de insalubridade ainda persistiam nos arredores da cidade, onde viriam se constituir os primeiros núcleos socialmente periféricos ao norte e oeste da capital. A porção sul, passa a ser ocupada pela parcela da população mais abastada.

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Atracadouro onde desembarcou o Imperador Dom Pedro II e sua comitiva. Hoje é conhecida como Ponte do Imperador

Da fixação de escravos libertos e migrantes vindos do interior fugindo da seca e do cangaço surge os antigos Bairro do Aribé (hoje Siqueira Campos) e Maçaranduba (hoje Bairro Industrial), que, como entrega a sua atual denominação, abrigou o núcleo industrial da capital, com destaque para o setor têxtil.

Aracaju vê o nascer do novo século ainda com o jeito de cidade interiorana, o que levou o jurista Gumercindo de Araújo Bessa a chama-la de a tabaroa vestida de chita e calçada de tamancos. Somente nos primeiros anos do século XX a capital teria, finalmente, implantados os sistemas de abastecimento de água encanada e esgotamento sanitário, instalação de energia elétrica e de um sistema de bondes à tração animal. Com a chegada de arquitetos e escultores italianos para a reforma do Palácio do Governo, há toda uma renovação arquitetônica, com os novos palacetes procurando seguir a tendência lançada na sede do governo.

Novos bairros surgem a partir da década de 50 procurando minimizar o processo de favelização recorrente além de atender a demanda de reformas urbanas visando a modernização da cidade. É construído o conjunto habitacional Agamenon Magalhães atendendo a primeira demanda. Para a segunda, um conjunto de medidas são tomadas, sendo as mais notórias a derrubada do Morro do Bomfim no Centro da Cidade para construção do Terminal Rodoviário Governo Luis Garcia, atualmente conhecido como Rodoviária Velha e a construção do Aeroporto Santa Maria.

Foi  a descoberta e exploração de petróleo no município de Carmópolis (distante cerca de 31 km da capital) em 1963, que iria impulsionar o desenvolvimento e crescimento de Aracaju. Houve um intenso surto de grande impacto urbano causado pela chegada da Petrobrás no Estado, centralizado na capital. Assistiu-se uma elaborada integração rodoviária, favorecida por sua posição estratégica, praticamente equidistante entre o litoral norte e sul, bem como da reduzida dimensão territorial do estado.

Procurando atender a demanda populacional por moradia gerada por esse impacto urbano, é firmada parceria com a COHAB o que levou a construção de inúmeros Bairros e conjuntos habitacionais no período entre 1977 e 1989, principalmente em direção ao sul da cidade. Essas eram relativamente distantes das consideradas áreas nobres mais próximas ao centro da cidade e da região que, no início do século XXI daria origem ao Bairro Jardins, atualmente uma das áreas mais valorizadas da cidade junto ao Bairro 13 de Julho, bem próximo. São dessa época também os conjuntos Augusto Franco, Orlando Dantas, Parque dos Coqueiros, inseridos respectivamente nos Bairros Farolândia, São Conrado e Inácio Barbosa, antigas áreas de mangues, parcialmente drenados e aterrados.

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Antigo farol de Aracaju no atual Bairro Farolândia ao qual nomeia, no inicio do século XX (antes da existência do Bairro) e atualmente após reforma

É a partir da década de 70 que a cidade de Aracaju vê seu mais intenso e continuado processo de crescimento e modernização. Um processo que aos poucos foi tirando sua característica marca de capital com jeito de cidade interiorana. Junto com a modernização, o inevitável pacote negativo que acompanha o processo trouxe-nos problemas socioambientais, de segurança pública, mobilidade urbana dentre outros, praticamente inexistentes antes da chegada do século XXI. Embora ainda vestida de chita e calçada em seus tamancos, Aracaju finalmente deixa sua tabaroice.

Hoje comemoramos mais um aniversário da cidade que, nas palavras do historiador Fernando Porto, foi “uma das mais felizes vitórias da Geografia”. Passados 161 anos de sua elevação a categoria de cidade, Aracaju, que foi projetada – mas não planejada –, para se tornar capital, enfrenta desafios e dificuldades, não muito diferentes daqueles enfrentados em seus primeiros anos de existência como a cidade mais importante do estado. A esses se juntam os novos desafios impostos pela modernização, conforme citado acima, sobre os quais se faz urgente a necessidade de se pensar gestão, políticas e reformas urbanas visando sua resolução, o que, infelizmente, tem passado longe da pauta da atual gestão municipal.

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Vista noturna do Bairro 13 de Julho

Fontes usadas nesse texto (e para se aprender um pouco mais):

Brasiliana Fotográfica

História e-história

Palácio Olímpio Campos site oficial

Blog Sem. Roberto

Blog Grazielle Hora

Sergipe em Fotos

Fontes da História de Sergipe

Livro: O Meio Ambiente Urbano: Visões Geográficas de Aracaju

O 8 DE JULHO E OITO MOTIVOS PARA OS SERGIPANOS SE ORGULHAREM DE SUA SERGIPANIDADE

Deixe Sergipe Surpreender Você

No dia 8 de julho de 1820 o então Monarca do Reino Unido de Portugal, do Brasil e Algarves, Dom João VI decretou através de Carta Régia a emancipação de Sergipe Del Rey da então Capitania da Bahia. A emancipação foi a maneira encontrada pelo monarca para agradecer a elite sergipana pelo apoio durante a Revolução Pernambucana em 1817.

O governo da Bahia, entretanto, não aceitou o decreto e mandou prender o governante designado, mantendo Sergipe sob seu controle. Foi somente em 5 de dezembro de 1822 com a Carta Imperial de Dom Pedro I que a emancipação foi confirmada. Sergipe tinha finalmente sua autonomia concedida e reconhecida.

557988089006-1431778479Devido ao conturbado processo de emancipação não houve um reconhecimento imediato do 8 de Julho. Isso levou a uma confusão de datas, já que o primeiro registro encontrado de comemorações da emancipação é do dia 24 de outubro de 1836, sendo oficializado como a data oficial três anos depois. As duas datas permaneceram como feriado até 1990 quando se determinou apenas o 8 de Julho como feriado. Uma vez que a festa popular que costumeiramente ocorria no dia 24 de outubro deixou de se realizar com o passar dos anos, a Assembleia Legislativa de Sergipe cancelou o feriado nessa data, deixando-a apenas como o Dia da Sergipanidade, ou seja, um dia para se comemorar o sentimento de orgulho e pertencimento pela cultura, história, artes, tradições, enfim, por tudo que se relaciona com Sergipe, tudo aquilo que define o ser sergipano.

Infelizmente com o passar do tempo o caráter comemorativo de ambas as datas foi se perdendo. Vários foram os fatores, embora há de se destacar a falta de interesse e de esforços das instituições governamentais em se valorizar os fatos e conhecimentos históricos e culturais de nosso estado, de nossa Sergipanidade, especialmente através das instituições de ensino. Mas, verdade seja dita, há também um forte desapego do sergipano em geral por esse conhecimento, embora se pese o fato desse ser um reflexo do anterior.

Ao contrário do que ocorre na vizinha Bahia, estado do qual fomos emancipados,  a data da Independência Baiana, comemorada em  2 de Julho, é conhecida da maioria dos baianos, sendo comemorada com grandes eventos e manifestações culturais nos mais variados círculos de sua sociedade, em Sergipe o que vemos é um total e completo desconhecimento do significado do 8 de julho. Esse desconhecimento é apenas um dos sintomas de um mal maior: de maneira geral o sergipano desconhece a sua própria história. E como sentir orgulho de algo que se desconhece?

Quando estive em sala de aula atuando como Professor de Geografia, tive um contato mais direto com essa nossa triste realidade. Os alunos, em sua maioria esmagadora desconheciam tudo o que tivesse a ver com a história, geografia e aspectos culturais do estado! Num esforço para mudar essa situação, juntei-me as minhas colegas e amigas Professoras de História Débora Santana e Rosana Guedes e elaboramos muitas atividades que abordassem esses aspectos. Apesar de ter sido um trabalho árduo (ou devido a ele) pudemos depois de um tempo dizer com orgulho que aqueles nossos alunos hoje possuem um mínimo desse conhecimento, podendo assim exercitar sua sergipanidade através de um pensamento crítico, capazes de se orgulhar sem perder de vista os problemas que possuímos, assim como qualquer outro estado brasileiro.

Para comemorar os 195 anos da Emancipação Política, e no contínuo esforço de divulgar, reconhecer e valorizar os elementos que constroem a Sergipanidade listei a seguir oito motivos pelos quais os sergipanos devem sentir orgulho de terem nascido nesse pequeno, mas encantador Estado:

1 – Livro: Os Corumbas

Amando Fontes e a capa do livro Os Corumbas

Amando Fontes e a capa do livro Os Corumbas

Escrito por Amando Fontes e lançado em 1933, tive contato com esse livro aos 17 anos, quando o li por obrigação, já que ele era um dos livros de leitura obrigatória para o vestibular da Universidade Federal de Sergipe. A obra trata da vinda da família Corumba do interior para a capital do estado, Aracaju, onde se passa toda a história e possui uma forte e contundente denúncia social. Através da conturbada e difícil vida da família que dá nome ao livro, Amando Fontes nos mostra as dificuldades das classes operárias lutando para sobreviver enquanto trabalhavam nas fábricas existentes na cidade, além do trabalho infantil, prostituição e outros na Aracaju do início do século XX com todas as peculiaridades dessa cidade.

Esse livro me marcou profundamente não só pela crítica social, mas principalmente por se passar inteiramente em um ambiente que conheço muito bem, que é o da cidade onde nasci e me criei. Com gosto via nomes tão familiares como Bairro Industrial, Companhia Sergipana de Fiação (a popular Sergipana) dentre outros deslizando pela leitura fazendo, mais do que qualquer outro livro, me sentir de fato dentro da narrativa quase que como se pudesse ver as personagens passando pelas ruas da cidade.

Se tiver interesse em conhecer mais sobre “Os Corumbas” é só clicar nos links:

Sergipe em Pauta II

Literatura Sergipana

2 – Escritor: José Maviael Monteiro

Única informação que consegui na contracapa de um de seus livros

Única informação que consegui na contracapa de um de seus livros

José Maviael Monteiro é um escritor sergipano com formação em História Nacional. É um dos autores mais queridos da Série Vaga-Lume em especial por ter escrito “Os Barcos de Papel”, tido por muitos, como dos mais belos livros da série e considerado pela Biblioteca Internacional para a Juventude com sede em Munique como sendo altamente recomendável para a infância e juventude. Além desse Maviael também escreveu para a mesma série os livros “O Outro Lado da Ilha” e “O Ninho dos Gaviões” além da série de livros infantis “Barba Suja” onde conta divertidas histórias de piratas.

Particularmente considero esse talentoso escritor um exemplo perfeito do descaso do estado de Sergipe para com sua cultura. Apesar de ser um autor premiado, com obras de sucesso, é extremamente difícil encontrar informações pertinentes sobre José Maviael Monteiro as quais se resumem ao seu local de nascimento e formação apenas. Isso quando não temos informações erradas como a encontrada na Wikipédia onde diz que ele teria nascido na Bahia e se graduado em História Natural em Sergipe, quando, na realidade, o contrário é a informação correta. Simplesmente lamentável esse descaso para com um dos escritores mais bacanas de nosso estado.

3 – Cantora: Patricia Polayne

A primeira vez que tomei conhecimento de Patricia Polayne foi durante a exibição do antigo Festival Canta Nordeste de 1996, quando a cantora sergipana ganhou os prêmios de Melhor Intérprete e Melhor Canção com a música “Camará”. Dona de uma voz suave, mas firme e vibrante, Patricia é uma cantora de estilo performático, além de ser atriz, produtora e artista circense. Produziu trilhas sonoras para várias peças de teatro e curtas. Em 2005 venceu o prêmio Banese de Música com a canção “O Circo Singular”

Patricia Polayne em fotografia de Vinicius Fontes

Patricia Polayne em fotografia de Vinicius Fontes

Adoro Patricia Polayne por ser uma artista sempre aberta a renovação e ligada a cultura local, os quais ela sempre insere em suas canções, sejam os mais tradicionais como o samba de coco, sejam os mais modernosos, como o ritmo do assim chamado arrocha.

Abaixo você pode conferir essa linda cantora interpretando “O Circo Singular”:

E para saber um pouquinho mais sobre ela é só clicar no link:

Patrícia Polayne

4 – Teatro: Grupo Imbuaça

grupo imbuaça

Fundado em 1977 por Lindolfo Amaral, o Grupo Imbuaça de Teatro é o mais antigo e importante grupo de teatro do estado. Homenageando o embolador Mané Embuaça, assassinado em fevereiro de 1978, o grupo apresenta uma proposta simples, mas sincera, ao pautar suas peças no trabalho dos variados aspectos culturais do estado e do Nordeste como um todo utilizando a literatura de cordel como dramaturgia, além de fornecer oficinas de teatro continuamente.

O Imbuaça é uma referência no estado. Sendo um grupo de teatro de rua, é difícil achar um sergipano que não tenha visto pelo menos um de seus 26 trabalhos. No meu caso o primeiro contato foi quando a escola onde estudava recebeu uma de suas apresentações. Infelizmente o grupo passa por dificuldades financeiras sendo mantido graças aos esforços de seus integrantes, em mais uma triste constatação do descaso do poder público para com a cultura sergipana.

Para aprender mais sobre o Imbuaça seguem dois links. O primeiro traz mais detalhes sobre sua trajetória e o segundo é um artigo publicado pelo próprio Lindolfo Amaral na edição n. 3 de março de 2012 da revista de Artes do Espetáculo Rebento:

Breve histórico do grupo de teatro sergipano imbuaça

Grupo Imbuaça de Teatro: a partir da página 88

5 – Música: “Cheiro da Terra” Grupo Cataluzes

Capa do LP Viagem Cigana

Capa do LP Viagem Cigana

“Cheiro da Terra” é uma canção do Grupo Cataluzes. Faz parte do disco Viagem Cigana, lançado em 1983 e, na minha opinião, é uma das músicas mais lindas do repertório musical do Estado de Sergipe. É também a representação de um sentimento ufanista, em especial na música, que começa a crescer em Sergipe dos anos 70. Influenciado pelos festivais de música extremamente populares na época, criou-se no estado o Festival de Música Popular Sergipana, sendo o primeiro vencedor justamente o Grupo Cataluzes.

Com letras fazendo referências aos aspectos de nossa cultura, contando ainda com belos arranjos e interpretações, as músicas do grupo logo caíram no gosto popular. “Cheiro da Terra” logo tornou-se a mais famosa, sendo, ainda hoje, muito conhecida pelos sergipanos, especialmente devido aos versos: “Eu quero mesmo é ficar bem juntinho dela/ Na praia de Atalaia/ Mirando as ondas do mar”. Essa canção me traz lembranças maravilhosas de minha infância, quando minha mãe a cantava com sua voz afinada nos dias de domingo enquanto fazia a faxina da casa. Foi meu primeiro contato com o sentimento de sergipanidade, motivo pelo qual sou tão apegado a ela e agradecido à minha saudosa mãe por desde cedo ter me imbuído desse sentimento.

Abaixo você confere um clipe caseiro (mas com som excelente) da versão mais atual de “Cheiro da Terra” nas vozes de Antônio Rogério e Chiko Queiroga.

E mais informações sobre o Cataluzes no link seguinte:

Grupo Cataluzes

6 – Grupo Folclórico: Bacamarteiros de Aguada, Carmópolis-Se

Bacamarteiros são grupos de pessoas, em geral homens, que participam de folguedos e festas populares, quando usam seus bacamartes (armas antigas de pólvora socada) dando estrondosos e potentes tiros, num espetáculo de muito barulho, fumaça e estilosos meneios de corpo que também servem para absorver o “coice”. Quando executados por bacamarteiros experientes, esses meneios tornam-se passos de dança ou gingados cheios de humor. Esses grupos são extremamente populares em muitas cidades do Nordeste, principalmente em Pernambuco e Sergipe.

Em Sergipe o mais antigo Grupo de Bacamarteiros é o do Povoado Aguada do município de Carmopólis criado por volta de 1780 por trabalhadores dos engenhos de cana do Vale do Contiguiba. Atualmente o grupo é composto por moradores do povoado. Todos tem alguma função no grupo do qual participam homens, mulheres, crianças e idosos. O repertório é composto por canções do folclore, com destaque para o “Meu Papagaio”, música icônica sobre a qual falarei um pouco mais adiante.

A seguir uma apresentação do grupo:

E no link mais informações sobre o grupo de Bacamarteiros do Povoado Aguada:

Os Bacamarteiros de Aguada – Etnografia e Histórico

7 – Personalidade: Zé Peixe

O mítico Zé Peixe (Montagem feita a partir de imagens do site Visite Aracaju)

O mítico Zé Peixe (Montagem feita a partir de imagens do site Visite Aracaju)

José Martins Ribeiro Nunes. Ou simplesmente Zé Peixe. Figura quase lendária de nosso estado, esse franzino senhor de 1 metro e 60 de altura e pesando 53 quilos é considerado por muitos como um verdadeiro herói estadual. Ganhou seu apelido ainda criança por ser extremamente hábil na natação, nadando todos os dias no Rio Sergipe bem em frente da sua casa no centro histórico de Aracaju. Muito jovem passou a atuar como prático prestando serviços a Capitania de Portos da Cidade. Praticagem é o serviço de auxílio aos navios, em geral de grande porte, ao entrarem ou saírem de portos que apresentam algum tipo de dificuldade. Zé peixe se destacava dos demais colegas de praticagem por seu peculiar modo de operação: ao invés de se dirigir aos navios com lanchas, nadava até eles guiando-as através da Boca da Barra (local onde o rio Sergipe deságua no Oceano Atlântico), desviando dos perigosos bancos de areia; quando estes retornavam para alto mar, saltava de alturas e voltava a nado para terra firme.

Exemplo de vida saudável, Zé Peixe mantinha uma dieta rigorosa rica em frutas e nadava todos os dias no seu amado rio Sergipe, mesmo depois de findas suas atividades como prático. Era também conhecido pela coragem e altruísmo. Com base no livro que conta a história do mítico prático, a sergipana estudante de historia Suyan Dionizio Alves Teles Santos narra um episódio ocorrido em 1952, quando a lancha Atalaia naufragou, estando a bordo Zé Peixe e sua irmã Rita, que também carregava a alcunha “Peixe” por ser, assim como o irmão, excelente nadadora. Rita alcançou logo a margem, mas para espanto de todos Zé não apareceu. Somente seis horas depois ele  aparecia, depois de, por quatro horas tentar em vão salvar a lancha.

Foi condecorado várias vezes por seu trabalho, sendo eleito o Cidadão Sergipano do Século XX e dá seu nome ao Complexo Aquático de Sergipe, bem como ao recém inaugurado Espaço Cultural e Turístico às margens do rio Sergipe.

Memorial de Sergipe

8 – Nosso jeitinho todo particular de falar

Os sergipanos tem um modo todo seu de falar, seja pelo sotaque próprio (que em nada tem a ver com aquele mostrado nas novelas da Globo ambientadas no Nordeste brasileiro), seja pelo uso de palavras e expressões usadas quase que exclusivamente por nós.

O nosso modo de falar é algo do qual os sergipanos deveriam ter muito orgulho, pois é um aspecto que nos confere identidade. Algo que nos caracteriza e nos define. Infelizmente, nós sergipanos, não só não valorizamos o nosso jeito de falar, como também, muitas vezes, sentimos vergonha dele. Quem assistiu “Lisbela e o Prisioneiro”, deve se lembrar do personagem Douglas, rapaz nascido em Cabrobró, mas que passou uns dois meses no Rio de Janeiro e voltou de lá falando um “carioquês”, conforme é relatado pelo personagem Cabo Citonho. Esse Douglas é uma crítica humorada, feita pelos roteiristas do filme, daquele nordestino que não valoriza suas raízes, representadas por seu sotaque e modo de falar. E é também um perfeito retrato de muitos sergipanos, que, depois de passar, tipo um mês no Rio, volta de lá cantando, entende?

Obviamente aqui não estou desmerecendo nenhum sotaque ou regionalismo na forma de se expressar. Apenas destaco a importância e o respeito que devemos ter por nosso próprio jeitinho de falar, sejamos sergipanos, baianos, cariocas ou acreanos.

Para aprender um pouco mais sobre nosso esse nosso peculiar jeitinho sergipano de se expressar, vale a pena assistir essa reportagem sobre o sergipanês:

Conheça o vocabulário do ‘Sergipanês’

Menção Honrosa: “Meu Papagaio (Minha Terra É Sergipe)”

Canção tradicional do folclore sergipano e conhecida por, virtualmente, todos os sergipanos, muito disso em virtude do seu uso como encerramento diário das transmissões da TV Atalaia, atualmente afiliada da TV Record no estado. Verdade seja dita, foi graças a ininterrupta transmissão desse vídeo que a canção deve boa parte de sua popularidade atual. Verdadeiro hino popular e não oficial do estado, é um perfeito símbolo da Sergipanidade. Não só por representar esse sentimento de pertencimento (através dos versos “Minha terra é Sergipe/Em outra terra eu não fico), mas também por personificar o momento atual de quase completo abandono do orgulho de sergipano através do desconhecimento de nossa história, costume e valores. Explico: apesar de seus versos bem conhecidos, o acesso a informações a respeito de sua autoria é praticamente nenhum. Nenhuma autoria, nenhum histórico, nenhum dado relevante.

Mesmo depois de uma busca exaustiva na internet, consegui parcas informações, algumas delas claramente equivocadas, como a que estabelece sua autoria à dupla Antonio Rogério e Chiko Queiroga, quando na realidade ela é uma canção do folclore sergipano, parte integrante do repertório do Grupo de Bacarmateiros do Povoado Aguada, como vimos acima. Infelizmente não tive tempo de expandir minha busca em outras fontes além da internet, como em bibliotecas por exemplo. Mas acredito que a situação seja bem similar.

Mesmo tão icônica, “Meu Papagaio” é um exemplo real da Sergipanidade e do esquecimento desse sentimento por parte dos sergipanos. E, com esse post, faço minha tentativa de mudar esse quadro, para que uma história e cultura tão interessante e rica não se perca assim tão facilmente.

A seguir, vídeo com o encerramento da TV Atalaia na versão que ajudou a popularizar a canção:

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