DA LUZ QUE SE APAGA

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos”

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury (p. 245)

 Habeas Mentem Luto-1014x487

Desde o início o Habeas Mentem é para mim uma ferramenta de conhecimento. Não apenas compartilhando, mas principalmente adquirindo. Nenhum texto nesse blog é publicado sem antes uma pesquisa, se não exaustiva no mínimo dedicada, de cada tema ou assunto. Aprendo e compartilho um pouco de tanto aprendizado.

Não à toa, desde a reformulação da identidade visual do blog, uma lâmpada acesa iluminando um solo árido é a imagem de destaque e símbolo do Habeas Mentem. Um símbolo que julguei apropriado para o que entendo ser esse pequeno espaço virtual: um local onde o conhecimento é capaz de iluminar a aridez da ignorância.

Ontem eu senti essa luz apagando…

Com um nó na garganta acompanhei um patrimônio incalculável e irrecuperável virar cinzas. Vi, não apenas duzentos anos de história, mas, literalmente, milhares e milhões de anos de conhecimento (tanto descobertos como ainda por descobrir) serem consumidos pelo descaso e desleixo de um Estado incapaz de zelar pela sociedade sob sua responsabilidade.

O Museu Nacional queimou e, atônito, eu não sabia se ficava puto de ódio pelo imenso desprezo das autoridades ditas responsáveis por nosso extremamente rico acervo cultural ou se ficava profundamente triste com tudo o que se perdeu… De certo somente o meu profundo desânimo com nosso país…

Folha de São Paulo

História tornando-se cinzas e fuligem em fotografia da Folha de São paulo

Alguém nas redes sociais disse que ver o Museu Nacional queimando era como ver a própria casa queimando. Fico imaginando a dor e tristeza de todos os pesquisadores que viram anos e anos de seu trabalho tornarem-se pouco mais que cinza e fuligem.

É triste nos vermos num país onde aproximadamente 75% da população é, ou analfabeto funcional ou plenamente analfabeto. Situação lamentável essa que impede uma grande parte das pessoas que aqui vivem entender em sua plenitude o tamanho, não apenas dessa perda, mas principalmente do descaso para com a educação, o conhecimento e o saber no Brasil. E, incapazes desse pleno entendimento, tornam-se incapazes de zelar e se fazer zelar por tudo o que se perdeu e vem se perdendo nessas áreas.

É ainda mais triste entender que essa situação lamentável de nossa população é fruto de um meticuloso e deliberado processo de sucateamento de todo o sistema educacional implementado por uma elite política mesquinha e nojenta que, no intuito de se perpetuarem donas do jogo do poder, não medem esforços em deixar ignorância e desconhecimento como seu legado há gerações. A mesma elite que fez pouco caso da importância do Museu Nacional, assim como faz pouco caso de outros tantos museus, centro de cultura, arte etc. espalhados pelo Brasil afora, e agora, cinicamente, emitem notas de pesar…

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Esse desabafo de minha amiga Sybylla reflete bem o que sinto (Metade dos fósseis do seu mestrado estavam no Museu Nacional)

Especialmente toda a conjuntura nacional, não apenas no âmbito educacional, tem me deixado profundamente desanimado. Ver um acervo de mais de vinte milhões de itens queimando num fogo ainda pior que as chamas literais foi particularmente doloroso. Perceber e entender que pior que o incêndio em si é todo o conjunto de sucateamento, descaso e desinteresse pela cultura e conhecimento em nosso país, foi o mesmo que sentir uma luz se apagando.

Ainda quero acreditar que toda essa situação mudará um dia. Talvez eu não esteja vivo para ver, mas quero acreditar que meu filho poderá ver essa realidade. Por enquanto a sensação é justamente essa que ilustra o cabeçalho, não apenas dessa postagem, mas também da página principal do Habeas Mentem: ao ver se apagar o imenso farol do Museu Nacional me sinto igual a uma lâmpada quebrada que não consegue mais iluminar.

museu

Vou continuar pesquisando, aprendendo, escrevendo, postando e compartilhando na esperança de que essa luz possa voltar a iluminar.

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TAG: COPA DO MUNDO

tag-literaria-copa-do-mundo-Momentum Saga

Imagem copiada na cara dura do Momentum Saga

Tem tempo que não respondo uma TAG por aqui. Por isso, assim que vi essa no Momentum Saga, corri para responde-la. Especialmente agora, nessa fase de mata – quando o espírito de Mick Jagger baixou em mim e fez com que todo time que ganhava minha torcida acabava por ganhar de brinde uma passagem de despedida da Copa (precisei torcer pra Inglaterra pra ver se dava Croácia) –, nada como responder uma TAG sobre livros para relaxar.

Se você se animou (ou também está sem sorte nas torcidas), fique a vontade para participar. É só copiar as perguntas e mencionar o Blog Sem Serifa, criador da TAG.

Pênalti: um livro que te encheu de esperança

A Menina Quebrada

A Menina Quebrada” de Eliane Brum

Descobri Eliane Brum vagando pela biblioteca da universidade onde trabalho, onde encontrei esse livro, uma coletânea com 64 crônicas e artigos publicados pela autora no site da revista Época. Botei na lista de minhas leituras para esse ano sem muito interesse nele. E logo nas primeiras páginas a autora me surpreendeu com seu olhar, se não único, com certeza especial sobre as pessoas, relações, sentimentos, sociedade. Enfim, sobre a vida. Me encheu de esperança saber que ainda existem pessoas, não apenas capazes desse olhar especial, mas, principalmente, de serem capazes de escrever sobre elas.

 Prorrogação: um livro que merece continuação

O Boi Aruá

O Boi Aruá” de Luís Jardim

Apesar do título, esse livro conta três histórias diferentes, todas narradas por Sá Dondom, uma velha contadora de histórias, narrados aos meninos Pedro, Joãozinho e Juca. Somente o primeiro trata do boi do título, sendo os outros “História das Maracanãs” e “História do Bacurau”. Esse livro é uma delícia de ser ler especialmente para nós nordestinos, onde encontramos os mais variados aspectos do rico acervo mitológico do sertanejo condensadas nas histórias contadas por Sá Dondom. Uma pequena obra-prima do pernambucano Luís Jardim, que muito merece uma continuação. Uma pena o autor, falecido em 1987, não estar mais entre nós para poder nos agraciar com esse presente.

Impedimento: um livro que alguém precisou explicar para você

Porque Não Há Discos Voadores

Por Que Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol

Tudo nesse livro parecia indicar uma pesquisa fortemente embasada, cujo intuito seria apresentar evidências lógicas e cientificas mostrando os inúmeros avistamentos de objetos voadores não identificados serem, através de explicações bem menos extraordinárias que naves extraterrestres. Nada disso! O livro é uma imensa colagem (420 páginas!) de notícias e fatos históricos recentes – isso até o ano de 1986 – sem muita correlação entre si. O autor não manifestou nenhuma preocupação em explicar como essas informações comprovam a certeza manifesta no título. Somente nas últimas 20 páginas o “autor” finalmente aparece para afirmar que, conforme tudo o que foi exposto (!), é óbvio constatar que Discos Voadores não existem (!!). E aí de modo bem preguiçoso expõe algumas possibilidades. Sinceramente, para mim, esse livro é como aqueles trabalhos de alunos preguiçosos: um recorte de inúmeros textos diversos e no final o aluno quer nos convencer que pesquisou e fez o trabalho. Até hoje não entendo qual foi a tal lógica usada por seu “autor”. E, não sei o que é pior: se o fato de ainda não ter encontrado quem me explicasse a obra ou descobrir que esse é apenas a primeira parte de uma trilogia que ainda conta com os títulos: “Os Falsos Discos Voadores – Secreto” e “Não Existem Discos Voadores – Comprovado”!

Goleiro: um autor ou livro que segurou a barra, mesmo com várias críticas

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Preconceito Linguístico” de Marcos Bagno

Dos livros que já li, esse é sem dúvida o mais criticado. Eu o comprei e li por indicação da Samantha em uma resenha sua no Meteorópole. Por ter gostado tanto do livro fiquei profundamente impressionado com o número de críticas negativas do livro, tanto no Skoob (quem quiser me seguir é só clicar nesse link) como na internet como um todo. Nem tão surpreendente foi perceber o quanto essas críticas só ajudavam a confirmar todo o preconceito linguístico existente em nosso país. Aliás mais um tipo de preconceito no qual nos destacamos, infelizmente.

7×1: um livro que te deixou derrotada(o)

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” de Svetlana Aleksiévitch

Já li e já assisti muita coisa sobre as guerras mundiais. Mas nada do que eu já tinha visto antes poderia me preparar para esse livro. Ler os relatos das mulheres russas que lutaram na Grande Guerra Patriótica (como a Segunda Guerra Mundial é conhecida na Rússia) foi uma experiência destruidora acima de qualquer outra coisa. Esse é daqueles livros que, apesar da crueza e violência (ou mesmo por causa disso tudo) a leitura é essencial para entendermos melhor a participação feminina no pior conflito armado pelo qual a humanidade já passou até hoje.

Canarinho pistola: um livro que você leu usando a força do ódio

Diário da Corte

Diário da Corte” de Paulo Francis

Misógino, racista, esnobe. Diário da Corte é um livro que, através dos textos publicados pelo autor na Folha de São Paulo, nos mostra todas essas facetas do, assim considerado, “monstro sagrado” do jornalismo brasileiro Paulo Francis. Como lembrou um resenhista da obra no Skoob, ele “em um artigo sobre a sociedade Nova Iorquina dos anos 70, chama Bianca Jagger de prostituta, imagine o que não escreveria sobre Luciana Gimenez…” Para piorar o livro ainda apresenta passadas de pano inacreditáveis sobre esses preconceitos em sua orelha, prefácio e posfácio. Um livro que nem mesmo a alta erudição do Sr. Francis impediu de me dar engulhos a cada página lida.

Hexa: um livro que você não perde a esperança de que vai ler

Vovó Nagô e Papai Branco

Vovó Nagô e Papai Branco – usos e abusos da África no Brasil” de Beatriz Góis Dantas

Esse é considerado um “livro desmistificador, polêmico e iconoclasta, [onde] a autora mostra que a configuração das religiões afro-brasileiras se dá no confronto das posições ideológicas dos vários atores sociais: senhores, escravos, políticos, policiais, poderosos homens de negócio, padres, pais e mães-de-santo, psiquiatras etc.” Só por essa sinopse há muito tempo tenho vontade de ler esse livro, que é tido como um dos grandes trabalhos da antropóloga sergipana Beatriz Góis Dantas (sobre quem eu falei um pouquinho nesse post: Oito Mulheres Sergipanas Para Se Conhecer Nesse 8 de Março). Uma obra que, a despeito de seu status de polêmico, tenho certeza será muito enriquecedor.

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Até mais!

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Automatic

Banda: The Jesus and Mary Chain

Integrantes: Jim Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias) e William Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias).

Gravação: 1989

Lançamento: 9 de outubro de 1989

Duração: 43m26s

Produção: Alan Moulder

Sobre o disco:

The Jesus and Mary Chain é uma das bandas mais interessantes a surgirem nos anos 80. Misturando as influências que iam de Velvet Underground a Beach Boys, passando por The Stooges e uma inconfundível atitude punk rock, os irmãos William e Jim Reid assombraram o mundo da música a partir de 1984 com o lançamento de inúmeros singles de sucesso como “Upside Down”, culminando com o lançamento do clássico inegável Psychocandy um ano depois.

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Os irmãos Reid

A recepção positiva desse disco por parte do público foi acompanhada pela crítica que logo tratou de marcar que os irmãos Reid tinham “reinventado o punk rock”. O impacto desse primeiro álbum é sentido até hoje com inúmeras bandas repetindo sua fórmula, nem sempre com os mesmos resultados, infelizmente. Com o sucesso banda começou então a excursionar pela Europa e também pelos Estados Unidos. Seus shows ficaram famosos por terem no máximo 35 minutos de duração onde reinava o caos, com os músicos vestidos totalmente de preto tocando de costas para o público na maior parte do tempo. Com os irmãos Reid subindo nos palcos invariavelmente bêbados e drogados era comum os shows terminarem com brigas entre eles. Músicos entravam e saíam constantemente e assim o grupo continuou até 1989 quando lançam seu terceiro trabalho, Automatic.

Apesar de seus últimos álbuns serem considerados por muitos como alguns dos melhores discos de estreia de uma banda de rock, o que pode ser visto nas relativamente boas vendas, Automatic não teve uma recepção positiva nem dos críticos e menos ainda dos público. Com uma sonoridade diferente dos trabalhos anteriores, mais eletrônico (um tanto devido ao uso de baterias eletrônicas e outro muito por conta do novo produtor, Alan Moulder, que reduziu significativamente as distorções características da banda), o disco revelou um The Jesus and Mary Chain bem menos inspirado. Com altos e baixos Automatic, apesar das boas faixas “Head On” e “Blues From a Gun”, era apenas uma sombra do que os Reid eram capazes de fazer.

Sendo assim, é muito natural nos perguntarmos: “Se Automatic não é essa maravilha toda, que diabos então esse disco está fazendo nessa lista?” Bem, a resposta mais sincera de minha parte é um enfático “não faço a menor ideia!”

Quando analisamos a lista completa de discos nessa lista fica fácil perceber os critérios utilizados por seus autores para escolher cada um. São álbuns que, de um modo ou de outro, mudaram a face do rock e, em alguns casos, da música como um todo (a exemplo de Nevermind ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, respectivamente). Trabalhos que, não apenas foram, mas ainda hoje são capazes de influenciar novos trabalhos e novos artistas (qualquer um dos discos de David Bowie). Obras que, ainda que tivessem sido um fracasso total quando lançados, acabaram tempos depois sendo reconhecidos como verdadeiras obras primas (melhor exemplo que vem à mente é Funhouse do The Stooges). E Automatic não é nada disso.

Sendo bem pragmático, mesmo quando analisado sem ter em mente o potencial das mesmas mentes criadoras de Psychocandy – esse sim um clássico incontestável – e Darklands (o segundo e muito bom álbum da dupla), esse é um disco apenas regular. The Jesus and Mary Chain é uma da grandes bandas a surgirem, mas definitivamente considero bastante equivocada a presença de Automatic nessa lista. Nada contra o álbum em si, que é até bem legalzinho, porém um tanto irregular, além de pouco inspirado e com certas incongruências. Primeiro: ele não me parece honrar o som feito pelo Jesus and Mary; segundo: as limitações de se usar uma bateria eletrônica e até mesmo algumas linhas do baixo feitas com o sintetizador; terceiro: tanto a crítica quanto o público não receberam bem esse álbum, sendo ainda hoje considerado um trabalho menor do grupo. Se os autores da lista queriam tanto colocar um outro trabalho dos caras aqui – além de Psychocandy –, que ao menos fosse em 100º, fechando a fila. Ou, melhor ainda, que pusessem em seu lugar Darklands, um álbum, se não emblemático, ao menos com uma melhor recepção tanto de crítica quanto de público.

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

OITO MULHERES SERGIPANAS PARA SE CONHECER NESSE 8 DE MARÇO

O dia Internacional da Mulher, comemorado todo dia 8 de março, foi instituído em memória das mulheres que, em uma série de lutas e reinvindicações por melhores condições de trabalho e direitos sociais e políticos entre os séculos XIX e XX. Data para lembrar não apenas do muito conquistado com muitas lutas, mas principalmente do muito que ainda precisa ser alcançado.

Infelizmente não é raro que a história de lutas e conquistas de muitas mulheres ainda hoje sejam simplesmente relegadas ao esquecimento. Vítimas do desprezo e do preconceito, inúmeras histórias de mulheres talentosas e competentes são condenadas ao esquecimento apenas por serem consideradas mulheres.

Esse é o caso de muitas das principais personalidades femininas da história sergipana. Como já relatei em outros textos, Sergipe, mesmo com toda a riqueza de sua história e cultura, possui uma grave deficiência quando se trata de divulgar e valorizar toda essa riqueza. O quadro se agrava ainda mais quando se trata das mulheres sergipanas. Em sua grande maioria são totalmente desconhecidas no próprio estado onde nasceram e viveram, mesmo quando em muitos casos alcançam reconhecimento em outras partes do Brasil e até mesmo em outros países.

Por esse e outros motivos, decidi retomar esse texto que, originalmente, estava programado para o ano passado. Mas, como expliquei no texto sobre Maria Beatriz Nascimento, foi extremamente complicado encontrar informações a respeito das inúmeras mulheres que eu tinha listado. Felizmente, após um ano de algum esforço, consegui não apenas acesso a mais informações, como ainda ampliei a minha lista ao encontrar ainda mais nomes de sergipanas esquecidas a despeito de toda notoriedade por elas alcançadas.

Fica aqui inclusive um comprometimento comigo mesmo de continuar essa pesquisa, complementar as informações já conseguidas e persistir no esforço de tornar novamente conhecidas essas histórias infelizmente tão negligenciadas. Esse texto é apenas o primeiro passo.

Afinal, nas palavras da minha amiga Lady Sybylla: “Leia mulheres, conheça e divulgue nossos trabalhos, apoie e consuma nossa arte. Não apenas no Dia Internacional da Mulher, mas todos os dias, sempre.”

1-Maria Thetis Nunes

01-Maria Thetis Nunes

Nascida no município de Itabaiana em 06 de janeiro de 1925, Maria Thetis Nunes foi a primeira sergipana a ingressar no ensino superior, formando-se em História e Geografia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, primeira mulher a lecionar no influente e prestigiado Colégio Atheneu Sergipense, onde cursara o secundário e também viria a se tornar a primeira diretora poucos anos depois. Após ter cursado a primeira turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), onde permaneu quatro anos como assistente da cadeira de História, dedicando-se à Pesquisa da História da Educação no Brasil, Maria Thetis foi nomeada pelo Ministério das Relações Exteriores a Diretora do Centro de Estudos Brasileiros na Argentina, onde permaneceu mais quatro anos, ao término dos quais retornou à Sergipe em 1968 para ocupar o cargo de professora titular de História do Brasil, História Contemporânea e Cultura Brasileira da recém criada Universidade Federal de Sergipe, onde, na qualidade de decana, foi por duas vezes Vice-Reitora e Professora Emérita ao se aposentar depois de 47 anos de serviços prestados ao magistério. De importância crucial para o ensino e magistério no estado de Sergipe, Maria Thetis não apenas deu a conhecer a história sergipana como se integrou a ela, ajudando a difundi-la ao mesmo tempo em que formava inúmeros intelectuais sergipanos.

2-Beatriz Góis Dantas

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Graduada em Geografia e História pela Faculdade Católica de Filosofia, em História pela Universidade Federal de Sergipe e Mestra em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas, Beatriz Góis Dantas é a mais importante antropóloga e pesquisadora na área em Sergipe. Possui rica obra publicada em livros, capítulos de livros e artigos em revistas especializadas sobre as populações indígenas e religiões afro-brasileiras em Sergipe. Nascida em 1 de Dezembro de 1941 na cidade de Lagarto, essa pesquisadora incansável foi responsável por preencher uma lacuna histórica na bibliografia sobre o suposto “desaparecimento” dos índios sergipanos na segunda metade do século XIX, identificado na realidade como um processo de negação das identidades indígenas associada a expropriação de terras. Em 1970 assumiu a direção do Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico onde permaneceu apenas oito meses, tempo suficiente para efetivar o mapeamento da situação dos monumentos tombados pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Sergipe, bem como o registro fotográfico das imagens e santos localizados na igreja e a reorganização e recuperação do Arquivo Público Estadual. Aposentou-se como Professora da Universidade Federal de Sergipe em 1991 estando atualmente a frente da Comissão Permanente de História do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

3-Terezinha Alves Oliva

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Terezinha Alves Oliva é autora do livro “Impasses do Federalismo no Brasil: Sergipe e a Revolta de Fausto Cardoso”, obra importante no entendimento dos primeiros anos da República em Sergipe. É a mais velha de dez irmãos, nascida na pequena Riachão do Dantas, no sul do estado. Mudou-se para a capital, Aracaju, em 1956 onde, por já saber ler com fluência, foi transferida do pré-primário para o Primeiro Ano. Cursou no Colégio Patrocínio São José os ensinos Primários e o Ginásio ingressando recém-criada Universidade Federal de Sergipe em 1968, graduando-se em História em 1971, finalizando o mestrado também em História pela Universidade Federal de Pernambuco em 1981 e o doutorado em Geociências (Geociências e Meio Ambiente) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho em 1998. Aluna de Beatriz Góis Dantas durante a graduação atuou junto à mestra, na qualidade de estagiária no fim do curso, no projeto de reorganização do Arquivo Público do Estado, órgão o qual dirigiu depois de formada. Foi também diretora do Museu do Homem Sergipano, vinculado à Universidade Federal de Sergipe, ocupou a chefia do Departamento de História e do Programa de Documentação e Pesquisa Histórica (PDPH), e atualmente é a oradora oficial do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Seguindo os passos de Maria Thétis Nunes e Beatriz Góis Dantas, Terezinha Oliva foi peça fundamental na ampliação do conhecimento da história sergipana, seja através dos livros e artigos, frutos de extensa e minuciosa pesquisa, seja pelo comprometimento, seriedade e rigor a frente dos órgãos e departamentos onde atuou.

4-Ofenísia Soares Freire

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Professora, militante política e intelectual sergipana, Ofenísia Soares Freire é natural da cidade de Estância de onde saiu para estudar no Colégio Interno Senhora Santana em Aracaju em 1925. Retornou para Estância após se diplomar no magistério pela Escola Normal Rui Barbosa, onde se dedicou a docência com especial engajamento. Possui uma longa história na atividade docente, lecionando no Atheneu Sergipense onde ficou até sua aposentaria em 1966. Além do Atheneu, lecionou no Colégio Jackson de Figueiredo e no Colégio Tobias Barreto e, depois de sua aposentadoria continuou suas atividades, dando aulas em pré-vestibulares, ministrando cursos, participando da comissão julgadora de vários concursos literários. Foi ainda assessora do reitor na UFS, com o Cargo de Revisora de Textos no período de 1984-1988, membro do Conselho Estadual de Cultura, membro do Conselho Estadual de Educação, sócia do Instituto Histórico de Sergipe. Foi também militante política, especialmente nos duros anos da Ditadura Militar quando foi perseguida, teve seu mandato extinto como conselheira estadual da educação e foi afastada da cadeira no Atheneu Sergipense. Intelectual respeitada publicou inúmeros livros, com destaque para a obra “Presença Feminina em Os Lusíadas”, tendo sido a segunda mulher a assumir uma cadeira na Academia Sergipana de Letras. Faleceu em 24 de julho de 2007 aos 93 anos deixando um vasto legado intelectual para o estado de Sergipe.

5-Eufrozina Amélia “Zizinha” Guimarães

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Nascida no município sergipano de Laranjeiras, Eufrozina Amélia Guimarães, a Professora Zizinha, destacou-se em sua atuação comprometida como professora e artista numa época em que uma mulher e em especial a mulher negra dificilmente alcançava alguma posição de destaque. Infelizmente, mesmo com sua atuação decisiva no campo educacional de Laranjeiras, sabemos muito pouco sobre sua história. Acredita-se que tenha nascido em 26 de dezembro do ano de 1872. Teve acesso a educação tendo assim a oportunidade de demonstrar sua inteligência aguçada, talentos e habilidades. Afirma  a discente do curso de Museologia da Universidade Federal de Sergipe e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em História das Mulheres – GEPHIM, Lívia Borges Santana: “É inquestionável a importância da professora Zizinha para a formação da sociedade de Laranjeiras. Ela dedicou sua vida ao ofício de ensinar e contribuiu para o crescimento intelectual de várias gerações de sergipanos. Contudo, sua história está dispersa em páginas de trabalhos acadêmicos e em algumas publicações. Seus objetos pessoais estão espalhados nos mais diversos e inusitados acervos, fato que torna sua memória ameaçada pelo esquecimento. Diante de tudo isso, é necessário garantir a salvaguarda dessa memória, uma memória que conta de maneira surpreendente detalhes da vida de uma professora que é lembrada até hoje por seus ex-alunos como uma pessoa inteligente, elegante e amável.” Infelizmente, mesmo tendo se passado quase sete anos desde que essas palavras foram escritas, pouco foi feito no intuito de se mudar essa realidade de falta de reconhecimento sobre a história de uma das mais ilustres personalidade não apenas de Laranjeiras, mas de todo o estado.

6-Aglaé D’Ávila Fontes

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Professora, escritora, folclorista, historiadora, uma das maiores pesquisadoras do folclore do estado de Sergipe, diretora do Centro de Criatividade de Sergipe, sócia do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e integrante da Academia Sergipana de Letras. Chegou a ser secretária de Estado 3 vezes. Apresentadora e produtora do programa “Andanças do Folclore Sergipano” na TV Caju. Ajudou muito a ingressar na vida artística, com sua escolinha de música, por volta do ano de 1950. A incansável Aglaé D’Ávila Fontes nasceu na cidade Lagarto, mas morou em diversas cidades em virtude da profissão do pai, servidor público. Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Educação Musical pela Universidade Federal de Sergipe, sua grande paixão sempre foi a licenciatura além da dedicação para com a cultura e tradição sergipana, tanto que, mesmo aposentada continua ativa, ensinando e preocupada com a conscientização dos sergipanos da importância de que as novas gerações tenham um referencial cultural.

7-Maria Rita Soares de Andrade

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Nascida em 03 de abril de 1904 em Aracaju, a filha de operários Maria Rita Soares de Andrade foi a primeira mulher nomeada Juíza Federal no Brasil. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1926, apenas a terceira no estado a conseguir o feito, atuando como advogada tanto na capital baiana como em Aracaju. Foi membro do Ministério Público e do Conselho Penal e Penitenciário, professora de literatura no Colégio Atheneu Sergipense e de Direito Comercial na Escola do Comércio, além de ter funcionado ad hoc como Procurador da República e Procurador Geral do Estado. Teve atuação de destaque no movimento feminista ao lado de Bertha Lutz. Numa CPI para investigar a situação da mulher ocorrida na década de 70, ela falou de improviso citando pessoas, datas e narrando acontecimentos relacionados com a história da liberação da mulher brasileira com uma precisão que impressionou a todos (três senadores e três deputados, alguns jornalistas e curiosos) que assistiram ao seu depoimento. Ao final da palestra, quando o senador Heitor Dias (Arena-BA) afirmou que não havia mais discriminação contra a mulher, tanto que o homem geralmente a coloca “num altar”, Maria Rita interrompeu-o com um sonoro “discordo” esclarecendo que “é justamente esta história de colocar a mulher num altar, que vem nos desgraçando”. Faleceu em 1998 aos 94 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro onde atuava como advogada após sua aposentadoria compulsória do cargo de Juíza Federal, exercendo a magistratura como titular da 4ª Vara Federal. Apesar do alto grau de renome e importância alcançado por ela na magistratura brasileira, infelizmente Maria Rita é mais uma de muitas ilustres desconhecidas em sua própria terra.

8-Alina Leite Paim

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Sergipana, escritora, comunista, silenciada e esquecida. Assim podemos resumir a vida e obra da sergipana nascida no município de Estância em 10 de outubro de 1919, cuja obra chegou a ser prefaciada e elogiada por Graciliano Ramos e Jorge Amado. Por ter perdido a mãe ainda pequena Alina Leite Paim foi criada na cidade de Simão Dias por três tias, com quem teve uma educação severa e rígida. Militante do Partido Comunista do Brasil e das causas feministas foi perseguida pelo regime militar, sofrendo perseguições e pressões de toda ordem inclusive processo judicial conforme relatado pelo pesquisador Gilfrancisco dos Santos. Além de contribuir com artigos em vários jornais, Alina escreveu dez romances e quatro livros infantis, tendo alguns deles editados na Rússia, China, Bulgária, e Alemanha. A Professora Ana Leal Cardoso, da Universidade Federal de Sergipe, destaca o fato de as obras de Alina Paim estarem “repletas de personagens femininas e feministas que lutam por um mundo mais justo. De ‘Estrada da Liberdade’ (1944) a ‘A Correnteza’ (1979), a luta da mulher por um espaço mais democrático e inclusivo está presente. Sua narrativa é construída por uma sensibilidade artística bem trabalhada, capaz de traçar caminhos que levam o (a) leitor (a) a diferentes ‘mundos’: do Nordeste rural à vida de mulheres trabalhadoras”. No artigo “Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo”, a Professora Ana Leal explica o provável motivo do esquecimento de sua obra: “talvez pelo fato de ela ser comunista e suas obras estarem repletas de denso teor socialista (naquela época, um compromisso com o PCB) que reivindica direitos iguais para todos, o que não agradava nem ao governo e nem aos empresários do mundo editorial e artístico”. Alina Leite Paim faleceu no dia primeiro de março de 2011.

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Essa postagem é dedicada especialmente a minha esposa Geane Almeida e a minha irmã Dani Oliveira, mulheres especiais, talentosas, competentes e capazes de inspirar todos ao seu redor.

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AMALIE EMMY NOETHER

EmmyNoether

Poucos meses após o término da Primeira Guerra Mundial, a conceituada Universidade de Göttingen estava dividida. Contrariando o histórico da instituição no reconhecimento de mulheres matemáticas, uma ala conservadora questionava e se opunha à possibilidade de aulas ministradas por mulheres. “O que nossos militares pensarão”, argumentavam, “quando retornarem à universidade e verificarem que tem de aprender aos pés de uma mulher?” O proeminente Professor da instituição, David Hilbert, extremamente irritado com o questionamento, retrucou: “Não vejo em que o sexo de um candidato possa ser um argumento contra sua admissão como Privatdozent. Afinal, o Conselho não é nenhuma casa de banhos”.

Emmy Noether

Essa não foi a primeira e tampouco seria a última vez que Amalie Emmy Noether precisara enfrentar o preconceito de gênero em sua brilhante carreira acadêmica. Mesmo sendo filha do eminente Algebrista, Max Noether, foi preciso uma autorização especial para que pudesse cursar a Universidade de Erlanger, onde seu pai lecionava. Aí Amalie alcançaria o doutorado em 1907 defendendo a tese Sobre Sistemas Completos de Invariantes para Formas Biquadradas Ternárias. Alcançou enorme prestígio nos círculos matemáticos em virtude de suas significativas contribuições significativas à teoria dos invariantes e dos corpos numéricos e, em especial, por desenvolver o Teorema de Noether, “um dos teoremas matemáticos mais importantes já provados dentre os que guiaram o desenvolvimento da física moderna”. Por tudo isso foi convidada por David Hilbert para universidade de Göttingen, onde pode assumir o cargo após aprovação no exame e superar as objeções. Ainda assim, suas aulas oficialmente eram ministradas por Hilbert, a ela sendo designada apenas a condição de ajudante.

Tantas barreiras não diminuíram seu gosto pela matemática e pela álgebra em particular. Com o tempo seu talento angariou lhe uma fama e reputação difíceis de serem questionados. Mesmo tendo algumas dificuldades do ponto de vista pedagógico, foi capaz de atrair e inspirar um surpreendente número de alunos que seguiriam os passos da mestra no campo da álgebra abstrata. É dessa época o lançamento de um de seus trabalhos mais icônicos, o clássico “Idealtheorie in Ringbereichen” (“Teoria de Ideais nos Domínios dos Anéis”), de 1921, onde transformou a teoria dos ideais em anéis comutativos em uma poderosa ferramenta matemática que serve para diversas aplicações.

Amalie Emmy Noether

Amalie Emmy estava no auge de sua carreira e produção acadêmica quando o regime nazista de Hitler chegou ao poder. Sendo de origem judia, Amalie receberia em abril de 1933 um aviso do governo retirando seu direito de ensinar. Sem se abalar, continuou a lecionar em casa onde reunia grupos de alunos, além de ajudar outros colegas que também foram vitimas do expurgo judeu das universidades alemãs. Essa situação durou até a fatídica Noite dos Cristais, quando Amalie percebeu que era hora de deixar a Alemanha Nazista. Vários foram os cientistas que fizeram o mesmo, levando a uma migração acentuada de eminentes pesquisadores das mais variadas áreas para outras partes do mundo, especialmente os Estados Unidos, resultando num crescimento da produção científica estadunidense na primeira metade do século XX.

Tendo recebido convite de trabalho de duas eminentes instituições, uma na Inglaterra e outra nos Estados Unidos, Amalie acabaria optando justamente por essa última. Passaria os últimos anos de sua vida lecionando em instituições americanas de Princeton e Pensilvânia, produzindo intensamente como já era costumeiro. Infelizmente esse período tranquilo acabaria abruptamente com sua morte em abril de 1935, em decorrência de complicações de uma operação no quadril.

A morte de Amalie Emmy Noether gerou grande comoção entre seus colegas. Nas cerimônias que se seguiram ao seu falecimento, Albert Einstein – que usou seu trabalho sobre teoria dos invariantes na formulação da teoria da relatividade – não a poupou de elogios chamando-a de “o gênio matemático criativo mais significativo já produzido desde que a educação superior para mulheres foi iniciada”. Quando alguém se referiu a ela como sendo a filha de Max Noether, seu notório colega e conterrâneo alemão, Edmund Landau retrucou com veemência: “Max Noether foi o pai de Emmy Noether. Emmy é a origem das coordenadas da família Noether.” Em 1982 celebrou-se no Bryn Mawr College, onde suas cinzas foram enterradas, o centenário de seu nascimento.

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Descrita por todos como uma pessoa extremamente amável e afetuosa, isso não impediu que Amalie lutasse pelos direitos femininos na Academia com intensidade e dedicação indescritíveis. Tendo conquistado o direito ao curso superior, depois a poder ensinar e finalmente encarado o opressivo sistema Nazista, tornou-se, não apenas um exemplo de excepcional algebrista, mas também uma fonte de inspiração para inúmeras gerações de mulheres que, assim como ela, precisam encarar diariamente um sem número de barreiras em virtude de seu gênero.

Amalie Emmy Noether é o sétimo e último texto da série sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

GRACE CHISHOLM YOUNG

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A universidade de Göttingen na Alemanha é famosa não apenas pelo número de grandes intelectuais e cientistas que por ela passaram ou estudaram, mas também por ser uma das primeiras instituições a reconhecer o trabalho de mulheres nas áreas acadêmicas, especialmente na Matemática. Nessa série de textos sobre as Plêiades Matemáticas já vimos os nomes de Marie-Sophie Germain e de Sonja Kovalevsky reconhecidos pela instituição com o título de Doutor.

Infelizmente, Marie-Sophie Germain receberia o título somente após a sua morte, enquanto Sonja Kovalevsky o recebeu in absentia, ou seja, sem a obrigação de prestar o exame oral (embora, nesse caso o motivo real da liberação tenha sido a excelência do artigo apresentado). A primeira mulher a receber o doutorado em Göttingen foi a inglesa Grace Chisholm Young, já que as universidades na Grã-Bretanha insistiam em não aceitar mulheres em seus cursos de pós-graduação.

Nascida Grace Emily Chisholm numa família consideravelmente abastada em 15 de março de 1868, optou pelo estudo da matemática quando seus pais a impediram de cursar medicina. Graduou-se em primeiro lugar na turma de 1892 de Matemática da Girton College, em Cambridge, quando decidiu continuar seus estudos em Göttingen onde uma turma para mulheres tinha sido recentemente aberta. Após a defesa de sua tese sobre os grupos algébricos de trigonometria esférica, que lhe valeu o doutorado, Chisholm decidiu retornar para a Inglaterra para cuidar dos pais idosos. Acabaria casando com seu antigo tutor da época do Girton College, William Young e, algum tempo depois voltariam a morar em Göttingen.

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Mesmo não sendo um pesquisador, Grace Chisholm convenceu o marido a acompanha-la nessa carreira. Juntos acabariam publicando uma vasta obra, incluindo trabalhos e artigos científicos, além de livros voltados a introduzir as crianças no saber matemático. Infelizmente, mais uma vez o machismo e preconceitos não permitiam que o gênio matemático de Grace fosse devidamente reconhecido, uma vez que as obras eram publicadas em conjunto com o nome do marido, muito embora ele mesmo reconhecesse que boa parte do mérito das obras cabia à sua esposa, conforme verificado em algumas de suas correspondências.

Durante os anos da Primeira Guerra Mundial, Grace Chisholm e a família se viram obrigados a mudar para Suíça onde continuou em seus trabalhos de pesquisa matemática. Por essa época conseguiu finalmente publicar uma trabalho sobre as bases de cálculo sob seu próprio nome além de escreve um ensaio sobre derivadas infinitas, que ganhou o Prêmio Gamble Girton College em 1915. Infelizmente foi também nessa época que o seu filho mais velho, que era aviador, acabou morrendo em combate. Essa tragédia acabaria por minar a saúde da pesquisadora, interrompendo sua brilhante carreira.

Grace Chisholm Young ainda viveria para ver novamente outra guerra de proporções mundiais se abater sobre a Europa. Com o início dos combates o casal Young foi obrigado a se separar com Grace indo viver na Inglaterra e William ficando na Suiça. Deprimidos com a distância, William morreria em 1942 e Grace em 1944.

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Capa de um dos inúmeros trabalhos acadêmicos escritos por Grace Chisholm Young

No mito das Plêiades, conta-se que Mérope foi a única das sete irmãs a não ter seu brilho vislumbrado da Terra, por ter ousado casar com um mortal ao contrário de suas irmãs. É triste notar também esse paralelo com relação a vida da Matemática e Pesquisadora Grace Chisholm que teve boa parte de seu talento, por assim dizer, encobertos pelo nome do marido, em virtude da imposição de uma sociedade que não via com bons olhos uma mulher assumindo notoriedade em uma área supostamente mais adequada aos homens.

Igualmente triste é saber que a universidade de Göttingen, referência no mundo da Matemática e também por seu pioneirismo em quebrar as barreiras impostas às mulheres, tenha tido um triste fim ao ser praticamente destruída nas mãos do totalitarismo e discriminação racial e de gênero do governo nazista de Adolph Hitler. Um lembrete válido do quanto pode ser perdido e se regredir quando permitimos que supostos salvadores da pátria com soluções fáceis e dedos acusadores tomem o poder e solapem todas os pequenos avanços conquistados a duras penas.

Grace Chisholm Young é o sexto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!