92-JOURNEY TO THE CENTRE OF THE EARTH

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Journey To The Centre Of The Earth – Rick Wakeman

Artista: Rick Wakeman

Músicos Integrantes: Rick Wakeman (sintetizadores e teclados); Gary Pickford-Hopkins e Ashley Holt (vocais); David Hemmings (narrador); Mike Egan (guitarras); Roger Newell (baixo); Barney James (bateria); The London Symphony Orchestra; The English Chamber Choir; David Measham (maestro e condutor); Wil Malone e Danny Beckerman (arranjos para orquestra e coro)

Gravação: Royal Festival Hall, Londres, Inglaterra, 18 de janeiro de 1974

Lançamento: 18 de maio de 1974

Duração: 40m09s

Arranjos: Danny Beckerman e Wil Malone

Produção: David Hemmings

Sobre o disco:

Noite de 18 de janeiro de 1974. Na plateia do Royal Festival Hall de Londres o público ruidoso observava com certa curiosidade a Orquestra Sinfônica de Londres e o Coral de Câmara Inglês lado a lado com uma moderna banda com guitarras, baixos elétricos e bateria. No centro do palco, ao lado do maestro, um impressionante conjunto de teclados e sintetizadores parecia também aguardar. Havia uma certa expectativa dúbia no ar sobre o que sairia daquela mistura inusitada entre música clássica, rock progressivo e literatura.

De repente o burburinho muda de tom, parece ceder um pouco. É que entrou no palco a nada discreta figura de Rick Wakeman, os seus longos cabelos loiros caídos por cima da capa prateada que chega aos pés. Após agradecer com um breve galanteio os aplausos costumeiros, Wakeman assume seu lugar ao centro dos teclados. Seguindo a programação impressa num bem acabado livro entregue a todos na plateia, são executadas as peças “Sinfonia Nº 1 in D Minor – Opus 13”, de Rachmaninov, seguido pelas peças de autoria do próprio Wakeman (de seu disco solo anterior The Six Wives of Henry VIII) “Catherine Parr”, “Catherine Howard”, “Anne Boleyn” e dois improvisos, tem início a peça principal: The Journey To The Centre Of The Earth!

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Rick Wakeman e seu nada discreto modo de se vestir. Imagem do Daily Mail

Conhecido pela megalomania e por ser um dos egos mais inflados do rock (ou mesmo da música), Wakeman começou a idealizar o que viria a se tornar The Journey, após o Yes, banda na qual entrara em 1971 e ajudara na evolução de sua sonoridade, lançar em 1973 a obra Tales From Topographic Oceans. Praticamente uma obra exclusiva das mentes criativas de Steve Howe e Jon Anderson (respectivamente guitarrista e vocalista do Yes), a crítica se derretia em elogios aos dois, enquanto Wakeman se sentia preterido na banda. Mas, tendo uma boa recepção de seu trabalho solo, lançado também em 1973, The Six Wives of Henry VII, o talentoso tecladista de formação clássica começou a rascunhar um material ambicioso. Seu objetivo: mostrar que os elogios recebidos no trabalho solo não eram a toa e provar todo seu talento, muito maior que todo o Yes. Traduzindo: Wakeman queria uma mega massagem no seu já enorme ego ao mesmo tempo em que dava uma resposta aos seus colegas músicos!

A ideia original apresentada à gravadora era a de um disco duplo com uma única canção contando a história do clássico do autor francês Júlio Verne. A obra contaria com a participação de um coral e orquestra e o disco ainda traria um luxuoso livreto contendo gravuras e a letra da canção. No entanto a ideia foi vetada de cara, pois seu custo seria exorbitante. Depois de algumas idas e vindas, o projeto foi aprovado desde que fosse reduzido a um disco simples e com a gravação ocorrendo ao vivo, com a venda de ingressos para ajudar a pagar os custos, além de diminuir as horas de estúdio.

A apresentação foi um grande sucesso e Wakeman voltou às exigências: agora, além de novamente pedir novamente o livro de ilustrações, ele queria o disco lançado na forma quadrifônica. Como se não fosse o bastante passou a cogitar a hipóteses de excursionar levando todo o complexo conjunto de músicos envolvidos no projeto, algo extremamente caro e, obviamente vetado pela gravadora. Por essa época, Wakeman já tinha ganho um bom dinheiro com a turnê bem sucedida do disco Tales From Topographic Oceans ainda com o Yes. Encerrada a turnê, ele sai da banda e concentra todos os seus esforços no disco. Depois de apelar para o braço norte-americano da gravadora, Journey To The Centre Of The Earth foi lançado em maio de 1974 contendo apenas duas faixas no lado A (“Journey” e “Recolletion”) e duas no lado B (“The Battle” e “The Forrest”). Para alegria de Wakeman o disco acabou saindo em duas versões: uma de gravação normal e a outra na desejada forma quadrifônica, sendo essa última extremamente rara hoje em dia.

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Rick Wakeman em seu ambiente: cercado de teclados e sintetizadores

O sucesso da obra foi imediato alcançado o topo das paradas britânicas e norte-americanas vendendo ao todo até hoje mais de 14 milhões de cópias. Todo esse sucesso só serviu para alimentar a já bem nutrida megalomania de Wakeman, que passou a investir pesado na Journey Tour, iniciando pela América do Norte e passando pela Europa Ásia e Japão. Para se ter uma ideia da grandiosidade dessa turnê, em 1975 Journey foi apresentado em uma série de shows no Brasil, como parte do Projeto Aquarius promovido pelo O Globo. Para esse shows foram trazidos ao país cerca de 18 toneladas de equipamentos para os diversos e, até então, extraordinários efeitos sonoros e visuais, além de contar com uma equipe de 70 pessoas nos bastidores! Só a mesa de som utilizada trabalhava com 285 canais. O Maracanãzinho no Rio de Janeiro, o Ginásio da Portuguesa em São Paulo e o Gigantinho em Porto Alegre receberam cada qual mais de 50 mil expectadores.

Perfeccionista, Wakeman fazia questão de que seu público, independente de língua, pudesse ter uma apreciação plena da execução da obra. Assim sempre era contratado um narrador na língua local para as partes textuais. Orquestras locais também eram contratadas, pois ficaria ainda mais oneroso bancar os gastos de transporte, hospedagem de uma orquestra completa, mais os músicos da banda. No Brasil, os shows de São Paulo e Rio de Janeiro contaram com Orquestra Sinfônica Brasileira, enquanto no Rio Grande do Sul a Sinfônica de Porto Alegre foi a contratada, tendo sempre na regência o consagrado maestro Isaac Karabtchevsky, completados pelo Coral da Universidade Gama Filho.

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Durante o show no Maracanãzinho lotado em 1975. Imagem do O Globo

O Mago dos Teclados, como Wakeman é conhecido, lançou muita coisa boa depois de Journey, intercalando sua carreira em retornos ao Yes (lançando o excelente Going for the One em 1977) e trabalhos solos (com The Myths and Legends of KinG Arthur and the Knights of the Round Table de 1975, nos mesmos estilo de Journey, cuja turnê, ainda mais grandiosa, quase levou a gravadora a falência). Ainda assim, nenhum desses discos alcançou o sucesso alcançado aqui.

Journey To The Centre Of The Earth é dos discos que mais me surpreenderam positivamente nessa lista, sendo também um dos que mais escuto. Particularmente considero sua introdução uma das coisas mais bonitas que já ouvi na música. A ousadia do Mestre dos Teclados foi compensada com a excelência com que a obra é executada pelos competentes músicos, tanto os da The London Symphony Orchestra (como era de se esperar) como os de sua banda a English Rock Ensemble, refletida na excelente gravação ao vivo. O resultado é um dos discos mais interessantes, originais e bonitos da história do Rock, merecendo com honras sua nonagésima segunda posição.

Infelizmente não encontrei nenhum registro da apresentação original ocorrida em janeiro de 1974. Também achei muito difícil achar um bom vídeo mostrando Wakeman, banda, orquestra e narrador para ilustrar como deve ter sido aquela apresentação no Royal Festival Hall. No entanto acabei topando com esse vídeo abaixo de “The Battle”, que, apesar de estar sem data de quando ocorreu, claramente é bem próximo da data da execução original.

E quando já finalmente estava finalizando esse texto para sua publicação, acabei topando com essa gravação da parte inicial “Journey” em apresentação de 30 de março de 2014 no Royal Albert Hall. Embora seja amadora, a qualidade de som e imagem é excelente.

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Até mais!

MAIS 10 DOS MEUS CLIPES MUSICAIS PREFERIDOS

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Quando criei a primeira lista com meus clipes musicais preferidos, eu já estava a mais de um mês sem postar nada no blog. Preso na imensa papelada de documentos que o final de ano me traz de presente, estava também sem nenhuma perspectiva de conseguir finalizar algum texto a tempo de publicar até a virada do ano. Para não ficar tanto tempo sem postar nada, saquei uma ideia antiga da mente e listei dez dos meus clipes musicais preferidos.

Pensando em dar continuidade à lista – até porque me lembrei de vários outros clipes igualmente legais – fui anotando meus preferidos para essa continuação. Novamente destaco que essa lista não tem a pretensão de listar os melhores videoclipes da música. Apenas vou citando aqueles que mais me agradam por uma série de razões, entre elas, a capacidade de dialogar em algum grau comigo ou por questões puramente técnicas e estéticas.

No primeiro texto, aliás, boa parte dos clipes listados me encanta principalmente por seu apelo visual ou esmero técnico. O belo uso do plano fechado nos vídeos de “Survivor” de Clarice Falcão e, especialmente, em “Nothing Compares 2U” de Sinéad O’Connor, a edição simples, porém eficiente de “Single Ladies” de Beyoncé ou ainda a beleza estilizada de “Busca Vida” do Paralamas do Sucesso são exemplos perfeitos disso. Ainda assim sobrou espaço para o encantador (e totalmente datado) “Lost in Love” do Air Supply, e todo seu visual de gosto meio duvidoso (ou por causa dele mesmo). Na atual lista, apesar de termos belíssimos exemplos do uso das técnicas de edição, filmagem, fotografia etc., acabei citando muito mais exemplos de clipes de puro encantamento visual. Apesar de também serem tecnicamente impecáveis, foi pensando mais no impacto emocional causado por eles que procurei pautar as escolhas.

O resultado você confere abaixo:

Perfeição – Legião Urbana

A Legião Urbana gravou poucos clipes e, para falar a verdade, a maioria deles são bem ruinzinhos. Foi somente no último que a banda conseguiu acertar, entregando um vídeo muito bonito e com uma produção caprichada. Sendo esse o clipe da segunda melhor música do disco só contou a favor.

Losing My Religion – R.E.M.

Eu estava na seção das televisões de uma loja qualquer de eletrodomésticos, quando, começou a passar esse clipe quando o assisti pela primeira. Apesar de não poder ouvir a música fiquei encantado com a bela fotografia do vídeo e com a sua forte simbologia (e isso numa época em que eu sequer sabia o que era simbologia). Somente anos depois, quando já escutava o R.E.M. fui descobrir que uma das minhas canções preferidas do grupo tinha esse vídeo como clipe musical.

Don’t Go Away ­– Oasis

Foi justamente com “Don’t Go Away” que conheci o Oasis, isso quando eles já se achavam a última coca-cola gelada do deserto ao meio dia. O irmão beatlemaníaco de um amigo me emprestou uma fita VHS com o filme “Yellow Submarine” e uma miríade de videoclipes diversos, dentre eles o dessa canção, que, ao lado de “Stand by Me” é a única coisa que presta do disco Be Here Now. No entanto, as belas imagens evocando as obras de Rene Magritte (pintor que eu já começava a conhecer) me pegaram de jeito na madrugada chuvosa em que o assisti pela primeira vez. O clipe de “Wonderwall” com suas imagens em preto e branco é até mais bonito, mas “Don’t Go Away” ainda hoje é o meu preferido filmado pelos malas sem alça dos irmãos Gallagher.

Bad – Michael Jackson

No post anterior comentei sobre aquela época em que ficávamos aguardando o mais novo clip da rainha ou do rei do pop no fim do Fantástico. Falei do meu clipe preferido da Madonna, mas esqueci de falar daquele que deve ser o dono dos clipes mais legais da história da música: Michael Jackson. Apesar de “Thriller” ser o mais famoso, meu preferido sempre foi “Bad”, pois foi o primeiro que assisti, justamente no final do jornalístico dominical da Globo. Lembro até hoje da reação espontânea (e espantada) de minha mãe ao assistir o vídeo: “Oxi! Michael Jackson é branco agora?!”

Minha Alma (A Paz Que Não Quero) – O Rappa

Um grupo de crianças reunindo-se na periferia de alguma grande cidade marcam uma saída para se divertir. Logo em seguida ouve-se os primeiros versos: “A minha alma está armada/ e apontada para a cara do sossego.” Pronto! Bastou isso para me impressionar com esse que é um dos mais belos e contundentes clipes já filmados no Brasil. E isso logo na sua estreia na MTV. Poucas vezes crítica e reflexão social foram tão bem casadas entre texto e imagem.

Bitter Sweet Symphony – The Verve

A canção por si só já é meio hipnótica com aquela melodia se repetindo do começo ao fim. Junte a isso um vídeo onde o vocalista da banda se põe a cantar enquanto caminha por uma rua qualquer de Londres sem se preocupar em desviar das pessoas, chegando a derrubar algumas inclusive, tudo isso gravado em apenas dois planos contínuos e quase sem cortes. O resultado: um dos clipes mais hipnóticos e clássicos da música. Agora, se as pessoas com quem o cantor esbarra na rua são atores de fato ou não, isso eu já não faço a menor ideia.

One of Us – Joan Osborne

A primeira vez que escutei essa baladinha nada romântica foi na coletânea Rock Ballads lá no já distante ano de 1998. Logo de cara a melodia e a voz de Joan Osborne me encantaram. Aí fui traduzir a letra e encontrei uma série de reflexões sobre Deus e a humanidade que me deram muito sobre o que pensar. Somente muito depois fui conhecer o clipe que, com seu desfile de figuras tão exoticamente normais – além dos planos fechados no rosto de Joan, falando pelo lado técnico que mais me atrai nos clipes –, serviu para selar em definitivo meu encanto pela canção.

Hey Brother – Avicii

Para não dizer que só gosto de clipes antigos, me encantei com esse belo vídeo sobre os laços de amizade e fraternidade que surgem no contexto da vida de veteranos de guerra. No vídeo vemos a relação de companheirismo de dois amigos que, à medida que o vídeo se desenrola percebemos serem filhos de dois combatentes. A história não deixa muito claro, mas aparentemente esses soldados foram mortos em batalha (ou ao menos um deles) e as famílias se aproximaram em virtude dessa tragédia. Apesar de ser uma estratégia manjada apelar para o sentimento patriótico em relação aos veteranos e suas famílias (isso nos EUA), o resultado final ficou realmente muito bonito.

A Estrada – Cidade Negra

Apesar de gostar muito desse clipe, na minha opinião ele teria ficado muito melhor se tivesse apenas as cenas em animação do astronauta (ou alien?) na Lua intercaladas com as cenas das crianças brincando. Ter colocado as imagens dos integrantes da banda ficou meio desnecessário para não dizer que, as cenas deles jogando bola num cenário que se propõem a imitar a baixa gravidade lunar, ficaram bem bobas. Mesmo assim gosto bastante desse clipe pela combinação bem sacada entre a solidão do ambiente lunar com a temática da solidão ao se percorrer uma estrada particularmente longa e difícil.

Stop In the Name of Love – The Hollies

Assisti esse clipe pela primeira vez lá naquela mesma fita VHS de “Don’t Go Away”. Infelizmente o vídeo não trazia as informações técnicas da canção (naquele padrão que ficou famoso com a MTV). Assim, fiquei anos sem saber quem cantava ou mesmo o nome daquela canção que, ajudado pelas imagens do clip, parecia ser repúdio a intolerância belicista de uma iminente hecatombe nuclear. Já perdia minhas esperanças de descobrir mais informações sobre o vídeo, quando, para minha surpresa, escuto a mesma canção, porém numa versão diferente, no filme X-Men Dias de um Futuro Esquecido! O resto foi moleza: uma googleada na trilha sonora do filme bastou para descobrir o nome da canção. Outra googleada e descobri que a versão do filme era a original gravada pela banda The Supremes em 1965, enquanto a do clipe que me intrigou era uma regravação feita em 1983 pela banda The Hollies que, como já comentado pesou a mão na mensagem pacifista do vídeo, isso numa canção cuja letra era só mais a falar de amor e abandono. Embora o vídeo de 83 seja exagerado, piegas e até meio cafona e bobo, fica aqui sua menção por ter permanecido um mistério para mim por quase vinte anos.

*  *  *

E vocês? Também curtem um bom vídeo clipe? Fiquem a vontade para comentar! Pode ser clipes carregado de simbolismo, filosóficos, políticos ou mesmo um mistério piegas e cafona de mais de 20 anos.

DE MAURÍCIO A MOORE (E TAMBÉM A MORRISSON, MÖEBIUS, GAIMAN…) – UMA HISTÓRIA DE AMOR PELOS QUADRINHOS

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O início de uma paixão que começou numa página similar a essa

É bem comum encontrar pessoas no Brasil que aprenderam a ler com as Revistinhas da Turma da Mônica. Comigo não foi diferente. Eu tinha sete anos quando li algo sem a obrigação dos textos escolares ou o titubeante soletramento de cada letra e sílaba. Era uma revistinha do Cascão. Li o texto do primeiro balão tão naturalmente que demorei um pouco para, surpreso, me dar conta que sabia ler! Depois da alegria de partilhar a novidade com meus pais li toda a revista numa avidez que impressionou até mesmo a mim! Rápido, mas não o suficiente para me satisfazer. Eu queria mais.

Embora esse tenha sido o início do meu amor pela leitura, não foi de modo algum meu primeiro contato com as histórias em quadrinhos. Na realidade uma de minhas primeiras lembranças é de uma reunião de família na casa de meus avós paternos, quando ganhei de uma tia uma revistinha do Chico Bento (olha a turminha aqui de novo). Apesar de na época ter entre três e quatro anos, essa lembrança é muito vívida em minha mente, quase como se tivesse ocorrido ontem. Lembro muito bem de voltar pra casa agarrado no presente e de assim ter ficado por muito tempo.

A cada nova HQ que eu encontrava ia aumentando dentro de mim o encanto pelas histórias que, até então, eu só podia imaginar como seriam, nisso sendo auxiliado pelas gravuras. Dessa época, entre meu primeiro contato com o Chico Bento e a primeira leitura das palavras do Cascão, fui apresentado ao cowboy Tex – numa coleção esquecida na estante de minha avó materna –, e ao herói cimério Conan, numa edição gigante a qual, na época, supus ser uma adaptação do filme com o ator Arnold Schwarzenegger. Lembro-me muito bem de me encantar com uma luxuosa revista contando a história do Conde Drácula na casa de uma amiga de minha irmã. Fiquei encantado com as lindíssimas ilustrações em preto e branco. Eu não sabia disso ainda, mas ali se iniciava o meu encanto pelas fumettis italianas e seus belos jogos de luz e sombra. Tão absorto fiquei na revista que essa amiga se impressionou que eu, tão novo, já soubesse ler! Ah quem me dera se assim fosse.

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Imagens como essa me encantavam

Quando, por fim, aprendi a ler, devorei todo tipo de quadrinho que encontrei pela frente, a maioria absoluta títulos infantis. Além da Turma da Mônica, li muito Luluzinha, Ursinhos Carinhosos, Trapalhões, Disney (adorava essa última) e demais variantes. E de vez em quando topava com algum título da Marvel ou da DC, em geral, formatinhos do Superman ou Homem-Aranha. Nada que me marcasse. Lógico que tudo isso mudou quando um amigo me presenteou com a edição número 100 da revista Heróis da TV, conforme contei nesse texto. De cara fui apresentado às origens do Doutor Estranho, Homem de Ferro, Vingadores e à equipe que se tronaria a minha preferida dentre todas: os Fabulosos X-Men!

Fiquei encantado com a premissa dos mutantes não serem heróis no sentido tradicional, desses que celebram (e são celebrados por) seus poderes. Ver Ciclope se amaldiçoando por conta de suas rajadas óticas ou a equipe sendo perseguida por grupos de humanos “normais”, os mesmos que foram salvos por eles pouco antes, foi algo marcante nesse início de adolescência. Ter contato com heróis que não eram populares e sim perseguidos e ridicularizados por conta de seus talentos fez com que – pela primeira vez na minha vida – me identificasse com personagens de alguma obra que eu curtia.

Fui atrás de mais material dos Filhos do Átomo. E acabei dando uma sorte tremenda. Outro amigo tinha nada mais nada menos que Superaventuras Marvel n.16, a versão brazuca de Giant Sized X-Men 1, onde era apresentada a origem da nova equipe dos X-Men. Além disso, ele tinha outras revistas, a exemplo daquelas que são consideradas por muitos (eu incluso) como a melhor fase dos X-Men nos Quadrinhos: as revistas da era Chris Claremont. Com a mensagem simples (e mais atual do que nunca) de combate a intolerância e ao preconceito, Claremont conquistou aquele pré-adolescente tímido.

A partir daí os quadrinhos de super-heróis passaram a ter uma nova vida para mim. Percebi que eram muito mais do que aparentavam. Entender que heróis podem ser tão falhos e imperfeitos como qualquer um de nós me levou, não só a mudar minha percepção do que eram os quadrinhos de heróis, como minha própria percepção de mundo. E esse novo olhar me levou a conhecer um mundo inteiro de histórias maravilhosas que ia garimpando aqui e ali.

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Ao entrar na sexta série, a escola solicitou como parte do material didático uma gramática de Carlos Emilio Faraco e Francisco Marto de Moura. Como recurso didático essa gramática usava e abusava de imagens publicitárias, pôsteres de filmes, capas e ilustrações internas de livros e muitos, mas muitos quadrinhos! Foi nessa gramática que tive conhecimento de verdadeiros tesouros: A Piada Mortal, 300 de Esparta, Batman – O Cavaleiro das Trevas, Corto Maltese, Tin Tin e outros. Óbvio que fui a loucura querendo ler todas aquelas histórias. Só anos mais tarde conseguiria, já que na Aracaju dos anos 90 esse material dificilmente chegava. Claro que eu não esperei sentado essa época chegar. Corri para as bibliotecas onde, embora nem sempre, eu conseguia garimpar muita coisa interessante. E nas casas de amigos e conhecidos que também curtiam HQs.

E assim, aos poucos, fui tendo contato com os grandes nomes da 9ª arte, John Romita Sr. e John Romita Jr., Jack Kirby, John Byrne. E também com outros nem tão gênios assim, mas que pensam que são (estou falando de você mesmo Rob Liefeld). Foi também – como não poderia deixar de ser – quando conheci a vertente erótica dos quadrinhos através de nomes como Milo Manara, Guido Crepax, Paolo Eleuterio Serpieri e Carlos Zéfiro e seus “catecismos”. Enquanto a molecada preferia os vídeos pornôs, eu precisava me desdobrar para esconder de meus pais as revistinhas pornôs que a muito custo conseguia obter.

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Exemplo de uma HQ de Manara em parceria com Hugo Pratt onde, ao menos aqui, sexo e mulheres nuas não eram o único foco da história

No fim da adolescência, já trabalhando e conseguindo algum dinheiro meu de fato, pude comprar minhas primeiras HQs. E, feliz coincidência, nessa mesma época a Panini iniciava sua atuação no Brasil. Acompanhei por um bom tempo as revistas X-Men, X-Men Extra e Ultimate Marvel. Foi também por aí que, paixão já consolidada, tive acesso as primeiras obras que tratavam sobre o tema. De maneira geral eram revistas que traziam algum texto ou reportagem sobre o assunto e, muito de vez em quando, algum livro também.

Ao entrar na universidade fui obrigado a dar um tempo na paixão. As leituras ditas sérias deram lugar às leituras ditas menos importantes. Mesmo encontrando ecos de muitas HQs que marcaram minha infância nas aulas de Geografia Política, Introdução à Filosofia, Introdução à Psicologia da Aprendizagem, dentre outras, minhas leituras diminuíram bastante (não só de HQs, mas também de livros que não fossem os acadêmicos), deixando, inclusive, de acompanhar as revistas que já vinha comprando.

Mas finalmente terminei a universidade ao mesmo tempo em que descobria na internet um rico tesouro. Blogs e páginas as mais diversas onde eu podia ler online ou baixar os mais variados títulos. Fossem histórias clássicas, fosse aquele formatinho lido na adolescência o qual eu nem lembrava mais a existência. E, especialmente, sites que, não satisfeitos em digitalizar e disponibilizar para download revistas clássicas do mercado mainstream, dedicam tempo e talento para traduzir revistas que não chegam ao nosso mercado nacional. Além é claro dos blogs que analisam, dissecam, esmiúçam todo esse material em textos extremamente bem escritos. Destaco como exemplo esse post escrito pelo Sidekick dos Quadrinheiros Quadrinhos: o Filho Bastardo das Musas, um dos mais belos que já tive o gosto de ler.

Atualmente minha paixão por quadrinhos não diminuiu em nada se comparado ao tempo em que descobria aqui e ali uma nova história interessante, um novo herói ou grupos de heróis complexos ou ainda algum artista ou roteirista genial. Se na infância Maurício de Sousa foi o responsável por minha iniciação e na adolescência Chris Claremont, Will Eisner e Jack Kirby ajudaram a sedimentar o amor, depois de tornar-me adulto descobri em Alan Moore, Grant MorrissonMoebius, Neil Gaiman, Alejandro Jodorowsky mestres em me desvendar inúmeras novas possibilidades para as histórias em quadrinhos, novas maneiras de encarar velhas histórias, personagens e temas, aumentando ainda mais meu amor pela assim chamada 9ª Arte.

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Até mais!

MARIA BEATRIZ NASCIMENTO

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Mais um oito de março passou e, novamente, tanto a mídia como as redes sociais foram tomadas pelas tradicionais congratulações vazias sobre a beleza feminina, sua importância na sociedade e similares. Verdade que esse ano surgiram boas manifestações evocando a discussão de temas verdadeiramente importantes relacionadas à data, a exemplo da desvalorização e da violência enfrentadas pelas mulheres, diária e historicamente, trazendo discussões, debates e reflexões pertinentes sobre esses e outros temas relacionados.

Nesse sentido pensei em dar continuidade ao texto publicado ano passado “Oito Mulheres Para se Conhecer Nesse Oito de Março”, cujo objetivo – entregue já no título – é o de relembrar e também dar a conhecer a história e os feitos de mulheres em diferentes áreas. Dessa vez imaginei uma lista apresentando oito mulheres sergipanas, que, além do conhecido esquecimento legado aos feitos de mulheres em geral, também padecem do, já citado aqui, descaso e esquecimento com a própria história sergipana. Descaso e esquecimento esses que dificultaram imensamente a pesquisa.

Não que eu não tenha encontrado nada de interessante para mostrar. Muito pelo contrário, encontrei um rico acervo de mulheres incríveis capazes de feitos importantes para a história e sociedade sergipana. Infelizmente não tão incrível foi constatar a persistente dificuldade em se dar a conhecer suas histórias. Por esse e outros motivos tive alguma dificuldade em conseguir copilar as informações e dados sobre minhas conterrâneas, me obrigando a abandonar (temporariamente) a ideia. Mas não completamente, pois uma dessas histórias me chamou atenção em especial por sua particular invisibilidade e relativo esquecimento. É a história de Maria Beatriz Nascimento.

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Nascida em Aracaju em 12 de julho de 1942, filha da dona de casa Rubina Pereira do Nascimento e do pedreiro Francisco Xavier do Nascimento, Maria Beatriz Nascimento se viu obrigada a migrar junto com a família, que contava ainda com outros dez irmãos, para o Rio de Janeiro na década de 1950. Aos 28 anos entrou para Universidade Federal do Rio de Janeiro onde se formou em 1971 em História. Ainda durante a graduação revela-se uma tenaz pesquisadora da história e cultura negras com artigos publicados em periódicos como Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de inúmeros artigos e entrevistas a jornais e revistas de grande circulação nacional, a exemplo do suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo, IstoÉ, jornal Maioria Falante, Última Hora e revista Manchete. Foi uma das responsáveis por dar visibilidade social na universidade à temática étnico-racial ao participar de grupos de ativistas negras(os). Constituído por um grupo de estudantes negras(os) de vários cursos, esses grupos tinham, dentre seus objetivos, o propósito de introduzir e ampliar, principalmente na universidade, conteúdos acerca das relações raciais no Brasil, almejando o envolvimento do corpo docente.

A militância intelectual ativa de Beatriz Nascimento ajudou a fortalecer o discurso político do movimento negro nas universidades. Ela ainda escreveu e narrou o filme Ori de Raquel Gerber, onde apresenta sua trajetória pessoal como forma de abordar a comunidade negra em sua relação com o tempo, o espaço e a ancestralidade, emblematicamente representados na ideia de quilombo.

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Em texto no site Alma Preta, Roberta Lima escreve que ser negra no mundo academicista é ser invisível duas vezes. A essa dupla invisibilidade acrescentemos ainda o fato de ser nordestina, ainda que radicada no Rio de Janeiro. Mesmo dona de uma carreira acadêmica digna de nota com uma instigante produção acerca da condição racial e de gênero, com estudos sobre a ressignificação do território/favela como espaço de continuidade de uma experiência histórica que sobrepõe a escravidão à marginalização social, segregação e resistência dos negros no Brasil, Beatriz segue invisível. A mulher que, ao analisar o histórico de invisibilidade racial histórica das comunidades, especialmente quanto ao gênero, amarga hoje do mesmo mal que a que se propôs analisar: uma lamentável invisibilidade de toda sua trajetória e produção.

Ao iniciar a pesquisa para esse texto, ainda com a ideia original em mente sobre as sergipanas de feitos notáveis, não foi nenhuma surpresa a falta de informações sobre as pesquisadas. Surpresa mesmo foi topar, quase por acaso, com o nome Maria Beatriz Nascimento num página escolar e descobrir que, de todas, ela é a que mais padece dessa falta de informação. Chocou-me profundamente o quanto se desconhece e pouco se divulga sua vida e obra não apenas no âmbito local sergipano, mas também nacional. Sequer um artigo sobre ela existe na Wikipédia (mesmo que pequeno e com erros, como no caso das demais pesquisadas).

Mas, se por um lado existe essa invisibilidade, por outro o esquecimento é combatido na rede através de postagem e textos relembrando sua história e vida. Particularmente nos sites e blogs a seguir de onde tirei grande parte das informações que compõem esse post: além do já citado site Alma Preta, encontrei textos no site do Projeto A Cor da Cultura, no site do Instituto da Mulher Negra Geledés, no blog Coletivo Di Jejê (na realidade tradução do texto originalmente publicado no Black Women of Brazil) e em alguns textos do blog MamaTerra.

Não por acaso os textos apresentados acima foram publicados em páginas de ativismo no movimento negro. E, quando lidos, percebe-se que, de uma maneira ou de outra, todos tem como base o livro Eu Sou Atlântica-Sobre a Trajetória de Vida de Beatriz Nascimento, do professor, geógrafo e antropólogo cearense Alex Ratts, que se propôs a, não apenas contar a vida de Beatriz, mas também refletir as discussões sobre racismo, sexismo, quilombos, dominação e identidade, temas indissociáveis à ativista e pesquisadora.

Eu Sou Atlântica

Finalmente à trajetória de Beatriz Nascimento foi adicionada mais um triste nível de invisibilidade: em 28 de janeiro de 1995 Beatriz foi brutalmente assassinada com cinco tiros, ao tentar defender uma amiga da violência do seu companheiro, presidiário com licença para passear e membro de um esquadrão da morte.

A mulher, negra, nordestina que ousou num país racista tornar-se historiadora, pesquisadora, ativista da paridade entre os sexos, tornou-se ela própria vítima da violência, esquecimento e invisibilidade estudados e questionados.

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Até mais!

93-GET THE KNACK

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Get The Knack – The Knack

Banda: The Knack

Integrantes: Berton Averre (guitarra, vocal), Prescott Niles (Baixo, vocal), Doug Fieger (vocal, guitarra), Bruce Gary (Bateria, percussão)

Gravação: Abril de 1979

Lançamento: 11 de junho de 1979

Duração: 40:58

Produção: Mike Chapman

Sobre o disco:

Em um dia qualquer de 1978, o jovem Doug Fieger entrou numa loja de roupas de Los Angeles onde encontra uma jovem balconista de 17 anos por quem se apaixonou imediatamente. “Foi como ser atingido na cabeça com um taco de beisebol, eu me apaixonei por ela instantaneamente, e quando isso aconteceu, ela provocou alguma coisa dentro de mim e eu comecei a escrever um monte de músicas febrilmente em um curto espaço de tempo”, diria ele tempos depois. Desse começo prosaico acabaria nascendo um dos hits mais grudentos do final dos anos 70, “My Sharona”.

A canção foi o carro chefe do disco lançado no ano seguinte do arrebatador Get The Knack. Apesar de ser um excelente disco com boas canções, o imenso sucesso alcançado se deu em grande parte devido a “My Sharona” que simplesmente não parava de tocar nas rádios e, mesmo competindo com a moda da Disco Music, conseguira conquistar o topo da billboard naquele ano, numa inusitada primeira posição a frente de “Bad Girls” de Donna Summer e “Le Freak” do grupo Chic. O resultado: um dos discos de estreia mais arrebatadores até então.

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A pouco comportada (para o final dos anos 70) capa do single

Apesar dessa nada pequena ajuda, não foi apenas devido ao sucesso da little pretty one “My Sharona” os bons resultados alcançados pelo disco. A inteligente, embora arriscada, estratégia de marketing da gravadora – vendendo a banda como os Beatles dos anos 80 – teve sua parcela de responsabilidade. Do título e capa aludindo ao Meet The Beatles à produção das canções, quase todo o álbum remete ao quarteto inglês. O próprio clip de, novamente, “My Sharona” não nos deixa esquecer isso, tendo uma bateria com o nome da banda gravado numa fonte muita similar a da batera de Ringo e o estilo mais social dos integrantes do grupo, usando terninhos, ainda que bem mais casual e a vontade. Afinal, os Beatles dos anos 80 não podiam desfilar por aí com terninhos bem comportados. Era preciso um pouco mais de rebeldia.

Com canções muito bem pensadas, produzidas e, especialmente, bem tocadas, tem-se no instrumental um dos pontos mais fortes do álbum. Apesar de ter duas canções chicletes (“Oh, Tara”, além da onipresente “My Sharona”), essas nunca soam chatas ou cansativas, o que também ajuda a explicar o sucesso de ambas. O bom equilíbrio entre rock e pop do começo ao fim ajudam na harmonia geral da obra, que é dançante e alegre, mesmo em faixas um pouco mais destoantes, a exemplo de “(She’s So) Selfish”, um dos instrumentais mais interessantes do álbum, ou de “Maybe Tonight” calma e melódica.

Entretanto, se pelo lado instrumental o disco é impecável, é importante frisar o conteúdo francamente misógino de suas letras. Há vários exemplos, por todo o álbum, como “Lucinda”, canção onde a garota título é retratada como uma destruidora de corações, mentirosa e cínica. Há ainda a já citada “(She’s So) Selfish”, cujo título entrega de cara a ideia de mulher expressa na canção (algo como “(Ela é Assim) Egoísta”, numa tradução livre). De maneira geral as letras de Get The Knack falam de homens cujas vidas foram ou são, de certo modo, estragadas por causa de uma mulher. Dissimuladas, cruéis, levianas. Essa era a visão feminina apresentada pela banda. E, diga-se de passagem, nada incomum ou algo novo no rock, um universo dominado por homens, com músicas (“Under My Thumb” dos Rolling Stones) e atitudes machistas (qualquer banda em relação as suas groupies nos idos dos anos 60 e 70), conforme relatei no texto sobre Jagged Little Pill de Alanis Morissette.

Get The Knack é um excelente disco que peca na sua visão preconceituosa das mulheres. Por todo o impacto que causou no fim dos anos 70 e início dos anos 80, influenciando inclusive muito do que viria a ser produzido dali em diante, como o power pop e o new wave, explica-se sua presença nessa lista. Particularmente considero um trabalho muito bem produzido, mas nada de tão memorável, além do estouro de “My Sharona” e os belos arranjos de suas canções. Beatles dos nãos 80? Com certeza não.

Depois do início avassalador, The Knack nunca mais conseguiu repetir ou mesmo chegar perto de tanto sucesso. Era encarada pela mídia como uma banda de atitude artificial e arrogante, principalmente depois que casos como o da revista Scene ter se recusado a publicar um artigo devido as “tentativas de censura” da banda começarem a surgir. Ainda lançariam mais dois álbuns que sequer passaram perto do sucesso do primeiro, culminando com a dissolução do quarteto em 1981.

Apesar de ser um disco bem executado, com belas melodias – ainda que o tom machista das letras seja algo a ser notado –, não tem para onde escapar: “My Sharona” foi, e ainda é, o hit pelo qual se lembra de Get The Knack. Doug Fieger e Sharona Alperin (a jovem balconista que inspirara a canção) namoraram por quatro anos. Posou para a capa do single inclusive. A canção foi composta em cerca de 15 minutos. Um relacionamento meteórico que levou a uma composição meteórica, assim como foi o sucesso do quarteto. De tudo ficaram apenas o álbum, as lembranças e “My Sharona”…

Paul Fieger e sharona alperin

Doug Fieger e Sharona Alperin

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

TAG: LIVROS 2017

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Uma das máximas mais antigas de nosso país (se não a mais antiga) é aquela que diz: “No Brasil o ano só começa depois do carnaval.” Sendo assim, agora que a tradicional festa da carne já se foi, que tal saudar o ano novo que de fato se inicia com uma breve vista d’olhos nas minhas leituras no ano de 2016 e também nas minhas metas e desafios para o ano de 2017? E como já tá virando tradição, faço isso respondendo a essa TAG na qual fui marcado lá no já distante ano de 2015, pelo sábio Mestre Ben Hazrael do Cabaré das Ideias. Inclusive, se você quiser conferir minhas respostas anteriores, é só clicar aqui e aqui.

O ano que passou foi muito proveitoso no quesito por minhas leituras em dia. Há muito tempo eu não lia tanto por puro prazer. Muito disso graças ao estímulo trazido ao ganhar meu falecido e-reader. Mesmo depois do coitado ter quebrado, continuei catando todo tipo de leitura. E nisso tenho muita sorte, pois trabalho numa universidade com uma vasta biblioteca. E como, no momento, não estou em condições financeiras para sair comprando todos os livros que desejo, é justamente essa biblioteca que tem me salvado. Infelizmente nem todos os livros desejados acabo encontrando por lá, mas os que encontro já dá pro gasto.

Por outro lado, a quantidade de leituras de quadrinhos foi bem menor do que eu pretendia. Dos 18 quadrinhos que estabeleci como meta de leitura, consegui ler apenas 9. Muito de não conseguir chegar nem perto de atingir a meta foi devido a quase  não mais adquiri quadrinhos em mídia física. Principalmente pela questão do custo, mas também pela disponibilidade de títulos ser muito maior em mídia digital. Títulos estrangeiros que dificilmente seriam publicados por aqui, são facilmente encontrados em páginas que se dispõem a traduzir essas obras e disponibiliza-las na rede. Infelizmente, a leitura desse material na tela do computador não é das mais adequadas, cansando logo a vista. E esse foi o principal motivo de não ter lido tantas HQs em 2016.

Para esse ano de 2017 estabeleci como meta a leitura de 30 livros além de 20 HQs. Falo um pouco sobre essas obras a seguir, mas se quiser saber quais são todas elas, fique a vontade para visitar minha página no Skoob ou me seguir lá, se quiser. O link é esse aqui.

E uma boa leitura!

2016

  1. Um livro e um quadrinho que te surpreenderam em 2016?

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Esse ano eu consegui ler livros bem variados com temáticas e gêneros um tanto diferentes entre si. Muitos desses surpreenderam por serem totalmente diferentes do que eu esperava, a exemplo de “O Nome da Rosa” do meu quase xará, Umberto Eco. Esse era um livro que eu supunha ter uma leitura mais complicada do que realmente tem, me surpreendendo pela fluidez de sua leitura, apesar das muitas e muitas partes (e mesmo alguns diálogos) em latim. Outros como “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago e “A Cor Púrpura” de Alice Walker mesmo com minha expectativa lá em cima, conseguiram ser ainda melhores do que eu tinha imaginado. E  cada um desses poderia figurar nesse quesito tranquilamente como grande surpresa, mas optei mesmo por ficar com “Meu Casaco de General” de Luiz Eduardo Soares. O livro narra os quinhentos dias em que o autor fez parte da Secretária de Segurança Pública do Rio de Janeiro durante o governo de Anthony Garotinho. Achei o livro por acaso enquanto acompanhava um colega na biblioteca da universidade onde trabalho e sua capa e temática me chamaram a atenção. Dei uma chance e tive uma mais do que grata surpresa com os relatos de puro descaso e omissão com a segurança naquele estado. Descaso esse que, com certeza não é exclusividade do Rio de Janeiro e nem ficou naquele passado nem tão distante assim do final dos anos 90 e início dos anos 2000. As já inúmeras rebeliões em presídios em todo o país somente nesse comecinho de 2017 e o caos que se instaurou no Espírito Santo com a greve dos policiais que o digam. Se tem um livro que recomendo bastante esse ano, com certeza é “Meu Casaco de General”.

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Infelizmente, como eu comentei na introdução, eu não li tantos quadrinhos como eu queria. No entanto, se a quantidade foi pouca ao menos a qualidade se manteve. Eu já sou fã da série Os Mundos de Aldebaran tendo gostado muito do primeiro ciclo onde conhecemos os descendentes da tentativa humana de colonizar um planeta no sistema de Aldebaran, e do segundo ciclo onde as tentativas de colonização passam a ser no sistema de Betelgeuse. Em ambos os personagens precisam lidar com a misteriosa Mantrise e seus segredos, em tramas bem escritas, com reviravoltas e personagens interessantes com grande destaque para as personagens femininas. Outro destaque são os belos desenhos de Luis Eduardo Oliveira, ou LEO, ao apresentar mundo inteiros além de flora e fauna bem diversificada e exótica. Mesmo tendo todos esses elementos o primeiro capítulo de “Antares”, que faz parte do terceiro ciclo, conseguiu me surpreender, não apenas por manter a qualidade dos ciclos anteriores, mas também por entregar uma história nova com foco diferente em relação as demais, apresentando novos personagens e também um enigma novinho a ser desvendado pela verdadeira heroína das tramas anteriores, a jovem Kim Keller.

  1. Um livro e um quadrinho que te decepcionaram em 2016?

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O livro “Prato Sujo” de Marcia Kedouk chegou lá em casa emprestado por um casal de amigos. Logo a temática chamou minha atenção, pois ele se propunha a contar como a indústria dos alimentos viciou e ainda vicia nosso cérebro com substâncias prazerosas, pouco nutritivas porém muito lucrativas. O começo foi bem ao contar essa história. Mas do meio pro final o livro começou a cansar e ele acabou não sendo tudo aquilo que eu imaginava. É uma leitura leve, bem instrutivo, mas eu esperava um pouco mais dele. Talvez a expectativa é que tenha estragado a leitura.

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Eu comecei a ler a série de três HQs Megalex não apenas por ser um quadrinho de ficção científica, mas também por ter a frente o nome do autor chileno Alejandro Jodorowsky, parceiro de Moebius no clássico “O Incal”. A série foi muito bem em seu primeiro livro “A Anomalia”, apresentando o mundo de Megalex num futuro automatizado, em que tudo, até mesmo o nascimento de cada pessoa, é convertido num processo mecânico, onde não existe espaço para nenhum falha. A história tem início com a fuga de um soldado que, por ter crescido demais, é considerado uma anomalia mas consegue escapar do controle de qualidade (a execução sumária) e acaba sendo resgatado por uma misteriosa moça careca. O segundo volume, “O Anjo Corcunda”, mantém a qualidade do primeiro volume, muito embora não sem algumas críticas. A principal, ao meu ver, é a desnecessária erotização da Princesa Kavatah e da misteriosa rebelde careca (tanto uma como a outra são desenhadas com seios enormes), além do uso de uma ou duas piadas envolvendo os seios dessa última. A terceira parte “O Coração de Kavatah” não só manteve a pegada e a qualidade como também a erotização das personagens. Mas também apresentou algumas reviravoltas instigantes e revelações bem boladas. No entanto, quando a história parecia que ia engrenar pra valer, ela termina de repente num desfecho bem meia boca e decepcionante, deixando um gostinho bem amargo pra uma HQ que prometeu muito mais do que cumpriu.

  1. A melhor adaptação que você viu em 2016?

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Eu estou bem devagar no quesito filmes. Nos cinemas esse ano assisti somente Batman vs. Superman, mas embora tenha até gostado do filme, sei que ele não é nem de longe a melhor adaptação do ano. Na TV também não tenho assistido muitos filmes. Mas fiquei positivamente surpreso com o filme do Homem Formiga. Então fica sendo ele mesmo.

  1. Um livro e um quadrinho que não conseguiu terminar em 2016?

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Eu não consegui ler vários livros de minha meta, alguns porque não consegui compra-los outros porque são bem difíceis de encontrar mesmo nas bibliotecas. O melhor exemplo nesse último caso foi o do livro “Sergipe Colonial II” da historiadora e geógrafa sergipana Maria Thétis Nunes. Quero muito ler esse livro não apenas pelo desejo de aprender mais sobre meu estado, mas também por ser fundamental nas minhas pesquisas para a última parte no apanhado histórico que estou publicando aqui no blog. Sem falar de sua importância para um outro projeto que venho desenvolvendo e sobre o qual falarei mais em breve. No entanto, para essa questão particular, vou citar aqui a “Síntese da Coleção da História Geral da África Vol. 2” como sendo o livro não lido em 2016. Por seu tamanho, tendo quase 1000 páginas que requerem uma leitura atenta, demorei a terminar a leitura do volume 1 e, apesar de tê-la iniciado ainda em 2016, só consegui terminar esse volume 2 em 2017.

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Robert Crumb, um dos fundadores do movimento underground, é famoso por abordar temas como drogas e sexo em suas obras. Ao decidir adaptar o primeiro livro da Bíblia deixou todo mundo curioso sobre o que ele tinha em mente. E o resultado é “Gênesis”, HQ fruto de um trabalho de pesquisa minucioso e muito sério, com uma qualidade irretocável. Infelizmente por conta do tamanho da obra não deu pra terminar sua leitura. Mas se você quer saber mais sobre essa belíssima obra recomendo assistir esse vídeo produzido pelos Quadrinheiros onde a obra é dissecada.

  1. Quantos livros e quadrinhos você conseguiu ler em 2016?

Eu tinha estipulado uma meta de 41 obras, entre livros e quadrinhos, para ler em 2016. Eram 23 livros e 18 quadrinhos, sendo que desses li um total de 29 obras: 20 livros e 9 Quadrinhos. Foram dois livros e quatro quadrinhos a mais se comparado com a meta do ano anterior. E, para minha total surpresa, foram menos páginas lidas em 2016, num total de 8.155, enquanto em 2015, li 9.267 páginas.

 2017

  1. Um livro e um quadrinho que está ansioso pela leitura em 2017?

Nas duas postagens anteriores eu expliquei que não costumo acompanhar os lançamentos de novas obras. Então para não dar as mesmas desculpas dos anos anteriores, resolvi alterar levemente a pergunta desse quesito. Assim, ao invés de responder por quais lançamentos estou ansioso, prefiro dizer por quais leituras estou ansioso para iniciar nesse ano.

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Dos livros, estou muito ansioso por iniciar a leitura de “Estrelas Além do Tempo”. Desde que tomei conhecimento da história por ele contada desejo ler esse livro. E graças a querida amiga Sybylla, vou poder matar essa vontade.

Nos quadrinhos estou muito ansioso para ler o segundo volume de “Rainhas de Sangue: Isabel-A Loba da França”. Gostei bastante do primeiro volume, especialmente pelos belos desenhos do artista Jaime Calderón.

  1. Um (ou mais) desafio que se dispôs a participar em 2017?

Eu passei todo o ano de 2016 planejando ler os livros de Milton Santos. E tinha como meta comprar alguns para começar a compor minha biblioteca geográfica e, aqueles que não encontra-se para compra, pega-los emprestado na biblioteca da universidade. Mas como minhas condições financeiras esse ano talvez não me permitam o pequeno luxo de comprar livros e, sendo poucos os títulos do geógrafo baiano disponíveis na biblioteca,  fui obrigado a adiar o plano. Assim, me propus três desafios particulares: o primeiro, ler a maior quantidade de livros cuja temática seja voltada para a ciência geográfica. O segundo é ler o maior número possível de obras de autores sergipanos ou cuja temática seja Sergipe. Já o terceiro é retomar a leitura abandonada de três livros: “O Dia do Curinga” e “O Mundo de Sofia” ambos do autor norueguês Jostein Gaarder e “O Espírito das Leis” de Montesquieu.

  1. A adaptação mais aguardada por você em 2017?

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Eu sou tão por fora disso de datas de lançamento, que ao responder a TAG ano passado eu afirmei estar ansioso pelo lançamento do filme da Mulher Maravilha. Nenhum problema nisso a não ser pelo fato do filme estrear mesmo só em 2 de junho de 2017, e isso lá nos EUA. Pelo visto ansiedade pouca é bobagem.

  1. Uma leitura que pretende retomar em 2017?

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Já que adiantei os livros que pretendo retomar ao responder o item 7, aqui falarei sobre os quadrinhos. Ano passado pretendia retomar a leitura da obra “Os Passageiros do Vento”. Faltavam três volumes, mas só consegui ler um deles e por isso pretendo retomar a leitura finalizando os dois últimos volumes. Além desses quero muito poder terminar “O Incal”, obra icônica de Moebius e Jodorowsky. Nem que seja para poder tira o gostinho amargo que ficou com o final de Megalex.

  1. Três livros e três quadrinhos da sua meta para 2017?

1-Só Garotos de Patti Smith. Apesar de gostar de livros que contem a história de grandes astros da música ou de bandas famosas, nem sempre consigo encontra-los com facilidade. Aproveitei que a biblioteca aqui tinha essa autobiografia da Patti Smith para inclui-la em minha meta de leituras para esse ano.

2-Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus. Julgo ser esse um livro essencial. E, sendo assim, já passou, e muito, da hora de ler.

3-A Independência do Solo que Habitamos: Poder, Autonomia e Cultura Política na Construção do Império Brasileiro – Sergipe (1750-1831) de Edna Maria Matos Antonio. Tese de doutorado, transformada em livro através do Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Para conhecer um pouco mais a fundo sobre como se deu o processo de emancipação política de Sergipe.

1-“Maus” de Art Spiegelman. Clássico quadrinho vencedor do Pulitzer. Uma visão diferenciada dos horrores da Segunda Guerra, objeto de estudo em várias especialidades. Decidi que esse ano tenho de ler essa obra-prima, mesmo que para isso precise compra-la.

2-“Placas Tectônicas” de Margaux Motin. Tenho visto tanta gente boa falando bem dessa HQ que resolvi arriscar. Pelo que já li sobre ela é coisa fina e promete.

3-“Campos de Batalha” de Garth Ennis (texto) e Russ Braun e Peter Snejbjerg (desenhos). Desde que tomei conhecimento da existência de um esquadrão de pilotas russas enviadas em missões noturnas contra os nazistas na Segunda Guerra me interessei em saber mais sobre elas.

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