5 BONS FILMES RUINS

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A finada SET em sua clássica primeira edição

A finada revista SET (que Deus a tenha num bom lugar) manteve por algum tempo uma seção dedicada a falar de filmes muito ruins, mas que, por um motivo ou outro, todo mundo gosta. A seção chamava-se, adequadamente, Bom Filme Ruim. Os leitores enviavam para a revista o nome do seu filme ruim preferido explicando porque gostam tanto daquela porcaria… quer dizer… daquele filme… han… incompreendido…

Lembrei-me disso por esses dias, quando assistia um exemplar particularmente peculiar desse gênero cinematográfico e minha esposa perguntou como eu conseguia assistir um filme tão ruim. Percebi então o quanto adoro vários filmes que se encaixariam como uma luva nessa categoria.

Rabiscando, listei rapidinho 10 filmes que, de tão ruins, são bons. Tem de tudo um pouco, desde exemplares dos filmes testosteronas que inundaram os anos 80 e 90 a dramas que nos fazem bolar de rir e uma lenda viva das artes marciais (e dos memes na internet) pagando mico numa aventura paradona que também é uma comédia sem graça nenhuma. No entanto, ao preparar a postagem, percebi que uma lista de 10 ficaria muito extensa e enfadonha. Por isso, dividi a lista em duas partes distintas. A primeira sai hoje enquanto a segunda parte postarei em breve.

Boa leitura!

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5-Lua de Cristal (Tizuka Yamazaki-1990)

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Começamos com o maior clássico brasileiro no quesito Bom Filme Ruim! O filme é datado, cafona, exageradamente musical, além de ter a música tema mais chiclete já escrita e gravada da história do cinema nacional. Isso sem falar na canastrice do casal protagonista formado pela inocente e interiorana Maria das Graças (a própria Xuxa Meneghel) e seu príncipe encantado Bob (ninguém menos que Sérgio Mallandro – fico imaginando quem teve a brilhante ideia de colocar Sérgio Mallandro de príncipe encantado). O filme ainda conta com uma série de cenas repletas de humor involuntário, como quando Sérgio Mallandro dá uma cheiradinha apaixonada no tênis que a mocinha esqueceu (!) depois de ter sido atropelada pelo próprio (!!). E não podemos esquecer da belíssima cena quando nosso príncipe de plantão salva a mocinha que estava se afogando na parte rasa da praia, numa das cenas mais toscamente hilárias do filme! Apesar de tudo isso (ou por conta de tudo isso, vai saber), o filme foi o mais visto nos cinemas nacionais naquele ano, com mais de cinco milhões de expectadores e foi figurinha fácil nas intermináveis reprises da Sessão da Tarde. Simplesmente clássico!

4-Os Aventureiros do Bairro Proibido (Big Trouble in Little China de John Carpenter-1986)

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Quem diria que um filme que era pra ser um western, dirigido pelo mestre do horror John Carpenter e que quase teve no papel principal do caminhoneiro Jack Burton as estrelas Jack Nicholson e Clint Eastwood (mas que ficou mesmo com Kurt Russel), se tornaria a mais divertida (e sem noção) aventura pseudo-mística de todos os tempos? O filme foi um fracasso nas bilheterias, mas acabou estourando nas locadoras de VHS e, como não poderia deixar de ser, nas infinitas reprises da Sessão da Tarde, onde a turminha muito louca de Jack Burton entra em divertidas e animadas confusões para resgatar sua noiva (vivida por Kim Catrall, a Valeris de Jornada nas Estrelas VI) e a do amigo chinês das garras do vilão de 2000 anos de idade, Lo Pan. Amaldiçoado por um antigo imperador chinês, Lo Pan precisa casar com uma moça de olhos verdes só para depois sacrifica-la para poder se livrar da maldição. Espertinho, o vilão sequestra e planeja casar não com uma, mas com duas moças de olhos verdes, uma para o sacrifício e a outra para viver com ele. Além de ser repleto de clichês dos filmes de aventura genéricos dos anos oitenta, a cena final do filme é um perfeito desfile de carnaval, cheio de pirotecnia num cenário que grita “Sou falso” a cada 24 frames por segundo. Ainda assim, o filme conta com uma galeria de personagens que caíram no gosto do público e de, ao menos, um monstro muito bem feito: o monstro cheio de olhos, espião de Lo Pan.

3-Aventureiros do Fogo (Firewalker de J. Lee Thompson-1986)

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Saimos dos Aventureiros do Bairro Proibido para os Aventureiros do Fogo: eu sempre tive um gosto peculiar para tudo na vida. Mas confesso ter me superado ao passar boa parte de minha infância e adolescência afirmando ser Aventureiros do Fogo o melhor filme que já assisti na vida! Sério: eu adorava assistir esse filme de aventura (sem aventura), que, na onda do sucesso de Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida, pôs Chuck Norris para viver um ex-fuzileiro ruim de tiro, mas bom de faca (e clone mais que genérico do Indiana Jones) ao lado de Louis Gosset Jr. vivendo o amigo alívio cômico (mas que não tem graça nenhuma), ajudando a mocinha Patricia Goodwin a descobrir um lendário tesouro asteca, ao mesmo tempo em que fogem de um terrível vilão (que não causa terror nenhum). Mais genérico e bobo impossível. Mesmo assim eu me amarrava nas tentativas frustradas da dupla, especialmente do Chuck Norris, em tentar fazer um filme de aventura leve, cheio de piadas e humor. Sempre achei a cena no trem, quando, disfarçados de religiosos, precisam dar a bênção a um soldado impressionado com um suposto milagre, a mais hilária do filme. Pois é, coisas da idade. Agora, será que alguém me explica como é que um ex-fuzileiro conseguia ser o pior atirador do mundo?

2-Guerreiros de Fogo (Red Sonja de Richard Fleischer-1985)

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Se Aventureiros do Fogo até foi um nome mais interessante que o original Firewalkers, o mesmo não podemos dizer da escolha Guerreiros de Fogo, para o título original Red Sonja. Esse é outro filme feito na esteira de sucessos anteriores  no caso Conan-O Bárbaro e Conan-O Destruidor. Guerreiros de Fogo adapta a história da guerreira Red Sonja das histórias em quadrinhos do mesmo universo do guerreiro cimério e, pra variar, não fez nem metade do sucesso esperado. Estrelado por Brigitte Nielsen, o filme é fraco, fraco, fraco até não poder mais, com cenas de lutas mal filmadas, mal coreografadas e  mal interpretadas, personagens bobos e desnecessários e um Arnold Schwarzenegger que aparece do nada interpretando um tal de Kalindor (que na verdade é próprio Conan com outro nome, pois um imbróglio com os direitos autorais impediu o uso do nome do guerreiro cimério, o que serviu apenas pra deixar a trama ainda mais sem noção). Não é tão cult quanto os demais da lista, mas não chega a ser um péssimo filme. Está mais na conta dos inofensivos. Tá na lista por que sempre curti a personagem Red Sonja nos quadrinhos e sempre achei que ela merece uma adaptação decente nas telonas (ou pelos menos numa série de tv). E até que a Brigitte Nielsen, mesmo não sendo nenhuma Meryl Streep, não fez feio no filme.

1-Stallone Cobra (Cobra de George Pan Cosmatos-1986)

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Olha vou te contar: a disputa do primeiro lugar foi ferrenha entre essa pequena obra prima de tudo o que há de ruim nos filmes dos anos oitenta e o concorrente mamão com açúcar igualmente estrelado pelo Garanhão Italiano Sylvester Stallone, Falcão – O Campeão dos Campeões. No fim, venceu a história total e completamente desmiolada vivida por Marion “Cobra” Cobretti (melhor nome de policial, machão, casca grossa, já criado na história da humanidade), por um único e simples critério: simplesmente não paro de rir um segundo sequer revendo essa pérola, que – cereja do bolo – conta ainda com o arsenal mais hilário de frases de efeito já imaginadas pelo ser humano. Vide a clássica “O crime é uma doença e eu sou a cura!” Eu adoro o primeiro Rocky, acho o primeiro Rambo um filme excelente, mas Stallone Cobra (santa falta de criatividade para um título adaptado) é, de longe, o melhor filme do gênero testosterona made in anos 80. E, como que para não deixar nenhuma dúvida, ao pesquisar o significado exato do termo canastrão, encontrei esse apropriado exemplo no verbete do Dicionário Informal: “Silvester Stallone no papel de Marion Cobretti, não teve medo de ser canastrão e acabou fazendo ali sua interpretação mais memorável!”

Concordo plenamente! O que, não necessariamente, signifique um elogio…

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Até mais!

O PRÍNCIPIO DA SMURFETTE NOS SERIADOS JAPONESES

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Já faz um tempão, a amiga Lady Sybylla compartilhou em sua página do Facebook um post do Blog A Maior Digressão do Mundo… falando sobre a Representação feminina: O princípio da Smurfette. No texto a autora do blog explica a diferença numérica entre personagens femininas e masculinas em desenhos e os clichês usados para representa-las. Na hora em que comecei a ler o texto não teve como não lembrar os seriados japoneses que eu tanto gostava de assistir quando criança. Flashman, Changeman, Jaspion, Jiraya e outros fizeram parte da infância de muita gente no final da década de 80, início da de 90. E eu era viciado!

Pra quem não lembra (!) ou pra quem simplesmente não viveu essa época, você pode encontrar aqui uma breve visão desses seriados.

No excelente texto da Gizelli, vemos que nos desenhos que assistíamos na infância, as mulheres eram sempre uma minoria e quase nunca assumiam um papel que não fosse a de coadjuvantes e/ou de namoradas dos personagens principais, sempre homens. Essa lógica funcionava nos seriados japoneses também.

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Kyomi Tsukada, a intérprete da androide Anri

Os Metal Heroes eram sempre homens, a maioria deles tendo uma assistente ou companheira feminina que os acompanhavam em suas aventuras. Na maior parte das vezes usada apenas como alívio cômico. Esse foi o caso da Anri em “O Fantástico Jaspion”, uma androide super avançada construída pelo mentor do herói, Edin, cujo propósito era acompanha-lo auxiliando-o na luta contra Satan Goss. No entanto, ela era usada mais costumeiramente utilizada nessas cenas de alívio cômico junto com o bicho-mascote-alienígena-colega Myia. Poucos foram os episódios centrados na Anri, nenhum deles muito relevante, com exceção talvez de dois deles (o 30 e 31) onde a sua participação foi decisiva pra salvar o herói em perigo.

Já o caso de outro Metal Hero, “Guerreiro Dimensional Spielvan” é interessante. Apesar da Manchete ter chamado a série de “Jaspion 2”, ela não tinha quase nada parecido com seu colega de armadura metalizada. Pra início de conversa o herói tem ao seu lado a Lady Diana, não como mera assistente mas sim como sua companheira de combates, uma guerreira igual a ele, algo muito interessante. Além disso, temos a irmã de Spielvan que, subjugada pelo Império Water, lutava contra os heróis até ser liberta e passar a ajuda-los utilizando o codinome Lady Hellen. Ambas protagonizaram vários episódios (9 ao todo) além de terem um papel destacado em vários outros. Um detalhe interessante de se notar, no entanto, é que nenhuma delas possuía um golpe final, usado para destruir os monstros mais poderosos. Essa atribuição do golpe final, aliás, se analisada atentamente é sempre uma atribuição masculina em qualquer seriado tokusatsu.

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Lady Diana, Spielvan e Lady Helen

Outro destaque de “Spielvan” é o número de vilãs femininas, embora essas sejam menos perigosas e relevantes que as vilãs de “Jaspion”, com exceção talvez da Rainha Pandora a verdadeira líder do Império Water. Em Jaspion esse papel de liderança era ocupado por Satan Goss e seu filho MacGaren. Já as vilãs femininas desse último além de mais perigosas e melhor trabalhadas, acabaram se tornando clássicas entre os fãs. Originalmente a série tinha como vilões recorrentes os asseclas de MacGaren, um grupo de mercenários intergalácticos chamado de Quadridemos, formados por Purima, Gyoru, Iki e Zampa, sendo que desde o início as integrantes femininas (Purima e Gyoru) se destacaram em relação a seus companheiros masculinos. Tanto que, logo cedo na série, esses encontraram seu fim na ponta da “Spadium Laser” o golpe final de Jaspion, enquanto Purima e Gyoru permaneceram até quase os episódios finais.

Ainda em Jaspion temos as irmãs e bruxas galácticas Kilza e Kilmaza, personagens maldosas e sem escrúpulos, que criaram os melhores momentos de toda série tornando-se um sucesso absoluto entre os fãs. O bordão mágico usado por Kilza, “Berebekan-Katabamda Kikerá!” é lembrado até hoje! Já as vilãs de “Spielvan” não tinham nada de especial, sendo muito caricatas e pouco convincentes como elementos perigosos, apesar de Lay, Shadow e Gash, ocuparem postos similares ao de Purima e Gyoru. Nesse quesito a grande vilã da série era realmente Herbaira, a versão maligna de Lady Hellen, ainda sobre o controle do Império Water.

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McGaren e os Quadridemos com Gyoru a esquerda e Purima a direita

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Lay, Shadow e Gash ao lado da Rainha Pandora e do General Deslock

Deixando os Metal Heroes de lado por um instante, vamos dar uma olhadinha em nossos representantes dos Super Sentais ou Super Esquadrões. Numa olhada geral todos os Sentais são formados por cinco jovens, sendo três homens e duas mulheres. Existem algumas variações entre um e outro seriado, mas no caso dos “Changeman” e “Flashman” aqui analisados essa foi a regra. Embora minoria, as moças aqui são tratadas como guerreiras de igual valor e tão competentes e fortes quanto seus companheiros, tendo inclusive a oportunidade de mostrar certa superioridade em episódios quase totalmente focados nelas. Foi assim com Mai e Sayaka em “Changeman” e com Lu e Sara nos “Flashman”, onde as garotas foram o destaque e peças fundamentais sem as quais os monstros não teriam sido derrotados em alguns episódios.

Vemos aqui que as mulheres nos Sentais parecem ter sido melhor representadas do que nos Metal Heroes? Não tão rápido! Notem que eu disse: “certa superioridade” e “quase totalmente focados”.

Apesar de bem representadas nas séries, as moças tiveram pouquíssimos episódios centrados nelas. Em Changeman, que contou um total de 55 episódios, 7 desses tiveram Mai como protagonista e apenas 5 com Sayaka, sendo que pelo menos 2 desses foram protagonizados pelas duas ao mesmo tempo e um Sayaka dividiu com Tsurugi, o líder do grupo. Ou seja, bem menos da metade dos episódios teve uma das moças a frente da história. Nos “Flashman” a situação não é muito diferente, pois numa série de 50 episódios temos 5 com a Sara de protagonista, 2 para a Lu e mais dois com ambas dividindo o protagonismo. Nesse caso específico temos dois pontos a se destacar: primeiro, que muitos foram os episódios centrados no grupo como um todo, sem destacar ninguém individualmente; segundo, Sara teve um episódio a menos que os colegas homens Dan e Go (que protagonizaram 6 cada um), embora se contarmos os dois episódios divididos com a colega Lu, na prática ela protagonizou 7 episódios, ou seja, um episódio a mais que seus dois colegas.

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As representantes femininas dos Flashman e Changeman: Pink Flash e Yellow Flash e Change Mermaid e Change Phoenix

O que podemos perceber nessa salada de números? Apesar de terem algum destaque, as personagens femininas dos super sentai também eram facilmente esquecidas pelos roteiristas quanto ao protagonismo e destaque. Nas duas séries em questão os homens sempre tinham maior destaque, em especial o líder vermelho, que, não raro acabava tendo destaque mesmo nas histórias das heroínas. Um exemplo bem interessante é o episódio 19 de Changeman “A Fúria de Sayaka”, que, apesar do nome, tem no Change Dragon Tsurugi o verdadeiro protagonista da história, apenas por que os roteiristas quiseram assim.

Já no quesito vilãs, ambos eram um pouquinho menos desiguais: os Changeman apresentaram a Princesa Shima e mais para frente a perigosa Rainha Ahames, minoria num grupo que contava com três vilões masculinos, enquanto nos Flashman as vilãs são representadas por Néfer, Urk e Kirt, num grupo de 4 vilões masculinos. Apesar de carismática, Shima foi pouco explorada na série, enquanto Ahames teve um arco relativamente longo e interessante, além de ser utilizada com regularidade ao fim desse. Já nos Flashman, Néfer era a grande vilã tendo participado de inúmeros episódios de destaque, enquanto Urk e Kirt eram mais vilãs periféricas, de pouco destaque, embora aparecessem durante quase toda a série.

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As perigosas e carismáticas vilãs: Rainha Ahames e Princesa Shima nos Changemans e a mestre os disfarces Néfer em Flashman

Assim como os Metal Heroes, nos Super Sentais a participação feminina era mais marcante e, em determinados casos, melhor que a masculina somente no âmbito das vilãs. Apesar de serem guerreiras poderosas e competentes as heroínas foram em geral ignoradas e, algumas vezes, mal utilizadas ou utilizadas como alívio cômico ou ainda sendo mostradas como mais sensíveis e propensas a cederem às emoções do que seus colegas homens.

É claro não podemos esquecer que, apesar desses problemas, os tokusatsus foram, de certa maneira, bem mais representativos em termos de gênero do que outras produções equivalentes, em especial se comparados às produções norte-americanas. Para uma sociedade onde a representação feminina possui uma série de preconceitos machistas isso não pode passar despercebido. E, apesar dos aspectos negativos, a existência de tantas personagens femininas fortes, destemidas e independentes sempre foi uma bem vinda fonte de modelos e exemplos para as meninas, em geral acostumadas a verem as mocinhas serem salvas ao invés de se salvarem ou mesmo salvarem outros.

Com esse texto procurei fazer um recorte do que foi mostrado da representação feminina em quatro das séries que eu mais assisti, numa tentativa de análise de como se deu essa representação tanto do lado das heroínas como das vilãs. Obviamente num universo tão vasto quanto os dos tokusatsus é muito complicado se analisar tudo o que foi mostrado sobre o tema. Uma matéria que aborda um pouco mais extensivamente a participação feminina nos tokusatsus é essa do blog TokuFriends.

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5 BLOGS QUE SIGO E RECOMENDO

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Um amigo costuma dizer que, se você não encontrar algo na internet é porque esse algo não existe. De fato, hoje em dia, não existe virtualmente nada que não seja possível encontrarmos na grande rede. Eu mesmo encontrei na internet um literal universo de coisas que antes eu apenas sonhava um dia poder ser rico o suficiente para poder ter acesso. Coisas como ter a discografia completa do David Bowie ou poder assistir de novo aquele filme bacana que passou uma vez no InterCine e depois nunca mais outra vez. Ou ainda: poder ler todas as revistas dos X-Men (e da Mulher-Maravilha também) e aqueles gibis europeus que jamais seriam lançadas no Brasil.

Com a internet tudo isso se tornou possível graças a sua capacidade de tornar acessíveis os mais diversos e diferentes tipos de conteúdo. Já se tornou um clichê a afirmação de que nunca antes o conhecimento se tornou tão acessível quanto atualmente. Mas isso não a torna menos verdadeira. Infelizmente, o fato de toda essa informação e conteúdo estar disponível não significa necessariamente que só temos material interessante e de qualidade a disposição. Páginas, blogs, canais no Youtube e perfis em redes sociais destilando ódio, machismo, misoginia, preconceito, racismo e todo tipo de coisa similar, sob a falsa imagem da brincadeira e humor ou da hipócrita máscara da liberdade de opinião é o que não falta. E gente acessando esse tipo de lixo também não.

Pensando nisso, decidi compartilhar com vocês um pouco daquilo que costumo ler e acompanhar pela internet. São espaços onde todo esse ódio e raiva não prevalecem. Ao contrário, invés de ódio irracional e desinformação variada, procuram difundir conhecimento e informações relevantes, além de promover boas iniciativas, sempre abertas a debaterem temas importantes de maneira racional. Em suma, conteúdo edificante e instrutivo de maneira a mais acessível, simples e ampla possível.

Pretendo publicar dois ou três posts nessa linha. Hoje apresento cinco blogs os quais sempre estou lendo, visitando e onde ­– posso afirmar sem medo nenhum –, aprendo muito mais do que em anos de escola e de universidade (embora com isso eu não esteja dizendo que você deva deixar a escola de lado ou desistir de fazer uma graduação). Quem curte a página do Habeas Mentem no Facebook, vai perceber que, volta e meia, estou compartilhando material desses blogs. Aqui, além de apresenta-los brevemente, e aos seus respectivos donos e donas, explico porque gosto tanto deles.

Boa leitura!

1-Momentum Saga

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Eu não faço a mínima ideia de como conheci o Momentum Saga. Tudo o que lembro é que, assim de repente, era esse o blog que eu estava sempre acessando e lendo. Por tratar de um monte de coisas que me interessam, a exemplo de Ficção Científica, literatura, ciência, Jornada nas Estrelas e Geografia, além das resenhas de livros e filmes, não é difícil entender o motivo de gostar tanto do Saga, capitaneado pela Lady Sybylla (Geógrafa, Professora, escritora e Mestra em Paleontologia). Isso e o fato da escrita da Sybylla ser excelente, sempre muito bem embasada, além de sua coragem em encarar e se posicionar firmemente sobre temas tidos como controversos ou polêmicos. Foi no Saga onde aprendi sobre feminismo, questões de gênero e um monte de temas relevantes. De longe é um dos melhores blogs brasileiros e, com certeza, o melhor sobre Ficção Científica e aquilo que se conveniou chamar de cultura nerd. Hoje, além de leitura obrigatória, tenho o orgulho de dizer que sou amigo da Sybylla por quem tenho um carinho e admiração imensos.

2-Meteorópole

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E foi por intermédio do Momentum Saga, do qual é parceiro, que conheci o Meteorópole. Comandado pela incrível Samantha Martins (Bacharel em Meteorologia e Mestra na área de modelagem da atmosfera), fala principalmente sobre meteorologia, explicando conceitos, tirando dúvidas, mas trata também de um monte de outros temas bacanas e interessantes. Aliás, essa é uma das grandes qualidades do blog: a diversidade de temas e assuntos tratados, sempre com muita qualidade e clareza. A Sam, que também se tornou uma querida amiga, tem uma escrita super agradável aliada a uma capacidade quase infinita de transformar qualquer assunto, por mais complicado que seja, em textos extremamente simples e de fácil entendimento. E, assim como a Sybylla, não tem medo de se posicionar e também já escreveu vários textos muito pertinentes (e informativos, como não poderia deixar de ser) sobre feminismo.

3-Cabaré das Ideias

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Outro blog fantástico que conheci através do Saga. Comandado pelo sábio Mestre Ben Hazrael (Licenciado e Bacharel em História, Mestre e Doutor em Ciência Política – e também um Mestre Jedi), o Cabaré das Ideias fala de muitos dos mesmos temas do Saga e do Meteorópole com idêntica qualidade e propriedade. Mas o que me encanta mesmo aqui – não apenas por serem muito lúcidas e coerentes, mas também por tratarem de material pouco conhecido, em geral fora do mercado mainstream americano ­– são as resenhas das HQs feitas pelo Ben, uma paixão que dividimos (e assunto sobre o qual quase não falei ainda aqui no blog, mas que prometo mudar). Excelentes também são suas resenhas sobre filmes, séries e livros, invariavelmente apresentando salutares e bem vindas novidades nessas áreas. O blog andou um tempo meio parado devido a outras responsabilidades do Mestre Ben, mas aos poucos ele tá retomando o ritmo com postagens regulares. Nem preciso dizer que esse é outro blogueiro o qual tenho uma relação muito boa, além de ter o prazer de, volta e meia me bater com ele pelos corredores da Universidade onde trabalho, na qual, por feliz coincidência, ele ministra aulas na Pós-Graduação. Se você gosta de textos sobre produções inteligentes da cultura pop seu lugar é no Cabaré das Ideias.

4-Quadrinheiros

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E, já que o assunto é quadrinhos, não posso deixar esse pessoal fora da lista.  Sob o comando do Nerdbully (Bruno Andreotti, Historiador e Mestre em Ciências Sociais), Picareta Psíquico (Mauricio Zanolini, graduado em Design e pós-graduado em Pedagogia), Sidekick (Iberê Moreno, graduado em Relações Internacionais e Mestre em Comunicação Social e História), Quotista (Filipe Makoto Yamakami, Historiador e Professor) e do Velho Quadrinheiro (Adriano Marangoni, Historiador e Mestre em Ciências Sociais), além da participação de blogueiros convidados – os RedShirts – cada postagem no blog vale por um verdadeiro minicurso de história, antropologia, sociologia, design e outros. Recentemente juntaram-se ao time Goes Murdock e John Holland que escrevem principalmente sobre a linha Vertigo e a Mochi que lança um olhar sobre o mundo dos Mangás e Animes. Sob o lema Diversão e Rigor, já criaram um canal no Youtube, realizaram cursos e mais recentemente publicaram um livro, onde analisam a construção narrativa do épico Guerra Civil da Marvel, além do seu enredo, contexto editorial e histórico, seus criadores, as narrativas paralelas e as consequências para todo o Universo Marvel. Um dos mais, se não o mais completo blog sobre quadrinhos no Brasil.

5-HQRock

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Ainda falando em quadrinhos, outro blog bastante completo sobre o tema é o HQRock, que, como o próprio nome entrega também fala (e com muita propriedade) de Rock, quadrinhos, além dos filmes que tratem dessas duas temáticas, além de notícias relacionadas e resenhas. Comandado pelo enciclopédico Irapuan Peixoto (Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador), o HQRock tem como principal qualidade justamente esse caráter enciclopédico de seu autor. O Irapuan sabe muita, mas muita coisa mesmo sobre quadrinhos e rock e costuma postar dossiês riquíssimos sobre bandas, discografias, super-heróis e cronologias. Quer saber tudo sobre o Led Zeppelin? Lá tem! Quer entender a complicada cronologia dos X-Men? O Irapuan explica! Conheci o blog quando pesquisava justamente sobre a cronologia dos heróis mutantes e me encantei com um dossiê muito mais do que completo dos heróis. E logo virou minha referência, principalmente quando preciso de alguma informação ao escrever sobre o tema quadrinhos e rock aqui no blog.

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Existem muitos outros blogs que eu leio, curto bastante e acompanho. Procurei aqui citar os meus preferidos e que estão atuantes, com postagens regulares. Numa outra ocasião postarei mais alguns blogs, além de canais do Youtube que também valem uma conferida.

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94-BREAKFAST IN AMERICA

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Breakfast in America – Supertramp

Banda: Supertramp

Integrantes: Rick Davies (teclado, vocais e harmônica), John Helliwell (saxofone, vocais e instrumentos de sopro), Roger Hodgson (guitarra, teclado e vocais), Bob Siebenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo)

Gravação: 1978 no estúdio B da Village Recorder em Los Angeles

Lançamento: 29 de março de 1979

Duração: 46:06

Produção: Peter Henderson, Supertramp

Sobre o disco:

Em 1979 chegava às lojas o sexto e melhor álbum da banda inglesa, mas radicada nos EUA, Supertramp. Na capa uma simpática garçonete empunhando um copo de suco de laranja substitui a Estátua da Liberdade, tendo ao fundo uma Nova York de caixas de cereais, xícaras, pratos e talheres, evocando o título do álbum: Breakfast in America. Deixando o Rock Progressivo dos primeiros álbuns de lado e abraçando uma sonoridade mais pop, o álbum fez sucesso imediato, alcançando o topo da Billboard e vendendo 9 milhões de cópias apenas nos EUA.

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Kate Murtagh, atriz que encarna a simpática garçonete da capa de Breakfast in America

Formado inicialmente por Rick Davies, em parceria com Roger Hodgson e contando com o apoio (leia-se o dinheiro) de um milionário holandês, o grupo fracassou em seus dois primeiros lançamentos. Com isso o homem do dinheiro pulou fora e a banda se dissolveu, sendo retomado pela dupla Davies/Hdgson em 1973, quando foram integrados John A. Helliwell nos sopros, Dougie Thompson no baixo e Bob Sienbenberg na bateria.

Em 1975 lançam Crime Of The Century conseguindo um relativo sucesso no Reino Unido, especialmente com o single “Dreamer”. Por essa época todo o grupo se muda para os EUA, visando o milionário mercado fonográfico americano. Embora tenham lançado dois álbuns regulares que renderam um certo sucesso, o estouro só ocorreu mesmo com o lançamento de Breakfast in America.

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Dougie Thomson, Bob Sienbenberg, John Helliwell, Roger Hodgson and Rick Davies

Conciliando com qualidade a sofisticação instrumental característica do grupo às melodias contagiantes, o disco foge um pouco do estilo progressivo, tornando-se mais pop, mas sem se render as soluções fáceis. Isso, aliado às letras inteligente e levemente irônicas das canções (que combinam perfeitamente com os vocais mais graves de Davies e os agudos de Hogdson), ajudam a explicar o grande sucesso que o disco atingiu naquele ano de 1979, emplacando logo de cara 4 hits entre os mais tocados nas rádios: “Goodbye Stranger”, “Breakfast in America”, “Take The Long Way Home” e “The Logical Song”.

Apesar de todo o sucesso alcançado, a gravação do álbum não foi livre de problemas. Apesar de serem, por assim dizer, os membros fundadores, vocalistas e responsáveis pelas letras, Rick Davies e Roger Hodgson não eram muito de se entender. Foram várias as discussões entre os dois durante as gravações e pós-produção. Avesso às grandes produções e adepto de um estilo de vida mais simples, Hogdson procurava imprimir essas características nas suas canções, o exato oposto de Davies que preferia arranjos mais trabalhados e complexos. Afirma-se que as canções “Child of Vision” e “Casual Conversations” foram escritas por Hogdson e Davies, respectivamente, onde ambos expõem essas diferenças, o que faz algum sentido quando analisamos a letras de perto.

Depois de entendimentos e novos desentendimentos, Roger Hogdson finalmente deixaria a banda em 1983, após o lançamento de mais um disco e de uma mega turnê internacional. O Supertramp continuou assim mesmo. Lançaram mais cinco álbuns, nenhum alcançando nem sombra do sucesso de Breakfast in America. Nos shows evitavam cantar os sucessos de autoria de Hogdson, numa tentativa de afirmação da identidade da banda a parte do ex-integrante.

Breakfast in America é um excelente disco com uma mistura excelente entre o pop e o progressivo. É um dos discos que mais gosto de ouvir dessa lista, não só pelos melodiosos arranjos, mas principalmente pela sutil ironia em suas letras. Sua posição na lista é mais do que adequada.

Para finalizar uma curiosidade: os integrantes do Supertramp sempre foram, de modo geral, pouco interessados na fama, evitando dar entrevistas ou colocar seus rostos nas capas dos discos. Nos vários shows da banda, era muito comum passearem pelo público sem serem reconhecidos ou notados. Certa vez, enquanto passeavam perto do palco uma hora antes do início do show, um rapaz perguntou se aqueles caras eram tão bons ao vivo como eram no estúdio. Reconhecidamente o mais brincalhão do grupo, John Helliwell respondeu: “Sei lá! Na verdade nem gosto muito deles!”

Abaixo vocês podem conferir um clip aparentemente caseiro de um dos grandes sucessos da banda: “The Logical Song”.

Para conferir os outros textos é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

A COLONIZAÇÃO DE SERGIPE DEL REY

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Mapa da Praefectura de Cirîjîvel Seregipe del Rey cum Itâpuáma representando a Capitania de Sergipe Del Rey, de Georg Marcgraf entre 1638-1643. Imagem retirada do livro A História de Sergipe Através da Cartografia

Dando continuidade ao post sobre a história Colonial de Sergipe, iniciada com o texto A Conquista de Sergipe Del Rey, chegou a vez de contar como se deu os primeiros anos da colonização sergipana, a procura por minas de metais e pedras preciosas e a invasão holandesa.

Essa postagem estava planejada para o dia 24 de Outubro, quando se comemora a Sergipanidade em nosso Estado. No entanto, devido a uma série de compromissos de trabalhos e outros só consegui terminar a elaboração do texto essa semana. Como o texto acabou ficando um pouco maior que o previsto, optei por deixar a parte sobre a anexação à Bahia e o período até 1763 para o próximo e último texto e não nesse como programado.

A Conquista de Sergipe foi obtida ao fim de uma guerra, que praticamente dizimou os habitantes autóctones, e da posterior perseguição dos sobreviventes que fugiram para o interior. O conquistador Cristóvão de Barros deu então início ao processo de colonização do território sergipano com a fundação da cidade-forte de São Cristóvão e com a distribuição de sesmarias e cativos aos soldados que participaram da guerra de conquista. Após oito meses de lutas para consolidar a conquista, retornou a Bahia, mas não sem antes criar uma força policial e construir um presídio, deixando Tomé da Rocha como Capitão-Mor e responsável pela administração, ficando este no cargo de 1591 à 1594.

São Cristóvão foi inicialmente construída em área próxima a foz do Rio Sergipe na data provável de 1º de janeiro de 1590. Entre 1595 e 1596 a cidade sofreria uma mudança de localidade com o objetivo de evitar o ataque dos piratas franceses. Esses piratas conheciam bem a região devido ao tempo que passaram comercializando com os indígenas e eram uma constante ameaça à cidade. Em 1607 ocorreu nova mudança para a localidade onde a cidade encontra-se atualmente, quatro léguas distantes da enseada do Vaza-Barris, na confluência do rio Paramopama.

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Praça São Francisco no Centro Histórico da atual cidade de São Cristóvão. Fundada em 1607, foi designada Patrimônio da Humanidade em 1º de agosto de 2010 pela UNESCO pelo seu valor como documento histórico, paisagístico, urbanístico e sociocultural do período da União Ibérica. Foto de Adilson Andrade

As primeiras sesmarias doadas nos inícios da colonização eram voltadas principalmente para as atividades pastoris. Por muito tempo essa foi a principal atividade econômica da capitania, o que levou o historiador Felisbelo Freire a escrever: “O sergipano antes de ser agricultor foi pastor”. A produção canavieira só iniciaria por volta de 1602 nas férteis terras do vale do Cotinguiba. Ambas as atividades, pecuária e agricultura, visavam principalmente abastecer a capitania da Bahia. Paralelo a essas atividades econômicas, nos grandes latifúndios desenvolvia-se a lavoura de mantimentos, através das plantações de mandioca, milho, arroz, feijão, legumes, além da criação de aves em geral nas pequenas roças dos colonos que chegavam trazendo suas famílias. Esses eram bem diferentes dos grandes donos de terra, veteranos da conquista que, nas palavras de Luis Mott “deixavam na Bahia suas mulheres, algumas delas felizes por se verem livres das pancadas e da má vida que lhe davam seus senhores”.

Tanto a conquista de Sergipe como sua colonização ocorreram por ocasião da União Ibérica, no contexto da Dinastia Filipina em Portugal. Nesse período, estimulado pela descoberta das vultosas minas de prata e ouro nas colônias espanholas na América, a procura da existência de minas similares na América portuguesa fez florescer todo tipo de lenda a respeito de montanhas de ouro ou eldorados. Em Sergipe a mais famosa dessas lendas surgiu com a curiosa história sobre as Minas de Prata da Serra de Itabaiana, supostamente descobertas por Belchior Dias Moréia.

Veterano da guerra de conquista de Sergipe, Belchior era neto por parte de mãe de Diogo Alvares Correia, o Caramuru e pelo lado paterno de Garcia Dias D’Ávila, considerado o primeiro latifundiário brasileiro tendo possuído inúmeras terras nos estados da Bahia e de Sergipe. Após ter servido como um dos capitães de Cristóvão de Barros, Belchior recebeu lotes de terra junto a serra do Canini, entre os rios Real e Jabiberi, mais ou menos onde hoje se localiza a cidade de Tobias Barreto.

Influenciado pelo primo Gabriel Soares de Souza morto em 1592 quando participava de uma entrada a procura de ouro e pedras preciosas nos sertões baianos, Belchior saiu em 1594 na sua própria expedição. Após oito anos de andanças pelos sertões de Bahia e Sergipe, quando todos já o julgavam morto, retornou à sua fazenda afirmando ter descoberto ricas minas de prata. Em 1605 viajou para Espanha onde planejava encontrar patrocínio para a exploração das minas, retornando quatro anos depois com a promessa real “torna-lo fidalgo e lhe dar a administração das minas” conforme relata Maria Thétis Nunes no livro Sergipe Colonial I.

Apesar do apoio real, Belchior encontrou dificuldades impostas pelo então superintendente de todas as minas do Brasil, Dom Francisco de Souza. Mas, com a morte de Dom Francisco em 1611 e o constante fracasso nas buscas das riquezas minerais, a corte espanhola lembrou-se das promessas de Belchior de que as minas por ele descobertas seriam capazes de calçar as ruas de Madri com prata.  O então Governador-Geral do Brasil, Dom Luís de Souza, recebeu carta do rei de Espanha instando que se contatasse Belchior Dias Moreia. Na carta era garantida ao sertanista o foro de fidalguia, a administração das minas e terras que pretendesse, contanto que informasse a localização das minas e passasse a explorá-la o quanto antes.

Assim, em fins de 1617, o Capitão-Mor de Sergipe João Mendes acompanhado de Cristóvão da Rocha, pessoa de destaque em Sergipe e o Ouvidor Gaspar de Oliveira, em nome do Governador-Geral do Brasil chegam à fazenda Jabibiry, para acertarem os detalhes da expedição que levaria às minas. Belchior recebe a comitiva, mas, desconfiado, diz que só revelará a localização das minas com a confirmação das vantagens ofertadas pelo rei e não depois.  A confirmação real só viria em 1619. Alegando serem tais concessões muito pouco em razão da imensidão de riquezas a ser gerada, Belchior exigiu mais concessões, dentre elas a hereditariedade do foro de fidalguia e da administração das minas, além de mais trinta léguas de terras igualmente hereditárias, onde teria poder total sem necessidade de prestar contas aos governadores-gerais, aos tribunais e juízes, além dos direitos de instituir hábitos de cavaleiros de Cristo e apresentar párocos às freguesias dos seus distritos. Tudo lhe foi concedido e depois de grandes preparativos a comitiva composta do próprio Governador Dom Luís de Souza e do Desembargador Francisco Fonseca Leitão, contando ainda com o capitães-mores do Espírito Santo, Gaspar Allures de Siqueira e de Sergipe, João Mendes e de um mineiro castelhano trazido do Peru especialmente para essa entrada, Fernão Gil, partiu em meados de 1619, sob o comando de Belchior que os levou até a Serra de Itabaiana.

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Vista parcial da Serra de Itabaiana, onde, ainda hoje, muitos acreditam ser o local das Minas de Prata de Belchior Dias

O técnico castelhano submeteu vários exemplares de rocha a testes sem encontrar nenhum traço de qualquer tipo de metal precioso. Segundo relato do próprio Governador em carta ao Rei Felipe II, Belchior ainda tentou oferecer a localização de nova mina de grande rendimento próximo ao rio Real. Mas entendendo que ele estava confuso e variava, Dom Luís de Souza ordenou o retorno da expedição para São Cristóvão onde os exemplares de rocha foram submetidos a novos exames, confirmando a inexistência dos metais preciosos. Belchior foi então preso e conduzido para Salvador onde permaneceria encarcerado até que as despesas com a expedição fossem repostas à Fazenda Real. Para liberta-lo, sua família pagou a indenização, permitindo que retornasse para sua fazenda onde, octogenário, morreria em 1622.

A história das minas de prata da Serra de Itabaiana, no entanto, não terminaria aí. Segundo Maria Thétis Nunes, embasada em documentação de Vasco Fernandes César de Menezes, Governador da Bahia em 1726, Belchior teria encontrado na realidade minas de ouro no interior da Bahia. Porém, sempre desconfiado das promessas das autoridades metropolitanas, levou a comitiva para a Serra de Itabaiana onde pretendia submete-los a prova. Com a confirmação de suas suspeitas optou por não revelar a verdadeira localização das minas. Esse pensamento levaria muitos outros sertanistas à procura das Minas de Prata de Belchior Dias Moréia, não apenas na Serra de Itabaiana, mas por todo o sertão sergipano e de partes da Bahia, criando todo tipo de lenda sobre riquezas incalculáveis, que, por sua vez, levou a inúmeras expedições organizadas nos anos e séculos a frente com o intuito de descobrir o local exato das minas. Graças a essas expedições grande parte do interior do estado sergipano foi explorado, auxiliando no melhor conhecimento de seu território, na criação de novas rotas e novos pastos para o gado e de novos núcleos de povoamento.

Ainda durante o período da União Ibérica (na realidade, mas especificamente por causa dela) outro fato importante ocorreu na história da pequena capitania: A invasão dos holandeses ao Nordeste colonial. A Holanda integrava o Império Castelhano até 1579, quando consegue a independência depois de um período de lutas intensas. Como retaliação, Felipe II proibiu a entrada de navios holandeses em portos ibéricos, o que, na época, incluía todas as colônias portuguesas e espanholas, ou seja, praticamente metade do mundo conhecido até então. Essa medida impactou diretamente o rico comércio que os holandeses tinham com os portugueses e suas colônias.

Por contramedida, a Holanda cria as Companhias de Comércio, cujo objetivo era assegurar os negócios holandeses no mundo. Com o sucesso da Companhia das Índias Orientais no extremo Oriente, foi criada em 1621 a sua equivalente, a Companhia das Índias Ocidentais, com o intuito de atacar as principais áreas de importância colonial espanhola no Novo Mundo, em especial as portuguesas, assegurando o monopólio holandês sobre a lucrativa produção açucareira do Nordeste brasileiro. Os holandeses calculavam serem essas colônias o ponto fraco do império espanhol e por isso foi escolhido como alvo inicial.

Uma primeira tentativa de invasão a Salvador se deu em 1624, mas depois de um ano os holandeses foram expulsos por uma frota luso-espanhola sob o comando de Dom Fradique Toledo Osório. Cinco anos mais tarde nova tentativa é feita, tendo como alvo a próspera Capitania de Pernambuco. Com um melhor conhecimento do litoral nordestino e com uma frota bem preparada, conquistam a capitania após vencer a frágil resistência local e vão alargando a área conquistada. Ao norte chegam até o Maranhão e ao Sul chegam até o rio Real, na divisa entre Sergipe e Bahia.

Desde o início da ocupação holandesa a ocupação de Sergipe era imprescindível, pois era, conforme relata o holandês Gaspar Barléu: “Situada entre a capitania da Bahia e a terra do domínio holandês era vantajosa para a defesa de nossas fronteiras, abundava de gado e dava mais de uma esperança de minas”. A pequena capitania tornava-se estratégica para as pretensões holandesas de conquista da capital baiana, assegurando assim sua posição no Nordeste do Brasil colônia.

Foi no início do governo de Maurício de Nassau em 1637 que começou a se dar a tomada do território sergipano. Após a Batalha de Mata Redonda, Maurício de Nassau perseguiu as tropas vencidas até as margens do Rio São Francisco fundando o Forte Maurício onde mais tarde seria a cidade alagoana de Penedo. Doente, Nassau não pode continuar na luta, retornando a Recife ordenou que Segismundo Van Schoppke, no comando de 3.000 homens invadisse o território sergipano. O comandante das tropas vencidas por Nassau em Mata Redonda, Conde de Bagnuolo, aquartelado em São Cristóvão, percebendo que a resistência era inútil fugiu para Salvador ordenando que, tudo o que pudesse servir para o inimigo fosse destruído. Quando os exércitos invasores finalmente chegaram encontraram uma capitania devastada. Das 13 mil cabeças de gado existentes 8 mil foram levadas na fuga sendo sacrificadas as restantes, os canaviais foram incendiados, casas e engenhos destruídos.

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Cidade de Penedo em Alagoas nas margens do rio São Francisco na divisa com Sergipe

Apesar da devastação encontrada, era intenção de Maurício de Nassau reestruturar Sergipe fazendo-a retornar a prosperidade anterior. Entendia Nassau que, devido à sua posição estratégica, a existência de uma população sob a autoridade holandesa em Sergipe traria maior segurança diante da possibilidade de um ataque luso-espanhol, seus pastos servindo para o abastecimento de carne e montarias para as tropas. No entanto a Companhia das Índias Ocidentais considerou o projeto muito dispendioso e contrário à política econômica que vinha orientando as conquistas holandesas. Essa política era pautada numa colonização essencialmente urbana, enquanto a colonização portuguesa efetuada em Sergipe era essencialmente rural, praticamente sem vida urbana e com seus poucos engenhos (eram quatro antes da invasão, todos de pouca importância) e canaviais destruídos não apresentavam as vantagens das demais capitanias sergipanas. Nassau insistiu em seu projeto, mas no fim a Companhia ordenou a construção de alguns fortes estratégicos nas margens dos rios Vaza-Barris e Real garantindo a segurança das fronteiras e a retirada das tropas, não sem antes finalizar a destruição iniciada por Bagnuolo durante sua fuga.

O pouco que sobrou de São Cristóvão foi totalmente destruído. No caminho de volta ao Forte nas margens do São Francisco o exército holandês destruiu “a pequena riqueza que uma colonização de 47 anos havia acumulado”, conforme narrado por Felisbelo Freire no livro “História de Sergipe”. O resultado foi o completo abandono político de Sergipe no período que perdurou a dominação espanhola no Brasil. Na capitania poucos e pobres agricultores e criadores que não conseguiram acompanhar a fuga de Bagnuolo, escapando da sanha destruidora das tropas holandesas, persistiam esquecido por ambas às nações.

No inicio de 1640 a coroa luso-espanhola insta o governo colonial brasileiro a retomar os territórios perdidos. Várias batalhas ocorrem no território sergipano e em abril desse mesmo ano é tomado o Forte Maurício. Ainda em 1640 a dominação espanhola sobre Portugal tem fim com a ascensão ao trono luso de Dom João IV, que contou com o apoio da burguesia urbana mercantil das cidades portuárias e de cristãos-novos. Uma vez que, um dos motivos da dominação espanhola no Nordeste brasileiro era atingir a Espanha, iniciam-se as conversações de paz entre Portugal e Holanda. Em 1641 é assinado um armistício entre as duas nações onde Portugal tentava assegurar a posse de Sergipe alegando ser a capitania a fonte de gado e mantimentos que sustentavam a Bahia e o fato de nunca ter sido efetivamente ocupada pelos holandeses.

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Gravura da época mostrando um arcabuzeiro do exército holandês. Gravura de Jacob de Gheyn II

O armistício jamais foi respeitado no Brasil. Sergipe continuou sendo palco de inúmeras batalhas, guerrilhas e emboscadas, com tropas do lado português comandadas por Henrique Dias, André Vidal de Negreiros e João Lopes Barbalho. Em 1645 essas tropas já dominavam grande parte do território sergipano e preparavam-se para avançar sobre Alagoas. Junto a essas ações os senhores de engenho do Nordeste ocupado, endividados com os mercadores holandeses e sem condição de saldar as dívidas, organizavam uma revolta com o apoio do Governador-Geral Antônio Teles da Silva.

Em 1646 é enviada uma expedição contra o Forte Maurício reconquistando-o e depois partindo para o ataque da povoação de Urubu (atual cidade de Propriá) onde são derrotados numa emboscada armada pelo Capitão Francisco Rabelo, com o apoio de Pedro Gomes à frente dos índios Urumarus. A situação para os holandeses ficou insustentável e acabaram forçados a se retirarem da região do São Francisco. Terminava assim o tempo dos Flamengos em terras sergipanas.

O período de oito anos de ocupação holandesa em Sergipe foi pouco proveitosa para a capitania. O tímido progresso registrado desde a conquista de Cristóvão de Barros foi interrompido abruptamente: a criação de gado, até então principal atividade econômica foi praticamente interrompida, a iniciante indústria açucareira destruída e a embrionária vida urbana sofreu um atraso significativo com a destruição da capital São Cristóvão e dos pequenos núcleos de povoamento. No entanto, instigados pelas histórias deixadas pela procura das Minas de Prata de Belchior Dias Moréia, os holandeses realizaram várias expedições que exploraram as Serras de Itabaiana e Miaba, chegando até as terras onde hoje se encontra a cidade de Simão Dias e provavelmente até as cachoeiras de Paulo Afonso. Mesmo não encontrando as míticas minas, essas expedições aumentaram enormemente o conhecimento dos sertões sergipanos.

Por anos acreditou-se que a ocupação holandesa tinha deixado marcas na população sergipana através da existência de um maior número de pessoas loiras e de olhos claros especialmente na região do vale do São Francisco. Atualmente essa marca é questionada por historiadores, que acreditam serem esses loiros descendentes de portugueses originários da região da Galícia, ao norte de Portugal, cujos habitantes possuem esses mesmos traços físicos. Viria inclusive daí a origem do termo “galego”, muito comum em Sergipe e em alguns outros estados do nordeste para se referir a pessoas loiras.

Além desses fatos não houve em Sergipe nenhum impacto permanente ou significativo da permanência holandesa como ocorreu em outras áreas nordestinas, especialmente Pernambuco.

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Bandeira usada por Maurício de Nassau durante a ocupação holandesa do Nordeste Brasileiro

Fontes utilizadas nesse texto (e para se aprender mais):

“História de Sergipe” de Felisbelo Freire;

“História dos Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil e Noutras Partes sob o Governo do Ilustríssimo João Maurício Conde de Nassau” de Gaspar Barléus, Edição do Ministério da Cultura;

“Sergipe Colonial I” de Maria Thétis Nunes;

“Repertório de Documentos para a História Indígena” Organizado por Diana Maria de Foro Leal;

“Textos para a História de Sergipe”, de Diana Maria de Faro Leal Diniz (Organizadora).

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10 FILMES QUE AMO COM CRIANÇAS OU ADOLESCENTES

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Dia das Crianças chegou e a internet, em especial nos domínios do titio Mark Zuckerberg, está lotada de imagens de crianças fofinhas e de lembranças saudosas da infância. Para lembrar a data me peguei fazendo uma lista de filmes marcantes cujas histórias tivessem crianças ou adolescentes como protagonistas. Para refinar um pouco procurei dentre os mais de vinte títulos lembrados, selecionar dez que não fossem figurinhas carimbadas nesse tipo de lista. Assim, filmes como Conta Comigo e Os Goonies ficaram de fora, apesar de amá-los muito. Outro critério usado foi deixar apenas filmes que tenham me marcado de alguma maneira na primeira vez em que os assisti, pois penso que isso ajuda a refletir sobre o tipo de adolescente que eu era, uma vez que todos eles são filmes que assisti entre meus 12 e 18 anos.

O resultado final acabou sendo uma maravilhosa e eclética compilação de filmes que, de uma maneira ou de outra me marcaram profundamente. Tem de tudo um pouco: desde os já famosos clássicos da Sessão da Tarde, a filmes quase totalmente desconhecidos, além de filmes cult premiados e animações desprezadas quando do lançamento.

Importante frisar que essa lista não é dos melhores filmes com crianças já produzidos, mas sim uma lista dos filmes com crianças e/ou adolescentes que me marcaram de algum modo e ainda hoje fazem parte da minha vida. Alguns são filmes consagrados, outros nem tanto. Procurei ordena-los por ordem de preferência e gosto puramente pessoal e totalmente emocional, apresentado para cada um o seu trailer original, alguns dados técnicos, uma breve sinopse e o porquê me marcarem tanto. Boa leitura.

10-Ponte Para Terabítia

Data de lançamento e duração: 16 de março de 2007 (1h 34min)

Direção: Gabor Csupo

Elenco: Josh Hutcherson, Anna Sophia Robb, Zooey Deschanel

Gêneros: Fantasia, Aventura

Título Original: Bridge to Terabithia

Nacionalidade: EUA

Sinopse: Jess Aarons (Josh Hutcherson) durante todo o verão treinou para ser o garoto mais rápido da escola, mas seus planos são ameaçados por Leslie Burke (Anna Sophia Robb), que o vence numa corrida que deveria ser apenas para garotos. Logo Jess e Leslie tornam-se grandes amigos e, juntos, criam o reino secreto de Terabítia, um lugar mágico onde lutam contra Dark Master (Matt Gibbons) e suas criaturas, além de conspirar contra as brincadeiras de mau gosto que são feitas na escola.

Assisti esse filme numa particularmente tediosa tarde de sábado. Confesso não ter me empolgado logo de início com ele, mas tudo mudou com seu final. Adoro finais tristes e, apesar de ter achado o filme todo meio clichezão, seu final me pegou de jeito. Dos filmes dessa lista é dos poucos que não assisti na adolescência. Apesar dos critérios relatados acima decidi deixar ele aqui apenas para mostrar o quanto esse filme me marcou.

9-Meu Primeiro Amor

Data de lançamento e duração: 27 de Novembro de 1991 (1h 45min)

Direção: Howard Zieff

Elenco: Anna Chlumsky, Macaulay Culkin, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtis

Gêneros: Romance, Drama

Título original: My Girl

Nacionalidade: EUA

Sinopse: Vada Sultenfuss (Anna Chlumsky), é obcecada com a morte, pois sua mãe morreu e seu pai, Harry Sultenfuss (Dan Aykroyd), é um agente funerário que não lhe dá a devida atenção. Vada é apaixonada por Jake Bixler (Griffin Dunne), seu professor de inglês, e no verão faz parte de uma classe de poesia só para impressioná-lo. Paralelamente é muito amiga de Thomas J. Sennett (Macaulay Culkin), um garoto que é alérgico a tudo. Quando Harry contrata Shelly DeVoto (Jamie Lee Curtis), uma maquiadora para os funerais, e se apaixona por ela, Vada se sente ultrajada e quer fazer qualquer coisa que estiver em seu poder para separá-los.

Quando o assisti na sua estreia na TV aberta, Macauly Culkin estava no auge da carreira por conta de Esqueceram de Mim. Por isso mesmo esperava um filme de comédia, mas com doses de romance. Felizmente ele não era nada disso e assim fui apresentado a um dos filmes mais lindamente doloridos que já assisti. Seu final não foi nada do que eu esperava e, de verdade, foi aqui que iniciou minha predileção por histórias com finais tristes.

8-Viagem Ao Mundo dos Sonhos

Data de lançamento e duração: 5 de junho de 1986 (1h 49min)

Direção: Joe Dante

Elenco: Robert Picardo, James Cromwell, Dana Ivey

Gêneros: Fantasia, Aventura

Título original: Explorers

Nacionalidade: EUA

Sinopse: Tudo com o que Ben Crandall (Ethan Hawke) sempre sonhou torna-se real quando, com a ajuda de seus amigos Wolfgang Müller (River Phoenix) e Darren Woods (Jason Presson), ele se lança na descoberta de uma nave espacial em seu laboratório. Os três jovens garotos veem então cada vez mais próxima a oportunidade de fazer a viagem interplanetária que sempre desejaram.

Clássico da Sessão da Tarde, esse filme era tudo o que sempre sonhei na minha infância. A possibilidade de construir uma nave espacial no quintal de casa e viajar pelos cosmos! Lembro de até ter escrito uma redação no colégio com tema praticamente idêntico, isso muito antes de tê-lo assistido. Um filme com um dedinho na ficção, mas onde a fantasia reina solta deixando nossa imaginação voar livre.

7-A Volta de Roxy Carmichael

Data de lançamento e duração: 1990 (89min)

Direção: Jim Abrahams

Elenco: Winona Ryder, Jeff Daniels, Carla Gugino

Gênero: Comédia dramática

Título original: Welcome Home, Roxy Carmichael

Nacionalidade: EUA

Sinopse: Após 15 anos em uma pequena cidade de Ohio, Roxy Carmichael (Ava Fabian), uma celebridade, vai retornar à sua cidade natal. Tal acontecimento provoca uma certa excitação em grande parte dos habitantes, incluindo Denton Webb (Jeff Daniels), seu ex-marido. Mas é Dinky Bossetti (Winona Ryder), uma adolescente que foi adotada e que é ignorada pela maioria dos seus colegas, que é a mais afetada por tal fato, pois ela acredita ser a filha secreta de Roxy.

Existe apenas um único motivo para eu ter assistido esse filme: Winona Ryder. Por ter assistido filmes como Os Fantasmas Se Divertem e Edward Mãos de Tesoura eu era completamente apaixonado pela futura mãe do pequeno Will Byers. Ou seja, foi ver seu nome na chamada e já preparei o cantinho no sofá para assistir a instigante história da cidadezinha que vira de cabeça pra baixo com a notícia do retorno da filha ilustre. O filme é tão interessante que, por muito pouco esqueço de Winona e da própria Roxy Carmichael. Felizmente também aqui minha queridinha Garota Interrompida nos entrega um bom trabalho na pele da deslocada e estranha Dinky Bossetti, que acreditava ser a filha abandonada da tal Roxy. Personagem com a qual me identifiquei totalmente diga-se de passagem.

6-O Jardim Secreto

Data de lançamento e duração: 1993 (1h 42min)

Direção: Agnieszka Holland

Elenco: Irène Jacob, Kate Maberly, Maggie Smith

Gêneros: Drama, Família, Fantasia

Título original: The Secret Garden

Nacionalidade: EUA

Sinopse: No início do século XX, Mary Lennox (Kate Maberly) vivia na Índia com seus pais, mas, após a morte deles é obrigada a viver em Liverpool, na Inglaterra, com seu tio Lorde Archibald Craven (John Lynch), na antiga e cheia de segredos mansão Misselthwaite administrada pela rigorosa e fria governanta Sra. Medlock (Maggie Smith). Lorde Craven perdeu a mulher há dez anos e nunca mais conseguiu superar a tragédia e Colin Craven (Heydon Prowse), seu filho, também sobre de extrema apatia, sempre recolhido no seu quarto. Mas, uma vez negligenciada, Mary passa a explorar a propriedade e descobre um jardim abandonado. Entusiasmada decide restaurar o lugar com a ajuda do filho de um dos serviçais da casa, conquistando assim a atenção do primo doente. Juntos eles desafiam as regras da casa e o velho jardim se transforma em um lugar mágico, cheio de flores, surpresas e alegria.

No início de minha adolescência, lá pelos distantes idos de 1994, passei a sofrer de constantes crises de insônia. Por mais que tentasse o sono só vinha lá pelas quatro ou cinco da manhã. Depois de um período de vãs tentativas rolando na cama sem o sono chegar, desisti e me acostumei a passar esses períodos assistindo as sessões de cinema da madrugada. Para minha sorte acabei encontrando um número incrível de produções cinematográficas maravilhosas que me marcaram profundamente, dos quais todos a seguir (com exceção do número 2) fazem parte, além de muitos outros. Esse O Jardim Secreto foi o primeiro deles. Não sei bem porque ele me marcou tanto na época, mas o fato é que mesmo hoje a história me encanta por sua simplicidade e inocência. Talvez seja saturação de tantas explosões, CGI e 3D que tomou conta das produções mainstream atuais. Reencontrar uma história tão singela é quase como um alívio. Outra coisa que adoro nesse filme é que encontro ecos dele em muitas outras obras diversas sendo a mais marcante de todas a primeira parte do quadrinho Origens, onde conhecemos a infância e juventude do Wolverine. A história aqui é praticamente a mesma, com direito a jardim e tudo.

5-O Profissional

Data de lançamento e duração: 17 de fevereiro de 1995 (1h 43min)

Direção: Luc Besson

Elenco: Jean Reno, Gary Oldman, Natalie Portman

Gêneros: Policial, Drama, Suspense, Ação

Título original: Léon

Nacionalidade: França

Sinopse: Em Nova York o assassino profissional Leon (Jean Reno) passa a cuidar e proteger a jovem Mathilda (Natalie Portman), uma menina de 12 anos que é a única sobrevivente de sua família morta por policiais envolvidos com o tráfico de drogas e deseja se tornar uma assassina, para poder vingar a morte do seu irmão de 4 anos. Enquanto ela cuida da casa e ensina o pistoleiro a ler e a escrever, ele lhe ensina o básico de como manejar uma arma.

Esse filme foi uma porrada na minha adolescência. Primeiro por ter um estilo bem diferente das produções norte-americanas. Segundo por apresentar um herói que é bandido e um bandido que é policial, numa certeira mostra dos variados tons de cinza existentes na suposta dicotomia entre bem e mal. Terceiro pelo talento do trio principal de atores, com um destaque para a sobrenatural e soberba atuação de Gary Oldman. E para variar mais um final triste para a lista!

4-Bem-Vindo à Casa de Bonecas

Data de lançamento: 22 de março de 1996 (1h 27min)

Direção: Todd Solondz

Elenco: Heather Matarazzo, Matthew Faber, Bill Buell

Gênero: Comédia dramática

Título original: Welcome to the Dollhouse

Nacionalidade: Eua

Sinopse: Dawn Weiner (Heather Matarazzo) não tem motivos para gostar da escola, na qual estuda na sétima série. Ela é uma adolescente complexada e há motivos para isto. No seu colégio é ridicularizada pelos colegas, que a chamam de “Salsicha”, e seu relacionamento com sua família não é dos melhores. Ela deseja ser aceita de qualquer jeito e para isto planeja namorar um rapaz mais velho, que é muito popular, apesar disto ser totalmente improvável.

E por falar em porrada, Bem-Vindo à Casa de Bonecas é uma verdadeira surra. Um filme dolorido, cruel até, mas extremamente necessário de se assistir. Uma pequena obra-prima mais do que nunca necessária para se discutir a maneira como lidamos e tratamos nossas crianças e jovens hoje em dia, seja na realidade norte-americana, seja na nossa realidade brasileira, que, quer gostemos ou não, cada vez mais emula aquele comportamento.

3-A Guerra dos Botões

Data de lançamento: Desconhecida (1h e 34 min)

Direção: John Roberts

Elenco: Brendan McNamara, Colm Meaney, Darag Naughton, Gerard Kearney, Gregg Fitzgerald, John Coffey, Paul Batt

Gênero: Comédia

Título original: The War of Buttons

Nacionalidade: Reino Unido, França, Japão

Sinopse: Gangues rivais de crianças irlandesas em Ballydowse e Carrickdowse participam constantemente de batalhas onde são cortados os botões, os cordões dos sapatos e a roupa interior dos adversários capturados. Enquanto os enfrentamentos causam, obviamente, problemas na comunidade, os dois líderes desenvolvem uma involuntária admiração um pelo outro, e criam uma estranha amizade.

Esse é fácil, fácil um dos meus filmes preferidos. Impossível não se cativar com a história dos grupos de crianças de vilarejos rivais que passam a se digladiar em divertidos e inusitados combates numa guerra que, como diz a frase no cartaz, ao contrário da maioria que dura anos, essa precisa terminar antes do jantar. Aliás, mas que se cativar, impossível não se identificar com a história, já que poucos foram os grupos de crianças que não rivalizaram com o grupo diferente que vivia na rua ou bairro vizinhos ou mesmo numa escola diferente. Uma pena que o filme seja tão difícil de encontrar atualmente, seja física, seja digitalmente.

2-O Gigante de Ferro

Data de lançamento: 1999 (1h 25min)

Direção: Brad Bird

Elenco: Jennifer Aniston, Harry Connick Jr, Vin Diesel

Gêneros: Animação, Ação, Aventura, Ficção científica

Título original: The Iron Giant

Nacionalidade: EUA

Sinopse: Em plenos anos 50, vive no Maine o jovem Hogarth. Quando ele repentinamente encontra um gigantesco robô de origem desconhecida, logo um forte laço de amizade se forma entre os dois. Porém, assim que a existência do robô é revelada, um agente do governo parte em seu encalço, no intuito de destruí-lo.

Antes de fazer sucesso com Os Incríveis e Ratatouille, Brad Bird me encantou com essa linda e comovente história recheada de referências a quadrinhos. Uma história simples naquele espírito digno das mais brilhantes histórias infantis: nem sofisticada demais para as crianças e nem simplória demais para os adultos. Ao lado de Bem-Vindo à Casa de Bonecas é o filme mais recomendado dessa lista.

1-Aquela Noite

Data de lançamento: 1992 (1h e 29min)

Direção: Craig Bolotin

Elenco: C. Thomas Howell, Eliza Dushku, Helen Shaver, Juliette Lewis, Katherine Heigl

Gêneros: Romance

Título original: That Night

Nacionalidade: Eua

Sinopse: Na década de 60, Alice (Eliza Dushku) admira sua vizinha adolescente, Sheryl (Juliette Lewis), que muda de namorado toda semana. A menina chega a usar o mesmo perfume e compra os mesmos discos que a vizinha. Quando Sheryl começa a sair com Rick (C. Thomas Howell), todos desaprovam o romance, exceto Alice que, ao se juntar ao casal, vive uma noite inesquecível.

Me preparando para mais uma noite de insônia, eis que o finado Inter-Cine (lembra?), revela os candidatos para o público escolher: O Exterminador do Futuro II, Aquela Noite e um terceiro candidato qualquer facilmente esquecível. Achando ser uma barbada, mal acreditei quando titio Swarza perdeu na escolha do público para a história da menina que sonhava ser como a vizinha mais velha. No dia seguinte, mesmo sendo uma das raras noites em que dona insônia não dava as caras, fiquei até tarde assistindo o filme para saber o que ele tinha de tão especial. E acabei encontrando uma singela e bela história que me encantou de tal maneira que, ainda hoje, passados pouco menos de vinte anos, é meu filme predileto. Não é nenhuma obra-prima do cinema, não possui um roteiro extremamente inteligente e cativante, nem mesmo tem atuações excepcionais. Mas é um filme tão sincero, tão gostoso de assistir, que foi impossível não me apaixonar. E para meu desespero, é outro filme difícil de encontrar, mas que, felizmente, tem no Netflix, abençoado seja!

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