AMALIE EMMY NOETHER

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Poucos meses após o término da Primeira Guerra Mundial, a conceituada Universidade de Göttingen estava dividida. Contrariando o histórico da instituição no reconhecimento de mulheres matemáticas, uma ala conservadora questionava e se opunha à possibilidade de aulas ministradas por mulheres. “O que nossos militares pensarão”, argumentavam, “quando retornarem à universidade e verificarem que tem de aprender aos pés de uma mulher?” O proeminente Professor da instituição, David Hilbert, extremamente irritado com o questionamento, retrucou: “Não vejo em que o sexo de um candidato possa ser um argumento contra sua admissão como Privatdozent. Afinal, o Conselho não é nenhuma casa de banhos”.

Emmy Noether

Essa não foi a primeira e tampouco seria a última vez que Amalie Emmy Noether precisara enfrentar o preconceito de gênero em sua brilhante carreira acadêmica. Mesmo sendo filha do eminente Algebrista, Max Noether, foi preciso uma autorização especial para que pudesse cursar a Universidade de Erlanger, onde seu pai lecionava. Aí Amalie alcançaria o doutorado em 1907 defendendo a tese Sobre Sistemas Completos de Invariantes para Formas Biquadradas Ternárias. Alcançou enorme prestígio nos círculos matemáticos em virtude de suas significativas contribuições significativas à teoria dos invariantes e dos corpos numéricos e, em especial, por desenvolver o Teorema de Noether, “um dos teoremas matemáticos mais importantes já provados dentre os que guiaram o desenvolvimento da física moderna”. Por tudo isso foi convidada por David Hilbert para universidade de Göttingen, onde pode assumir o cargo após aprovação no exame e superar as objeções. Ainda assim, suas aulas oficialmente eram ministradas por Hilbert, a ela sendo designada apenas a condição de ajudante.

Tantas barreiras não diminuíram seu gosto pela matemática e pela álgebra em particular. Com o tempo seu talento angariou lhe uma fama e reputação difíceis de serem questionados. Mesmo tendo algumas dificuldades do ponto de vista pedagógico, foi capaz de atrair e inspirar um surpreendente número de alunos que seguiriam os passos da mestra no campo da álgebra abstrata. É dessa época o lançamento de um de seus trabalhos mais icônicos, o clássico “Idealtheorie in Ringbereichen” (“Teoria de Ideais nos Domínios dos Anéis”), de 1921, onde transformou a teoria dos ideais em anéis comutativos em uma poderosa ferramenta matemática que serve para diversas aplicações.

Amalie Emmy Noether

Amalie Emmy estava no auge de sua carreira e produção acadêmica quando o regime nazista de Hitler chegou ao poder. Sendo de origem judia, Amalie receberia em abril de 1933 um aviso do governo retirando seu direito de ensinar. Sem se abalar, continuou a lecionar em casa onde reunia grupos de alunos, além de ajudar outros colegas que também foram vitimas do expurgo judeu das universidades alemãs. Essa situação durou até a fatídica Noite dos Cristais, quando Amalie percebeu que era hora de deixar a Alemanha Nazista. Vários foram os cientistas que fizeram o mesmo, levando a uma migração acentuada de eminentes pesquisadores das mais variadas áreas para outras partes do mundo, especialmente os Estados Unidos, resultando num crescimento da produção científica estadunidense na primeira metade do século XX.

Tendo recebido convite de trabalho de duas eminentes instituições, uma na Inglaterra e outra nos Estados Unidos, Amalie acabaria optando justamente por essa última. Passaria os últimos anos de sua vida lecionando em instituições americanas de Princeton e Pensilvânia, produzindo intensamente como já era costumeiro. Infelizmente esse período tranquilo acabaria abruptamente com sua morte em abril de 1935, em decorrência de complicações de uma operação no quadril.

A morte de Amalie Emmy Noether gerou grande comoção entre seus colegas. Nas cerimônias que se seguiram ao seu falecimento, Albert Einstein – que usou seu trabalho sobre teoria dos invariantes na formulação da teoria da relatividade – não a poupou de elogios chamando-a de “o gênio matemático criativo mais significativo já produzido desde que a educação superior para mulheres foi iniciada”. Quando alguém se referiu a ela como sendo a filha de Max Noether, seu notório colega e conterrâneo alemão, Edmund Landau retrucou com veemência: “Max Noether foi o pai de Emmy Noether. Emmy é a origem das coordenadas da família Noether.” Em 1982 celebrou-se no Bryn Mawr College, onde suas cinzas foram enterradas, o centenário de seu nascimento.

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Descrita por todos como uma pessoa extremamente amável e afetuosa, isso não impediu que Amalie lutasse pelos direitos femininos na Academia com intensidade e dedicação indescritíveis. Tendo conquistado o direito ao curso superior, depois a poder ensinar e finalmente encarado o opressivo sistema Nazista, tornou-se, não apenas um exemplo de excepcional algebrista, mas também uma fonte de inspiração para inúmeras gerações de mulheres que, assim como ela, precisam encarar diariamente um sem número de barreiras em virtude de seu gênero.

Amalie Emmy Noether é o sétimo e último texto da série sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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GRACE CHISHOLM YOUNG

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A universidade de Göttingen na Alemanha é famosa não apenas pelo número de grandes intelectuais e cientistas que por ela passaram ou estudaram, mas também por ser uma das primeiras instituições a reconhecer o trabalho de mulheres nas áreas acadêmicas, especialmente na Matemática. Nessa série de textos sobre as Plêiades Matemáticas já vimos os nomes de Marie-Sophie Germain e de Sonja Kovalevsky reconhecidos pela instituição com o título de Doutor.

Infelizmente, Marie-Sophie Germain receberia o título somente após a sua morte, enquanto Sonja Kovalevsky o recebeu in absentia, ou seja, sem a obrigação de prestar o exame oral (embora, nesse caso o motivo real da liberação tenha sido a excelência do artigo apresentado). A primeira mulher a receber o doutorado em Göttingen foi a inglesa Grace Chisholm Young, já que as universidades na Grã-Bretanha insistiam em não aceitar mulheres em seus cursos de pós-graduação.

Nascida Grace Emily Chisholm numa família consideravelmente abastada em 15 de março de 1868, optou pelo estudo da matemática quando seus pais a impediram de cursar medicina. Graduou-se em primeiro lugar na turma de 1892 de Matemática da Girton College, em Cambridge, quando decidiu continuar seus estudos em Göttingen onde uma turma para mulheres tinha sido recentemente aberta. Após a defesa de sua tese sobre os grupos algébricos de trigonometria esférica, que lhe valeu o doutorado, Chisholm decidiu retornar para a Inglaterra para cuidar dos pais idosos. Acabaria casando com seu antigo tutor da época do Girton College, William Young e, algum tempo depois voltariam a morar em Göttingen.

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Mesmo não sendo um pesquisador, Grace Chisholm convenceu o marido a acompanha-la nessa carreira. Juntos acabariam publicando uma vasta obra, incluindo trabalhos e artigos científicos, além de livros voltados a introduzir as crianças no saber matemático. Infelizmente, mais uma vez o machismo e preconceitos não permitiam que o gênio matemático de Grace fosse devidamente reconhecido, uma vez que as obras eram publicadas em conjunto com o nome do marido, muito embora ele mesmo reconhecesse que boa parte do mérito das obras cabia à sua esposa, conforme verificado em algumas de suas correspondências.

Durante os anos da Primeira Guerra Mundial, Grace Chisholm e a família se viram obrigados a mudar para Suíça onde continuou em seus trabalhos de pesquisa matemática. Por essa época conseguiu finalmente publicar uma trabalho sobre as bases de cálculo sob seu próprio nome além de escreve um ensaio sobre derivadas infinitas, que ganhou o Prêmio Gamble Girton College em 1915. Infelizmente foi também nessa época que o seu filho mais velho, que era aviador, acabou morrendo em combate. Essa tragédia acabaria por minar a saúde da pesquisadora, interrompendo sua brilhante carreira.

Grace Chisholm Young ainda viveria para ver novamente outra guerra de proporções mundiais se abater sobre a Europa. Com o início dos combates o casal Young foi obrigado a se separar com Grace indo viver na Inglaterra e William ficando na Suiça. Deprimidos com a distância, William morreria em 1942 e Grace em 1944.

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Capa de um dos inúmeros trabalhos acadêmicos escritos por Grace Chisholm Young

No mito das Plêiades, conta-se que Mérope foi a única das sete irmãs a não ter seu brilho vislumbrado da Terra, por ter ousado casar com um mortal ao contrário de suas irmãs. É triste notar também esse paralelo com relação a vida da Matemática e Pesquisadora Grace Chisholm que teve boa parte de seu talento, por assim dizer, encobertos pelo nome do marido, em virtude da imposição de uma sociedade que não via com bons olhos uma mulher assumindo notoriedade em uma área supostamente mais adequada aos homens.

Igualmente triste é saber que a universidade de Göttingen, referência no mundo da Matemática e também por seu pioneirismo em quebrar as barreiras impostas às mulheres, tenha tido um triste fim ao ser praticamente destruída nas mãos do totalitarismo e discriminação racial e de gênero do governo nazista de Adolph Hitler. Um lembrete válido do quanto pode ser perdido e se regredir quando permitimos que supostos salvadores da pátria com soluções fáceis e dedos acusadores tomem o poder e solapem todas os pequenos avanços conquistados a duras penas.

Grace Chisholm Young é o sexto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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SONJA KOVALEVSKY

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A decoração era a mais inusitada que poderia se imaginar para um quarto de crianças. Por todas as paredes inúmeras e variadas folhas de papel repleto de cálculos integrais e diferenciais. Fascinada, uma jovem nascida no seio da nobreza russa já estava ali por horas e horas tentando decifrar e dar alguma ordem àquele emaranhado de números, anotações feitas por seu pai quando ainda estudante de matemática. Impressionada, jurou que um ainda entenderia plenamente toda aquela complexa simbologia.

Nascida Sofia Korvin-Krukovsky Kovalevskaya em Moscou a 15 de janeiro de 1850, aquela jovem seria conhecida posteriormente pelo nome de Sonja Kovalevsky e, ainda hoje é considerada a maior matemática da história da Rúsia. Tal era seu talento e obstinação que, aos 14 anos, querendo entender um tratado sobre ótica em um livro de física escrito pelo seu vizinho, Kovalevsky simplesmente ensinou trigonometria a si mesma. Nas palavras do autor do livro: “Ela criou todo aquele ramo da ciência – a trigonometria – uma segunda vez”. Para se ter uma noção do feito, quando Isaac Newton deparara-se com situação similar, ele foi estudar os Elementos de Euclides.

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Sonja Kovalevsky

Apesar de todo seu talento, Kovalevsky não escapou do preconceito reinante em relação a mulheres estudando matemática. Impedida de matricular-se na universidade de São Petersburgo precisou de um preceptor particular para continuar os estudos de cálculo. Insatisfeita com essa situação, realizou um casamento de conveniência com o paleontologista Vladimir Kovalevsky, livrando-se assim das objeções familiares sobre estudar no exterior. O casal mudou-se para Heidelberg na Alemanha, onde a jovem matemática manifestou o desejo de estudar com o célebre matemático da época, Karl Weiertrass, após assistir palestras entusiasmadas de um antigo discípulo, Leo Königsberger. Infelizmente o preconceito novamente impediu Kovalevsky de se matricular na universidade onde Weiertrass lecionava por ser mulher. Mas Königsberger fez recomendações tão calorosas, que Weiertrass aceitou-a como aluna particular. Logo ela se tornaria a sua discípula predileta, com quem estudou por quatro anos. Nesse período ela cobriu todo um curso universitário de matemática, além de escrever três importantes artigos, um sobre a teoria das equações diferenciais parciais (pelo qual seria consagrada com o título de Doutor in absentia pela universidade de Göttingen anos depois), um sobre a redução de integrais abelianas de terceira espécie e uma suplementação da pesquisa de Laplace sobre os anéis de Saturno.

Apesar de toda sua qualificação, a dificuldade para encontrar emprego obrigou-a a retornar para casa. No período que passou na Rússia quase não produziu nada relativo à matemática, priorizando atividades literárias, escrevendo ficção, críticas teatrais artigos científicos para um jornal. No entanto, após o suicídio de seu marido em 1883 decidiu voltar a dedicar-se novamente aos estudos matemáticos com ainda mais afinco, retornando para Berlim. Foi a maneira que encontrou para lidar com a tristeza. Ficaria pouco tempo na capital alemã: um ex-aluno de Weiertrass a convidou para lecionar temporariamente na Universidade de Estocolmo, não demorando para assumir em definitivo o emprego, aí permanecendo até sua morte em 1891, vítima de gripe.

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Pensando na imensa genialidade e capacidade matemática demonstradas por Sonja Kovalevsky, sua morte precoce com apenas 41 anos de idade torna esse fato ainda mais lamentável e triste. No auge de sua carreira e no apogeu de suas capacidades, um dos seus últimos feitos notáveis foi o de conquistar o prestigioso Prêmio Bordin da Academia Francesa com o trabalho “Sobre o Problema da Rotação de um Corpo Sólido em Torno de um Ponto Fixo”, concorrendo com 15 outros trabalhos. Seu artigo foi considerado tão impecável e de tão alto nível que a organização do evento aumentou o prêmio de 3000 para 5000 francos.

Howard Eves afirma que seu lema era: “Diga o que você sabe, faça o que deve, conclua o que puder”. Um lema apropriado para a notável matemática que, mesmo em um período de vida tão curto, foi capaz de aprender, fazer e concluir tanto.

Sonja Kovalevsky é o quinto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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MARY FAIRFAX SOMERVILLE

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Nem bem o garoto chegara à bela mansão dos Fairfax em Jedburgo, na Escócia, sua irmã mais velha avançou até ele perguntando se conseguira. Com um sorriso maroto, o garoto estendeu um embrulho de tamanho significativo. Sem esconder a ansiedade, a mocinha praticamente arrancou o pacote de suas mãos. Seu conteúdo era considerado tão extremamente impróprio para os olhos de uma mocinha bem educada e de boa família da época, que ela precisara pedir ao irmão para compra-los numa livraria. Com cuidado desembrulhou revelando a perigosa leitura: os volumes de “Elementos”, de Euclides, e da “Álgebra” de John Bonnycastle.

Nascida em 1780 numa bem situada família escocesa, Mary Fairfax Somerville recebeu desde cedo uma educação adequada para, o que se acreditava na época, ser fundamental para uma mulher da boa sociedade, ou seja, ler e fazer algumas contas. O que seus pais não esperavam é que a jovem acabasse por adquirir gosto pela leitura, sempre ansiando ler e aprender mais e mais. Alertados por uma tia de que tantas leituras poderiam incutir na menina um desejo de ser mais do que homem, ela foi enviada para uma escola onde aprenderia atividades propícias e adequadas para uma mulher: mexer com agulhas e trabalhos manuais.

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Mary Fairfax Somerville em pintura de Thomas Phillips de 1872 – Wikimedia

Apesar de ressentida por ter seu desejo de aprender restringido daquela maneira, Mary Fairfax não desistiu. Acreditando que era tão direito das mulheres receber a mesma educação recebida pelos homens, ela aproveitava cada oportunidade para melhorar sua leitura, escrita, compreensão das palavras e ampliar suas noções de aritmética. Graças às ideias liberais do pai, teve contato com os ideais da revolução Francesa e com isso sua revolta com aquela opressão só aumentava. Seu empenho em aprender latim sozinha chamou a atenção de um tio que dali em diante passou a ajuda-la. Logo ela já dominava não apenas o latim, mas também o grego. Aos 13 anos foi permitido que se matriculasse numa escola de Edimburgo que passara a aceitar garotas. Aí teria os primeiros contatos com os estudos dos fundamentos de mecânica e astronomia os quais estudava para poder ensinar um colega com dificuldades nessas áreas.

Sem poder avançar nos estudos de maneira formal, Mary Fairfax tornou-se uma autodidata. Aos 24 anos casou-se com um primo, que, para sua infelicidade, além de ser pouco interessado em qualquer tipo de conhecimento científico, nutria profundos preconceitos sobre as capacidades intelectuais das mulheres. O casamento, no entanto, durou apenas três anos. Com o falecimento do marido, ela pode retornar para a Escócia com os filhos onde intensificou os estudos de matemática. Por essa época também começou a estudar trigonometria, seções cônicas e o livro do astrônomo escocês James Ferguson, “Astronomy”. Passou a contribuir com o periódico de matemática da Real Academia Militar de Sandhurst, onde publicava resoluções de complexos problemas matemáticas, chegando a receber uma medalha de prata por sua resolução da equação diofantina. Como não poderia deixar de ser, aproveitou a notoriedade alcançada para ampliar ainda mais a gama de áreas de interesse e estudo, como também comprou uma extensa biblioteca de obras científicas, as quais estudou com o mesmo zelo de anos antes, quando precisara pedir para os irmão comprar os livros que gostaria de estudar.

Seus profundos conhecimentos não só em matemática, mas também em astronomia, química, geografia, microscopia, magnetismo, eletricidade e outros, levou a Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil a convencê-la a escrever uma exposição em linguagem acessível da obra “Traité de Mécanique Céleste” de Pierre Simon Laplace. O resultado foi o brilhante “The Mechanisms of The Heavens”, obra clássica do sistema educacional inglês e que se tornaria leitura obrigatória nas universidades britânicas por mais de um século. O sucesso alcançado pela obra é ainda mais admirável quando lembramos que Mary Fairfax estudou o trabalho de Laplace por conta própria, além de nunca ter podido ter acesso à preparação e estudos formais.

Title-page of Mary Somerville's Mechanism of the heavens (London, 1831)

Folha de rosto de Mechanism of the Heavens

Em 1812 ela casa-se novamente com outro primo, o médico William Somerville, que, ao contrário de seu primeiro marido, a encorajou a prosseguir nos estudos e trabalhos científicos. Vivendo em Londres, o casal pode ter acesso a inúmeros e ilustres pensadores e estudiosos da época, como Ada Lovelace e Charles Babbage, tidos como os precursores da computação. De fato Ada tinha sido não somente amiga, mas aluna de Mary Fairfax com quem tomara lições de matemática.

Frente a todos os obstáculos e dificuldades enfrentados por Mary Fairfax Sommerville para ter acesso à educação, não é de se admirar o papel assumido por ela de ativista pelos direitos da mulher, passando a dedicar boa parte de seus últimos anos de vida empenhada em tornar a educação feminina mais acessível e menos intolerante. Quatro anos antes de falecer aos 91 anos, fez questão do seu nome ser o primeiro na petição feita em 1868 por John Stuart Mill para permitir o voto feminino. Tamanho foi o impacto de sua genialidade que recebeu, tanto em vida como após a sua morte, inúmeras e variadas demonstrações de reconhecimento e homenagens. Foi eleita membro honorário da Sociedade de Física e História Natural de Genebra e da Academia Real Irlandesa. Também foi uma das primeiras mulheres a se tornar membro honorário da Sociedade Astronômica Real, do Reino Unido, em 1835. O astrônomo John Couch Adams afirmou que a razão que o levara a procurar um novo planeta (Netuno), para expoicar as observadas perturbações de Urano, foi uma referência no “The Mechanisms of the Heavens” de Somerville, conforme relatado por Howard Eves em “Introdução à História da Matemática”.

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De menina que precisou usar de subterfúgios para comprar e ler livros de álgebra, a uma das mais brilhantes e geniais matemáticas de que se tem conhecimento: Mary Fairfax Somerville não somente teimou em brilhar naquele firmamento onde sempre lhe fora negado seu espaço, como lutou intensamente pelo direito de outras iguais a ela poderem brilhar também.

Mary Fairfax Somerville é o quarto texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou não deixe de acompanhar os demais textos da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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MARIE-SOPHIE GERMAIN

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Paris vivia dias conturbados e violentos em meados de 1789. Eram os primeiros momentos da intensa agitação política e social, que desencadearia a Revolução Francesa.  Nos dias que antecederam a Queda da Bastilha em julho, uma jovem de 13 anos, reclusa na vasta biblioteca de seu pai, um rico comerciante de seda, lia com profundo interesse a história de vida e morte de Arquimedes durante os dias igualmente violentos após o cerco de Siracusa. Aquela leitura marcaria profundamente a vida de Marie-Sophie Germain.

Nascida em 1º de abril de 1776, o impacto daquela leitura a levou a ler, não somente sobre a vida de Arquimedes, mas toda e qualquer obra que versasse sobre cálculos, teoria básica dos números, além dos tratados de Newton e Euler. Esse fascínio pelos números logo chamaria atenção de seus pais, que consideravam preocupante tanto interesse. Levados pelo pensamento ainda corrente na época de que aquilo não eram assuntos para mulheres, a jovem Germain foi privada por seus pais do fogo, luz e casacos, numa tentativa de fazê-la desistir das tais leituras impróprias. Foi um esforço em vão: determinada, a menina esperava os pais dormirem para, enrolada em cobertores, entregar-se aos livros que tanto amava.

O esforço valeu a pena. Com o tempo seus pais foram percebendo que não adiantava insistir. Vencidos pela tenacidade da filha, não só diminuíram a oposição aos seus estudos, como passaram apoia-la. O pai de Sophie Germain chegou mesmo a sustenta-la em sua vida adulta para que a filha pudesse dedicar-se plenamente aos estudos e pesquisa.

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Essa, porém, não seria a última vez que Sophie Germain enfrentaria oposição em seu interesse pela Matemática devido ao fato de ser mulher. Aos 18 anos demonstrou interesse em matricular-se na recém-inaugurada Escola Politécnica de Paris, mas foi impedida justamente por ser mulher. Mostrando novamente o quanto era determinada, Germain conseguiu acesso aos dados de um certo Monsieur Antoine August Le Blanc, um ex-aluno da Politécnica que havia deixado a cidade recentemente. Utilizando-se desses dados, Germain interceptava as lições enviadas a Le Blanc, devolvendo-as com as devidas respostas a cada semana.

Através desse subterfúgio, ela recebeu inúmeros e rasgados elogios, ao ponto de fazer o supervisor do curso Joseph-Louis Lagrange querer conhecer aquele rapaz que, do dia para a noite, passara de aluno medíocre a alguém capaz de fornecer respostas engenhosas e versáteis para os mais diversos problemas propostos. Apesar do receio, ela se revelou a Lagrange como a verdadeira autora das respostas enviadas. O resultado não poderia ter sido mais positivo, pois, verdadeiramente impressionado pelo talento e aptidão demonstrados pela jovem estudante, Lagrange tornou-se seu mentor e amigo.

Apesar dessa recepção positiva, compreensivelmente, Germain continuou a usar o pseudônimo especialmente para corresponder-se com outros matemáticos e estudiosos. Foi assim que, desejosa de ampliar de seus conhecimentos sobre a teoria dos números, utilizou do mesmo subterfúgio para se corresponder com Carl Friedrich Gauss, um dos maiores matemáticos vivos na época, devidamente apelidado de Príncipe dos Matemáticos. A amizade que surgiria daí levou a sobrevivência de Gauss, quando da invasão da Prússia, onde vivia pelas tropas de Napoleão, graças à intervenção de Sophie Germain. Assim como ocorreu com Lagrange, Gauss ficou impressionado e satisfeito ao descobrir a verdadeira identidade do Monsiuer Le Blanc.

Pesquisas sobre a teoria das superficies elásticas

Capa do seu trabalho Pesquisas Sobre a Teoria das Superfícies Elásticas

Graças à correspondência com o colega prussiano, Sophie Germain pode aprimorar seus conhecimentos e assim contribuir enormemente não apenas na teoria dos números, mas também na física, com ênfase na elasticidade e acústica, e mesmo na engenharia, graças a esses estudos. Em 1808 a Academia Francesa de Ciências propôs um prêmio para quem formulasse uma teoria matemática que explicasse os estranhos experimentos do físico Ernst Chladni. Esses experimentos consistiam em espalhar areia em um prato de vidro e depois passar um arco de violino na borda do prato o que criava desenhos com curiosos formatos. Única concorrente, Germain conquistou o prêmio ao apresentar uma teoria sobre a matemática da elasticidade. Em 1831 ela ainda introduziria em geometria diferencial a útil noção de curvatura média de uma superfície num ponto de superfície. Por tudo isso é frequentemente chamada de Hipátia do século XIX.

Não obstante toda notoriedade alcançada ainda em vida por seus trabalhos, lamentavelmente o título honorário de doutor em matemática lhe tenha sido conferido pela Universidade de Göttingen – em virtude do muito insistir de Gauss – somente após a sua morte em 1831, vítima de um câncer de mama. Ainda mais lamentável foi a notícia oficial de sua morte, designando-a como solteira sem profissão, ao invés de matemática – muito provavelmente a de maior capacidade intelectual já produzida na França. Como se não bastassem essas afrontas, seu atestado de óbito a designava como tão somente como arrendatária, muito provavelmente por nunca ter se casado e ter sido sustentada pelo pai boa parte da vida (mesmo porque, por ser mulher, não lhe era permitido ensinar), bem como seu nome não tenha sido incluído na lista de matemáticos e engenheiros que, com seus trabalhos, possibilitaram a construção da Torre Eiffel, a despeito de seus estudos em elasticidade.

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Marie-Sophie Germain é, ainda hoje, um vívido exemplo das dificuldades enfrentadas pelas mulheres que optam pela carreira acadêmica. Ainda mais: é uma inspiração por toda sua perseverança resoluta em insistir naqueles “assuntos impróprios para mulheres”.  Dos pais que não a queriam interessada em estudos de números ao depreciamento enfrentado na morte, nada foi capaz de parar aquela jovem que, em meio ao terror e violência de uma revolução, pode, numa biblioteca, se encantar com o universo dos números.

Marie-Sophie Germain é o terceiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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MARIA GAETANA AGNESI

 

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Era provavelmente o ano de 1730. Numa bela e aconchegante sala, a intelectualidade local de Milão impressionava-se assistindo um curioso debate: de um lado doutos professores das mais diversas áreas do conhecimento de toda a Europa; do outro uma jovenzinha, de fato uma adolescente com não mais que 15 anos. Com desenvoltura espantosa para alguém de sua idade, ela dialogava com os renomados mestres sobre os assuntos que preferissem e em suas próprias línguas. Ali próximo um orgulhoso professor de Matemática da Universidade de Bolonha comprazia-se em observar a impressionante versatilidade de sua jovem filha.

A cena descrita acima trata-se de uma versão um pouco romanceada – mas muito distante de ser fictícia –, da contada no livro Introdução à História da Matemática de Howard Eves, e serve para mostrar não apenas a precocidade, mas também a incrível gama de conhecimentos dominados por Maria Gaetana Agnesi. Primeira dos 21 filhos dos três casamentos de seu pai, Agnesi recebeu uma educação profundamente erudita que a faria se notabilizar em diversas e distintas áreas além da Matemática, além de dominar latim, grego, hebreu, francês, alemão e tantas outras línguas.

Sua extremada erudição a levou a publicar, com apenas vinte anos, uma coletânea com 190 ensaios tratando de lógica, mecânica, hidromecânica, elasticidade, gravitação, mecânica celeste, química, botânica, zoologia e mineralogia. E, embora fosse designada membro honorário da universidade de Bolonha, não há registro de que tenha ensinado nessa ou em qualquer outra instituição. Ainda assim, prestou inestimável contribuição ao ensino da Matemática ao publicar em 1748 ao publicar a obra em dois volumes Instituzioni Analitiche ad uso Della Gioventù Italiana. Originalmente escrita com a finalidade de auxiliar os estudos de um de seus inúmeros irmãos, a obra alcançou um sucesso considerável, não só por ter sido escrito em italiano (e não em latim, como era costume na época), atingindo assim um amplo público, mas também por ter sido estruturado especialmente para os jovens. É considerado o primeiro tratado de cálculo direcionado a esse público.

Página de Rosto do Volume 1 de Instituzioni Analitiche

Página de Rosto do Volume 1 do Instituzioni Analitiche

É nesse segundo volume Instituzioni Analitiche onde encontramos uma extensa discussão sobre aquele que considerado um dos trabalhos mais famosos da brilhante matemática: a curva cartesiana y(x² + a²) = a³. Agnesi tomou como base os estudos de Guido Grandi que chamou a equação de versoria, palavra latina para corda de manobrar vela de embarcação a qual lembrava outra palavra semelhante, obsoleta versorio, que, por sua vez, significa “livre para se mover em qualquer direção”. Provavelmente Grandi sugeriu esse nome para a curva como uma espécie de trocadilho. De qualquer modo o termo confundiu Agnesi que acabou utilizando a palavra versiera, ou seja, “avó do diabo” ou “duende fêmea” em latim. Quando a obra foi traduzida para o inglês, o tradutor John Colson verteu versiera como witch. Por esse motivo a curva passou a ser conhecida em inglês “witch of Agnesi” (bruxa ou feiticeira de Agnesi).

Em 2014 o Google homenageou Maria Gaetana Agnesi com esse doodle da “Bruxa” de Agnesi

Obviamente, o fato de uma obra que tenha atingido tamanho sucesso ter sido escrita por uma mulher não passou despercebido da sociedade da época. Ser ainda essa obra tão complexa e completa como era, além de elaborada com tamanha desenvoltura e propriedade, eram motivos adicionais para surpresa e assombro. Para Agnesi, no entanto, toda essa fama e notoriedade não passavam de um grande incômodo. Desde a juventude era seu maior desejo tornar-se freira, tendo várias vezes tentado entregar-se a uma vida de reclusão. Sua vontade, no entanto, só pode ser finalmente realizada em 1752, quando da morte de seu pai, o qual se opunha veementemente que a filha trocasse a eventual carreira bem sucedida como matemática, linguista ou filósofa, para dedicar-se às obras de caridade e ao estudo religioso. De fato esse acabou se tornando realidade em 1771, quando Agnesi foi designada diretora de uma instituição beneficente em Milão, onde permaneceria até sua morte em 1799.

Além das já citadas, inúmeras foram as contribuições de Agnesi para um maior entendimento e divulgação do saber matemático. Das mais importantes, conta a primeira tradução do Philosophiae Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton para o francês, o qual contou com prefácio de Voltaire. Um caso curioso sobre sua vida nos é contado por Howard Eves, sobre sua bem conhecida fama de sonâmbula. Segundo o autor, não foram poucas as vezes em que Agnesis, “em estado de sonambulismo, acendia uma lâmpada, prosseguia com seus estudos e resolvia problemas que deixara incompletos antes de se deitar. Ao se levantar, de manhã, surpreendia-se ao encontrar a solução acabada e completa no papel sobre sua escrivaninha”

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A despeito de todo seu imensurável talento e genialidade, bem como da fama e respeito adquiridos ainda em vida, é digno de nota sua submissão aos desígnios de seu pai, reflexos de uma sociedade que ainda via as mulheres como seres incapazes de dirigir sua própria vida. Mas verdade seja dita, se por um lado a autoridade paterna fora responsável por adiar os verdadeiros interesses da filha, é importante destacar o incentivo dado pelo pai de Agnesi a seus estudos, mesmos em áreas do conhecimento (tal como a Matemática) ainda naquela época considerados impróprios para as mulheres. E, muito provavelmente essa tenha sido a lição mais valiosa que Maria Gaetana Agnesi tenha aprendido – como quase tudo na sua vida – ainda muito jovem, conforme se pode entender a partir de um discurso seu publicado em latim quando tinha tão somente 9 anos de idade. O tema: o direito das mulheres receberem educação superior.

Maria Gaetana Agnesi é o segundo texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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