MARIA GAETANA AGNESI

 

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Era provavelmente o ano de 1730. Numa bela e aconchegante sala, a intelectualidade local de Milão impressionava-se assistindo um curioso debate: de um lado doutos professores das mais diversas áreas do conhecimento de toda a Europa; do outro uma jovenzinha, de fato uma adolescente com não mais que 15 anos. Com desenvoltura espantosa para alguém de sua idade, ela dialogava com os renomados mestres sobre os assuntos que preferissem e em suas próprias línguas. Ali próximo um orgulhoso professor de Matemática da Universidade de Bolonha comprazia-se em observar a impressionante versatilidade de sua jovem filha.

A cena descrita acima trata-se de uma versão um pouco romanceada – mas muito distante de ser fictícia –, da contada no livro Introdução à História da Matemática de Howard Eves, e serve para mostrar não apenas a precocidade, mas também a incrível gama de conhecimentos dominados por Maria Gaetana Agnesi. Primeira dos 21 filhos dos três casamentos de seu pai, Agnesi recebeu uma educação profundamente erudita que a faria se notabilizar em diversas e distintas áreas além da Matemática, além de dominar latim, grego, hebreu, francês, alemão e tantas outras línguas.

Sua extremada erudição a levou a publicar, com apenas vinte anos, uma coletânea com 190 ensaios tratando de lógica, mecânica, hidromecânica, elasticidade, gravitação, mecânica celeste, química, botânica, zoologia e mineralogia. E, embora fosse designada membro honorário da universidade de Bolonha, não há registro de que tenha ensinado nessa ou em qualquer outra instituição. Ainda assim, prestou inestimável contribuição ao ensino da Matemática ao publicar em 1748 ao publicar a obra em dois volumes Instituzioni Analitiche ad uso Della Gioventù Italiana. Originalmente escrita com a finalidade de auxiliar os estudos de um de seus inúmeros irmãos, a obra alcançou um sucesso considerável, não só por ter sido escrito em italiano (e não em latim, como era costume na época), atingindo assim um amplo público, mas também por ter sido estruturado especialmente para os jovens. É considerado o primeiro tratado de cálculo direcionado a esse público.

Página de Rosto do Volume 1 de Instituzioni Analitiche

Página de Rosto do Volume 1 do Instituzioni Analitiche

É nesse segundo volume Instituzioni Analitiche onde encontramos uma extensa discussão sobre aquele que considerado um dos trabalhos mais famosos da brilhante matemática: a curva cartesiana y(x² + a²) = a³. Agnesi tomou como base os estudos de Guido Grandi que chamou a equação de versoria, palavra latina para corda de manobrar vela de embarcação a qual lembrava outra palavra semelhante, obsoleta versorio, que, por sua vez, significa “livre para se mover em qualquer direção”. Provavelmente Grandi sugeriu esse nome para a curva como uma espécie de trocadilho. De qualquer modo o termo confundiu Agnesi que acabou utilizando a palavra versiera, ou seja, “avó do diabo” ou “duende fêmea” em latim. Quando a obra foi traduzida para o inglês, o tradutor John Colson verteu versiera como witch. Por esse motivo a curva passou a ser conhecida em inglês “witch of Agnesi” (bruxa ou feiticeira de Agnesi).

Em 2014 o Google homenageou Maria Gaetana Agnesi com esse doodle da “Bruxa” de Agnesi

Obviamente, o fato de uma obra que tenha atingido tamanho sucesso ter sido escrita por uma mulher não passou despercebido da sociedade da época. Ser ainda essa obra tão complexa e completa como era, além de elaborada com tamanha desenvoltura e propriedade, eram motivos adicionais para surpresa e assombro. Para Agnesi, no entanto, toda essa fama e notoriedade não passavam de um grande incômodo. Desde a juventude era seu maior desejo tornar-se freira, tendo várias vezes tentado entregar-se a uma vida de reclusão. Sua vontade, no entanto, só pode ser finalmente realizada em 1752, quando da morte de seu pai, o qual se opunha veementemente que a filha trocasse a eventual carreira bem sucedida como matemática, linguista ou filósofa, para dedicar-se às obras de caridade e ao estudo religioso. De fato esse acabou se tornando realidade em 1771, quando Agnesi foi designada diretora de uma instituição beneficente em Milão, onde permaneceria até sua morte em 1799.

Além das já citadas, inúmeras foram as contribuições de Agnesi para um maior entendimento e divulgação do saber matemático. Das mais importantes, conta a primeira tradução do Philosophiae Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton para o francês, o qual contou com prefácio de Voltaire. Um caso curioso sobre sua vida nos é contado por Howard Eves, sobre sua bem conhecida fama de sonâmbula. Segundo o autor, não foram poucas as vezes em que Agnesis, “em estado de sonambulismo, acendia uma lâmpada, prosseguia com seus estudos e resolvia problemas que deixara incompletos antes de se deitar. Ao se levantar, de manhã, surpreendia-se ao encontrar a solução acabada e completa no papel sobre sua escrivaninha”

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A despeito de todo seu imensurável talento e genialidade, bem como da fama e respeito adquiridos ainda em vida, é digno de nota sua submissão aos desígnios de seu pai, reflexos de uma sociedade que ainda via as mulheres como seres incapazes de dirigir sua própria vida. Mas verdade seja dita, se por um lado a autoridade paterna fora responsável por adiar os verdadeiros interesses da filha, é importante destacar o incentivo dado pelo pai de Agnesi a seus estudos, mesmos em áreas do conhecimento (tal como a Matemática) ainda naquela época considerados impróprios para as mulheres. E, muito provavelmente essa tenha sido a lição mais valiosa que Maria Gaetana Agnesi tenha aprendido – como quase tudo na sua vida – ainda muito jovem, conforme se pode entender a partir de um discurso seu publicado em latim quando tinha tão somente 9 anos de idade. O tema: o direito das mulheres receberem educação superior.

Maria Gaetana Agnesi é o segundo texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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HIPÁTIA DE ALEXANDRIA

 

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Embora seja certo que – a despeito de todas as barreiras e posições de submissão impostas às mulheres nos tempos antigos –, muitas foram àquelas a se dedicarem aos estudos matemáticos, é somente no século IV de nossa era o primeiro registro de uma mulher matemática. Embora não se saiba a data exata de seu nascimento, acredita-se que Hipátia (ou Hipácia, conforme alguns) nascera em 370 ou 350 Antes da Era Comum na ainda culturalmente relevante cidade de Alexandria no Egito.

Filha de Téon de Alexandria, um proeminente matemático e astrônomo da Academia daquela cidade, Hipátia foi criada desde cedo nesse ambiente estritamente acadêmico. Sob a tutela do pai dedicou-se, não apenas aos estudos matemáticos e astronômicos, mas também à filosofia, religião, poesia, artes, oratória e retórica, além de uma rigorosa disciplina física, seguindo o ideal helênico de uma mente sã num corpo são. Provavelmente ainda adolescente viajou para Atenas onde estudou na renomada Academia Neoplatônica, de onde retornou para assumir a cadeira de Plotino na Academia Alexandrina. Aos trinta anos já era a diretora.

Fugindo completamente do papel atribuído às mulheres na época, Hipátia provavelmente não se casou, permitindo dedicar-se mais plenamente aos estudos, o ensino e direção da Academia. Conta-se que, ao ser indagada do por que nunca ter se casado, ela afirmara já ser casada com a verdade. Entusiasta do processo de demonstração lógica, não foram poucas as provas desse comprometimento com a verdade: no século XV, na biblioteca do Vaticano, descobriu-se uma cópia de seu comentário sobre a obra de Diofanto, sobre o qual escreveu um tratado. E, embora não se tenha registro de nenhum de seus outros escritos terem sobrevivido e chegado até nós, vários historiadores acreditam que o Livro III da versão de Téon para o Almagesto, de Ptolomeu (um tratado que estabeleceu o modelo geocêntrico para o universo que não seria derrubado até o tempo de Copérnico e Galileu) foi na verdade trabalho de sua filha, bem como lhe são atribuídas comentários sobre inúmeros matemáticos clássicos, além de escrever um tratado sobre Euclides em parceria com o pai.

Hipátia de Alexandria - Gravura de Elbert Hubbard, 1908

Hipátia de Alexandria, gravura de Elbert Hubbard, 1908 – Wikimedia

Hipátia era ainda uma professora dedicada e eficiente. Suas palestras públicas pela cidade chamavam a atenção das pessoas que a escutavam versar com propriedade sobre Platão e Aristóteles, sendo extremamente elogiadas. Através da correspondência entre ela e um de seus alunos, o futuro bispo de Ptolemaida e também filósofo Sinésio de Cirene, sabe-se que, entre suas lições, estava como projetar um astrolábio. Era famosa também pela resolução de complexos problemas matemáticos, enviados a ela por matemáticos de todo o mundo antigo conhecido, problemas esses os quais, muito raramente deixava de elucidar.

Vivendo num período conturbado da história de Alexandria, Hipátia se viu no meio de uma controvérsia entre o governador da cidade (e grande admirador e pessoa próxima da estudiosa), Orestes e o Patriarca Cirilo que, ao suceder o falecido tio o Patriarca anterior Teodósio, deu mais fervor as hostilidades contra as religiões não-cristãs. Apesar do verniz religioso a divergência entre os dois era de fato política. Orestes, apesar de cristão, não tinha interesse em ceder o mínimo de espaço de sua influência para o novo líder religioso, cujas pretensões (e por extensão da igreja) era centralizar o controle da cidade em suas mãos.

A ira de Cirilo se voltou contra Hipátia, não apenas por ela ser amiga próxima do governador, mas especialmente por sua destacada defesa do paganismo contra o cristianismo uma vez que era a líder da escola neoplatônica de filosofia. Some-se a isto o fato de que uma mulher palestrando publicamente contra a doutrina religiosa vigente, além de se dedicar aos estudos matemáticos e filosóficos dentre outros, ao invés de cumprir seu papel submisso de mulher devotada aos interesses domésticos e familiares, não devia ser nenhum pouco bem visto pelo Patriarca.

Hipátia antes de ser morta na igreja, por Charles William Mitchell, 1885

Hipátia Antes de Ser Morta na Igreja, de Charles William Mitchell, 1885 – Wikimedia

Esse conjunto de fatores selou o destino de Hipátia. Após uma série de rusgas entre Cirilo e Orestes, que atingiu seu ponto mais crítico após a expulsão de todos os judeus de Alexandria, em virtude do assassinato de um grupo de cristãos por extremistas judeus, um boato se espalhou pela cidade culpando-a pelas divergências entre o governador e o Patriarca.

Insuflados por Cirilo, um grupo de cristãos guiados por um certo Pedro, o Leitor, cercou a carruagem de Hipátia, de onde a arrancaram para espanca-la e tortura-la. A turba enfurecida arrancou-lhe os cabelos, descarnou-a com carapaças de ostras para então lançar ao fogo os restos de seu corpo.

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A Morte da Filósofa, de Louis Figuier, 1866 – Wikimedia

O assassinato de Hipátia é considerado por muitos como um momento crucial, dentre aqueles que marcaram o período entre os séculos IV e V. A morte brutal e sem sentido da brilhante filósofa, matemática, astrônoma, professora, que ousou não se enquadrar no papel submisso e menor designado às mulheres, nas mãos ensandecidas de fanáticos religiosos serve como uma alegoria mais que adequada, ainda que lamentável, do fim da Antiguidade Clássica e o início da Idade Média.

Estrela de primeira grandeza no firmamento científico, mesmo sua morte horrenda não foi capaz de apagar o brilho da excepcionalidade da primeira matemática de que se tem registro. Ainda que, por séculos a fio seu trabalho tenha sido menosprezado e desconsiderado por toda uma lógica francamente misógina, sua importância na história, não só da matemática e das ciências, não foi completamente eliminada. Hipátia de Alexandria não foi somente a primeira matemática, mas a primeira a quebrar a imensa barreira do sexo, abrindo caminho para inúmeras outras trilharem seus passos pioneiros com o mesmo brilhantismo.

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A atriz Rachel Weiss vive Hipátia no filme Ágora – imagem do site Universo Racionalista

Hipátia de Alexandria é o primeiro texto de uma série de sete sobre as Plêiades Matemáticas. Se você gostou do texto não deixe de acompanhar os demais da série. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novos textos ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

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AS PLÊIADES MATEMÁTICAS

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As Plêiades, obra do artista americano Elihu Vedder de 1885

Na mitologia grega as Plêiades eram as sete filhas da oceânide Pleione com o titã Atlas. Segundo o relato mitológico, Órion, o Caçador encontrou e se enamorou pelas filhas de Pleione, quando elas passeavam pela Beócia na companhia de sua mãe. Obcecado pela beleza das irmãs, Órion iniciou uma perseguição que durou sete anos, levando uma desesperada Pleione a solicitar a intervenção de Zeus. A solução dada pelo Deus Supremo foi transforma-las em pombas e posteriormente em estrelas, as quais foram colocadas num relicário no firmamento, na forma das estrelas principais do aglomerado das Plêiades, sobre a proteção da Constelação do Touro.

Esse curioso e interessante conto foi a maneira encontrada pelos gregos antigos para explicar a origem do brilhante grupo de estrelas localizado na “cauda” da constelação do Touro. Extremamente brilhantes, as Plêiades são um aglomerado de mais de 3.000 estrelas, imersas em uma nuvem de poeira cósmica. São conhecidas também como As Sete Irmãs, embora, de fato, somente seis delas sejam visíveis a olho nu. Ainda segundo o mito grego, a estrela invisível era Mérope, a única das irmãs a relacionar-se com um mortal e, por esse motivo, condenada por Zeus a não ter seu brilho visto da Terra.

Introdução a História da Matemática

Capa do livro de Howard Eves: Altamente recomendável especialmente para quem não gosta de Matemática

Howard Eves, em sua obra “Introdução a História da Matemática” – livro excelente e que tive o prazer de ler no ano passado –, cita as Plêiades celestes para batizar um grupo de brilhantes e competentes matemáticas. Com seus trabalhos, estudos e descobertas, esse grupo formado por Hipátia de Alexandria, Maria Gaetana Agnesi, Marie-Sophie Germain, Mary Fairfax Somerville, Sonya Kovalevsky, Grace Chisholm Young e Amalie Emmy Noether, foi responsável não apenas por grandes descobertas na área, como também por inspirar e capacitar inúmeras outras mulheres a entrar para a Matemática.

Infelizmente, via de regra a história da Matemática não é ensinada nas escolas. E mesmo quando os professores abordam aspectos históricos da disciplina, não raro os nomes citados são de homens. Do célebre “Eureka!” do grego Arquimedes à conhecida fórmula do indiano Bhaskara; do pai da geometria Euclides chegando ao “geômetra divino” Newton, o pouco ensinado sobre a história da Matemática parece apontar para uma ciência aparentemente dominada pelo masculino, levando muitos a acreditar no mito da inaptidão das mulheres para o pensamento matemático ou ainda: que nenhuma mulher dedicou-se a seu estudo, nem deixou nada de relevante a ponto de ter seu nome registrado na história.

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Newton: O Geômetra Divino de William Blake. Seriam as mulheres incompatíveis com as ciências exatas?

Nada poderia estar mais longe da realidade. Assim como no caso das Plêiades celestes onde, das mais de 3.000 estrelas, apenas seis delas são visíveis da Terra a olho nu, também suas equivalentes matemáticas são o início para o conhecimento as tantas e variadas mulheres nas diferentes áreas das ciências exatas. Apesar de somente nos séculos XIX e XX as mulheres tenham começado a romper as barreiras sexistas, sendo aceitas em universidades, além de outras conquistas, isso não impediu que inúmeras mulheres, antes e depois, contribuíssem com relevantes descobertas e estudos matemáticos.

Foi em parte pensando nisso que, lendo sobre as Plêiades Matemáticas na obra de Eves, pensei em resgatar um pouco da história daquelas mulheres. Aproveitando a proximidade do dia Internacional da Mulher, me dispus a pesquisar e contar em textos breves um pouco sobre cada uma daquelas competentes e praticamente desconhecidas estudiosas. Longe de ser uma mera lista de curiosidades a intenção aqui, repetindo o objetivo de textos anteriores de fugir do lugar comum das declarações de sempre em suposta homenagem às mulheres, também é a de quebrar com a ideia falsa, apesar de amplamente difundida da inaptidão das mulheres para as ciências, especialmente as exatas. Um olhar sobre a vida dessas mulheres, ainda que breve, pode ser de suma importância ao inspirar mais e mais garotas nessas áreas.

A partir de amanhã até o dia 7 de março, postarei diariamente um texto sobre cada uma das Plêiades Matemáticas. No dia 8 de março, retomando a ideia abandonada do ano passado, a postagem será sobre oito mulheres sergipanas que se destacaram em diversas áreas do conhecimento e outras, num resgate histórico extremamente importante para a história das mulheres no meu pequeno Estado de Sergipe.

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LIVROS 2017/2018

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Mais um ano se passou e aqui estou mantendo a tradição de fazer um levantamento das leituras que fiz no ano de 2017 e também o que venho planejando para o ano de 2018.

E, se 2016 foi um ano muito bom, 2017 foi realmente excepcional para as minhas leituras. Não só consegui atingir boa parte de minhas metas, mas também tive o prazer de ler obras incríveis e dos mais variados gêneros, exatamente um dos desafios que me impus. Li um pouquinho de quase tudo: de livros de geociências à estudos historiográficos; de biografias que remetem à ficção de tão fantásticas à romances questionadores da realidade.  E foram tantos livros bons que cheguei mesmo a ter dificuldades enormes, não só para escolher os melhores, como também para listar as decepções.

Alguns exemplos de boas leituras do ano que passou

Infelizmente, minhas leituras de quadrinhos continuam a decepcionar. Esse ano consegui a proeza de ler ainda menos quadrinhos do que no ano anterior. Como expliquei na postagem do ano passado, eu praticamente não compro mais quadrinhos, preferindo fazer o download e ler no computador em casa, deixando a leitura dos livros para o kindle ou nos volumes emprestados da biblioteca na universidade onde trabalho. Por isso boa parte das minhas leituras de novos quadrinhos são feitas em casa. E foi aí onde o problema começou, pois em 2017 meu tempo em casa pode ser resumido em: dar atenção ao meu filho, ajudando a cuidar do pequenino, além de estudar para concursos públicos. Mas se foram poucos os quadrinhos lidos, a qualidade do material lido compensou a quantidade.

Tomando por base o ano o que foi lido em 2017 estabeleci uma meta bem ambiciosa para esse ano. E nisso contei com uma ajuda perfeita da querida Capitã Sybylla do Momentum Saga, indicado nada menos que 52 obras, as quais somei algumas das leituras que não consegui completar antes do fim do ano passado.

Para quem tiver interesse em acompanhar meu progresso de leituras, fique à vontade para me seguir lá no Skoob.

2017

  1. Um livro e um quadrinho que te surpreenderam em 2017?

“Só Garotos” e “Quarto de Despejo”

Escolher uma única obra para esse item foi extremamente complicado. E mais complicado ainda foi tentar escolher apenas um dentre essas duas obras lindas. De um lado a cativante história de amor da garota magrela do interior dos EUA, tanto por seu fotógrafo de cabelos cacheados, como pela arte em suas infinitas possibilidades. Do outro a crueza e toda dor na história de uma catadora de lixo na maior cidade brasileira, que, ao sentir fome preferia escrever ao invés de xingar. São duas obras que, cada uma a seu jeito, cativam, prendem, encantam e emocionam.

Em “Só Garotos” Patti Smith, poeta, cantora, compositora e fotografa conta a história de maneira bem sóbria, poética até, fugindo do lugar-comum das biografias em geral. Partindo de sua infância, quando se percebe artista, até sua ida para Nova Iorque dos anos 60 e 70 livre – cidade apresentada pela autora de uma maneira equilibrada, livre dos deslumbramentos e depreciamentos típicos de quem escreve sobre a época –, cada lembrança contada tem um objetivo certo: alicerçar o caminho para o inusitado triângulo amoroso entre Patti, seu querido fotografo, Robert, e as artes. Uma história que emociona nos pequenos detalhes e nas suas pequenas descobertas como artistas, amantes, amigos.

Já em “Quarto de Despejo” encontramos toda a dor da vida de Maria Carolina de Jesus, catadora de papel, vivendo na São Paulo da metade do século passado as mesmas dificuldades de muitos brasileiros de hoje. Com seu jeito simples e humilde, refletido em seu texto coloquial de quem teve pouco acesso aos estudos, temos uma vontade imensa e irresistível de escrever sobre tudo aquilo que, mas do que visto, é sofrido. Nas palavras de Maria Carolina encontrei ecos de uma realidade teimosa em persistir ainda hoje. Ecos da realidade vivida por minha avó, igualmente uma mulher negra, pobre sem acesso a educação e de quem lembrava a cada virada de página.

Maus

“Maus”

Não é de hoje que quero ler “Maus”. Finalmente esse ano consegui realizar o desejo ao encontrar o volume único com um precinho excelente no Estante Virtual. Eu já comecei a leitura sabendo da importância e da qualidade da obra. Mesmo assim, não teve como não ficar profundamente impressionado com a história de Vladek Spielgman, contada por seu filho Art Spielgman com rara objetividade, embora, sem nunca perder a sensibilidade. Apesar de ter sua história contada pelo próprio filho, o Vladek que encontramos nas páginas não é, nem de longe, um herói maior que vida, sobrevivente de um dos momentos mais sombrios da história da humanidade, personificação esperada de uma história contada pelo seu próprio filho. Mas não aqui. Ao invés do herói o que vemos é um homem mesquinho, teimoso, preconceituoso e oportunista, do tipo que aparenta nunca dar ponto sem nó. Mas também é um homem carente, solitário, e ressentido da ausência do filho. Ou seja, um ser humano como qualquer outro. E é justamente aí onde reside, em minha opinião, o grande mérito de “Maus”: essa não é mais uma história uma sobre heróis e vilões, tragédias e milagres dentre tantas já ouvidas e vividas nos anos de Holocausto. É a história de uma humanidade capaz de ser tão terrivelmente mesquinha e, ao mesmo tempo, guardar dentro de si um potencial para o bem quase infindável vista pelos olhos de um pessoa comum, que, em momento algum se apercebe desse fato. É uma história que nos ajuda a entender um pouco mais sobre nós mesmos, ao mesmo tempo em que incomoda com mais e mais perguntas sobre nosso papel na história.

  1. Um livro e um quadrinho que te decepcionaram em 2017?

De Roswell à Varginha

“De Roswell à Varginha”

Se tem um tema o qual eu gosto de ler é sobre os supostamente verdadeiros casos ufológicos. No entanto, longe de ser uma versão brazuca do Giorgio Tsoukalos (nem cabelo pra isso tenho), eu procuro ser bastante cético quanto a esses relatos, sempre mantendo os pés no chão, evitando ao máximo me deixar levar pelo sensacionalismo que, invariavelmente, os acompanham. Ainda assim o tema me fascina. Especialmente o assim chamado Caso Varginha. Por ter alcançado grande repercussão até mesmo internacionalmente justamente na época de minha adolescência (mais precisamente em janeiro de 1996), esse foi um caso que até hoje chama muito a minha atenção. Por isso, que, quando encontrei esse livrinho, de autoria do ufólogo Renato Azevedo, fiquei bem empolgado e ansioso por sua leitura. Especialmente ao descobrir que a obra não tinha a pretensão de ser um relatório “verídico” dos fatos supostamente ocorridos, mas sim uma história de ficção baseadas nesses acontecimentos fazendo uma ponte entre o famoso caso brasileiro e seu equivalente americano, ocorrido meio século antes em Roswell.

Infelizmente, apesar disso, já bem no começo o livro não se decide se é texto de ficção ou obra de pesquisa, isso sem falar nos vários personagens clichês. O texto foi claudicando nessa levada até o seu término, e, apesar de tudo o que foi relatado e de alguns buracos na trama, até que terminou bem. O título também não ajuda em nada, pois fala-se bem mais de Varginha (e do caso Itaipu, outro caso ocorrido no Brasil) do que o de Roswell. Uma pena porque a ideia de se abordar o ocorrido em Varginha é muito interessante. Mas o livro poderia ser bem melhor.

O Grande Duque

“O Grande Duque”

“O Grande Duque” conta a história de Wulf o melhor piloto da Luftwaffe e de Lilya, pertencente ao esquadrão de pilotas russas que fazem missões noturnas, “As Bruxas da Noite”, durante a Segunda Guerra Mundial. Para falar a verdade, essa não é uma HQ ruim. Belamente ilustrada e com um roteiro até que interessante, ela está aqui porque me incomodou bastante o modo como a história de Lilya e das Bruxas da Noite foi retratada. Ao final da história sabemos muito mais das intenções e da história do piloto alemão do que de sua colega russa, a qual, de modo geral, quando não estava voando, era mostrada como apenas como uma mulher bonita que precisava usar de sexo para conseguir o que queria ou sair de problemas. De fato, somente numa única ocasião ela não usou esse “artifício”, mas que não foi mostrada explicitamente, ficando apenas subentendida. Aliás, todas as mulheres na história são mostradas como conseguindo o que querem quase sempre fazendo uso do sexo. Apesar de entender todas as dificuldades enfrentadas pelas mulheres naquele período, penso que não custa nada se esforçar um pouquinho em mostrar isso como um convite à reflexão e questionamento. Assim, fica aqui a decepção com a HQ quanto a esse detalhe bem importante.

  1. A melhor adaptação que você viu em 2017?

Estrelas Além do Tempo

“Estrelas Além do Tempo”

Eu li o livro de Margot Lee Shetterly poucos dias antes de assistir o filme estrelado por Katharine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. E, apesar de livro e filme serem bem diferentes um do outro, é impressionante como ambos conseguem ser lindamente inspiradores cada um ao seu modo. O livro: um belo e excepcional exemplo de pesquisa historiográfica do trabalho das computadoras das mulheres, em especial as negras, nos primórdios da NACA (mais tarde, NASA). O filme: uma inspiradora e necessária obra sobre as dificuldades de ser uma mulher negra procurando seu espaço num ambiente de trabalho dominado por homens brancos nos anos 60. O filme acerta ao se concentrar na história de Katharine Johnson (que fez os cálculos de reentrada da cápsula espacial levando o astronauta John Glenn), Dorothy Vaughan (uma das únicas supervisoras negras da agência) e Mary Jackson (a primeira engenheira negra da Nasa), deixando a obra original mais acessível ao público não acostumado com a leitura de obras mais acadêmicas. Mesmo exagerando em alguns detalhes e criando algumas cenas que nunca existiram de fato, o enredo é perfeito em demonstrar a segregação existente para com as mulheres negras, mas principalmente em tirar do ocultamento a história de mulheres tão importantes naquele que é considerado um dos momentos mais marcantes da história da humanidade: a conquista do espaço. E nisso, meus amigos, contou com a ajuda primorosa, elogiada e, importante destacar, premiada do trio de atrizes principais.

Mulher Maravilha

“Mulher Maravilha”

Aprendi a gostar da Mulher Maravilha lendo alguns formatinhos da personagem na fase Géorge Perez, tida por muitos como sua melhor fase até hoje. Um encanto que cresceu com a qualidade da série animada Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites. Por isso e por entender que já estava mais do que na hora de vermos um filme decente com uma heroína no protagonismo, eu estava tão ansioso pela estreia de “Mulher Maravilha” estrelado por Gal Gadot. Expectativa que cresceu uns mil por cento depois de Batman vs. Superman. Mesmo não gostando desse filme, o aparecimento triunfal da filha de Hipólita e a incrível comoção que ela causou, foi algo incrível de se sentir. E o filme não decepcionou em nada! Um enredo enxuto, tranquilo, tocando em temas pertinentes sobre representatividade não apenas feminina, com boas atuações e, ponto alto em minha opinião, sem aquela overdose de batalhas megalomaníacas, cuja única função na trama é fazer valer o uso da tecnologia 3D. O ritmo da história é calmo, tratando de contar a história sem pressa e sem atropelos, permitindo que tenhamos contato com as personagens e soframos de verdade quando algo acontece com eles. Em resumo: uma adaptação impecável e nada menos que merecida para a primeira super-heroína dos quadrinhos.

  1. Um livro e um quadrinho que não conseguiu terminar em 2017?

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

“A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”

De todos os livros que não consegui ler em 2017 o que mais senti foi essa obra que trata das memórias das veteranas russas da Segunda Guerra Mundial. Justamente por não se concentrar naquilo que já conhecemos pelos livros, filmes e miríades de obras que já abordaram o conflito, tais como grandes batalhas, estratégias e coisas afim, mas na perspectiva dessas veteranas, revelando o ser humano escondido pelo conflito, que quero muito ler esse livro.

Placas Tectônicas

“Placas Tectônicas”

Quando marquei essa HQ de Margaux Motin no texto do ano passado para minha meta de leitura, eu dei como justificativa o fato de tanta gente boa falar bem dela. E de lá para cá a vontade só cresceu ao ter tido contato com mais alguns detalhes do enredo, de sua linda arte e de várias outras resenhas elogiosas ao trabalho. Agora é só conseguir comprar a HQ para poder conferir em primeira mão.

  1. Quantos livros e quadrinhos você conseguiu ler em 2017?

Para 2017 eu estipulei inicialmente uma meta de 50 obras, sendo 30 livros e 20 quadrinhos. E, apesar da leitura dos quadrinhos ter caminhado meio devagar, a leitura dos livros correu a jato. Já na metade do ano eu tinha lido 28 livros. Com isso me empolguei e coloquei mais 30 livros para o restante do ano. Ou seja, no total foram 60 livros estabelecidos como meta de leitura. E já que a leitura dos quadrinhos não evoluiu, mantive a meta de 20 quadrinhos. Mas mesmo com um começo a jato, no segundo semestre fui obrigado a diminuir o ritmo para me dedicar aos estudos para concurso. Por causa disso acabei lendo um total de 46 obras: 42 livros e 4 quadrinhos. No total li 22 livros a mais e cinco quadrinhos a menos quando comparado com a meta do ano anterior de 2016. E foram também mais páginas lidas em 2017, num total de 15.087, enquanto em 2017, li apenas 8.155 páginas.

Nas imagens, outras três excelentes leituras que recomendo bastante.

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2018

  1. Um livro e um quadrinho que está ansioso pela leitura em 2018?

Deixe as Estrelas Falarem

“Deixe as Estrelas Falarem”

Livro da Capitã Sybylla. Motivo mais do que suficiente para eu estar ansioso por sua leitura. Sou fã de tudo o que Sybylla escreve, não apenas de seus textos no Momentum Saga, mas também de seus contos e livros, os quais recomendo bastante.

Uma Bolota Molenga e Feliz

“Uma Bolota Molenga e Feliz”

Conheço as tirinhas de Sarah Andersen pelas postagens de amigos e conhecidos nas redes sociais. Sua bem dosada mistura de humor e reflexão me cativaram de imediato, trazendo junto a vontade de ler essa coletânea.

  1. Um (ou mais) desafio que se dispôs a participar em 2018?

Antes mesmo da Sybylla recomendar esses 52 livros escritos por mulheres para ler nesse ano de 2018 eu já andava com a ideia pela cabeça: não apenas ler livros escritos por mulheres mas também livros sobre mulheres, ou ambos de preferência. E assim ficou estabelecido o meu desafio para o ano. Isso e tentar de algum jeito aumentar o número de HQs lidas. Na realidade, esse é meu segundo desafio: ler todas as 20 HQs listadas em minha meta de leitura.

  1. A adaptação mais aguardada por você em 2018?

Pantera Negra

“Pantera Negra”

Se ano passado a minha adaptação mais aguardada era a merecida primeira adaptação de um quadrinho protagonizado por uma mulher, imaginem a minha expectativa para assistir a adaptação do primeiro herói negro dos quadrinhos, repleto de personagens negros, tanto homens e mulheres! Que venha o “Pantera Negra”.

  1. Uma leitura que pretende retomar em 2018?

Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial

“Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial”

Esse foi o livro que eu estava lendo quando terminou o ano de 2017, bem na época que comecei a pegar pesado nos estudos. É um livro bem interessante sobre os motivos que levaram ao início do conflito, ampliando algumas informações, esclarecendo outras e trazendo à tona outro tanto. Como não abandonei sua leitura, não necessariamente pretendo retoma-lo, mas sim finaliza-lo.

Homem-Aranha A Última Caçada de Kraven-Vol. 2

“Homem Aranha: A Última Caçada de Kraven, vol. 2”.

Li o primeiro volume e posterguei o segundo. Tá na hora de retomar essa clássica leitura.

  1. Três livros e três quadrinhos da sua meta para 2018?

1-O Que É Lugar de Fala? de Djamila Ribeiro. Traz questionamentos sobre um tema pertinente e necessário, escrito por uma autora extremamente coerente e capacitada.

2-Star Wars: Legado de Sangue de Claudia Gray. Um dos livros mais comentados e bem resenhados do universo expandido, tendo como protagonista ninguém menos que a Senadora Leia. Para mim são motivos suficientes para tê-lo na minha meta.

3-Os Despossuídos de Ursula K. Le Guin. A leitura dessa autora é obrigatória e imprescindível para qualquer fã de ficção científica.

1-“Angela Della Morte” de Salvador Sanz. Uma agente especial que engana o próprio corpo simulando sua morte para liberar sua alma e, assim, ocupar outras pessoas para realizar suas missões. Ficção científica com traços de terror e lindas imagens.

2-“Bordados” de Marjane Satrapi. Penso ser obrigação de todo fã de quadrinhos conhecer a obra completa de Marjani Satrapi.

3-“Retalhos” de Craig Thompson. Um extenuante trabalho de pesquisa de sete anos para criar uma obra sensível num show de gravuras inspiradas na caligrafia árabe. Se isso não for motivo suficiente para querer ler essa obra, não sei mais o que é.

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Até mais!

 

91-DOG MAN STAR

Suede Dog Man Star

Dog Man Star – Suede

Banda: Suede

Integrantes: Brett Anderson (vocais), Bernard Butler (guitarras), Simon Gilbert (bateria) e Mat Osman (contrabaixo).

Gravação: 22 Março a 26 Julho de 1994 no Master Rock Studios em Londres

Lançamento: 10 de Outubro de 1994

Duração: 57m50s

Produção: Ed Buller

Sobre o disco:

Em meados dos anos 90 o que fazia a cabeça da garotada que curtia rock era o movimento grunge. Isso nos EUA, pois do outro lado do Atlântico, nas terras de Sua Majestade, o sucesso atendia pelo nome de Britpop. Pulp, The Verve, Supergrass, Elastica, Sleeper, Blur e Oasis faziam um contraponto, em teoria, mais cabeça ao som que vinha da antiga colônia.

Sob a inspiração de bandas do quilate de The Smiths e, um pouco mais indiretamente, do glam rock de David Bowie, o Suede se destacava das demais graças as letras dúbias (de onde se origina o nome da banda, uma gíria londrina para dúbio) e um tanto ácidas do também vocalista Brett Anderson e da qualidade do guitarrista Bernard Butler, os grandes destaques e fundadores da banda. Depois de vários singles e de uma estreia de sucesso a mídia britânica exaltava o grupo e alçava Brett Anderson ao cargo de “salvador do orgulho britânico” frente à invasão do grunge.

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Todo esse sucesso e aceitação da crítica no entanto não livraram o Suede de enfrentar uma dura crise interna. Apesar de serem os fundadores da banda, Anderson e Butler não se entendiam, brigando e discutindo constantemente. Para completar os excessos com drogas e a polêmica ao redor do clip do single avulso “Stay Together” elevou as tensões ao máximo. Ao mesmo tempo que o britpop estourava revelando Oasis, Blur e outros, o Suede parecia fadado ao fim.

Com tudo isso em mente, Anderson se trancou numa mansão de onde só saiu após o consumo intenso de drogas e ter escrito todas as letras do álbum que viria a se tornar Dog Man Star. Renegando veementemente os títulos de salvador do que quer fosse atribuído pela mídia, o letrista deixou transparecer esse inconformismo nas letras ambientadas justamente no, digamos assim, território “inimigo”: os EUA, mais precisamente a Hollywood entre os anos 40 e 50. Glamour, decadência, cinismo, temas sombrios, tudo encaixado a perfeição nas letras dúbias.

Infelizmente toda qualidade e beleza soturna do material não impediu que as rusgas entre Anderson e Butler continuassem e mesmo se intensificassem quando a banda se reuniu para as gravações. Com pouco mais de um mês de gravações Butler não aguentou e saiu do grupo deixando a canção “The Power” inacabada, levando Anderson a gravar a guitarra nessa canção, embora os créditos de todas as guitarras do disco sejam dados a Butler.

A saída prematura de Butler não impediu um trabalho inspirado, entregando algumas das guitarras mais lindas não só do grupo, como de, provavelmente, todo o britpop, fazendo jus ao título de melhor guitarrista britânico desde Johhny Marr, também dado pela mídia britânica. O casamento entre o instrumental – com Gilbert e Osman fazendo bonito frente aos colegas mais talentosos – e as letras carregadas de androginia, cinismo, sarcasmo e ambiguidade seria ainda abrilhantado pelos lindos e competentes vocais de Anderson fazendo de Dog Man Star se não um dos melhores, muito provavelmente o mais interessante do movimento. Isso mesmo a despeito do desprezo de Anderson para com toda a vibe da mídia com o britpop.

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Assim que foi lançado a mídia especializada como era de se esperar rasgou elogios para o trabalho. Mas verdade seja dita, nada do que foi dito sobre esse disco foi exagerado ou imerecido. Trabalho primoroso cheio de belíssimas canções que entregam a perfeição todo um clima lúgubre, decadente e introspectivo, cheio de melancólicas reflexões a respeito das inquietações de Anderson, alcançando o ápice em “The Asphalt World”, um dos mais lindos e comoventes do disco.

Mas, se a crítica amou, o mesmo não aconteceu com o público que, ainda tendo em mente o álbum de estreia, estranhou a atmosfera sombria do disco dando a ele uma recepção morna, se comparada ao anterior. Mesmo assim teve uma vendagem razoável e hoje é indiscutivelmente considerado uma pequena obra-prima.

Com Dog Man Star, o Suede, esses filhos não tão bastardos de David Bowie e de Morrissey e seu The Smiths, conseguiu a proeza de reverenciar suas influências e ainda assim fazer um som próprio com identidade. São um ótimo contraponto aos irmãos Gallagher do Oasis no que se refere ao cenário do britpop. Um álbum sólido, com qualidade inquestionável e ótima sonoridade, definitivamente o melhor do Suede.

A seguir você pode conferir a minha música preferida do álbum:

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

A VOLTA PARA CASA: CONSIDERAÇÕES SOBRE STAR TREK E DISCOVERY

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Já tem algum tempo estreou a tão aguardada nova série da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek no original em inglês). E a recepção dos fãs foi – para se dizer o mínimo –, polêmica. Na tentativa de entender a divisão causada, com alguns fãs amando e outro odiando, faço aqui uma breve consideração sobre a franquia  e da nova série tendo por base os episódios lançados até o momento. E para quem não assistiu aos episódios já exibidos pode ler tranquilo que esse é um texto livre de spoilers.

Costumo encarar cada nova série ou filme da franquia, como um volta para casa. Um retorno para aquela específica porção do espaço da qual guardamos um sentimento de afeto e carinho especial, em geral por ter sido onde crescemos, onde fomos criados. Em suma, um cantinho cheio de lembranças e significados, de onde guardamos certo carinho e afetividade em virtude de sua relação com nossas vivências. Na Geografia esse é, grosso modo, o conceito de Lugar, uma das categorias de análise básicas usadas por essa ciência em seus estudos.

A cada novo filme ou série da franquia que assisto a sensação é a de voltar a esse hipotético lar após terem se passado vários anos. Quem já passou pela experiência entende a sensação. Apesar do local não ser mais exatamente o mesmo que conhecemos – afinal pode ser que o piso tenha sido trocado, as portas, janelas e algumas paredes tenham sido pintadas (ou mesmo derrubadas e fechadas com novas paredes levantadas ou portas e janelas abertas), – ainda assim reconhecemos ali o lugar onde passamos tantos momentos e lembranças marcantes. Alguns deles muito bons, outros nem tanto.

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A tripulação de A Nova Geração que gerou um intenso debate entre os fãs que afirmavam que a série não era Star Trek de verdade

Foi assim quando assisti pela primeira vez A Nova Geração. Embora diferente em vários aspectos, ainda era Jornada nas Estrelas. Mudanças estéticas e algumas estruturais foram feitas. Não apenas o visual das naves e uniformes está diferente, mas o próprio modo de contar as histórias também precisava ser diferente. Nem tanto na primeira e segunda temporada, ainda emulando a estética narrativa da Série Clássica, mas, a partir da terceira temporada cada vez mais distintas de sua predecessora. Mas, apesar dessas paredes pintadas e de alguns cômodos modificados (e de todo o choro dos fãs mais xiitas). Apesar de diferente, aquele ainda era um universo capaz de evocar todo o excelente material clássico, sem deixar de imprimir sua própria identidade. Esse processo, aliás, foi essencial em ampliar o background da franquia. Algo como se, ao voltarmos para a casa, percebêssemos que a reforma não só mudou alguns cômodos, mas também acrescentou outros tantos, valorizando-a.

E também foi assim a cada novo produto da franquia, filme ou série: a sensação era sempre esse mesmo misto de estranhamento e reencontro. Deep Space Nine, Voyager, Enterprise. Em graus diferentes, numas mais e noutras menos, conseguíamos nos identificar e identificar os elementos que dão alma e personalidade à franquia ainda que novos elementos fossem agregados.

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Voyager e sua tripulação eclética. Nenhuma outra série de Star Trek (até agora) ousou tanto em diversidade.

Tudo isso mudou com a chegada do aclamado reboot feito por J. J. Abrams. Se por um lado a atualização estética das naves, uniformes e demais apetrechos – num esforço consciente de deixá-los mais realistas – foi, de certa maneira, bem-vinda, o mesmo não se pode dizer da decisão de fazer um filme mais voltado para a ação genérica, deixando de lado os questionamentos filosóficos e/ou sociais. Embora a história tenha arranhado alguns desses questionamentos (as mudanças causadas na linha temporal devido a uma viagem no tempo, que, apesar de batida, quando bem executada rende boas histórias) o grande foco no filme foi de fato a ação e a aventura, aspectos esses que sempre estiveram ligados à franquia, é verdade, mas nunca antes como o destaque principal. Isso causou uma grande estranheza em boa parte dos fãs. De repente aquele lugar antes tão nosso, já não era mais assim tão familiar.

Vejam bem, não estou dizendo que o reboot de Abrams tenha sido um filme ruim. Ele funcionou enquanto um típico blockbuster genérico de ação, com muita correria e porrada, cada vez mais comuns por aí. Salvo alguns buracos no enredo, uma ou outra decisão equivocada (lens flare, alguém?) e uma atuação controversa (Simon Pegg estou falando contigo), Star Trek, foi um bom filme, dos melhores do ano de 2009, com uma direção e edição adequadas, além da boa atuação por boa parte do elenco – com destaque inegável para o Dr. McCoy de Karl Urban, uma das poucas unanimidades do filme. Mas, apesar de ser um bom filme, cumprindo com bastante louvor o objetivo de trazer novo folego e, principalmente, novos fãs consumidores para a franquia, não há como negar que, de algum modo, esse não é bem, bem um filme de Jornada nas Estrelas, daí o estranhamento por parte do fandom. Um estranhamento que só fez se aprofundar com o equivocado Star Trek Além da Escuridão de 2013 e o esforçado Star Trek Sem Fronteiras de 2016.

Reboot

Star Trek de 2009: o Reboot que desagradou os fãs, porém serviu de porta de entrada para toda uma nova geração de fãs

O anúncio de que uma nova série estava nos planos da CBS deixou novamente os fãs na expectativa, apesar de um tanto temerosos, conforme relatei nesse texto. E o temor só fez aumentar a cada nova informação. Colocar a trama da nova série se passando cronologicamente após Enterprise, mas antes da Série Clássica e o conceito visual muito mais próximo dos reboots que de qualquer outra série ou filme foram alguns dos principais motivos de polêmica entre os fãs. Mesmo com algumas novidades muito bem-vindas (a exemplo do elenco cheio de medalhões como Michelle Yeoh de O Tigre e o Dragão, Jason Isaacs da série Harry Potter, sem falar da quase novata, mas igualmente talentosa, Sonequa Martin-Green de The Walking Dead), o temor de que a série fosse uma continuação do reboot de Abrams, ou seguisse sua linha mais direcionada para a ação e menos para a reflexão, só fez crescer entre os fãs mais antigos.

A polêmica se acirrou com o lançamento do aguardado trailer da série. Apesar da belíssima produção, o tom altamente bélico apresentado além do já citado conceito visual remetendo muito mais para o Abramsverso, só serviram para reforçar o sentimento de estranheza de muitos fãs. Ainda mais quando se notou nas rápidas cenas uma tecnologia muito mais avançada do que a mostrada, não somente na Série Clássica, como em qualquer outra série ou filme da franquia, com a óbvia exceção do reboot. Mesmo com alguns fãs esperando a estreia para poder emitir uma opinião mais concreta, para uma parcela significativa do fandom, a volta ao lar já não parecia tão excitante assim.

Enterprise

A tripulação de Enterprise, o ponto fora da curva na franquia: muito potencial o qual sequer foi arranhado

Por fim a nova série estreou no dia 24 de setembro com os episódios “The Vulcan Hello” e “Battle At The Binary Stars” através do novo serviço de streaming da CBS, sendo liberada no dia seguinte pela Netflix. A estreia, conforme já mencionado, foi polêmica.

De maneira geral, as opiniões não foram muito diferentes do que já vinha sendo exposto anteriormente. Muitas reclamações a respeito da estética, da tecnologia apresentada ser anacronicamente muito mais avançada do que mostrada em outras séries (não apenas a Clássica) etc. Por outro lado, esses mesmos aspectos foram muito bem aceitos por uma parcela dos fãs menos apegadas aos ditames do chamado cânone, sendo que boa parte deles não é formada pelos fãs mais novos, os que conheceram a franquia através dos filmes do Reboot. Muitos fãs mais antigos, por assim dizer, abraçaram a nova série não apenas por se sentirem órfãos após quase uma década de Jornada fora da TV, mas principalmente por reconhecerem um esforço de toda a equipe de Discovery em entregar um produto de qualidade, nos moldes do que há de melhor sendo feito na TV norte-americana atualmente. O mix direção ágil e moderna aliada aos roteiros inteligentes e dinâmicos estão entre as características mais interessantes da nova série, embora tenhamos outro aspecto importante a se destacar: a dinâmica e tridimensionalidade dos personagens já em seus primeiros momentos (algo que em geral era uma falha nos primeiros episódios das séries anteriores, onde os personagens iam ganhando mais e mais camadas no decorrer dos episódios).

Deep Space Nine

Deep Space Nine: arcos de histórias e tons mais sombrios aspectos elogiados da série e curiosamente não tão admirados em Discovery (até agora)

Particularmente eu destaco como principal ponto positivo de Star Trek Discovery a coragem de quebrar paradigmas estabelecidos anteriormente, em especial na série clássica, inclusive aprofundando o tom mais sombrio explorado com mais força apenas em Deep Space Nine (curiosamente uma das séries mais elogiadas por muitos fãs, justo por flertar com esses tons em seus episódios). Com sua releitura mais moderna, não apenas nos moldes de produção, mas também de exibição, ao abraçar o sistema de streaming, mas sem deixar de lado elementos tão característicos e que fizeram e fazem a cabeça dos fãs de ontem e de hoje, Discovery vem se mostrando uma grata surpresa. Assim como suas antecessoras ela causa um certo estranhamento a primeira vista, mas também um inevitável fascínio. E a medida que os novos episódios vão sendo exibidos, cada vez mais aquela sensação de volta para casa vai se fortalecendo e, aos poucos, criando em nós aqueles sentimento de afeto e carinho especial, através dos novos momentos de encantamento, raiva, beleza, decepção.

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