RESENHA: DEIXE AS ESTRELAS FALAREM

Rosa não vê a hora de voltar para sua nave, o cargueiro independente Amaterasu. Reúne sua tripulação, mas se vê em uma situação desesperadora quando se percebe sem dinheiro, com a nave ancorada em um espaço-porto. Eis que um contrabando misterioso surge e uma oportunidade rara de fazer muito dinheiro em pouco tempo. Mas o trabalho não virá sem consequências para Rosa e sua tripulação.

Dei as Estrelas Falarem Amazon

No geral, todo fã de ficção científica tem em mente uma ideia mais ou menos clara de como são (ou deveriam/deverão ser) as viagens espaciais nas obras que leem ou assistem: um homem intrépido e audaz na cadeira de comando de uma poderosa nave de combate e/ou pesquisa a serviço de uma gigantesca frota ou organização política viajando pelo espaço enfrentando inimigos perigosos. Ou seja, o padrão estabelecido com a Série Clássica de Jornada nas Estrelas lá no final dos anos 60 e seguido não apenas por seus spin-offs, mas também por inúmeras outras.

han-solo-movie

Um dos vários exemplos de intrépido e audaz capitão

Logo no começo de Deixe as Estrelas Falarem – publicado pela Editora Dame Blanche – sua autora, Lady Sybylla do Momentum Saga, mostra algo totalmente diferente desse perfil: no comando do velho cargueiro independente com problemas para conseguir novos serviços, temos uma mulher de 90 anos, mãe e também avó. Através da narrativa em primeira pessoa descobrimos que Rosa Okonedo, apesar de adorar o trabalho, sente um pouco de remorso de ter sido uma mãe ausente, passando mais tempo no espaço do que em casa na Terra.

Esse é um dos pontos fortes da obra. Sybylla não teve receio em fugir dos padrões estabelecidos em outras obras de ficção. Fazendo isso ela cria personagens muito verossímeis, com os quais fica fácil a identificação, começando pela própria capitã – mas não se limitando a ela, como mostra nossa rápida identificação e simpatia com os personagens secundários. Independente, dando duro toda a vida e tendo que lidar não apenas com o trabalho, mas também as dificuldades de se manter uma família, estando as vezes, literalmente, a meia galáxia de distância, Rosa é facilmente reconhecível em qualquer mulher em nossa sociedade, dando duro em jornadas duplas de trabalho. E o detalhe que mais me chamou a atenção: ainda ativa mesmo aos 90 anos.

Especialmente nas várias séries da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek) fica bem claro que a expectativa de vida dos seres humanos deu um salto, com seres humanos vivendo até os 125 anos em média. A explicação para essa incrível longevidade é muito similar à da nossa realidade: em grande parte graças aos avanços médicos que permitiram controlar e até mesmo eliminar doenças até então letais, além das melhorias e disseminação de melhores condições de higiene e saneamento básico. Assim saltamos de uma expectativa de vida entre 30 e 40 anos no início do século XX para os atuais 60 a 70 anos em média (com alguns países mais privilegiados chegando a 80 e 90 anos em média). Esse aumento na expectativa de vida, acompanhada da melhoria na qualidade de vida obviamente, levou a uma redefinição do que é ser idoso. Hoje é comum vermos senhoras e senhores com mais de setenta anos levando uma vida extremamente ativa, trabalhando, praticando esportes etc. Algo bem diferente do conceito de idoso que tínhamos há algum tempo.

Infelizmente a série pouco utilizou esse aspecto nos mais de 700 episódios que compõem a franquia. Raríssimas são as vezes que vemos pessoas com mais de 90 anos aparecerem de maneira ativa em tela. Uma das poucas lembranças que tenho de uma personagem nesse perfil é a Drª Katherine “Kate” Pulaski, a oficiala médica chefe da U.S.S. Enterprise D. Infelizmente a boa doutora durou apenas uma temporada cedendo o lugar para o retorno da Drª Beverly Crusher. Era de se esperar que com uma sociedade com tão alta expectativa de vida, mais e mais indivíduos fossem mais atuantes, trabalhando e exercendo outras atividades mesmo depois dos 90 anos.

Katherine_Pulaski-Memory Alpha

Doutora Katherine “Kate” Pulaski em imagem do Memory Alpha

Outro ponto interessante é o aspecto econômico das viagens espaciais. Sabemos que enviar veículos, mesmo os não tripulados, ao espaço demanda um custo enorme, vide os orçamentos bilionários das diversas agências espaciais existentes (NASA, ESA, JAXA, Roscomos). Obviamente, no futuro altamente tecnológico imaginado, não apenas em Deixe as Estrelas Falarem, mas em praticamente todas as obras da ficção científica, esses gastos foram consideravelmente reduzidos. Tal redução permitiu a construção e manutenção de imensas frotas de naves e estações espaciais. No entanto, reduzir consideravelmente os gastos não significa necessariamente dizer que as atividades espaciais sejam necessariamente baratas. Como toda e qualquer atividade, essa também demanda recursos consideráveis para sua manutenção, bem como daqueles que a mantem em funcionamento.

Sybylla não só detalha essa questão econômica, inclusive com um certo detalhamento, como o utiliza muito bem na trama usando-o como mote para a Capitã Okonedo aceitar o transporte de um misterioso contrabando, algo que vai totalmente contra seus princípios. Mas entre pegar a carga ilegal – recebendo uma quantia substancialmente alta no processo – e arriscar ficar um tempo sem trabalho e, consequentemente, sem dinheiro, a preocupação com seus tripulantes fala mais alto.

No final das contas Deixe as Estrelas Falarem é uma história atraente, com personagens cativantes, uma trama interessante e que não teme abordar temas até bem poucos usados na Ficção Científica de modo geral. E o modo como isso é feito, integrando organicamente à trama é um dos pontos fortes da trama. E, embora eu não costume achar que um livro curto seja necessariamente um ponto negativo, nesse caso acredito que um mais algumas páginas para um melhor desenvolvimento dos personagens secundários não seria de todo mal. E não falo isso porque eles não tenham tido um desenvolvimento adequado. Ao contrário, cada um dos personagens tem seu momento e seu espaço na trama, mas justamente por serem tão interessantes ficamos com vontade de aprender e saber mais sobre eles. Quem sabe numa bem-vinda continuação?

Se você ainda não leu, recomendo fortemente Deixe as Estrelas Falarem. Pode compra-lo através desse link.

♦ ♦ ♦

Gostou do texto? Então sinta-se a vontade para ler os demais textos no blog. Também não deixe de curtir, comentar e compartilhar. E para ser informado de novas postagens ou para saber o que ando lendo, assistindo e ouvindo, curta também nossa fanpage!

Até mais!

Anúncios

91-DOG MAN STAR

Suede Dog Man Star

Dog Man Star – Suede

Banda: Suede

Integrantes: Brett Anderson (vocais), Bernard Butler (guitarras), Simon Gilbert (bateria) e Mat Osman (contrabaixo).

Gravação: 22 Março a 26 Julho de 1994 no Master Rock Studios em Londres

Lançamento: 10 de Outubro de 1994

Duração: 57m50s

Produção: Ed Buller

Sobre o disco:

Em meados dos anos 90 o que fazia a cabeça da garotada que curtia rock era o movimento grunge. Isso nos EUA, pois do outro lado do Atlântico, nas terras de Sua Majestade, o sucesso atendia pelo nome de Britpop. Pulp, The Verve, Supergrass, Elastica, Sleeper, Blur e Oasis faziam um contraponto, em teoria, mais cabeça ao som que vinha da antiga colônia.

Sob a inspiração de bandas do quilate de The Smiths e, um pouco mais indiretamente, do glam rock de David Bowie, o Suede se destacava das demais graças as letras dúbias (de onde se origina o nome da banda, uma gíria londrina para dúbio) e um tanto ácidas do também vocalista Brett Anderson e da qualidade do guitarrista Bernard Butler, os grandes destaques e fundadores da banda. Depois de vários singles e de uma estreia de sucesso a mídia britânica exaltava o grupo e alçava Brett Anderson ao cargo de “salvador do orgulho britânico” frente à invasão do grunge.

007 001

Todo esse sucesso e aceitação da crítica no entanto não livraram o Suede de enfrentar uma dura crise interna. Apesar de serem os fundadores da banda, Anderson e Butler não se entendiam, brigando e discutindo constantemente. Para completar os excessos com drogas e a polêmica ao redor do clip do single avulso “Stay Together” elevou as tensões ao máximo. Ao mesmo tempo que o britpop estourava revelando Oasis, Blur e outros, o Suede parecia fadado ao fim.

Com tudo isso em mente, Anderson se trancou numa mansão de onde só saiu após o consumo intenso de drogas e ter escrito todas as letras do álbum que viria a se tornar Dog Man Star. Renegando veementemente os títulos de salvador do que quer fosse atribuído pela mídia, o letrista deixou transparecer esse inconformismo nas letras ambientadas justamente no, digamos assim, território “inimigo”: os EUA, mais precisamente a Hollywood entre os anos 40 e 50. Glamour, decadência, cinismo, temas sombrios, tudo encaixado a perfeição nas letras dúbias.

Infelizmente toda qualidade e beleza soturna do material não impediu que as rusgas entre Anderson e Butler continuassem e mesmo se intensificassem quando a banda se reuniu para as gravações. Com pouco mais de um mês de gravações Butler não aguentou e saiu do grupo deixando a canção “The Power” inacabada, levando Anderson a gravar a guitarra nessa canção, embora os créditos de todas as guitarras do disco sejam dados a Butler.

A saída prematura de Butler não impediu um trabalho inspirado, entregando algumas das guitarras mais lindas não só do grupo, como de, provavelmente, todo o britpop, fazendo jus ao título de melhor guitarrista britânico desde Johhny Marr, também dado pela mídia britânica. O casamento entre o instrumental – com Gilbert e Osman fazendo bonito frente aos colegas mais talentosos – e as letras carregadas de androginia, cinismo, sarcasmo e ambiguidade seria ainda abrilhantado pelos lindos e competentes vocais de Anderson fazendo de Dog Man Star se não um dos melhores, muito provavelmente o mais interessante do movimento. Isso mesmo a despeito do desprezo de Anderson para com toda a vibe da mídia com o britpop.

maxresdefault

Assim que foi lançado a mídia especializada como era de se esperar rasgou elogios para o trabalho. Mas verdade seja dita, nada do que foi dito sobre esse disco foi exagerado ou imerecido. Trabalho primoroso cheio de belíssimas canções que entregam a perfeição todo um clima lúgubre, decadente e introspectivo, cheio de melancólicas reflexões a respeito das inquietações de Anderson, alcançando o ápice em “The Asphalt World”, um dos mais lindos e comoventes do disco.

Mas, se a crítica amou, o mesmo não aconteceu com o público que, ainda tendo em mente o álbum de estreia, estranhou a atmosfera sombria do disco dando a ele uma recepção morna, se comparada ao anterior. Mesmo assim teve uma vendagem razoável e hoje é indiscutivelmente considerado uma pequena obra-prima.

Com Dog Man Star, o Suede, esses filhos não tão bastardos de David Bowie e de Morrissey e seu The Smiths, conseguiu a proeza de reverenciar suas influências e ainda assim fazer um som próprio com identidade. São um ótimo contraponto aos irmãos Gallagher do Oasis no que se refere ao cenário do britpop. Um álbum sólido, com qualidade inquestionável e ótima sonoridade, definitivamente o melhor do Suede.

A seguir você pode conferir a minha música preferida do álbum:

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

O SONHO DA SULTANA

Universo Desconstruído é um projeto desenvolvido por Aline Valek e Lady Sybylla. Tem como principal proposta trazer questionamentos às desigualdades de gênero através de uma Ficção Científica com mais diversidade, que não seja machista, racista e homofóbica. Seu primeiro trabalho foi uma coletânea de contos de variadas autoras e autores que, fugindo do lugar comum dos estereótipos negativos sobre a imagem feminina, procuraram apresentar histórias onde as mulheres eram as personagens principais, discutindo e questionando as relações de gênero. Agora elas lançam um dos primeiros contos feministas de Ficção Científica escrito em 1905 por Roquia Sakhawat Hussain, escritora nascida em 09 de dezembro de 1880 no atual Bangladesh.

Seguindo a linha da resenha que fiz do livro Guerra Justa”, me propus a escrever uma resenha do conto de Roquia, O Sonho da Sultana”, também em forma de carta.

A belíssima capa de Aline Valek para “O Sonho da Sultana”

A belíssima capa de Aline Valek para “O Sonho da Sultana”

Prezada Roquia Sakhawat Hussain,

Escrevo essa breve carta já ciente da impossibilidade de recebê-la. Tempo e espaço infelizmente nos separam em várias décadas e muitos quilômetros, nos tornando personagens de realidades distantes. É bem verdade que, apesar da distância, nossas realidades, de fato, não são tão distantes assim. Ou ao menos, não tão diferentes.

Perdoe-me se pareço indelicado ao não me apresentar. Apenas julgo não serem necessárias tais convenções usuais diante do insólito de nossa comunicação. Afinal, ouso escrever-te distante 100 anos de seu presente, como se o tempo pudesse ser vencido tão facilmente quanto os inúmeros quilômetros que separam meu país do seu.

Sim prezada, Roquia, do século 21 te escrevo. E, justamente por ser do século 21 é que te escrevo. Esse é um século fantástico cheio de novidades, criações e invenções maravilhosas. Se a oportunidade tivesse de visitar-nos, creio que ficaria encantada com o mundo ao nosso redor. Apenas para que tenha uma ideia, muitos em meu tempo já utilizam a energia solar no dia a dia e sei de pelo menos uma localidade onde se “colhe” água de nevoeiros! Isso não te lembra de “O Sonho da Sultana”?

Oh, sim eu li teu conto! Apesar dos anos que nos separam (e de não falar inglês, devo confessar) o pude ler. E, se por acaso estiver curiosa para saber como o pude ler, saiba que nisso devemos ser gratos a duas mulheres incríveis que se dispuseram a traduzi-lo para o português, língua falada no Brasil onde vivo. Acredito que você adoraria conhecer Aline Valek e Lady Sybylla. Foram elas as minhas guias pelo mundo sonhado pela sultana, assim como esta foi guiada pela Irmã Sara em sua onírica jornada pela Terra D’Elas.

Roquia em desenho de Aline Valek

Roquia em desenho de Aline Valek

Sim, prezada Roquia, duas mulheres estiveram à frente do trabalho de tradução, revisão e lançamento de tua instigante utopia. Aline Valek é uma genial e talentosa escritora, formada em publicidade. Lady Sybylla, por sua vez, é geógrafa, tendo lecionado a disciplina e conquistado recentemente o mestrado na área, além de ser uma excelente escritora também. Ambas, além de já terem escritos livros maravilhosos, escrevem regularmente em blogs, uma ferramenta maravilhosa desse nosso século 21 que permite o acesso rápido de qualquer parte do planeta a textos escritos por quem quer que seja.

Como provavelmente já deve ter percebido vivemos num século cheio de maravilhas e de mulheres atuantes. Um século onde as mulheres conquistaram inúmeros direitos como o do acesso à educação. Século onde mulheres votam e são votadas. Onde mulheres não são apenas mães e donas de casa, mas que são presidentes de corporações, atletas vencedoras, atrizes famosas, cientistas, policiais, soldados, até mesmo astronautas veja você! Enfim, mulheres empoderadas assim como aquelas do Sonho da Sultana!

De fato, um século maravilhoso. Mas antes que o julgue apressadamente como uma realização da Terra D’Elas, me vejo obrigado a informa-la de que não é bem assim, infelizmente.

Muitos direitos foram conquistados sim, mas em muitos lugares elas ainda não podem votar ou ser votadas, por exemplo. Especialmente em países árabes, as mulheres ainda são obrigadas a se esconder, sendo feitas escravas em seus próprios lares por aqueles que deveriam ser seus companheiros e não senhores. Caladas e servis não tem acesso à educação, opinião ou qualquer outro privilégio supostamente exclusivo aos homens.

Essa realidade triste ainda faz parte da vida de muitas mulheres pelo mundo afora. A despeito de tantas conquistas, a despeito de tanto conhecimento em nosso século, muitos homens ainda acreditam que mulheres são seres inferiores, incapazes, afeitas apenas a frivolidades. E se por acaso julgar que tais homens sejam exclusividade dos países islâmicos (com suas purdas, zenanas etc.), é minha triste obrigação informar que não é bem assim. Em muitos lugares, independente da religião seguida ou do sistema legal vigente, muitos homens ainda se julgam mais que as mulheres. E, assim, notícias de violência e até assassinatos de mulheres, só pelo fato de serem mulheres, em muitos casos ainda são muito comuns.

Mas não pense que as mulheres estão a sofrer quietas e caladas essas agressões. Aqui e ali surgem vozes corajosas, dispostas a desafiar até mesmo a morte em muitos casos. Vozes poderosas que denunciam e que chamam a atenção para toda essa violência, mas que também ensinam e acalentam as violentadas.

Malala Yousafzai

Malala Yousafzai

Poderia citar inúmeras dessas vozes, mas não quero estender-me nessa carta que já se encontra por demais extensa, contrariando minha afirmação de brevidade. Uma vez que já citei minhas queridas e admiradas Aline Valek e Lady Sybylla, permita-me a gentileza de citar apenas mais um nome. O nome de uma jovem nascida num local e realidade não muito distante da sua (apesar desse nosso um século de distância), dona de uma coragem sem igual que desafiou toda uma lógica de dominação e ignorância pelo direito à educação, ao conhecimento. Malala Yousafzai é o nome dessa jovem voz, resistente como a rocha, capaz de sofrer ataques terríveis como o que quase tirou sua vida, mas que não se abala e continua lutando pelo que acredita. Imagino que se a visse discursando na Organização das Nações Unidas, choraria de emoção e orgulho por tamanha sensatez e coragem.

Enfim minha prezada, Roquia. Ousadamente do século 21 eu te escrevo para contar de nosso tempo. Se acaso possa receber esse meu pequeno atrevimento de desafiar a lógica do tempo, saiba que vivemos numa época de muitas maravilhas e inovações, mas que teimosamente ainda persiste em velhas crenças tolas. Se possível fosse nos visitar, temo que seu encanto só não fosse maior que a sua tristeza de ainda ver que tão pouco mudou na realidade de tantas mulheres, o que me envergonha tremendamente.

Felizmente nossas Sultanas e nossas Irmãs Saras não são poucas.

* * *

Abaixo você pode conferir outras resenhas do conto e como adquiri-lo:

Momentum Saga

Aline Valek

Meteorópole

Goticity

99 – POWER, CORRUPTION & LIES

pCAL_1370285793

Power, Corruption & Lies – New Order

Banda: New Order

Integrantes: Bernard Summer, Peter Hook, Stephen Morris e Gilian Gilbert

Lançamento: 2 de maio de 1983

Duração: 57m21s

Produção: New Order

Sobre o disco:

Quando eu comecei a fuçar a internet a procura dos discos da lista da Playboy, eu sabia que teria algumas dificuldades em encontrar determinados álbuns ou bandas. Eu tinha dúvidas se conseguiria encontrar todos eles e mesmo se todo o esforço valeria a pena. Afinal, apesar de a lista conter alguns discos e músicos consagrados, muitos dos quais eu já curtia – a exemplo do Pink Floyd, Rolling Stones e Beatles –, a grande maioria do que via ali eram trabalhos bem obscuros (ao menos para mim). Bandas como The Stones Roses e Television ou os álbuns In The Court Of The Crimson King e Fun House eram verdadeiras incógnitas. A despeito do pomposo título melhores álbuns do Rock da história, a inclusão desses álbuns poderia muito bem ter se dado por puro gosto pessoal do autor. Sendo bem franco: eu temia perder tempo procurando e baixando discos que se revelariam não ser nada de mais ou mesmo ruins.

Mas com certeza esse não foi o caso do segundo disco dos ingleses do New Order: Power, Corruption & Lies, um disco que me impressionou positivamente logo na primeira audição, em especial por ser bem diferente de tudo o que eu esperava encontrar quando iniciei essa jornada.

O New Order encontrou sua gênese após o suicídio de Ian Curtis, o vocalista da depressiva e melancólica Joy Division, em 1980. Apesar da tragédia, os membros remanescentes, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris, decidiram continuar a trabalhar juntos, mas sob um novo nome. Com a ideia de mudança e renascimento em mente o novo nome foi sugerido pelo produtor Rob Gretton. E com a entrada da nova integrante Gillian Gilbert (namorada de Morris) o New Order reiniciam os trabalhos.

ian-7f64

Ian Curtis, o atormentado vocalista da Joy Division

Apesar dos novos direcionamentos sugeridos pelo novo nome, o primeiro álbum do grupo ainda carregava a pesada atmosfera depressiva da época do Joy Division. Após várias experimentações mesclando o pós-punk com a música eletrônica (claramente influenciados pelos alemães do Kraftwerk), em singles como “Everything’s Gone Green”, “Temptation” e especialmente “Blue Monday” (single de 12 polegadas mais vendido de todos os tempos), O New Order lança em 1983 (apenas dois dias antes do meu nascimento) Power, Corruption & Lies com sua icônica capa com design de Peter Saville trazendo a bela pintura “A Basket Roses” do artista francês Henri Fantin-Latour.

O álbum mostra toda sua nova identidade já nos primeiros e dançantes acordes de “Age of Consent”. Escutar, assim de cara, essa faixa me impressionou. O que era aquilo: Rock? Dance? Eu ainda não sabia, mas já dava pra perceber que vinha coisa boa daquele bolachão digital.

De fato, nesse novo trabalho o New Order já estava a meio caminho de tornar-se uma banda mais voltada para um pop mais elétrico e menos rock’n’roll, assumindo de vez uma identidade distinta apesar de ainda influenciada pelo Joy Division. As músicas alternavam entre temas dançantes com outros mais sombrios, mas sempre com a batida eletrônica (a popular bate-estaca) marcando o ritmo.

neworder350b

New Order pela época do lançamento de Power, Corruption & Lies

Essa batida eletrônica, conforme já foi comentado, é forte influência dos alemães do Kraftwerk e se faz sentir por todo o álbum, embora seja em “Blue Monday” e em “Your Silent Face”, que essa influência é mais perceptível. Por sua vez, Power, Corruption & Lies serviu de influência para inúmeras bandas que vieram depois, tanto do Rock, como da nascente Dance Music, ritmo que tinha sua gênese no Disco dos anos 70, mas que encontraria força mesmo nas batidas eletrônicas, que ainda daria origem ao Techno.

Uma curiosidade sobre “Blue Monday”: essa faixa não fazia originalmente parte do disco. Era um costume da banda não inserir singles, mesmo os de sucesso nos álbuns posteriores. Porém, quando do lançamento da versão americana a faixa foi inclusa o que gera muita confusão ainda hoje. A primeira vez que o escutei foi na versão americana. Depois procurei escuta-lo na versão original. Para mim o álbum é incrível em ambas versões, mas a inclusão de Blue Monday deixou ele ainda melhor. Alguém pode argumentar que isso seria lógico uma vez que a música fez muito sucesso, mas não é bem o que ocorre sempre. Às vezes uma música de muito sucesso simplesmente não encaixa muito bem num certo álbum e isso pode prejudicar a obra como um todo. Felizmente não foi o que aconteceu nesse caso.

O novo disco não rompeu definitivamente com o depressivo tom, dos tempos de Ian Curtis, mas lhe deu uma nova roupagem, um novo colorido por assim dizer. É o sombrio visto por uma ótica mais otimista. Conhecer e escutar Power, Corruption & Lies, merece a posição que alcançou. E minha primeira grata surpresa ao vasculhar a net atrás dessas maravilhas do Rock.

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

100 – THE UNFORGETTABLE FIRE

The Unforgettable Fire - U2

The Unforgettable Fire – U2

Banda: U2

Integrantes: Bono Vox (vocal), The Edge (guitarra), Adam Clayton (baixo) e Larry Mullen Jr. (bateria)

Gravação: 7 de maio – 5 de agosto de 1984, no Slane Castle em County Meath e no Windmill Lane Studios, Dublin, ambos na Irlanda

Lançamento: 1 de outubro de 1984

Duração: 42m38s

Produção: Brian Eno e Daniel Lanois

Sobre o disco:

Conheci o U2 pra valer ainda adolescente, assistindo na MTV trechos dos incríveis shows que os caras fizeram por toda a década de 80. Eram shows maravilhosos onde se via a clara empatia entre o público e a banda no palco. Ainda que a telinha da tv e os anos me separassem daqueles momentos, ainda era possível sentir a energia e euforia que emanava de todos em especial durante a execução de músicas como “Bad”, “Pride (In The Name of Love)”, “With or Without You”, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e, principalmente, “Sunday Bloody Sunday” (eu sonhava em ir a um show do U2, principalmente por causa de clips como esse aqui embaixo, que eu assistia a exaustão).

E era justamente assim que, até o início de 1983, – quando tinham apenas três discos gravados – os irlandeses eram conhecidos: como uma banda que mandava muito bem nos palcos, mas incapaz de produzir discos com a mesma qualidade vista ao vivo.

Depois da boa recepção do seu terceiro disco de estúdio War, do sucesso da turnê que se seguiu e do lançamento de Under a Blood Red Sky (mini LP ao vivo contendo oito faixas de três shows dessa turnê e que ajudou a aumentar a fama do U2 comU2 Waro uma banda de palco e não de estúdio), pela primeira vez Bono e companhia tinham dinheiro suficiente para poder definir os rumos de sua carreira. Sendo o momento extremamente favorável, seguir a trilha mais dura, crua e politizada de War parecia ser o caminho mais lógico. Menos para os integrantes da banda, que numa reunião decidiram que já era hora de mudar de ares. Com a ideia de criar algo mais sério e artístico, dispensaram o antigo produtor, Steve Lillywhite, e contrataram Brian Eno por influência do guitarrista The Edge, fã do Talking Heads, banda produzida por Eno.

A princípio Eno relutou em se juntar ao U2 alegando não conhecer a banda suficientemente e chegou a recomendar seu engenheiro de áudio, Daniel Lanois, para o serviço. Segundo contam, depois de um bate papo com o carismático Bono Vox, as dúvidas sumiram e tanto Eno como Lanois foram efetivados como seus novos produtores.

Integrantes do U2 com Daniel Lanois (imagem a esquerda) e com Brian Eno (imagem a esquerda)

Integrantes do U2 com Daniel Lanois (imagem a esquerda) e com Brian Eno (imagem a esquerda)

Apesar da desconfiança inicial dos chefões da Island Record com essa guinada no pensamento musical da banda, as primeiras gravações de The Unforgettable Fire tiveram inicio em maio de 1984 no Slane Castle, no interior da Irlanda, segundo os músicos o local com a atmosfera ideal para se encontrar esses novos ares que a banda queria empregar em seu novo trabalho. Atmosfera que podemos sentir já nos primeiros acordes da faixa inicial “A Sort Of Homecoming” onde temos um melhor equilíbrio dos instrumentos, especialmente a guitLive-Aidarra de Edge e a bateria de Larry Mullen mais suaves e cadenciadas, bem diferente da batida marcial da faixa inicial do disco anterior.

A faixa que vem a seguir tornou-se um dos seus maiores hits até então e, mesmo hoje, é presença obrigatória em qualquer coletânea da banda: “Pride (In The Name of Love)”. Escrita por Bono Vox, a canção é uma homenagem ao pacifista Martin Luther King. Aliás não só essa mas também “MLK”, canção minimalista que fecha o álbum. Na época da gravação do disco, Bono estava lendo um livro sobre o ativista o que explica as homenagens.

As demais faixas do disco tratam de temas diversos como o uso de drogas, tema em “Wire” e “Bad”, sendo essa última uma canção que tem suas qualidades mais destacadas em apresentações ao vivo, como no show do Live Aid, que você pode conferir a seguir. Um detalhe curioso sobre esse show: afirma-se que as duas garotas que Bono tira do público e com quem dança durante a apresentação da música estavam sendo esmagadas contra as grades de proteção pelo imenso público do evento. O cantor teria alertado os seguranças que não entenderam e por isso ele desceu do palco ajudando a tira-las do literal aperto.

A canção título por sua vez trata das vítimas da bomba atômica que foi lançada em Hiroshima pelos americanos ao fim da Segunda Guerra Mundial. Tanto a temática quanto o título da canção foram tirados de uma exposição de fotografias mostrando os horrores que se seguiram à explosão. É uma das letras com maior carga emocional no disco.

Há espaço para improvisações também. Além de MLK, a canção instrumental “4th of July” surgiu de um momento de descontração do baixista Adam Clayton durante um intervalo de gravação, no qual foi acompanhado pelo guitarrista. Brian Eno gostou tanto do que ouviu que começou a gravar sem que os músicos soubessem, finalizando a música posteriormente com o uso de sequenciadores.

“Elvis Presley in America” é outro momento de improvisação estimulada por Eno. Remetendo a queda de Elvis no cenário musical, pegou-se a faixa-base de “A Sort Of Homecoming” e Bono cantou de improviso logo na primeira tentativa em take único. “Promenade” também é claramente improvisada, sendo basicamente um jogo de palavras, onde o sentido fica em segundo plano. É a canção de menor destaque na obra.

O U2 em 1984

O U2 em 1984

As letras, aliás, são em minha opinião um ponto fraco do disco. Salvo em canções como “Pride (In The Name of Love)” ou “Bad”, temos letras com pouco sentido, a exemplo de “Indian Summer Sky”, canção que sobrevive devido a bela melodia. Muito por causa disso, críticos na época do lançamento consideram o disco com um ar de inacabado, o que em parte foi confirmado por Bono, que afirmou ter terminado algumas faixas muito em cima do prazo final para fazê-los. Curiosamente foram justamente as canções de maior sucesso (as já citadas “Pride (In The Name of Love)” e “Bad”) as canções mais inacabadas do disco, segundo Bono.

The Unforgettable Fire é um disco maravilhoso que funciona em muito pelo conjunto das canções, a excelente harmonia dos instrumentos e a bem dosada cota de experimentações, além obviamente de contar com dois hits instantâneos. Serviu para apontar novos caminhos para a banda e o amadurecimento do som feito por eles. Mas, definitivamente não é o melhor trabalho do U2. Esse título com certeza é do disco seguinte The Joshua Tree, de 1987, onde toda a experimentação e sonoridade do anterior alcançam sua máxima qualidade. Assim não concordo que a lista da Playboy marque The Unforgattable Fire como o centésimo melhor disco de Rock de todos os tempos. Por ser esse a única aparição dos irlandeses nessa lista a vaga deveria ser de fato do The Joshua Tree. Mas, como afirmei no post anterior, nenhuma lista está a salvo da subjetividade da opinião de seu autor.

A seguir você pode conferir a melhor música do álbum:

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage! Até mais!

GUERRA JUSTA POR UMA FICÇÃO CIENTÍFICA MAIS HUMANA

Essa é uma postagem um pouco diferente e nasceu dos muitos papos que tenho com a querida amiga Lady Sybylla, do excelente Momentum Saga. No meio de tantas conversas, ela me falou de como se decepcionou com esse livro “Guerra Justa”, de Carlos Orsi. Não acreditei que fosse tão ruim e acabei ganhando seu exemplar para que pudesse conferir em primeira mão e então pudesse dar minha opinião. Terminei a leitura a tempo de ler o excelente texto postado no Saga “Por uma Ficção Científica mais humana”. Acabei por sentar no computador e escrevi uma carta (isso mesmo uma carta!) sobre minhas impressões sobre ambos os textos. O resultado ficou tão bom que decidi posta-lo aqui no Habeas Mentem, como a primeira resenha de um livro do blog! Gostei tanto do resultado final que optei por postá-lo em seu formato original, como uma carta mesmo. Espero que entendam essa opção ao comentarem!

Guerra Justa, livro de Carlos Orsi

Olá, minha querida Lady Sybylla!

Hoje pela manhã, a caminho do trabalho, finalmente terminei a leitura do livro “Guerra Justa” do Carlos Orsi. Igualmente hoje tive um tempinho para ler seu texto postado ontem no Momentum Saga sobre um viés mais humano na Ficção Científica. E enquanto lia suas palavras, um sorrisinho ia surgindo na minha face bem de leve! Muitas das ideias e questionamentos ali expostos eram críticas que eu iria fazer sobre o livro de Orsi.

Aliás, que “iria” não; que irei fazer.

Antes de tudo, acredito que o grande pecado na obra de Orsi é que ele tentou criar um épico, mas não teve coragem ou ímpeto (ou talento mesmo) para imbuir sua obra da grandiosidade que todo épico precisa. Por cada página confusa e repleta de personagens rasos como um pires, são derramadas várias e várias questões que vão de metafísica a religiosidade, de opressão a estados alterados de percepção, mas sem nunca se aprofundar nelas. Assim como os personagens, vemos apenas vislumbres dos temas, nunca somos levados a mergulhar ou a questionar e refletir sobre as questões (mal) abordadas. A todo momento o livro carece da grandiosidade e aprofundamento que as ideias esboçadas pedem.

Num dos nossos vários papos pelo face, você me comentou que o belíssimo texto da Aline Valek, “Eu, Incubadora” da coletânea “Universo Desconstruído” foi acusado (sim, o termo adequado pra mim é esse: acusado) de ser um “mero ensaio”. Ora, sob o meu ponto de vista o texto de Valek é uma obra curta que assume grandiosidade pela forma inteligente e sensível com que a autora nos leva a refletir sobre os pontos levantados. Percebe o ponto? Ela nos leva a refletir. Valek a cada parágrafo, a cada nova ideia levantada e explorada vai nos fazendo um convite a reflexão, a pensar sobre os temas abordados com uma sutileza e precisão, acredito, cirúrgicas. Orsi, ao contrário, apesar de seu anseio de ser épico, teme sair de sua ZCP (Zona de Conforto Pessoal), soando sempre medíocre. A primeira é rica em considerações e reflexão, o segundo pobre em todos os aspectos possíveis. O que Valek expõe em 33 páginas, Orsi, sequer esboça em 150.

E por falar em esboço, que tal nos aprofundarmos um pouco nos personagens? Ou não, visto que se o fizermos corremos o risco de dar com a cabeça no fundo do pires. Curioso que em certa parte do livro é citado que a Terra possuiria uma população de cerca de 10 bilhões de habitantes. A impressão é que o autor quis falar de cada uma delas citando sempre por nome, mas sem nunca nos mostrar verdadeiramente a personagem. Cada capítulo uma personagem. E quanto mais avançamos na leitura, menos conhecemos cada uma delas realmente. Rafaela, Rebeca, Donato, Bobby Petrosian, Maria Székely, Morgan, Ma Go, Madre Mônica, Pontífice Augusto Magalhães (esse aliás pretensamente o personagem principal, mas que, se analisarmos bem a obra – eu sei, é difícil – sequer aparece de fato). Vemos esses personagens desfilando pela obra sem nunca os conhecermos realmente. São apenas nomes numa folha de papel, sem identidade ou contornos, que vão se movendo pela história sem um que ou por que. O que os move ou inibe? Do que gostam? O que temem? Como vivem? Com quem se relacionam? Hoje, no Globo Repórter? Acho que não!

E aqui entra seu excelente texto:  “Ficção Científica, por sua vez, como gênero literário, tem pecado por não mostrar o humano” você disse lá! E eu exemplifico: “Guerra Justa”! Esse livro é um exemplo perfeito disso. Qual o personagem nessa obra que não passa de um nome e uma breve descrição física? E não é que não houvesse material para ser trabalhado. Além do já citado Pontífice Augusto Magalhães – um personagem com muito potencial para ser um vilão daqueles –, quando nos é (mal) apresentada a Maria Székely, tive esperanças que ali teríamos alguém interessante a ser trabalhada. Nada! Ela aparece de repente, nos dá uma centelha de esperança e sem mais aquela some para sempre. Morreu? Sucumbiu com a explosão do Popocatépetl? Nunca saberemos! E por falar no vulcão trava-língua, como se deu sua hecatombe? E por falar em hecatombes, temos – ajude a contar – uma queda de cometa (vital como evento impulsionador – ou não – da obra), uma tempestade de proporções megalomaníacas, um tornado poderoso e um vulcão explodindo como uma Pompéia moderna! Quatro hecatombes, todos sugeridos como extremamente devastadores! Sei que hecatombes como os listados (salvo a queda do cometa) são eventos relativamente comuns, mas da maneira como foram abordados na obra, mas pareciam ter sido orquestrados do que previstos. Esperei alguma revelação legal ao final do livro nesse sentido. Te dou um doce se adivinhar o resultado…

Ops, fugi do foco um pouco. Influência do autor talvez, mas vamos lá! O que sempre me encantou na literatura, seja ela qual for – FC, romântica, quadrinhos, pornográfica, épica e tantas quantas – sempre foi, nas palavras do gênio Asimov em sua obra Eu, Robô: “…os estudos a respeito do jogo das motivações humanas e das emoções…” tendo a ciência e tecnologia como pano de fundo. Como em Jornada nas Estrelas ou Battlestar Galactica, que você citou em seu texto. Nessas séries temos excelente Ficção Científica, mas sempre como pano de fundo para dramas humanos. O ser humano é sempre o foco! Afinal, como vimos lá no post do Saga  toda literatura é feita de humanos para humanos. Mesmo aquelas que falam sobre robôs ou máquinas! Quem sabe no dia em que robôs passem a apreciar literatura eles talvez se deleitem com alguns manuais sobre guindastes, né?

O pior é que nem sobre ciência e tecnologia, Orsi teve sucesso. Sequer pareceu interessado em mostrar as relações destas com a população em geral. “Discorrem sobre ambas como se fosse um mero rascunho e, pior de tudo, conseguem publicar mesmo assim”. Fico pensando se não tinha o livro em mente quando escreveu isso. Suas palavras foram, para se dizer o mínimo, adequadas!

Houve vislumbres dessa interação obviamente, mas acho que já estamos meio cansados de apenas vislumbrar as coisas por aqui, não acha?

Bem, minha querida Sy, já me alonguei demais nessa carta. Acho que deu pra perceber que concordo com você quando me disse que o livro é uma merda! E o pior é quem nem ao menos fedida ela é. Completamente insosso é o que podemos falar com justiça sobre “Guerra Justa”, uma obra que quer falar sobre muita coisa e acaba por não nos dizer nada. Incrível ter sido ela lida, avaliada e publicada por algum editor.

Um grande abraço e aguardo ansioso, novos textos, novos papos, novas ideias!

Seu amigo

Humberto Júnior