LIVROS 2018/2019

Finalmente consigo finalizar esse texto com as leituras do ano que passou e as que tenho planejado para o ano que inicia. Ou melhor, que iniciou há longínquos seis meses.

Planejado para ir ao ar no início do ano, as mudanças em minha vida nesse 2019 tomaram todo o meu tempo disponível, sobrando praticamente nada para outras atividades, como a leitura ou a escrita. Entre planejamentos de aulas, atividades pedagógicas e escolares, eu roubava alguns segundinhos da noite para a leitura e, quando sentava para escrever, a mente já estava completamente destruída de cansaço. Por isso, apenas duas postagens até o momento no blog.

Mas agora com a chegada do segundo semestre já estou me aclimatando as mudanças e principalmente as responsabilidades de meu novo emprego. Assim, espero retornar não apenas com as postagens mais regulares, mas também com as leituras que estão em passo de tartaruga.

O ano que passou, conforme contei no post anterior, foi de muita correria e mudanças que afetaram vários aspectos de minha vida. E, claro, também afetou as minhas metas de leituras. Não ao ponto de ficar muito abaixo da meta, mas o suficiente para ter um desempenho bem similar ao do ano anterior, no caso 2017, quando a ideia era supera-lo. De qualquer modo, esse foi um ano de leituras tão ou mais interessantes ainda, como as quatro abaixo, por exemplo.

Bora conferir o resultado final?

E aos interessados em acompanhar meu progresso nas leituras do ano, fique à vontade para me seguir lá no Skoob.

2018

  1. Um livro e um quadrinho que te surpreenderam em 2018?
Encarcerados

“Encarcerados”

O ano que passou foi um ano de leituras incríveis e muito surpreendentes. Acredito que poucas vezes na vida li histórias tão fascinantes. Imaginem então a dificuldade que tive para escolher aquele que mais me surpreendeu. Mas depois de pensar muito bem, decidi que a posição cabia com sobras para a essa inteligente trama sci-fi policial. Vítimas de uma epidemia viral, a Síndrome de Haden, temos 1% da população mundial, apesar de preservarem suas mentes e consciência ainda intactas e plenamente funcionais, tornam-se incapazes de comandar seus próprios corpos, sendo obrigados a lançar mão de corpos robóticos para poderem levar uma vida o mais normal possível. Flertando com o gênero cyperpunk e mesmos com as histórias de robôs de Asimov, John Scalzi entrega um livro com personagens interessantes, diálogos excepcionais e um enredo bem amarrado que nos prende do começo ao fim. Ainda assim, o melhor do livro é com certeza a intensa representatividade, fugindo totalmente do padrão clichê do personagem homem-branco-cis-hétero que salva a mocinha, prende o bandido e salva o dia praticamente sozinho. Scalzi nos apresenta um mundo diversificado, com uma rica variedade de tipos humanos: mulheres, homossexuais, negros, índios. Tudo muito fluído e natural, de modo que, ao avançarmos na leitura, não encontramos dificuldade em imaginar aquele mundo. E isso porque ele lembra bastante o nosso, principalmente ao tratar de preconceitos e acessibilidade.

Um agradecimento especial para a Sybylla por ter me presenteado com essa fantástica obra.

Gênesis

“Gênesis”

Quem conhece a obra de Robert Crumb sabe muito bem: esse é um autor famosos por seus quadrinhos underground com personagens promíscuos, muito sexo e drogas, representados num retrato mordaz da nossa realidade, mas especificamente a realidade da contracultura dos anos 60. Exatamente por isso, muitos ficaram surpresos quando o quadrinista resolveu adaptar o livro bíblico de Gênesis julgando que essa seria uma das adaptações mais sacrílegas de um texto sagrado em toda a história. Ironicamente, Crumb, a despeito de não acreditar que a Bíblia seja um livro escrito por Deus, mas sim pelos homens (algo que o próprio autor deixa claro na introdução de sua obra), realizou a adaptação mais fiel já feita de um texto bíblico. E isso, aliado ao impressionante trabalho de pesquisa e a recriação de figurinos, arquiteturas e paisagens, tornou-se o ponto alto desse quadrinho.

  1. Um livro e um quadrinho que te decepcionaram em 2018?
Quem Teme a Morte

“Quem Teme a Morte”

Comecei a leitura dessa obra da escritora estadunidense de ascendência nigeriana sem muita expectativa do que iria encontrar. E, olha, até que a história é muito interessante em seu início, com tramas pertinentes envolvendo temas pesados e polêmicos, como estupros, abuso sexual, castração feminina dentre outros, além de personagens bem desenvolvidos e interessantes. Entretanto a escrita da autora não envolve o tanto quanto a trama em si merecia. Vamos nos arrastando pela leitura mais pela curiosidade de entender os mistérios apresentados do que pela fluidez da narração em si. E é justamente aqui onde reside o maior problema de “Quem Teme a Morte”: Seu final acaba por não nos revelar quase nada dos mistérios apresentados, além da resolução final entre a protagonista Onyesonwu e seu pai, o grande vilão da obra (e responsável pelo estupro da mãe de Onyesonwu) não foi exatamente empolgante. Uma pena porque essa obra possui um potencial imenso, que, infelizmente, foi desperdiçado.

Isabel a Loba da França Vol. 2

“Isabel – A Loba da França vol. 2”

O primeiro volume foi irretocável ao mostrar uma jovem Isabel, princesa da França tornando-se a fria e calculista mulher rainha da Inglaterra ao contrair um matrimônio arranjado pelo pai. Infelizmente esse brilho se perde no segundo volume onde Isabel se torna uma personagem qualquer na trama, praticamente uma coadjuvante que vai se deixando levar pelos fatos sem protagonismo nenhum, em muito graças ao roteiro extremamente preguiçoso. Único ponto positivo são os desenhos e arte de Jaime Calderón que continuam perfeitos.

  1. A melhor adaptação que você viu em 2018?
Assassinato no Expresso do Oriente-Filme

“Assassinato no Expresso do Oriente”

Lembro de, com 15 anos, ler e me maravilhar com a história de “Assassinato no Expresso do Oriente”, uma das obras mais festejadas da autora britânica Agatha Christie, mundialmente conhecida como a Rainha do Crime. A trama era envolvente, o mistério do assassinato ficava cada vez mais intrigante a cada nova descoberta e o desfecho foi o mais surpreendente que alguém jamais poderia imaginar. Quando soube da adaptação para os cinemas pela mão de Kenneth Branagh fiquei bem mais curioso que ansioso. Apesar do elenco cheio de estrelas, o trailer não me empolgou muito. Felizmente, ao assistir o filme, me surpreenderam não apenas a lindíssima direção de arte e competente direção de Branagh (que também não faz feio na pele do excêntrico detetive belga Hercule Poirot), mas também as boas decisões do enredo ao adaptar a obra, que ajudaram a deixar a trama um pouco mais movimentada, mas sem aquela correria desenfreada tão comum nos filmes atuais. Não é nenhuma obra-prima, mas é uma excelente adaptação de um livro que eu sempre achei muito complicado de ser adaptado para o cinema.

Pantera Negra

“Pantera Negra”

Esse não é somente a melhor adaptação de um quadrinho que assisti no ano que passou. É de longe um dos melhores filmes, independente de gênero, feitos naquele ano. Um enredo bem redondo alinhado a uma direção competente e a uma direção de arte e figurinos extraordinárias, apesar de importantes como parte da receita de sucesso do filme, tais aspectos possuem um aspecto muito mais relevante: levar as telas uma história relevante protagonizada por um elenco majoritariamente composto de atores e atrizes negros, tocando em temas atuais com muito tato, sensibilidade e inteligência, e tudo isso sem sacrificar o lado pipoca da diversão de um bom filme de super-heróis, além de tocar em temas importantes de modo geral trazidos pelas motivações de Erik “Killmonger” Stevens, vivido com extrema competência pelo talentoso Michael B. Jordan, o qual arrisco dizer ser o melhor vilão da Marvel até o momento.

  1. Um livro e um quadrinho que não conseguiu terminar em 2017?
O Que é Lugar de Fala

“O que é Lugar de Fala?”

Não é apenas por se tratar de um tema extremamente atual, especialmente em virtude de toda a conjuntura um tanto distópica que estamos vivendo no mundo atualmente. E muito por ser o fruto de uma filósofa competente e militante, mulher e negra, falando sobre justamente sobre a questão do lugar de fala, de forma não apenas didática, mas também embasada.

Azul é a Cor Mais Quente

“Azul é a Cor Mais Quente”

Eu fiquei muito curioso com essa obra ao descobrir que o filme homônimo era uma adaptação de uma hq. E ao conhecer a bela arte de Julie Maroh, fiquei ainda mais encantado com a história! E por isso lamentei bastante não ter podido ler essa interessante história de amor.

  1. Quantos livros e quadrinhos você conseguiu ler em 2018?

Com uma meta de leitura estipulada em 80 obras (60 livros e 20 HQs) dos quais consegui ler 40 livros e 6 HQs somando um total de 14.997 páginas. Ou mais precisamente 2 livros a menos e 2 HQs a mais se comparado ao ano de 2017 quando somei 15.087, 90 páginas a mais, portanto. Para o ano de 2018 mantenho a mesma meta do ano passado de 60 livros e 20 HQs, mesmo sabendo das dificuldades que terei somente para repetir o resultado de 2018, por conta de minhas novas atividades como professor. Pois é, amiguinhos, ao contrário do pensamento corrente, professor trabalha e trabalha muito e não apenas em sala de aula.

Na imagem acima coloquei quatro dos livros lidos e os quais recomendo fortemente a leitura.

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2019

  1. Um livro e um quadrinho que está ansioso pela leitura em 2019?
E Se Eu Fosse Puta

“E Se Eu Fosse Puta”

Uma das melhores coisas de ter lido mais mulheres no ano passado, foi justamente o fato de ter lido histórias que me tiraram da minha zona de conforto. E isso deixou um gostinho de quero mais. Muito mais na verdade. Assim, a leitura de “E Se Eu Fosse Puta” da estreante Amaira Moira travesti que se descobre escritora ao tentar ser puta e puta ao bancar a escritora, com diz em sua descrição no Skoob, é a pedida mais salutar para continuar fora dessa zona de conforto, além do contínuo exercício em se conhecer para respeitar o diferente.

Angola Janga

“Angola Janga”

Tenho em minhas memórias a lembrança de um texto num livro de português qualquer da sexta série, intitulado Angola Janga. A história do reino da Pequena Angola e seu rei Zumbi se gravou de tal maneira em minha mente que, assim que dele tomei conhecimento, não teve como não querer ler esse quadrinho de Marcelo D’Salete, que, além de lindamente ilustrado, é super elogiado pela crítica e leitores.

  1. Um (ou mais) desafio que se dispôs a participar em 2019?

No ano que passou tomei como desafio a leitura de 52 livros escritos por mulheres. Somei a eles vários títulos que não tinha conseguido finalizar a leitura no ano de 2017. Para esse ano decidi continuar priorizando as leituras de autoras mulheres, mas também de histórias sobre mulheres. Além disso, resolvi diversificar ao máximo os estilos literários, procurando ler de tudo um pouco: livros científicos, biográficos, ficções, clássicos da literatura nacional e por aí vai. A maior parte deles escrito por mulheres ou com mulheres no protagonismo. E pra variar, novamente, mais uma vez, ad aeternum tentar ler as vinte HQs de minha lista.

  1. A adaptação mais aguardada por você em 2019?
O Ódio Que Você Semeia

“O Ódio Que Você Semeia”

Esse foi um dos livros mais impactantes que já li. A história é atual e conta a história da jovem Starr, uma garota negra vivendo numa realidade cercada de ódio e preconceito, com uma linguagem acessível e cheio de referências a cultura pop recente. Tais características o tornam um livro mais do que indicado como incentivo à leitura de adolescentes. Motivos mais que suficientes para ficar curioso com essa adaptação que estreou no fim do ano passado.

Capitã Marvel

“Capitã Marvel”

O filme já estreou e já saiu de cartaz, mas como não tive a oportunidade de assistir nas telonas estou aqui todo ansioso para conferir a adaptação da heroína mais poderosa do universo Marvel. As críticas positivas me deixam ainda mais animado e, como nos últimos anos não tenho me decepcionado com as adaptações dos quadrinhos, minha expectativa com essa obra está nas alturas.

  1. Uma leitura que pretende retomar em 2019?
Os Sertões

“Os Sertões”

Penso não existir um único nordestino que não conheça a clássica frase escrita há mais de 100 anos atrás pelo jornalista Euclides da Cunha: “O sertanejo é antes de tudo um forte”. Que se pese o flagrante racismo do contexto em que a frase foi escrita, bem como grande parte do arcabouço científico já há tempos desacreditados tais como o determinismo racial, penso ser essa uma obra essencial, não apenas como mais uma peça no entendimento da formação do povo brasileiro – o nordestino em particular – mas também de como o próprio brasileiro se vê e entende não apenas hoje, mas no decorrer de nossa própria formação. O fato de estar morando a pouco mais de 100 quilômetros de distância do palco do conflito é muito mais que um ótimo motivo para retomar uma leitura parada desde minha adolescência.

Incal Integral

“Incal – Integral”.

Vendido como um dos principais quadrinhos da Ficção Científica mundial, esse volume reúne os seis livros onde Alejandro Jodorowsky com os desenhos de Moebius contam a história do detetive particular John Difool ao encontrar o artefato místico/tecnológico conhecido como Incal Branco. A partir daí começa uma corrida pelo universo através de conflitos intergalácticos e seres os mais curiosos e diferentes possíveis. A obra é um deleite maravilhoso especialmente devido a arte magistral de Moebius. No entanto eu achei a trama muito confusa o que deixou sua leitura bem cansativa. Cheguei bem perto de terminara sua leitura antes do final do ano, mas sem sucesso. Assim, termina-la é agora uma questão de honra, mesmo não tendo gostado tanto quanto imaginaria.

  1. Três livros e três quadrinhos da sua meta para 2019?

1-O Livro do Juízo Final de Connie Willis. No ano que passou li “Interferências” da mesma autora e gostei bastante do seu estilo de escrita. E como todas as críticas dizem que esse é muito melhor, já tô ansioso pela leitura.

2-O Mundo Assombrado pelos Demônios de Carl Sagan. Para alguém que gosta tanto de ciências como eu é quase um insulto eu nunca ter lido nenhum livro de Carl Sagan. Não consigo imaginar um momento mais propício para sanar essa dívida e nem um título mais adequado.

3-Helena de Tróia de Margaret George. Uma amiga me emprestou esse livro e na hora que eu vi a quantidade de páginas não pude deixar de pensar como uma das principais figuras da Guerra de Troia é também aquela sobre quem quase nada se fala. Tirando o fato dela ser a mulher mais bonita do mundo na sua época, casada com o rei espartano Menelau, a quem traiu com Páris, com quem fugiu para Troia dando início ao famoso conflito. Verdadeira coadjuvante de luxo da história onde se pretendia protagonista. Ou seja, a curiosidade bateu na hora.

1-“Olympe de Gouges” de José-Louis Bocquet e Catel Muller. Olympe de Gouges escreveu em 1789 a obra “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” em resposta à “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” criada no mesmo ano e que sequer mencionava as mulheres, ainda pouco alfabetizadas e com quase nenhuma participação política. Um bom motivo para se querer ler e aprender mais sobre essa mulher que se viu mãe e viúva com apenas 18 anos, num período de efervescência política sem igual na França onde vivia. Um bom motivo, mas muito longe de ser o único.

2-“Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço” de Germana Viana. Elas são piratas. Elas navegam pelo espaço. Precisa explicar mais? Essa é a descrição da HQ. Sinceramente acho que não. Quero ler e muito essa HQ nonsense da autora brasileira Germana Viana.

3-“Mulher Maravilha: Sangue” de Brian Azzarello, Cliff Chiang e Tony Akins. Fiquei bem impressionado com as críticas positivas sobre a revista da Mulher Maravilha nessa nova reformulação da DC Comics para toda sua linha de super-heróis. E como estou devendo uma vista d’olhos nos personagens da Distinta Concorrência, nada melhor que seja com a Princesa das Amazonas.

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Até o próximo texto!

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FOI O MELHOR DOS TEMPOS…

O ano de 2017 corria muito bem para mim. Em casa, meu filho crescia saudável e inteligente. No trabalho, apesar de alguns reveses, tudo tranquilo e minha esposa conseguia turmas com mais frequência (ela é professora de turismo no sistema S). Até aqui no blog, as coisas iam bem. Pela primeira vez conseguia imprimir uma certa regularidade, com postagens a cada 15 dias, e isso apesar de toda a atenção que uma criança com quase dois anos de idade requer dos pais, não importando a hora, o momento ou cansaço. Especialmente cansaço.

Mas ainda assim, algumas coisas começavam a me incomodar. Mesmo estando num emprego relativamente estável, numa das maiores instituições de ensino particulares do Norte e Nordeste do Brasil, eu não me sentia plenamente satisfeito por uma série de motivos. Dos que mais me incomodavam a citada relativa estabilidade era, com certeza, o primeiro da lista. A possibilidade de perder o emprego (ainda mais com a conjuntura política e econômica em nosso país degringolando a olhos vistos), seria um golpe considerável na economia doméstica, mesmo com o salário considerável de minha esposa.

Eu comecei a trabalhar na Universidade Tiradentes (Unit) no início de 2012, para exercer o cargo de Assistente Acadêmico do curso de Design de Interiores. Por essa época eu ainda ensinava Geografia em uma escola particular em Aracaju e pude conciliar as duas atividades, pois minhas aulas se concentravam nas manhãs de quinta e sexta, enquanto o trabalho na Unit era de uma jornada de 4 horas no turno da noite de segunda a sexta e nas manhãs de sábado. Quase um ano depois, eu acabaria assumindo a Assistência Acadêmica do curso de Arquitetura e Urbanismo onde cumpriria uma jornada de 8 horas diárias, nos turnos matutino e noturno. Com isso não houve como continuar a dar aulas.

Danilo Oliver UNIT

Prédio da Reitoria da Universidade Tiradentes (Unit) em foto de Danilo Oliver

A medida que o tempo ia passando eu ia me convencendo de duas coisas: primeira, que, apesar do salário razoável a relativa estabilidade naquele emprego não era o suficiente para deixar meu sono mais tranquilo. Com o nascimento do meu filho em 2015 o medo de receber a temida demissão tornou-se um pouco maior. Apesar de minhas avaliações positivas com meus gestores, por tratar-se de uma empresa privada demissões poderiam ocorrer por “n” motivos. Com o cenário político-econômico que se desenhava bem definido já naquele não tão distante 2015, cortes de pessoal para contenção de custos era uma realidade cada vez mais plausível.

A segunda coisa da qual eu me convencia cada vez mais era a vontade de retornar a lecionar. Trabalhando e praticamente vivendo a maior parte do dia num ambiente acadêmico, lidando com professores e alunos de uma área tão ligada a minha formação de licenciatura em Geografia, a saudade das salas de aulas, mesmo com todos seus desafios (ou justamente por causa deles, quem sabe), só fazia aumentar.

Pensando em tudo isso e após muitas conversas com minha esposa, comecei a visar o estudo para concursos públicos. Uma vez que não existia perspectiva de abertura de concursos para licenciatura por essa época, fui me inscrevendo nos que apareciam. Meu intuito com isso não era somente ir treinando para quando surgissem os de licenciatura, mas também pensando que se passasse em alguns deles poderia pelo menos me beneficiar da estabilidade mais garantida se comparada a do meu emprego até então, além dos salários via de regra superiores aos que eu vinha recebendo. Assim participei de provas para Polícia Civil do Estado de Sergipe, Polícia Federal e Rodoviária Federal, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Banco do Brasil e outros, com resultados bem variados, mas que iam me mostrando onde e como melhorar.

E assim cheguei ao decisivo ano de 2017. Eu não sabia ainda, mas aquele seria um ano que mudaria minhas perspectivas de passar num concurso público. Tudo corria mais ou menos como nos anos anteriores. Isso até o mês de julho. Aproveitando o período de férias acadêmicas, a coordenação do curso de Arquitetura decidiu aproveitar a calma típica dessa época para fazer o transporte de duas maquetes imensas e pesadas. Tais maquetes tinham sido doadas por uma grande construtora local ao curso e fui incumbido de cuidar da logística do seu transporte até o campus. Tudo corria bem até que, num momento de total descuido meu, acabei fraturando a ponta da 3ª falange (ou falange distal) do dedo anelar da mão esquerda, literalmente prensado entre a pesada base da maquete e o soalho do caminhão que realizava o transporte.

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Esquema bem didático dos ossos da mão

Apesar de aparentemente ser uma fratura de menor gravidade, precisei ficar afastado do trabalho por 45 dias. Foi graças a esse período de afastamento que pude me dedicar de modo ainda mais intenso aos estudos. E não poderia ser em época melhor, pois apenas três meses depois de findo o afastamento, foi anunciado a abertura do concurso público para professor no estado da Bahia, bem como para o de Alagoas, pouco mais de mês e meio depois. Graças ao infortúnio da fratura no dedo e o consequente afastamento do trabalho eu estava realmente preparado para o concurso que realmente desejava realizar.

Em fevereiro de 2018 realizei a prova da Bahia e em abril a de Alagoas. Em julho do mesmo ano os resultados foram publicados. Para minha alegria e satisfação fui aprovado em ambos, com o bônus surpresa e totalmente inesperado para mim de uma excelente 3ª colocação no certame baiano e um excepcional primeiro lugar no alagoano em minhas respectivas área e núcleo de educação escolhidos.

Finalmente, no dia 16 de janeiro de 2019 fui oficialmente convocado a assumir o cargo de Professor de Geografia na rede estadual de ensino da Bahia, pouco mais de um mês depois de ter sido desligado da UNIT. Uma vez que minha esposa é baiana, optamos por morar em sua cidade natal, o município de Jeremoabo no nordeste baiano, próximo a cidade de Paulo Afonso. Essa decisão foi tomada não apenas pela proximidade de sua família, mas também pela vontade de fugir dos problemas urbanos cada vez mais comuns em Aracaju, cidade que nos últimos anos passou por um crescimento significativo, tornando-se assim um pouco mais violenta e cara. Optando por morar em Jeremoabo unimos assim o desejo de estarmos mais próximos da família ao de viver numa localidade mais tranquila e com menor custo de vida.

Praça Cel. Antônio Lourenço de Carvalho Jeremoabo

Praça Cel. Antônio Lourenço de Carvalho em Jeremoabo-BA, a popular Praça do Frescão

Desde o dia 14 de fevereiro, quando tomei posse no Colégio Estadual José Lourenço de Carvalho, eu, minha esposa e meu filho nos mudamos em definitivo para a cidade, onde estamos residindo desde então. Esse, aliás, é um dos motivos da publicação de textos aqui no blog ter praticamente parado nos últimos meses. Além de minhas obrigações como professor, houve toda a questão referente a mudança e acomodação numa nova cidade. Hoje, já com as coisas mais tranquilas, pretendo retomar a regularidade das postagens. Especialmente agora acredito que terei muitos e variados motivos para escrever. Especialmente nesse momento tenebroso de nosso país em que nós, professores e professoras, fomos alçados a condição de inimigo público da nação.

Gostaria de finalizar esse texto agradecendo publicamente algumas pessoas que foram extremamente importantes em minha jornada no período em que trabalhei na Universidade Tiradentes. Inicialmente gostaria de agradecer aos Professores(as) Ricardo Mascarello, Pedrianne Barbosa, Dora Diniz que, em diferentes momentos atuaram como coordenadores do curso de Arquitetura e Urbanismo. Agradeço também aos professores(as) Simone Prado e Gabriel Mendonça que por sua vez atuaram na qualidade de coordenadores adjuntos. A eles agradeço não só por terem sido admiráveis gestores sempre respeitosos e acessíveis, mas também pela amizade nutrida e cultivada mesmo no corrido e nem sempre calmo ambiente de trabalho. Agradeço também pelos ensinamentos os mais variados, que nunca ficavam resumidos apenas as suas atribuições de gestores. Especialmente valiosas foram as lições sobre como a Geografia pode e deve dialogar com a Arquitetura e Urbanismo.

Nesse ínterim, não poderia deixar de agradecer aos demais professores do curso, bem como os coordenadores e coordenadores adjuntos dos cursos que funcionavam no mesmo bloco que o de Arquitetura e Urbanismo. Também a esses excelentes profissionais os quais me desculpo desde já por não os citar nominalmente já que, se o fazendo, corro o risco de ser injusto ao esquecer de algum nome, manifesto aqui minha gratidão.

Finalmente, agradeço aos colegas Assistentes Acadêmicos dos demais cursos com quem convivi e conjuntamente trabalhei. Colegas que se tornaram bons amigos a exemplo de Sérgio, Paulo Alexandre, Gustavo, Ana, Rebecca, Glória, Yuri, Antônio, Nadja, Aparecida, Amora.

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89 – HUNKY DORY

Hunky Dory

Cantor: David Bowie

Gravação: Abril de 1971

Lançamento: 17 de Dezembro de 1971

Duração: 39:04

Produção: Ken Scott (assistido pelo ator)

Sobre o disco:

Em 16 de junho de 1972 chegava as lojas um disco que logo arrebataria legiões de fãs e transformaria seu autor numa verdadeira lenda: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars tornou-se um daqueles discos que mudariam para sempre o cenário musical como um todo e não apenas do rock. Mas essa é uma história para ser contada bem lá na frente (mas põe um bem lá na frente mesmo) dessa lista. Seis meses antes da saga de Ziggy, seu intérprete, um certo David Bowie, já era um nome comentado por conta do lançamento de uma pequena obra prima chamada Hunky Dory.

Vindo de relativos fracassos comerciais com seus três primeiros trabalhos, Bowie procurava por algo que pudesse lhe mostrar um caminho a seguir sem seus próximos discos. Vivendo um momento peculiar de sua carreira, sem contrato com nenhuma gravadora e com a esposa a espera do primeiro filho do casal, Bowie também se via tentando entender o que ocorria no cenário roqueiro de sua época. A década de 1970 começara com a notícia do fim dos Beatles, banda símbolo de uma era, o que deixou uma geração de fãs do rock (e não apenas do quarteto) com um gosto amargo e repletos de incerteza com a década que se iniciava. Bowie identificou-se com essa vontade de se encontrar do público jovem e tornou-a em força motriz para as novas composições procurando estabelecer um diálogo com a vontade de se encontrar daquela geração.

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Bowie durante as gravações em foto da Rolling Stones

Aqui reside, em minha opinião, uma das facetas mais interessantes da grande genialidade de Bowie, quando ele pega suas dúvidas quanto a que caminho seguir e as transforma no próprio caminho a seguir. E percebemos isso já na faixa inicial, mais do que apropriadamente chamada “Changes”, uma belíssima canção que versa sobre a capacidade e importância da constante reinvenção, especialmente a artística. Nada mais que o primeiro indício concreto do que viria a ser a grande marca do artista.

Complementando a instigante letra, “Changes” possuía também um instrumental e arranjos igualmente fantásticos, trazendo o próprio Bowie no Saxofone – no que é inclusive encarado como um dos seus grandes momentos nesse instrumento –, além de Mick Ronson na condução dos arranjos dos instrumentos de cordas e ninguém menos que Rick Wakeman no piano. A união de letras inteligentes e belos arranjos é, aliás, a grande marca de Hunky Dory, mas ela atinge o seu ápice naquela que considero a mais bela canção já gravada pelo artista e uma das mais belas canções de toda a história do rock: “Life on Mars?”

A BBC Radio 2 chamou essa canção de “mistura de um musical da Broadway com uma pintura de Salvador Dalí”. Não sem razão, pois a canção é repleta de frases e imagens surreais, que, segundo o autor trata-se de “Uma sensitiva reação de uma jovem garota diante da mídia” que, complementa, “se encontra decepcionada com a realidade … que, apesar de ela viver no marasmo da realidade, dizem a ela que há uma vida muito melhor em algum lugar, e ela está desapontada com o fato de não ter acesso a esse lugar.” Tudo isso embalado numa das mais belas melodias não apenas desse álbum, mas de toda a riquíssima carreira de Bowie.

O álbum ainda trazia outras composições brilhantes, a exemplo da dobradinha “Oh! You Pretty Things” e “Eight Line Poem” ou ainda da deliciosa “Kooks”, dona de um ritmo tão contagioso, que, quando demos por nós, já estamos cantarolando a canção com um sorrisinho nos lábios. Exemplo perfeito de canção chiclete que não enjoa, ao contrário, quanto mais ouvimos mais queremos ouvir. Do lado mais “hard rock” por assim dizer do disco temos “Quicksand” e “Queen Bitch”.

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Bowie em sua persona Ziggy Stardust com a banda Spiders From Mars

Chamada pela Melody Maker de “o pedaço mais inventivo de composições a ter aparecido num disco num período considerável de tempo”, o disco só pode ser lançado depois que a  RCA Records em Nova Iorque teve acesso a algumas demos já gravadas. Impressionada com a qualidade do material foi proposto um acordo para a produção de três álbuns, sendo Hunky Dory o primeiro deles. Embora tenha recebido críticas favoráveis e contado com uma boa vendagem em seu lançamento, ele não foi um sucesso imediato. Somente após o lançamento do álbum posterior, onde Bowie assumia a persona de Ziggy Stardust na obra-prima The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars que o sucesso comercial desse disco não só promoveu o personagem do alien andrógino, como ajudou a catapultar as vendas de Hunky Dory.

Inegavelmente um dos grandes clássicos de David Bowie, esse é o álbum considerado o mais importante de sua carreira. Não apenas pela qualidade rara, mas também por ser o pontapé inicial na carreira repleta de sucessos e marcada pela constante reinvenção de um dos artistas mais irrequietos. Nas palavras do próprio Bowie em entrevista no ano de 1997: “Hunky Dory me deu um engrandecimento fabuloso. Acho que me proveu, pela primeira vez na vida, um verdadeiro público – quero dizer, pessoas realmente vindo até mim e dizendo, ‘Bom álbum, boas músicas’. Isso não tinha acontecido comigo antes. Era assim, ‘Ah, estou captando, estou entendendo, estou começando a comunicar o que quero fazer. Agora: o que é que quero fazer?’ Havia sempre um azar duplo lá.”

Finalizando, não há como falar de Hunky Dory sem citar sua bela capa. Inspirada em um livro de fotos da estrela Marlene Dietrich, levada pelo artista para a sessão de fotos, e investe pesadamente na androginia que seria uma de suas marcas registradas mais marcantes por bastante tempo.

Com sua riqueza melodiosa de estilos e temas Hunky Dory é uma belíssima e encantadora mostra da capacidade de Bowie se reinventar, num trabalho que, se ainda não é gênio inovador de futuros trabalhos, já demonstra com vigor o que estava por vir nessa sua primeira de muitas aparições nessa lista.

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

FICÇÃO CIENTÍFICA, MISTÉRIOS E DISCOS VOADORES

Tempos atrás estava na biblioteca da universidade onde trabalho procurando livros para adicionar a minha meta de leitura do ano de 2017. Meio sem querer, descobri entre as seções de Metodologia Científica e de Filosofia uma seção destinada aos livros catalogados como sendo Realismo Fantástico. Entre obras de J. J. Benítez e Charles Berlitz topei com três títulos que chamaram minha atenção. Eram eles o curioso “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” de Rubens Teixeira Scavone, seguido do interessante “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta”, de Pablo Villarrubia Mauso, finalizando com o instigante título “Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol.

Justamente por apresentarem títulos curiosos, interessantes e instigantes fiquei extremamente interessado. E também porque, ao seu modo, cada um desses temas é do meu interesse. Desde os dez anos de idade, quando encontrei uma ­– já na época –, velha edição de “O Triângulo das Bermudas” de Charles Berlitz, os ditos mistérios de nosso mundo é um tema do meu agrado. Por isso, aproveitando o período de férias, catei as três obras na biblioteca e avidamente mergulhei em sua leitura.

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Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas de Rubens Teixeira Scavone

Comecei logo por “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” não apenas por ser o título que mais me chamou a atenção (afinal, o que temas aparentemente tão distintos como antigos cavaleiros medievais, o monstro de Mary Shelley e singularidades cósmicas tinham em comum para batizar a obra?), mas também por ser de autoria de um velho conhecido meu: Rubens Teixeira Scavone. Esse autor paulistano, apaixonado por ficção científica já me encantara no início da adolescência com o seu livro “O Projeto Dragão”, um livrinho curto e fascinante sobre as desventuras de um importante estudioso que acredita estar recebendo sinais de comunicação extraterrestre. Para anunciar a importante descoberta, convoca inúmeros colegas das mais variadas áreas da ciência ao complexo onde se encontra o imenso radiotelescópio que vem recebendo os sinais.

Esse livrinho de pouco mais de 90 páginas até hoje me fascina pelo modo sóbrio com que tratou de ciência e ficção científica. “Templários…” conseguiu o mesmo feito mais de 15 anos depois. Coletânea de textos do autor, a obra trata com muita propriedade tanto sobre ciência como sobre ficção científica, não raro mostrando as interessantes e curiosas imbricações entre elas. Apesar de ter achado o primeiro texto um pouco hermético demais, o restante do livro foi um verdadeiro deleite.

Cada capítulo é um convite para a reflexão com base no rico acervo de informações e curiosidades sobre temas ainda mais variados que aqueles sugeridos pelo título. De onde viriam os Discos Voadores? De que sistema planetário, de qual galáxia? Tripulados por que espécie de criaturas; que pretenderiam da Terra? O que é ficção científica? Legítimo gênero literário ou formulação inconsequente de cérebros privilegiados? Os terrestres já enviaram mensagens para os extraterrestres, quando e como virão as respostas? Ou visitas? Esses são apenas alguns dos temas abordados aqui, de modo fascinante, honesto e erudito. Um livro altamente recomendado a todos que se interessam pelo assunto.

Misterios do Brasil

Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta, de Pablo Villarrubia Mauso

O encantamento, no entanto, durou só o tempo e terminar a leitura e partir para a próxima obra. Foi começar a leitura de “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta” e percebi logo de cara a diferença no tratamento do assunto. Se no primeiro livro a tônica dada pelo autor era o de seriedade cética ao tratar cada tema (mesmos os mais controversos como nos casos dos discos-voadores), o mesmo não pode se dizer de Pablo Villarrubia Mauso. Desde o início sua obra se pauta pela intensa credulidade para com qualquer dos supostos mistérios que o autor vai encontrando por suas viagens pelo Brasil. Espécie de diário de viagens por mais de trinta e uma cidades brasileiras, onde o autor brasileiro – mas radicado na Espanha – relata suas pesquisas sobre lendas e monstros de nosso folclore nos estados do Maranhão, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e outros o livro nos leva por uma aventura pelo interior desses estados enquanto nos apresenta a todos aqueles mitos e crenças já velhos conhecidos nossos: lobisomens, mapinguaris, curupiras, uma velha casa abandonada e supostamente assombrada por fantasmas, dentre outros similares. Tudo isso temperado com as próprias crenças do autor, que bebe diretamente na fonte do teórico, escritor, arqueólogo e picareta de carteirinha Erich Von Däniken. Não há explicação lógica para os fenômenos observados? Simples: atuação de alienígenas! Estranhas aparições relatadas pelos habitantes locais? Com certeza são seres de outro mundo! E obra vai seguindo nesse tom.

Essa foi a parte que mais me incomodou na escrita de Villarrubia: a facilidade para creditar ao fantástico a causa dos mistérios investigados, não raro atacando sutilmente as pesquisas sérias realizadas sobre os mesmos temas. Infelizmente esse é o tipo de livro que acaba cultivando o interesse das pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico, criando um círculo vicioso que leva a ainda menos interesse pelo conhecimento científico de fato fazendo que consumam cada vez mais o tipo e pseudociência crédula (e não raro criminosa, embora não seja o caso aqui).

Contudo, apesar da insistente credulidade do autor, “Mistérios do Brasil” não deixa de ser um livro interessante e curioso, especialmente por mostrar um Brasil ainda bem pouco conhecido por nós mesmo brasileiros. Não chega nem perto da qualidade da obra anterior, de Rubens Teixeira Scavone, mas nem por isso deixa de ser uma obra interessante, desde que não se leve em conta os ataques as pesquisas sérias feitas por Vilarrubia. E sua relativa qualidade ficaria ainda mais evidente no avançar a leitura do próximo livro.

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Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol

Como comentei na TAG: Copa do Mundo, “Porque Não Há Discos Voadores: A Lógica” engana passando a ideia de ser uma obra fruto de uma vasta pesquisa muito bem documentada. A bem da verdade, pesquisa e documentos não faltam no livro. Mas é só. Todo o livro se resume a nada mais que um gigantesco recorte de notícias sobre os avanços (e supostos avanços também) das potências americana e soviética na época da Guerra Fria. Tais tecnologias, segundo o autor (nas pouquíssimas vezes em que tentou analisar algo), sendo observadas por pessoas leigas durante seus testes seriam facilmente confundidas com discos voadores ou máquinas de outros mundos. E é isso. Eis toda a lógica prometida no título do livro após entediantes 400 páginas.

Essa suposta lógica (de que nem tudo de desconhecido que vemos nos céus seja necessariamente um disco voador) é tão boba que qualquer pessoa toma conhecimento de sua existência nos primeiros momentos de estudos de qualquer ciência ligada aos fenômenos atmosféricos, mesmo quando o intuito passa longe dos estudos ufológicos. Só para ficar num exemplo, quando estava na universidade, ao estudar a disciplina Climatologia Aplicada aprendemos sobre as nuvens lenticulares, que, devido ao seu formato peculiar são comumente confundidas com naves espaciais. É algo tão batido que mesmo muitos sites e portais de ufologia possuem postagens sobre esse tema e outros similares. Ou seja, nada de novo na lógica do Sr. Max Sussol.

Nuvens lenticulares

Dois exemplos típicos de nuvens lenticulares

A leitura dessas três obras de temas relativamente próximo, ainda que com abordagens tão distintas por parte de seus autores, serviu para me lembrar como o nosso mundo é cheio de coisas maravilhosas, algumas tão misteriosas quanto fascinantes, sendo que muitas delas exigem de nós uma mente aberta e receptiva no esforço contínuo de tentar entendê-las. Mas, principalmente, lembrou-me que não podemos nos deixar levar pela credulidade excessiva, aceitando explicações fantasiosas apenas porque se adequam às nossas teorias, mesmo sem nenhuma evidência. Ou ainda, que amontoar um monte de supostas evidências sem racionaliza-las e nem relaciona-las entre si e as teorias que se quer provar (ou refutar) também não adianta de nada.

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Até mais!

DA LUZ QUE SE APAGA

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos”

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury (p. 245)

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Desde o início o Habeas Mentem é para mim uma ferramenta de conhecimento. Não apenas compartilhando, mas principalmente adquirindo. Nenhum texto nesse blog é publicado sem antes uma pesquisa, se não exaustiva no mínimo dedicada, de cada tema ou assunto. Aprendo e compartilho um pouco de tanto aprendizado.

Não à toa, desde a reformulação da identidade visual do blog, uma lâmpada acesa iluminando um solo árido é a imagem de destaque e símbolo do Habeas Mentem. Um símbolo que julguei apropriado para o que entendo ser esse pequeno espaço virtual: um local onde o conhecimento é capaz de iluminar a aridez da ignorância.

Ontem eu senti essa luz apagando…

Com um nó na garganta acompanhei um patrimônio incalculável e irrecuperável virar cinzas. Vi, não apenas duzentos anos de história, mas, literalmente, milhares e milhões de anos de conhecimento (tanto descobertos como ainda por descobrir) serem consumidos pelo descaso e desleixo de um Estado incapaz de zelar pela sociedade sob sua responsabilidade.

O Museu Nacional queimou e, atônito, eu não sabia se ficava puto de ódio pelo imenso desprezo das autoridades ditas responsáveis por nosso extremamente rico acervo cultural ou se ficava profundamente triste com tudo o que se perdeu… De certo somente o meu profundo desânimo com nosso país…

Folha de São Paulo

História tornando-se cinzas e fuligem em fotografia da Folha de São paulo

Alguém nas redes sociais disse que ver o Museu Nacional queimando era como ver a própria casa queimando. Fico imaginando a dor e tristeza de todos os pesquisadores que viram anos e anos de seu trabalho tornarem-se pouco mais que cinza e fuligem.

É triste nos vermos num país onde aproximadamente 75% da população é, ou analfabeto funcional ou plenamente analfabeto. Situação lamentável essa que impede uma grande parte das pessoas que aqui vivem entender em sua plenitude o tamanho, não apenas dessa perda, mas principalmente do descaso para com a educação, o conhecimento e o saber no Brasil. E, incapazes desse pleno entendimento, tornam-se incapazes de zelar e se fazer zelar por tudo o que se perdeu e vem se perdendo nessas áreas.

É ainda mais triste entender que essa situação lamentável de nossa população é fruto de um meticuloso e deliberado processo de sucateamento de todo o sistema educacional implementado por uma elite política mesquinha e nojenta que, no intuito de se perpetuarem donas do jogo do poder, não medem esforços em deixar ignorância e desconhecimento como seu legado há gerações. A mesma elite que fez pouco caso da importância do Museu Nacional, assim como faz pouco caso de outros tantos museus, centro de cultura, arte etc. espalhados pelo Brasil afora, e agora, cinicamente, emitem notas de pesar…

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Esse desabafo de minha amiga Sybylla reflete bem o que sinto (Metade dos fósseis do seu mestrado estavam no Museu Nacional)

Especialmente toda a conjuntura nacional, não apenas no âmbito educacional, tem me deixado profundamente desanimado. Ver um acervo de mais de vinte milhões de itens queimando num fogo ainda pior que as chamas literais foi particularmente doloroso. Perceber e entender que pior que o incêndio em si é todo o conjunto de sucateamento, descaso e desinteresse pela cultura e conhecimento em nosso país, foi o mesmo que sentir uma luz se apagando.

Ainda quero acreditar que toda essa situação mudará um dia. Talvez eu não esteja vivo para ver, mas quero acreditar que meu filho poderá ver essa realidade. Por enquanto a sensação é justamente essa que ilustra o cabeçalho, não apenas dessa postagem, mas também da página principal do Habeas Mentem: ao ver se apagar o imenso farol do Museu Nacional me sinto igual a uma lâmpada quebrada que não consegue mais iluminar.

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Vou continuar pesquisando, aprendendo, escrevendo, postando e compartilhando na esperança de que essa luz possa voltar a iluminar.

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90 – AUTOMATIC

Automatic

Banda: The Jesus and Mary Chain

Integrantes: Jim Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias) e William Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias).

Gravação: 1989

Lançamento: 9 de outubro de 1989

Duração: 43m26s

Produção: Alan Moulder

Sobre o disco:

The Jesus and Mary Chain é uma das bandas mais interessantes a surgirem nos anos 80. Misturando as influências que iam de Velvet Underground a Beach Boys, passando por The Stooges e uma inconfundível atitude punk rock, os irmãos William e Jim Reid assombraram o mundo da música a partir de 1984 com o lançamento de inúmeros singles de sucesso como “Upside Down”, culminando com o lançamento do clássico inegável Psychocandy um ano depois.

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Os irmãos Reid

A recepção positiva desse disco por parte do público foi acompanhada pela crítica que logo tratou de marcar que os irmãos Reid tinham “reinventado o punk rock”. O impacto desse primeiro álbum é sentido até hoje com inúmeras bandas repetindo sua fórmula, nem sempre com os mesmos resultados, infelizmente. Com o sucesso banda começou então a excursionar pela Europa e também pelos Estados Unidos. Seus shows ficaram famosos por terem no máximo 35 minutos de duração onde reinava o caos, com os músicos vestidos totalmente de preto tocando de costas para o público na maior parte do tempo. Com os irmãos Reid subindo nos palcos invariavelmente bêbados e drogados era comum os shows terminarem com brigas entre eles. Músicos entravam e saíam constantemente e assim o grupo continuou até 1989 quando lançam seu terceiro trabalho, Automatic.

Apesar de seus últimos álbuns serem considerados por muitos como alguns dos melhores discos de estreia de uma banda de rock, o que pode ser visto nas relativamente boas vendas, Automatic não teve uma recepção positiva nem dos críticos e menos ainda dos público. Com uma sonoridade diferente dos trabalhos anteriores, mais eletrônico (um tanto devido ao uso de baterias eletrônicas e outro muito por conta do novo produtor, Alan Moulder, que reduziu significativamente as distorções características da banda), o disco revelou um The Jesus and Mary Chain bem menos inspirado. Com altos e baixos Automatic, apesar das boas faixas “Head On” e “Blues From a Gun”, era apenas uma sombra do que os Reid eram capazes de fazer.

Sendo assim, é muito natural nos perguntarmos: “Se Automatic não é essa maravilha toda, que diabos então esse disco está fazendo nessa lista?” Bem, a resposta mais sincera de minha parte é um enfático “não faço a menor ideia!”

Quando analisamos a lista completa de discos nessa lista fica fácil perceber os critérios utilizados por seus autores para escolher cada um. São álbuns que, de um modo ou de outro, mudaram a face do rock e, em alguns casos, da música como um todo (a exemplo de Nevermind ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, respectivamente). Trabalhos que, não apenas foram, mas ainda hoje são capazes de influenciar novos trabalhos e novos artistas (qualquer um dos discos de David Bowie). Obras que, ainda que tivessem sido um fracasso total quando lançados, acabaram tempos depois sendo reconhecidos como verdadeiras obras primas (melhor exemplo que vem à mente é Funhouse do The Stooges). E Automatic não é nada disso.

Sendo bem pragmático, mesmo quando analisado sem ter em mente o potencial das mesmas mentes criadoras de Psychocandy – esse sim um clássico incontestável – e Darklands (o segundo e muito bom álbum da dupla), esse é um disco apenas regular. The Jesus and Mary Chain é uma da grandes bandas a surgirem, mas definitivamente considero bastante equivocada a presença de Automatic nessa lista. Nada contra o álbum em si, que é até bem legalzinho, porém um tanto irregular, além de pouco inspirado e com certas incongruências. Primeiro: ele não me parece honrar o som feito pelo Jesus and Mary; segundo: as limitações de se usar uma bateria eletrônica e até mesmo algumas linhas do baixo feitas com o sintetizador; terceiro: tanto a crítica quanto o público não receberam bem esse álbum, sendo ainda hoje considerado um trabalho menor do grupo. Se os autores da lista queriam tanto colocar um outro trabalho dos caras aqui – além de Psychocandy –, que ao menos fosse em 100º, fechando a fila. Ou, melhor ainda, que pusessem em seu lugar Darklands, um álbum, se não emblemático, ao menos com uma melhor recepção tanto de crítica quanto de público.

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!