FICÇÃO CIENTÍFICA, MISTÉRIOS E DISCOS VOADORES

Tempos atrás estava na biblioteca da universidade onde trabalho procurando livros para adicionar a minha meta de leitura do ano de 2017. Meio sem querer, descobri entre as seções de Metodologia Científica e de Filosofia uma seção destinada aos livros catalogados como sendo Realismo Fantástico. Entre obras de J. J. Benítez e Charles Berlitz topei com três títulos que chamaram minha atenção. Eram eles o curioso “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” de Rubens Teixeira Scavone, seguido do interessante “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta”, de Pablo Villarrubia Mauso, finalizando com o instigante título “Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol.

Justamente por apresentarem títulos curiosos, interessantes e instigantes fiquei extremamente interessado. E também porque, ao seu modo, cada um desses temas é do meu interesse. Desde os dez anos de idade, quando encontrei uma ­– já na época –, velha edição de “O Triângulo das Bermudas” de Charles Berlitz, os ditos mistérios de nosso mundo é um tema do meu agrado. Por isso, aproveitando o período de férias, catei as três obras na biblioteca e avidamente mergulhei em sua leitura.

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Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas de Rubens Teixeira Scavone

Comecei logo por “Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas” não apenas por ser o título que mais me chamou a atenção (afinal, o que temas aparentemente tão distintos como antigos cavaleiros medievais, o monstro de Mary Shelley e singularidades cósmicas tinham em comum para batizar a obra?), mas também por ser de autoria de um velho conhecido meu: Rubens Teixeira Scavone. Esse autor paulistano, apaixonado por ficção científica já me encantara no início da adolescência com o seu livro “O Projeto Dragão”, um livrinho curto e fascinante sobre as desventuras de um importante estudioso que acredita estar recebendo sinais de comunicação extraterrestre. Para anunciar a importante descoberta, convoca inúmeros colegas das mais variadas áreas da ciência ao complexo onde se encontra o imenso radiotelescópio que vem recebendo os sinais.

Esse livrinho de pouco mais de 90 páginas até hoje me fascina pelo modo sóbrio com que tratou de ciência e ficção científica. “Templários…” conseguiu o mesmo feito mais de 15 anos depois. Coletânea de textos do autor, a obra trata com muita propriedade tanto sobre ciência como sobre ficção científica, não raro mostrando as interessantes e curiosas imbricações entre elas. Apesar de ter achado o primeiro texto um pouco hermético demais, o restante do livro foi um verdadeiro deleite.

Cada capítulo é um convite para a reflexão com base no rico acervo de informações e curiosidades sobre temas ainda mais variados que aqueles sugeridos pelo título. De onde viriam os Discos Voadores? De que sistema planetário, de qual galáxia? Tripulados por que espécie de criaturas; que pretenderiam da Terra? O que é ficção científica? Legítimo gênero literário ou formulação inconsequente de cérebros privilegiados? Os terrestres já enviaram mensagens para os extraterrestres, quando e como virão as respostas? Ou visitas? Esses são apenas alguns dos temas abordados aqui, de modo fascinante, honesto e erudito. Um livro altamente recomendado a todos que se interessam pelo assunto.

Misterios do Brasil

Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta, de Pablo Villarrubia Mauso

O encantamento, no entanto, durou só o tempo e terminar a leitura e partir para a próxima obra. Foi começar a leitura de “Mistérios do Brasil: 20.000 Quilômetros Através de uma Geografia Oculta” e percebi logo de cara a diferença no tratamento do assunto. Se no primeiro livro a tônica dada pelo autor era o de seriedade cética ao tratar cada tema (mesmos os mais controversos como nos casos dos discos-voadores), o mesmo não pode se dizer de Pablo Villarrubia Mauso. Desde o início sua obra se pauta pela intensa credulidade para com qualquer dos supostos mistérios que o autor vai encontrando por suas viagens pelo Brasil. Espécie de diário de viagens por mais de trinta e uma cidades brasileiras, onde o autor brasileiro – mas radicado na Espanha – relata suas pesquisas sobre lendas e monstros de nosso folclore nos estados do Maranhão, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e outros o livro nos leva por uma aventura pelo interior desses estados enquanto nos apresenta a todos aqueles mitos e crenças já velhos conhecidos nossos: lobisomens, mapinguaris, curupiras, uma velha casa abandonada e supostamente assombrada por fantasmas, dentre outros similares. Tudo isso temperado com as próprias crenças do autor, que bebe diretamente na fonte do teórico, escritor, arqueólogo e picareta de carteirinha Erich Von Däniken. Não há explicação lógica para os fenômenos observados? Simples: atuação de alienígenas! Estranhas aparições relatadas pelos habitantes locais? Com certeza são seres de outro mundo! E obra vai seguindo nesse tom.

Essa foi a parte que mais me incomodou na escrita de Villarrubia: a facilidade para creditar ao fantástico a causa dos mistérios investigados, não raro atacando sutilmente as pesquisas sérias realizadas sobre os mesmos temas. Infelizmente esse é o tipo de livro que acaba cultivando o interesse das pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico, criando um círculo vicioso que leva a ainda menos interesse pelo conhecimento científico de fato fazendo que consumam cada vez mais o tipo e pseudociência crédula (e não raro criminosa, embora não seja o caso aqui).

Contudo, apesar da insistente credulidade do autor, “Mistérios do Brasil” não deixa de ser um livro interessante e curioso, especialmente por mostrar um Brasil ainda bem pouco conhecido por nós mesmo brasileiros. Não chega nem perto da qualidade da obra anterior, de Rubens Teixeira Scavone, mas nem por isso deixa de ser uma obra interessante, desde que não se leve em conta os ataques as pesquisas sérias feitas por Vilarrubia. E sua relativa qualidade ficaria ainda mais evidente no avançar a leitura do próximo livro.

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Porque Não Há Discos Voadores – A Lógica” de Max Sussol

Como comentei na TAG: Copa do Mundo, “Porque Não Há Discos Voadores: A Lógica” engana passando a ideia de ser uma obra fruto de uma vasta pesquisa muito bem documentada. A bem da verdade, pesquisa e documentos não faltam no livro. Mas é só. Todo o livro se resume a nada mais que um gigantesco recorte de notícias sobre os avanços (e supostos avanços também) das potências americana e soviética na época da Guerra Fria. Tais tecnologias, segundo o autor (nas pouquíssimas vezes em que tentou analisar algo), sendo observadas por pessoas leigas durante seus testes seriam facilmente confundidas com discos voadores ou máquinas de outros mundos. E é isso. Eis toda a lógica prometida no título do livro após entediantes 400 páginas.

Essa suposta lógica (de que nem tudo de desconhecido que vemos nos céus seja necessariamente um disco voador) é tão boba que qualquer pessoa toma conhecimento de sua existência nos primeiros momentos de estudos de qualquer ciência ligada aos fenômenos atmosféricos, mesmo quando o intuito passa longe dos estudos ufológicos. Só para ficar num exemplo, quando estava na universidade, ao estudar a disciplina Climatologia Aplicada aprendemos sobre as nuvens lenticulares, que, devido ao seu formato peculiar são comumente confundidas com naves espaciais. É algo tão batido que mesmo muitos sites e portais de ufologia possuem postagens sobre esse tema e outros similares. Ou seja, nada de novo na lógica do Sr. Max Sussol.

Nuvens lenticulares

Dois exemplos típicos de nuvens lenticulares

A leitura dessas três obras de temas relativamente próximo, ainda que com abordagens tão distintas por parte de seus autores, serviu para me lembrar como o nosso mundo é cheio de coisas maravilhosas, algumas tão misteriosas quanto fascinantes, sendo que muitas delas exigem de nós uma mente aberta e receptiva no esforço contínuo de tentar entendê-las. Mas, principalmente, lembrou-me que não podemos nos deixar levar pela credulidade excessiva, aceitando explicações fantasiosas apenas porque se adequam às nossas teorias, mesmo sem nenhuma evidência. Ou ainda, que amontoar um monte de supostas evidências sem racionaliza-las e nem relaciona-las entre si e as teorias que se quer provar (ou refutar) também não adianta de nada.

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DA LUZ QUE SE APAGA

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos”

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury (p. 245)

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Desde o início o Habeas Mentem é para mim uma ferramenta de conhecimento. Não apenas compartilhando, mas principalmente adquirindo. Nenhum texto nesse blog é publicado sem antes uma pesquisa, se não exaustiva no mínimo dedicada, de cada tema ou assunto. Aprendo e compartilho um pouco de tanto aprendizado.

Não à toa, desde a reformulação da identidade visual do blog, uma lâmpada acesa iluminando um solo árido é a imagem de destaque e símbolo do Habeas Mentem. Um símbolo que julguei apropriado para o que entendo ser esse pequeno espaço virtual: um local onde o conhecimento é capaz de iluminar a aridez da ignorância.

Ontem eu senti essa luz apagando…

Com um nó na garganta acompanhei um patrimônio incalculável e irrecuperável virar cinzas. Vi, não apenas duzentos anos de história, mas, literalmente, milhares e milhões de anos de conhecimento (tanto descobertos como ainda por descobrir) serem consumidos pelo descaso e desleixo de um Estado incapaz de zelar pela sociedade sob sua responsabilidade.

O Museu Nacional queimou e, atônito, eu não sabia se ficava puto de ódio pelo imenso desprezo das autoridades ditas responsáveis por nosso extremamente rico acervo cultural ou se ficava profundamente triste com tudo o que se perdeu… De certo somente o meu profundo desânimo com nosso país…

Folha de São Paulo

História tornando-se cinzas e fuligem em fotografia da Folha de São paulo

Alguém nas redes sociais disse que ver o Museu Nacional queimando era como ver a própria casa queimando. Fico imaginando a dor e tristeza de todos os pesquisadores que viram anos e anos de seu trabalho tornarem-se pouco mais que cinza e fuligem.

É triste nos vermos num país onde aproximadamente 75% da população é, ou analfabeto funcional ou plenamente analfabeto. Situação lamentável essa que impede uma grande parte das pessoas que aqui vivem entender em sua plenitude o tamanho, não apenas dessa perda, mas principalmente do descaso para com a educação, o conhecimento e o saber no Brasil. E, incapazes desse pleno entendimento, tornam-se incapazes de zelar e se fazer zelar por tudo o que se perdeu e vem se perdendo nessas áreas.

É ainda mais triste entender que essa situação lamentável de nossa população é fruto de um meticuloso e deliberado processo de sucateamento de todo o sistema educacional implementado por uma elite política mesquinha e nojenta que, no intuito de se perpetuarem donas do jogo do poder, não medem esforços em deixar ignorância e desconhecimento como seu legado há gerações. A mesma elite que fez pouco caso da importância do Museu Nacional, assim como faz pouco caso de outros tantos museus, centro de cultura, arte etc. espalhados pelo Brasil afora, e agora, cinicamente, emitem notas de pesar…

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Esse desabafo de minha amiga Sybylla reflete bem o que sinto (Metade dos fósseis do seu mestrado estavam no Museu Nacional)

Especialmente toda a conjuntura nacional, não apenas no âmbito educacional, tem me deixado profundamente desanimado. Ver um acervo de mais de vinte milhões de itens queimando num fogo ainda pior que as chamas literais foi particularmente doloroso. Perceber e entender que pior que o incêndio em si é todo o conjunto de sucateamento, descaso e desinteresse pela cultura e conhecimento em nosso país, foi o mesmo que sentir uma luz se apagando.

Ainda quero acreditar que toda essa situação mudará um dia. Talvez eu não esteja vivo para ver, mas quero acreditar que meu filho poderá ver essa realidade. Por enquanto a sensação é justamente essa que ilustra o cabeçalho, não apenas dessa postagem, mas também da página principal do Habeas Mentem: ao ver se apagar o imenso farol do Museu Nacional me sinto igual a uma lâmpada quebrada que não consegue mais iluminar.

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Vou continuar pesquisando, aprendendo, escrevendo, postando e compartilhando na esperança de que essa luz possa voltar a iluminar.

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Automatic

Banda: The Jesus and Mary Chain

Integrantes: Jim Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias) e William Reid (vocais, guitarra, sintetizador, programação de baterias).

Gravação: 1989

Lançamento: 9 de outubro de 1989

Duração: 43m26s

Produção: Alan Moulder

Sobre o disco:

The Jesus and Mary Chain é uma das bandas mais interessantes a surgirem nos anos 80. Misturando as influências que iam de Velvet Underground a Beach Boys, passando por The Stooges e uma inconfundível atitude punk rock, os irmãos William e Jim Reid assombraram o mundo da música a partir de 1984 com o lançamento de inúmeros singles de sucesso como “Upside Down”, culminando com o lançamento do clássico inegável Psychocandy um ano depois.

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Os irmãos Reid

A recepção positiva desse disco por parte do público foi acompanhada pela crítica que logo tratou de marcar que os irmãos Reid tinham “reinventado o punk rock”. O impacto desse primeiro álbum é sentido até hoje com inúmeras bandas repetindo sua fórmula, nem sempre com os mesmos resultados, infelizmente. Com o sucesso banda começou então a excursionar pela Europa e também pelos Estados Unidos. Seus shows ficaram famosos por terem no máximo 35 minutos de duração onde reinava o caos, com os músicos vestidos totalmente de preto tocando de costas para o público na maior parte do tempo. Com os irmãos Reid subindo nos palcos invariavelmente bêbados e drogados era comum os shows terminarem com brigas entre eles. Músicos entravam e saíam constantemente e assim o grupo continuou até 1989 quando lançam seu terceiro trabalho, Automatic.

Apesar de seus últimos álbuns serem considerados por muitos como alguns dos melhores discos de estreia de uma banda de rock, o que pode ser visto nas relativamente boas vendas, Automatic não teve uma recepção positiva nem dos críticos e menos ainda dos público. Com uma sonoridade diferente dos trabalhos anteriores, mais eletrônico (um tanto devido ao uso de baterias eletrônicas e outro muito por conta do novo produtor, Alan Moulder, que reduziu significativamente as distorções características da banda), o disco revelou um The Jesus and Mary Chain bem menos inspirado. Com altos e baixos Automatic, apesar das boas faixas “Head On” e “Blues From a Gun”, era apenas uma sombra do que os Reid eram capazes de fazer.

Sendo assim, é muito natural nos perguntarmos: “Se Automatic não é essa maravilha toda, que diabos então esse disco está fazendo nessa lista?” Bem, a resposta mais sincera de minha parte é um enfático “não faço a menor ideia!”

Quando analisamos a lista completa de discos nessa lista fica fácil perceber os critérios utilizados por seus autores para escolher cada um. São álbuns que, de um modo ou de outro, mudaram a face do rock e, em alguns casos, da música como um todo (a exemplo de Nevermind ou Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, respectivamente). Trabalhos que, não apenas foram, mas ainda hoje são capazes de influenciar novos trabalhos e novos artistas (qualquer um dos discos de David Bowie). Obras que, ainda que tivessem sido um fracasso total quando lançados, acabaram tempos depois sendo reconhecidos como verdadeiras obras primas (melhor exemplo que vem à mente é Funhouse do The Stooges). E Automatic não é nada disso.

Sendo bem pragmático, mesmo quando analisado sem ter em mente o potencial das mesmas mentes criadoras de Psychocandy – esse sim um clássico incontestável – e Darklands (o segundo e muito bom álbum da dupla), esse é um disco apenas regular. The Jesus and Mary Chain é uma da grandes bandas a surgirem, mas definitivamente considero bastante equivocada a presença de Automatic nessa lista. Nada contra o álbum em si, que é até bem legalzinho, porém um tanto irregular, além de pouco inspirado e com certas incongruências. Primeiro: ele não me parece honrar o som feito pelo Jesus and Mary; segundo: as limitações de se usar uma bateria eletrônica e até mesmo algumas linhas do baixo feitas com o sintetizador; terceiro: tanto a crítica quanto o público não receberam bem esse álbum, sendo ainda hoje considerado um trabalho menor do grupo. Se os autores da lista queriam tanto colocar um outro trabalho dos caras aqui – além de Psychocandy –, que ao menos fosse em 100º, fechando a fila. Ou, melhor ainda, que pusessem em seu lugar Darklands, um álbum, se não emblemático, ao menos com uma melhor recepção tanto de crítica quanto de público.

Para conferir os outros textos da série é só clicar no link a seguir: 100 Melhores Álbuns de Rock. E se você curtiu o post e tá gostando do Habeas Mentem, comente, curta, compartilhe! E não deixe de curtir também nossa fanpage!

Até mais!

LIVROS 2017/2018

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Mais um ano se passou e aqui estou mantendo a tradição de fazer um levantamento das leituras que fiz no ano de 2017 e também o que venho planejando para o ano de 2018.

E, se 2016 foi um ano muito bom, 2017 foi realmente excepcional para as minhas leituras. Não só consegui atingir boa parte de minhas metas, mas também tive o prazer de ler obras incríveis e dos mais variados gêneros, exatamente um dos desafios que me impus. Li um pouquinho de quase tudo: de livros de geociências à estudos historiográficos; de biografias que remetem à ficção de tão fantásticas à romances questionadores da realidade.  E foram tantos livros bons que cheguei mesmo a ter dificuldades enormes, não só para escolher os melhores, como também para listar as decepções.

Alguns exemplos de boas leituras do ano que passou

Infelizmente, minhas leituras de quadrinhos continuam a decepcionar. Esse ano consegui a proeza de ler ainda menos quadrinhos do que no ano anterior. Como expliquei na postagem do ano passado, eu praticamente não compro mais quadrinhos, preferindo fazer o download e ler no computador em casa, deixando a leitura dos livros para o kindle ou nos volumes emprestados da biblioteca na universidade onde trabalho. Por isso boa parte das minhas leituras de novos quadrinhos são feitas em casa. E foi aí onde o problema começou, pois em 2017 meu tempo em casa pode ser resumido em: dar atenção ao meu filho, ajudando a cuidar do pequenino, além de estudar para concursos públicos. Mas se foram poucos os quadrinhos lidos, a qualidade do material lido compensou a quantidade.

Tomando por base o ano o que foi lido em 2017 estabeleci uma meta bem ambiciosa para esse ano. E nisso contei com uma ajuda perfeita da querida Capitã Sybylla do Momentum Saga, indicado nada menos que 52 obras, as quais somei algumas das leituras que não consegui completar antes do fim do ano passado.

Para quem tiver interesse em acompanhar meu progresso de leituras, fique à vontade para me seguir lá no Skoob.

2017

  1. Um livro e um quadrinho que te surpreenderam em 2017?

“Só Garotos” e “Quarto de Despejo”

Escolher uma única obra para esse item foi extremamente complicado. E mais complicado ainda foi tentar escolher apenas um dentre essas duas obras lindas. De um lado a cativante história de amor da garota magrela do interior dos EUA, tanto por seu fotógrafo de cabelos cacheados, como pela arte em suas infinitas possibilidades. Do outro a crueza e toda dor na história de uma catadora de lixo na maior cidade brasileira, que, ao sentir fome preferia escrever ao invés de xingar. São duas obras que, cada uma a seu jeito, cativam, prendem, encantam e emocionam.

Em “Só Garotos” Patti Smith, poeta, cantora, compositora e fotografa conta a história de maneira bem sóbria, poética até, fugindo do lugar-comum das biografias em geral. Partindo de sua infância, quando se percebe artista, até sua ida para Nova Iorque dos anos 60 e 70 livre – cidade apresentada pela autora de uma maneira equilibrada, livre dos deslumbramentos e depreciamentos típicos de quem escreve sobre a época –, cada lembrança contada tem um objetivo certo: alicerçar o caminho para o inusitado triângulo amoroso entre Patti, seu querido fotografo, Robert, e as artes. Uma história que emociona nos pequenos detalhes e nas suas pequenas descobertas como artistas, amantes, amigos.

Já em “Quarto de Despejo” encontramos toda a dor da vida de Maria Carolina de Jesus, catadora de papel, vivendo na São Paulo da metade do século passado as mesmas dificuldades de muitos brasileiros de hoje. Com seu jeito simples e humilde, refletido em seu texto coloquial de quem teve pouco acesso aos estudos, temos uma vontade imensa e irresistível de escrever sobre tudo aquilo que, mas do que visto, é sofrido. Nas palavras de Maria Carolina encontrei ecos de uma realidade teimosa em persistir ainda hoje. Ecos da realidade vivida por minha avó, igualmente uma mulher negra, pobre sem acesso a educação e de quem lembrava a cada virada de página.

Maus

“Maus”

Não é de hoje que quero ler “Maus”. Finalmente esse ano consegui realizar o desejo ao encontrar o volume único com um precinho excelente no Estante Virtual. Eu já comecei a leitura sabendo da importância e da qualidade da obra. Mesmo assim, não teve como não ficar profundamente impressionado com a história de Vladek Spielgman, contada por seu filho Art Spielgman com rara objetividade, embora, sem nunca perder a sensibilidade. Apesar de ter sua história contada pelo próprio filho, o Vladek que encontramos nas páginas não é, nem de longe, um herói maior que vida, sobrevivente de um dos momentos mais sombrios da história da humanidade, personificação esperada de uma história contada pelo seu próprio filho. Mas não aqui. Ao invés do herói o que vemos é um homem mesquinho, teimoso, preconceituoso e oportunista, do tipo que aparenta nunca dar ponto sem nó. Mas também é um homem carente, solitário, e ressentido da ausência do filho. Ou seja, um ser humano como qualquer outro. E é justamente aí onde reside, em minha opinião, o grande mérito de “Maus”: essa não é mais uma história uma sobre heróis e vilões, tragédias e milagres dentre tantas já ouvidas e vividas nos anos de Holocausto. É a história de uma humanidade capaz de ser tão terrivelmente mesquinha e, ao mesmo tempo, guardar dentro de si um potencial para o bem quase infindável vista pelos olhos de um pessoa comum, que, em momento algum se apercebe desse fato. É uma história que nos ajuda a entender um pouco mais sobre nós mesmos, ao mesmo tempo em que incomoda com mais e mais perguntas sobre nosso papel na história.

  1. Um livro e um quadrinho que te decepcionaram em 2017?

De Roswell à Varginha

“De Roswell à Varginha”

Se tem um tema o qual eu gosto de ler é sobre os supostamente verdadeiros casos ufológicos. No entanto, longe de ser uma versão brazuca do Giorgio Tsoukalos (nem cabelo pra isso tenho), eu procuro ser bastante cético quanto a esses relatos, sempre mantendo os pés no chão, evitando ao máximo me deixar levar pelo sensacionalismo que, invariavelmente, os acompanham. Ainda assim o tema me fascina. Especialmente o assim chamado Caso Varginha. Por ter alcançado grande repercussão até mesmo internacionalmente justamente na época de minha adolescência (mais precisamente em janeiro de 1996), esse foi um caso que até hoje chama muito a minha atenção. Por isso, que, quando encontrei esse livrinho, de autoria do ufólogo Renato Azevedo, fiquei bem empolgado e ansioso por sua leitura. Especialmente ao descobrir que a obra não tinha a pretensão de ser um relatório “verídico” dos fatos supostamente ocorridos, mas sim uma história de ficção baseadas nesses acontecimentos fazendo uma ponte entre o famoso caso brasileiro e seu equivalente americano, ocorrido meio século antes em Roswell.

Infelizmente, apesar disso, já bem no começo o livro não se decide se é texto de ficção ou obra de pesquisa, isso sem falar nos vários personagens clichês. O texto foi claudicando nessa levada até o seu término, e, apesar de tudo o que foi relatado e de alguns buracos na trama, até que terminou bem. O título também não ajuda em nada, pois fala-se bem mais de Varginha (e do caso Itaipu, outro caso ocorrido no Brasil) do que o de Roswell. Uma pena porque a ideia de se abordar o ocorrido em Varginha é muito interessante. Mas o livro poderia ser bem melhor.

O Grande Duque

“O Grande Duque”

“O Grande Duque” conta a história de Wulf o melhor piloto da Luftwaffe e de Lilya, pertencente ao esquadrão de pilotas russas que fazem missões noturnas, “As Bruxas da Noite”, durante a Segunda Guerra Mundial. Para falar a verdade, essa não é uma HQ ruim. Belamente ilustrada e com um roteiro até que interessante, ela está aqui porque me incomodou bastante o modo como a história de Lilya e das Bruxas da Noite foi retratada. Ao final da história sabemos muito mais das intenções e da história do piloto alemão do que de sua colega russa, a qual, de modo geral, quando não estava voando, era mostrada como apenas como uma mulher bonita que precisava usar de sexo para conseguir o que queria ou sair de problemas. De fato, somente numa única ocasião ela não usou esse “artifício”, mas que não foi mostrada explicitamente, ficando apenas subentendida. Aliás, todas as mulheres na história são mostradas como conseguindo o que querem quase sempre fazendo uso do sexo. Apesar de entender todas as dificuldades enfrentadas pelas mulheres naquele período, penso que não custa nada se esforçar um pouquinho em mostrar isso como um convite à reflexão e questionamento. Assim, fica aqui a decepção com a HQ quanto a esse detalhe bem importante.

  1. A melhor adaptação que você viu em 2017?

Estrelas Além do Tempo

“Estrelas Além do Tempo”

Eu li o livro de Margot Lee Shetterly poucos dias antes de assistir o filme estrelado por Katharine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. E, apesar de livro e filme serem bem diferentes um do outro, é impressionante como ambos conseguem ser lindamente inspiradores cada um ao seu modo. O livro: um belo e excepcional exemplo de pesquisa historiográfica do trabalho das computadoras das mulheres, em especial as negras, nos primórdios da NACA (mais tarde, NASA). O filme: uma inspiradora e necessária obra sobre as dificuldades de ser uma mulher negra procurando seu espaço num ambiente de trabalho dominado por homens brancos nos anos 60. O filme acerta ao se concentrar na história de Katharine Johnson (que fez os cálculos de reentrada da cápsula espacial levando o astronauta John Glenn), Dorothy Vaughan (uma das únicas supervisoras negras da agência) e Mary Jackson (a primeira engenheira negra da Nasa), deixando a obra original mais acessível ao público não acostumado com a leitura de obras mais acadêmicas. Mesmo exagerando em alguns detalhes e criando algumas cenas que nunca existiram de fato, o enredo é perfeito em demonstrar a segregação existente para com as mulheres negras, mas principalmente em tirar do ocultamento a história de mulheres tão importantes naquele que é considerado um dos momentos mais marcantes da história da humanidade: a conquista do espaço. E nisso, meus amigos, contou com a ajuda primorosa, elogiada e, importante destacar, premiada do trio de atrizes principais.

Mulher Maravilha

“Mulher Maravilha”

Aprendi a gostar da Mulher Maravilha lendo alguns formatinhos da personagem na fase Géorge Perez, tida por muitos como sua melhor fase até hoje. Um encanto que cresceu com a qualidade da série animada Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites. Por isso e por entender que já estava mais do que na hora de vermos um filme decente com uma heroína no protagonismo, eu estava tão ansioso pela estreia de “Mulher Maravilha” estrelado por Gal Gadot. Expectativa que cresceu uns mil por cento depois de Batman vs. Superman. Mesmo não gostando desse filme, o aparecimento triunfal da filha de Hipólita e a incrível comoção que ela causou, foi algo incrível de se sentir. E o filme não decepcionou em nada! Um enredo enxuto, tranquilo, tocando em temas pertinentes sobre representatividade não apenas feminina, com boas atuações e, ponto alto em minha opinião, sem aquela overdose de batalhas megalomaníacas, cuja única função na trama é fazer valer o uso da tecnologia 3D. O ritmo da história é calmo, tratando de contar a história sem pressa e sem atropelos, permitindo que tenhamos contato com as personagens e soframos de verdade quando algo acontece com eles. Em resumo: uma adaptação impecável e nada menos que merecida para a primeira super-heroína dos quadrinhos.

  1. Um livro e um quadrinho que não conseguiu terminar em 2017?

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

“A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”

De todos os livros que não consegui ler em 2017 o que mais senti foi essa obra que trata das memórias das veteranas russas da Segunda Guerra Mundial. Justamente por não se concentrar naquilo que já conhecemos pelos livros, filmes e miríades de obras que já abordaram o conflito, tais como grandes batalhas, estratégias e coisas afim, mas na perspectiva dessas veteranas, revelando o ser humano escondido pelo conflito, que quero muito ler esse livro.

Placas Tectônicas

“Placas Tectônicas”

Quando marquei essa HQ de Margaux Motin no texto do ano passado para minha meta de leitura, eu dei como justificativa o fato de tanta gente boa falar bem dela. E de lá para cá a vontade só cresceu ao ter tido contato com mais alguns detalhes do enredo, de sua linda arte e de várias outras resenhas elogiosas ao trabalho. Agora é só conseguir comprar a HQ para poder conferir em primeira mão.

  1. Quantos livros e quadrinhos você conseguiu ler em 2017?

Para 2017 eu estipulei inicialmente uma meta de 50 obras, sendo 30 livros e 20 quadrinhos. E, apesar da leitura dos quadrinhos ter caminhado meio devagar, a leitura dos livros correu a jato. Já na metade do ano eu tinha lido 28 livros. Com isso me empolguei e coloquei mais 30 livros para o restante do ano. Ou seja, no total foram 60 livros estabelecidos como meta de leitura. E já que a leitura dos quadrinhos não evoluiu, mantive a meta de 20 quadrinhos. Mas mesmo com um começo a jato, no segundo semestre fui obrigado a diminuir o ritmo para me dedicar aos estudos para concurso. Por causa disso acabei lendo um total de 46 obras: 42 livros e 4 quadrinhos. No total li 22 livros a mais e cinco quadrinhos a menos quando comparado com a meta do ano anterior de 2016. E foram também mais páginas lidas em 2017, num total de 15.087, enquanto em 2017, li apenas 8.155 páginas.

Nas imagens, outras três excelentes leituras que recomendo bastante.

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2018

  1. Um livro e um quadrinho que está ansioso pela leitura em 2018?

Deixe as Estrelas Falarem

“Deixe as Estrelas Falarem”

Livro da Capitã Sybylla. Motivo mais do que suficiente para eu estar ansioso por sua leitura. Sou fã de tudo o que Sybylla escreve, não apenas de seus textos no Momentum Saga, mas também de seus contos e livros, os quais recomendo bastante.

Uma Bolota Molenga e Feliz

“Uma Bolota Molenga e Feliz”

Conheço as tirinhas de Sarah Andersen pelas postagens de amigos e conhecidos nas redes sociais. Sua bem dosada mistura de humor e reflexão me cativaram de imediato, trazendo junto a vontade de ler essa coletânea.

  1. Um (ou mais) desafio que se dispôs a participar em 2018?

Antes mesmo da Sybylla recomendar esses 52 livros escritos por mulheres para ler nesse ano de 2018 eu já andava com a ideia pela cabeça: não apenas ler livros escritos por mulheres mas também livros sobre mulheres, ou ambos de preferência. E assim ficou estabelecido o meu desafio para o ano. Isso e tentar de algum jeito aumentar o número de HQs lidas. Na realidade, esse é meu segundo desafio: ler todas as 20 HQs listadas em minha meta de leitura.

  1. A adaptação mais aguardada por você em 2018?

Pantera Negra

“Pantera Negra”

Se ano passado a minha adaptação mais aguardada era a merecida primeira adaptação de um quadrinho protagonizado por uma mulher, imaginem a minha expectativa para assistir a adaptação do primeiro herói negro dos quadrinhos, repleto de personagens negros, tanto homens e mulheres! Que venha o “Pantera Negra”.

  1. Uma leitura que pretende retomar em 2018?

Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial

“Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial”

Esse foi o livro que eu estava lendo quando terminou o ano de 2017, bem na época que comecei a pegar pesado nos estudos. É um livro bem interessante sobre os motivos que levaram ao início do conflito, ampliando algumas informações, esclarecendo outras e trazendo à tona outro tanto. Como não abandonei sua leitura, não necessariamente pretendo retoma-lo, mas sim finaliza-lo.

Homem-Aranha A Última Caçada de Kraven-Vol. 2

“Homem Aranha: A Última Caçada de Kraven, vol. 2”.

Li o primeiro volume e posterguei o segundo. Tá na hora de retomar essa clássica leitura.

  1. Três livros e três quadrinhos da sua meta para 2018?

1-O Que É Lugar de Fala? de Djamila Ribeiro. Traz questionamentos sobre um tema pertinente e necessário, escrito por uma autora extremamente coerente e capacitada.

2-Star Wars: Legado de Sangue de Claudia Gray. Um dos livros mais comentados e bem resenhados do universo expandido, tendo como protagonista ninguém menos que a Senadora Leia. Para mim são motivos suficientes para tê-lo na minha meta.

3-Os Despossuídos de Ursula K. Le Guin. A leitura dessa autora é obrigatória e imprescindível para qualquer fã de ficção científica.

1-“Angela Della Morte” de Salvador Sanz. Uma agente especial que engana o próprio corpo simulando sua morte para liberar sua alma e, assim, ocupar outras pessoas para realizar suas missões. Ficção científica com traços de terror e lindas imagens.

2-“Bordados” de Marjane Satrapi. Penso ser obrigação de todo fã de quadrinhos conhecer a obra completa de Marjani Satrapi.

3-“Retalhos” de Craig Thompson. Um extenuante trabalho de pesquisa de sete anos para criar uma obra sensível num show de gravuras inspiradas na caligrafia árabe. Se isso não for motivo suficiente para querer ler essa obra, não sei mais o que é.

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Até mais!

 

A VOLTA PARA CASA: CONSIDERAÇÕES SOBRE STAR TREK E DISCOVERY

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Já tem algum tempo estreou a tão aguardada nova série da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek no original em inglês). E a recepção dos fãs foi – para se dizer o mínimo –, polêmica. Na tentativa de entender a divisão causada, com alguns fãs amando e outro odiando, faço aqui uma breve consideração sobre a franquia  e da nova série tendo por base os episódios lançados até o momento. E para quem não assistiu aos episódios já exibidos pode ler tranquilo que esse é um texto livre de spoilers.

Costumo encarar cada nova série ou filme da franquia, como um volta para casa. Um retorno para aquela específica porção do espaço da qual guardamos um sentimento de afeto e carinho especial, em geral por ter sido onde crescemos, onde fomos criados. Em suma, um cantinho cheio de lembranças e significados, de onde guardamos certo carinho e afetividade em virtude de sua relação com nossas vivências. Na Geografia esse é, grosso modo, o conceito de Lugar, uma das categorias de análise básicas usadas por essa ciência em seus estudos.

A cada novo filme ou série da franquia que assisto a sensação é a de voltar a esse hipotético lar após terem se passado vários anos. Quem já passou pela experiência entende a sensação. Apesar do local não ser mais exatamente o mesmo que conhecemos – afinal pode ser que o piso tenha sido trocado, as portas, janelas e algumas paredes tenham sido pintadas (ou mesmo derrubadas e fechadas com novas paredes levantadas ou portas e janelas abertas), – ainda assim reconhecemos ali o lugar onde passamos tantos momentos e lembranças marcantes. Alguns deles muito bons, outros nem tanto.

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A tripulação de A Nova Geração que gerou um intenso debate entre os fãs que afirmavam que a série não era Star Trek de verdade

Foi assim quando assisti pela primeira vez A Nova Geração. Embora diferente em vários aspectos, ainda era Jornada nas Estrelas. Mudanças estéticas e algumas estruturais foram feitas. Não apenas o visual das naves e uniformes está diferente, mas o próprio modo de contar as histórias também precisava ser diferente. Nem tanto na primeira e segunda temporada, ainda emulando a estética narrativa da Série Clássica, mas, a partir da terceira temporada cada vez mais distintas de sua predecessora. Mas, apesar dessas paredes pintadas e de alguns cômodos modificados (e de todo o choro dos fãs mais xiitas). Apesar de diferente, aquele ainda era um universo capaz de evocar todo o excelente material clássico, sem deixar de imprimir sua própria identidade. Esse processo, aliás, foi essencial em ampliar o background da franquia. Algo como se, ao voltarmos para a casa, percebêssemos que a reforma não só mudou alguns cômodos, mas também acrescentou outros tantos, valorizando-a.

E também foi assim a cada novo produto da franquia, filme ou série: a sensação era sempre esse mesmo misto de estranhamento e reencontro. Deep Space Nine, Voyager, Enterprise. Em graus diferentes, numas mais e noutras menos, conseguíamos nos identificar e identificar os elementos que dão alma e personalidade à franquia ainda que novos elementos fossem agregados.

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Voyager e sua tripulação eclética. Nenhuma outra série de Star Trek (até agora) ousou tanto em diversidade.

Tudo isso mudou com a chegada do aclamado reboot feito por J. J. Abrams. Se por um lado a atualização estética das naves, uniformes e demais apetrechos – num esforço consciente de deixá-los mais realistas – foi, de certa maneira, bem-vinda, o mesmo não se pode dizer da decisão de fazer um filme mais voltado para a ação genérica, deixando de lado os questionamentos filosóficos e/ou sociais. Embora a história tenha arranhado alguns desses questionamentos (as mudanças causadas na linha temporal devido a uma viagem no tempo, que, apesar de batida, quando bem executada rende boas histórias) o grande foco no filme foi de fato a ação e a aventura, aspectos esses que sempre estiveram ligados à franquia, é verdade, mas nunca antes como o destaque principal. Isso causou uma grande estranheza em boa parte dos fãs. De repente aquele lugar antes tão nosso, já não era mais assim tão familiar.

Vejam bem, não estou dizendo que o reboot de Abrams tenha sido um filme ruim. Ele funcionou enquanto um típico blockbuster genérico de ação, com muita correria e porrada, cada vez mais comuns por aí. Salvo alguns buracos no enredo, uma ou outra decisão equivocada (lens flare, alguém?) e uma atuação controversa (Simon Pegg estou falando contigo), Star Trek, foi um bom filme, dos melhores do ano de 2009, com uma direção e edição adequadas, além da boa atuação por boa parte do elenco – com destaque inegável para o Dr. McCoy de Karl Urban, uma das poucas unanimidades do filme. Mas, apesar de ser um bom filme, cumprindo com bastante louvor o objetivo de trazer novo folego e, principalmente, novos fãs consumidores para a franquia, não há como negar que, de algum modo, esse não é bem, bem um filme de Jornada nas Estrelas, daí o estranhamento por parte do fandom. Um estranhamento que só fez se aprofundar com o equivocado Star Trek Além da Escuridão de 2013 e o esforçado Star Trek Sem Fronteiras de 2016.

Reboot

Star Trek de 2009: o Reboot que desagradou os fãs, porém serviu de porta de entrada para toda uma nova geração de fãs

O anúncio de que uma nova série estava nos planos da CBS deixou novamente os fãs na expectativa, apesar de um tanto temerosos, conforme relatei nesse texto. E o temor só fez aumentar a cada nova informação. Colocar a trama da nova série se passando cronologicamente após Enterprise, mas antes da Série Clássica e o conceito visual muito mais próximo dos reboots que de qualquer outra série ou filme foram alguns dos principais motivos de polêmica entre os fãs. Mesmo com algumas novidades muito bem-vindas (a exemplo do elenco cheio de medalhões como Michelle Yeoh de O Tigre e o Dragão, Jason Isaacs da série Harry Potter, sem falar da quase novata, mas igualmente talentosa, Sonequa Martin-Green de The Walking Dead), o temor de que a série fosse uma continuação do reboot de Abrams, ou seguisse sua linha mais direcionada para a ação e menos para a reflexão, só fez crescer entre os fãs mais antigos.

A polêmica se acirrou com o lançamento do aguardado trailer da série. Apesar da belíssima produção, o tom altamente bélico apresentado além do já citado conceito visual remetendo muito mais para o Abramsverso, só serviram para reforçar o sentimento de estranheza de muitos fãs. Ainda mais quando se notou nas rápidas cenas uma tecnologia muito mais avançada do que a mostrada, não somente na Série Clássica, como em qualquer outra série ou filme da franquia, com a óbvia exceção do reboot. Mesmo com alguns fãs esperando a estreia para poder emitir uma opinião mais concreta, para uma parcela significativa do fandom, a volta ao lar já não parecia tão excitante assim.

Enterprise

A tripulação de Enterprise, o ponto fora da curva na franquia: muito potencial o qual sequer foi arranhado

Por fim a nova série estreou no dia 24 de setembro com os episódios “The Vulcan Hello” e “Battle At The Binary Stars” através do novo serviço de streaming da CBS, sendo liberada no dia seguinte pela Netflix. A estreia, conforme já mencionado, foi polêmica.

De maneira geral, as opiniões não foram muito diferentes do que já vinha sendo exposto anteriormente. Muitas reclamações a respeito da estética, da tecnologia apresentada ser anacronicamente muito mais avançada do que mostrada em outras séries (não apenas a Clássica) etc. Por outro lado, esses mesmos aspectos foram muito bem aceitos por uma parcela dos fãs menos apegadas aos ditames do chamado cânone, sendo que boa parte deles não é formada pelos fãs mais novos, os que conheceram a franquia através dos filmes do Reboot. Muitos fãs mais antigos, por assim dizer, abraçaram a nova série não apenas por se sentirem órfãos após quase uma década de Jornada fora da TV, mas principalmente por reconhecerem um esforço de toda a equipe de Discovery em entregar um produto de qualidade, nos moldes do que há de melhor sendo feito na TV norte-americana atualmente. O mix direção ágil e moderna aliada aos roteiros inteligentes e dinâmicos estão entre as características mais interessantes da nova série, embora tenhamos outro aspecto importante a se destacar: a dinâmica e tridimensionalidade dos personagens já em seus primeiros momentos (algo que em geral era uma falha nos primeiros episódios das séries anteriores, onde os personagens iam ganhando mais e mais camadas no decorrer dos episódios).

Deep Space Nine

Deep Space Nine: arcos de histórias e tons mais sombrios aspectos elogiados da série e curiosamente não tão admirados em Discovery (até agora)

Particularmente eu destaco como principal ponto positivo de Star Trek Discovery a coragem de quebrar paradigmas estabelecidos anteriormente, em especial na série clássica, inclusive aprofundando o tom mais sombrio explorado com mais força apenas em Deep Space Nine (curiosamente uma das séries mais elogiadas por muitos fãs, justo por flertar com esses tons em seus episódios). Com sua releitura mais moderna, não apenas nos moldes de produção, mas também de exibição, ao abraçar o sistema de streaming, mas sem deixar de lado elementos tão característicos e que fizeram e fazem a cabeça dos fãs de ontem e de hoje, Discovery vem se mostrando uma grata surpresa. Assim como suas antecessoras ela causa um certo estranhamento a primeira vista, mas também um inevitável fascínio. E a medida que os novos episódios vão sendo exibidos, cada vez mais aquela sensação de volta para casa vai se fortalecendo e, aos poucos, criando em nós aqueles sentimento de afeto e carinho especial, através dos novos momentos de encantamento, raiva, beleza, decepção.

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5 CANAIS DO YOUTUBE QUE SIGO E RECOMENDO

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No inicio do ano fiz uma postagem sobre cinco blogs que acompanho e recomendo. Já naquele post avisava sobre minha vontade de escrever, pelo menos, mais dois textos similares. Hoje, finalmente começo a pagar essa dívida.

Desde que descobri o Youtube, ele serviu principalmente como o lugar onde eu procurava videoclipes antigos, matava a saudade de algum desenho animado ou catava algum vídeo interessante para dar aquela animada nas minhas aulas de Geografia ou ainda nos temidos seminários na universidade. Até porque o próprio site ainda estava muito no começo e nem tinha tanto material assim, fosse ele interessante ou não.

Obviamente tudo isso mudaria com a compra do site pela gigante Skynet, digo, Google. Ganhando mais diversidade, o site cresceu não só na quantidade de vídeos postados, mas também em variedade, se tornando de fato uma versão em áudio e vídeo da internet tradicional. A especialização de determinados canais foi fundamental nesse quesito, ainda trazendo muito material bobinho e entretenimento passageiro e casual, mas com cada vez mais conteúdo interessante e instrutivo. Começava-se a descobrir o potencial do Youtube para os criadores de conteúdo.

De tutoriais sobre como consertar coisas e fazer maquiagens às dicas de moda, chegando aos canais de humor, cultura nerd e games, o Youtube hoje segue o exemplo de sua empresa mãe ao apresentar conteúdo sobre virtualmente qualquer coisa ou qualquer assunto. E assim como no caso dos blogs, tem muita coisa ruim e potencialmente perigosa, mas também tem muita coisa boa. Assim, procurei listar alguns desses canais que prezam por ser instrutivos e acessíveis, falando de ciências, história, música, audiovisual com uma qualidade técnica e um incrível conhecimento de causa.

Boa leitura!

1-Nerdologia

Nerdologia

“Sejam bem vindos ao Nerdologia”. Inicialmente um quadro do NerdOffice, no Jovem Nerd, é apresentado pelo Átila Iamarino, biólogo, pesquisador e trata de assuntos e temas científicos variados, sempre fazendo links com elementos da cultura nerd, com novos vídeos todas as quintas. A partir de 2016 o canal passou a contar com o segmento Nerdologia História, indo ao ar todas as terças, apresentado pelo Felipe Figueiredo, formado em História, colunista, podcaster, youtuber e professor, seguindo a mesma linha do programa original, mas com temas voltados para a história, além de um segmento voltado para tecnologia, o Nerdologia Tech, toda última quarta-feira de cada mês. É o canal mais conhecido da lista e um dos maiores do Brasil em se tratando de conteúdo científico e educativo com mais de um milhão de inscritos. Já o acompanho há muito tempo – sendo um dos primeiros canais no qual me inscreve no Youtube –, mantendo sempre a qualidade na maneira como trata dos assuntos, não raro melhorando até, como quando passou a inserir no final de cada vídeo um momento para responder comentários de vídeos anteriores ou corrigir alguma informação veiculada de maneira equivocada. Com quase 300 vídeos postados, é o canal que mais fortemente recomendo para você assinar e assistir.

2-Poligonautas

Poligonautas

“SCALOBALOBA!” Iniciando com o seu famoso bordão (retirado do que se acreditava ser o refrão da canção Boombastic, sucesso dos anos 90), o Schwarza apresenta o canal Poligonautas, que, no seu início, em parceria com o OOataHeLL, falava mais sobre o universo gamer. Atualmente, no entanto, se dedica a falar sobre ciência e filosofia com destaque especial aos temas relacionados à astronomia, tendo agora apenas o Schwarza a frente, com vídeos de segunda a sexta. Além de se dedicar na divulgação científica, o grande mérito do canal é o de desmitificar lendas e teorias conspiratórias populares na internet, através de explicações cientificas cheias de bom humor e muita clareza no segmento “Lenda ou Fato”. Você acredita em Nibiru, que a Terra é plana ou em aliens vivendo dentro do Sol? Então é melhor dá uma olhada no canal para entender porque tudo isso é conto da carochinha. Igualmente interessantes são os vídeos do segmento “5 Vídeos Sobre Ciência” que, como o próprio nome entrega, traz cinco breves vídeos atuais ou curiosos sobre ciência, sempre encerrando com uma análise mais filosófica, em geral com base em alguma imagem do espaço profundo capturada pelo telescópio espacial Hubble. É o canal que mais assisto, não só por ser praticamente diário, mas também pelo formato curto dos vídeos, quase nunca com mais de cinco minutos.

3-Ponto em Comum

Ponto em Comum

“Olá, criaturas da internet!” Apresentado pelo simpático Davi Calasans, o Ponto em Comum se destaca por tratar dos mais variados assuntos científicos com uma leveza e simplicidade sensacionais, contando sempre com a ajuda dos Hugobertos (talvez sejam parentes meus distantes) e dos comentários sempre pertinentes (sqn) de Miguel, o Tiranossauro. O canal tem uma pegada bem ao estilo do programa O Mundo de Beakman, tanto pelo visual como na maneira lúdica e descontraída de apresentar e explicar os temas de cada terça-feira. O próprio Miguel seria o equivalente ao rato Lester com suas observações baseadas no senso comum. Com toda essa leveza o canal é excelente para ser assistido por pessoas de qualquer faixa etária, sendo perfeito para uso em escolas.

4-República do KazaGastão – KZG

KazaGastão

Com o fim da MTV Brasil muitos de seus apresentadores e programas migram para o Youtube a exemplo do João Gordo e do grupo Hermes e Renato. Famoso por manter a pegada Rock’n’Roll na emissora com os programas Gás Total e Fúria Metal, o apresentador Gastão Moreira seguiu o mesmo caminho com a República do KazaGastão (apesar de ter saído da MTV em 1998 para apresentar o Musikaos na TV Cultura), apresentando vídeos com antigas entrevistas e reportagens não apenas da época de MTV, como atuais também, além do segmento que considero a melhor coisa do canal: o “Heavy Lero” contando com a presença de Clemente Nascimento, baixista da banda paulista de punk Inocentes. Nesse segmento, a dupla apresenta breves resumos de bandas, artistas e cenas musicais de maneira descontraída, mas com bastante propriedade e cheia de informações interessantes. O imenso conhecimento musical do Gastão ajuda a tornar o canal um dos melhores e mais informativos sobre música do Youtube. “Sensacional, Clemente!”

5-Entre Planos

Entre Planos

Sou fã de cinema desde muito pequeno. Mas depois de adolescente, comecei a me interessar pelos aspectos técnicos da sétima arte, a partir do meu interesse por fotografia. Desde então, sempre que tenho oportunidade, faço questão de consumir tudo sobre o tema. E foi assim que descobri o canal do Max Valarezo, um jovem estudante de Comunicação Social com um conhecimento invejável tanto sobre os aspectos técnicos como sobre a história do cinema. Aliás, conhecimentos esses muito bem utilizados nos vídeos postados. Apesar de todos os vídeos aqui listados serem impecáveis do ponto de vista técnico, considero o EntrePlanos, junto com o Nerdologia, o mais profissional de todos. E mesmo conhecendo o canal há pouco menos de dois meses já é um dos meus preferidos muito devido a essa qualidade. “Então é isso”: graças ao canal pude aprender de maneira muito didática vários conceitos, aspectos e técnicas cinematográficas, algumas delas eu até já conhecia, mas em artigos extremamente técnicos e complicados de se entender.

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Assim como no caso dos blogs esses são apenas alguns dos canais que eu curto. No caso os que acompanho verdadeiramente. Existem outros ainda que são tão bons quanto mais que, por um motivo ou outro não tenho como acompanhar tão de perto. Esses deixarei para uma próxima postagem.

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Até mais!